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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Seis Reis sem coroa



Ao repasto no São Rosas seguiu-se a visita ao Monte Seis Reis, uma herdade próxima de Estremoz, situada na estrada para Sousel e logo a seguir à Quinta da Esperança, onde são produzidos os vinhos Encostas de Estremoz. O Monte, adquirido em 1997, tem cerca de 50 hectares, 30 de sobreiro, 8 de uva tinta e 4 de uva branca, em solos de xisto e argila, tendo produção própria de vinho desde 2003.
Chegados à recepção, onde se pode adquirir uma grande variedade de produtos da casa e da região, foi-nos proporcionado, juntamente com outros visitantes, um circuito pela adega, sala de barricas e museu, onde estão expostos utensílios agrícolas, objectos, fotografias e quadros evocativos da história e do fabrico do vinho e da região, bem como dos seis reis que deram o nome ao Monte. Em anexo, uma galeria de arte moderna procura conferir maior densidade cultural ao espaço. O projecto, integrado e claramente pensado também para o enoturismo, está globalmente bem conseguido. Na adega, um varandim permite uma panorâmica global sobre toda a adega, valorizada pelo facto de a vista ser feita de uma cota superior. Um placard explicativo das diversas fases do fabrico do vinho permite-nos perceber como se desenrola todo o processo. O museu, com uma forte componente visual, muito ilustrado com fotografias e desenhos, onde até nem falta um mapa das regiões vitivinícolas, tem também esta interessante componente pedagógica, ilustrando não só as diferentes fases da produção do vinho, mas também a sua história e a da região. Numa sala anexa, um vídeo complementa a visita antes da prova. Já a galeria de arte, pelas peças expostas e pela organização do espaço, nos parece algo pífia, prometendo mais do que pode dar.
Passámos, finalmente, à sala de degustação, um espaço amplo, com uns balcões que permitem o convívio e a explicação à volta do que se vai bebendo e de cujas janelas se vislumbram os vinhedos em redor. Uma sala de jantar anexa permite ainda a realização de festas e eventos. Aí foram-nos postos à disposição um branco, um rosé e quatro tintos: Boa Memória (branco e tinto), Monte Seis Reis Rosé, Bolonhês, Monte Seis Reis Touriga Nacional e Monte Seis Reis Syrah. O Reserva, apesar das insistências do grupo junto da guia, não foi provado. Aqui, porém, começou a parte negativa, porque os vinhos manifestamente não nos convenceram. Desde o tinto mais barato (4,50 €) ao mais caro (25 €), achámos todos inflacionados para a qualidade que apresentam. Por menos de 4,50 € compra-se vinho bem melhor em Portugal, nomeadamente o Cabriz e o Casa de Santar, já para não falar em muitos outros a começar, e porque estamos no Alentejo, no Monte Velho.
Fomos por aí acima nos diversos patamares e sempre que nos era dito o preço de um vinho imediatamente me ocorriam meia dúzia deles muito melhores. Nos 10, nos 15 ou nos 25 €, nenhum fez jus ao preço que apresenta. Talvez se reduzissem os preços para metade os vinhos ficassem posicionados no escalão que realmente merecem.
Como balanço final, distinguimos duas partes: o merchandising e os produtos. A primeira, englobando loja, adega, museu, galeria de arte e acolhimento, merece uma nota francamente positiva. A segunda, o produto, afinal aquilo que mais interessa, atentos os preços, fica-se apenas pelo sofrível. E é pena porque o lugar e todo o projecto mereciam que os vinhos que dali saem estivessem à altura.

Kroniketas e Politikos, visitantes decepcionados

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

No meu copo 261 - .Beb Premium 07, Herdade do Paço do Conde Reserva 05; São Rosas (Estremoz)













Um destes fins-de-semana juntaram-se três convivas para uma incursão a Estremoz, com o objectivo de visitar o Monte Seis Reis aproveitando um «voucher» que possibilitava uma prova grátis. Mas o pretexto foi, obviamente, aproveitado para complementar o passeio com um bom repasto na zona. Hipóteses eram várias, desde fazer um desvio por Évora para ir almoçar ao Fialho, ou seguir para São Manços para nos deliciarmos com um arroz de lebre no Chico, mas isso implicava um trajecto mais demorado, pelo que decidimos seguir directos a Estremoz. Nesse caso havia ainda a possibilidade de parar em Arraiolos, mas a escolha acabou por recair no São Rosas, que eu já tinha visitado há cerca de dois anos, no regresso de uma permanência de três meses em Portalegre.
Como se comprovou, a escolha não poderia ter sido melhor. O São Rosas voltou a mostrar o nível de excelência que eu lhe tinha descortinado na anterior visita. Serviço impecável, rápido, eficiente, atencioso, sem falhas. Dois ou três funcionários revezando-se para o serviço de mesa e um especificamente para o serviço de vinhos, que não se coíbe de aconselhar, sugerir e trocar impressões com os clientes. E, desta vez, até fomos recebidos pela própria Margarida Cabaço, proprietária e criadora daquele espaço.
A primeira dificuldade prendeu-se com a escolha do almoço, dada a variedade de opções. Resolvemos fazer uma partilha de pratos, começando por uma tarte de perdiz, a que seguiram umas migas com entrecosto e, já com o estômago quase cheio, umas burras estufadas. Difícil dizer qual estava melhor, tão boa era a confecção de todos. O erro aqui foi ter pedido três pratos e não apenas dois, pois com a «vaquinha» efectuada acabámos por ficar mais fartos devido à mistura de pratos e à espera entre eles.
Para o final, já bem saciados, apenas se pediu uma encharcada para sobremesa que foi dividida entre dois dos comensais.
Quanto aos líquidos, tendo eu provado na anterior visita um vinho de Tiago Cabaço, filho da proprietária do restaurante, de nome .Com, deparámos agora com um outro na prateleira chamado .Beb 2007, um patamar acima. Não deslustrou. É um vinho jovem, com um aroma predominantemente frutado, corpo médio e um final algo discreto. Tem uma designação original, aliás como os irmãos .Com e Blog, o último dos quais parece ser o topo de gama da marca. Rótulo e contra-rótulo apresentam um design clean. Tudo ali anda, pois, de mão dada, o carácter do vinho e a roupa exterior da garrafa. Um vinho que, não sendo brilhante, é honesto e não defrauda. Terminada a primeira garrafa, a dificuldade de escolha da segunda. Encontrámos na carta uma das nossas paixões, um Sogrape Reserva, escolha desde logo secundada por outro dos convivas, mas infelizmente o escanção não encontrou as garrafas, pelo que acabámos por experimentar, por sugestão do mesmo, um Herdade do Paço do Conde Reserva 2005. Um vinho produzido próximo de Beja, na zona de Baleizão (a terra onde Catarina Eufémia foi morta por um tenente da GNR em 1954). Este mostrou-se mais complexo do que o anterior, com aromas mais profundos, um outro corpo e outra persistência na boca.
No final, saímos plenamente satisfeitos com o magnífico repasto que nos foi proporcionado, por um preço que, não sendo barato, não escandaliza e faz pleno jus à qualidade da casa. Não correrei o risco de errar de forma escandalosa se disser que este deve ser um dos melhores restaurantes do país.
Saídos do restaurante, depois de desfrutarmos um pouco da amenidade da tarde e da paisagem que se avista do castelo de Estremoz, rumámos finalmente ao Monte Seis Reis para a aguardada visita às instalações seguida da prova de vinhos. Mas aí a história já foi outra.

Kroniketas, com Politikos, gastrónomos de barriga cheia

Vinho: .beb Premium 2007 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Tiago Cabaço
Grau alcoólico: 14%
Castas: Cabernet Sauvignon, Syrah, Alicante Bouschet, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 7,45 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Herdade Paço do Conde Reserva 2005 (T)
Região: Alentejo (Beja)
Produtor: Sociedade Agrícola Encosta do Guadiana
Grau alcoólico: 14%
Castas: Syrah, Touriga Nacional, Alicante Bouschet
Preço no restaurante: 17 €
Nota (0 a 10): 7,5

Restaurante: São Rosas
Nota (0 a 5): 5

domingo, 10 de maio de 2009

Na minha mesa 237 - O Alpendre (Arraiolos)


A caminho de Vila Viçosa para o Vinum Callipole, parei em Arraiolos para almoçar com a família que me acompanhou. Não levei qualquer referência prévia, pelo que fui à mercê do que encontrasse. Em tempos tinham-me falado num restaurante mas não me lembrava do nome.
Chegado ao centro da vila fui seguindo as placas que indicavam restaurantes, até que num cruzamento havia uma para cada lado. Segui pela da esquerda e encontrei o Alpendre, com a indicação de “restaurante típico” e “cozinha regional” na porta. Depois de espreitada a ementa e trocadas algumas impressões, resolvemos entrar.
Deparámos com um espaço decorado com bastantes referências à tourada e utensílios ligados à agricultura, mas desde logo se percebeu que estávamos num local de gabarito. Pela montra de sobremesas e entradas (uma enorme panóplia de doces conventuais), pela garrafeira recheada de grandes marcas do Alentejo (grande parte dos mais conceituados estavam expostos e até o Barca Velha e o Vale Meão marcavam presença), pela decoração das mesas, pela roupa dos empregados.
Franqueada a porta sentámo-nos a uma mesa bastante provida de entradas, em que acabámos por praticamente não tocar, pois isso iria retirar o espaço para a refeição propriamente dita, e resolvemos desde logo passar aos pratos fortes. E que pratos: migas de espargos com carne do alguidar e presas de porco preto com esparregado.
Ambos os pratos excelentes, com a carne do alguidar tenríssima e as presas extremamente saborosas, tudo acolitado com bons acompanhamentos.
Para as sobremesas, o problema foi escolher, tantas eram as opções. A escolha recaiu num leite-creme e numas migas de ganhões, que eram assim uma espécie de doce de ovos a meio caminho entre a sopa dourada e a barriga de freira. Ambos muito bons.
Serviço excelente, rápido, eficiente, preços não muito exagerados, bom ambiente, em suma, mais um espaço gastronómico de grande qualidade no coração do Alentejo.
Como o resto do dia ia ser dedicado às provas, o almoço foi acompanhado apenas por meia garrafa de Comenda Grande, um produtor ali da zona, que cumpriu razoavelmente a função mas sem razão para grandes encómios. O mais importante ficou para depois.

Kroniketas, gastrónomo em trânsito

Restaurante: O Alpendre
Bairro Serpa Pinto, 22
7040-014 Arraiolos
Telef: 266.419.024
Preço aproximado por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4,5

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Na minha mesa, no meu copo 227 - Fialho (Évora); Chaminé 2007


Na mesma volta do Chico, a passagem por Évora deu-me a oportunidade de voltar ao Fialho, onde tinha estado apenas uma vez em 1997. Em todo este tempo tive oportunidade de ouvir muitas opiniões díspares acerca do Fialho. Que já não é o que era, que há restaurantes melhores em Évora, que é muito caro, que há outros onde se come melhor, que as pessoas que conhecem bem os restaurantes vão a outros... Ouvi falar no Luar de Janeiro, na Cozinha de Santo Humberto, etc.
Entretanto muita coisa aconteceu. Os guias de restaurantes, os críticos como José Quitério, a Internet, os sites dedicados à gastronomia. No site do Expresso surgiu a secção “Boa cama, boa mesa” e os comentários dos leitores. Antes de preparar este passeio andei a ler o que encontrei sobre estes restaurantes que referi e mais alguns para estabelecer comparações. Mesmo assim mantive a intenção de voltar ao Fialho e marquei mesa para o almoço com dois dias de antecedência. Em boa hora o fiz!
Depois de regressar de lá, voltei a ir ao site do Expresso ler outra vez os comentários acerca do Fialho, e fiquei sem perceber o que é que o pessoal quer. Ao almoço, com a família, tivemos uma refeição simplesmente fabulosa! Perdiz à Fialho, estufada com cogumelos, divinal! Medalhões de porco preto com migas de espargos, saborosíssimos. Bochechas de porco preto em vinho tinto, tenríssimas e deliciosas. Serviço rápido, simpático, atencioso, eficiente, e isto com a casa cheia, sempre com clientes a chegar. Pede-se alguma coisa e demora 2 minutos no máximo. As doses são bem servidas, o suficiente para se ficar plenamente satisfeito. Querem mais o quê? Que nos calcem umas pantufas, nos limpem a boca e nos levem à casa de banho?
Numa volta nocturna pela cidade estive a espreitar outras ementas em Évora, nomeadamente a da Cozinha de Santo Humberto, ali mesmo junto à Praça do Giraldo, e ficam a léguas da do Fialho.
No final paga-se bem? Claro que sim: paga-se pela qualidade que se obtém, mas paga-se por uma refeição magnífica. Agora pergunto eu: há melhor em Évora? Em que aspecto? Servem doses maiores, daquelas tipo farta-brutos? Há mais baratos? Acredito que sim. Mas melhores que este? Em termos de serviço e qualidade da confecção? Mostrem-me onde é que eu vou lá.
O que é ridículo é criticar um restaurante destes por causa do... cherne! Um dos comentários depreciativos que li dizia que o cherne é congelado e que nem nos passa pela cabeça o que se acontece naquela cozinha. Engraçado. Vai-se a um dos locais emblemáticos da cozinha alentejana pedir cherne e depois queixa-se porque o peixe é congelado! Se querem comer peixe talvez fosse melhor ideia pedir uma sopa de cação, esse sim, um dos pratos representativos do Alentejo. Se querem cherne vão a um restaurante ao pé do mar. É como ir a uma marisqueira e depois dizer mal do cozido à portuguesa... Tenham juízo!
Resta falar das sobremesas e do vinho. Mandámos vir uns ovos-moles ferrados, um leite-creme e um pudim de requeijão, e os estômagos já não davam para mais, até porque também aqui tínhamos umas empadinhas de galinha à nossa espera para entrada. Todos estavam muito saborosos, com a particularidade de os ovos-moles serem servidos à moda do leite-creme, queimados com o ferro (daí o ferrados). Original, sem dúvida.
Para o vinho tive novamente que me refugiar em meia-garrafa e a escolha desta vez recaiu num Chaminé, das Cortes de Cima. Não sendo nada de extraordinário, desempenha-se bem da sua missão. Bom corpo e estrutura mediana, persistente quanto baste, aroma muito jovem e com predominância frutada, um daqueles vinhos que podem servir como aposta para o dia-a-dia.
Em resumo, este Fialho é seguramente um dos melhores restaurantes do país, digam o que disserem. Nos últimos três anos (desde a existência deste blog) tive oportunidade de visitar alguns restaurantes de altíssimo nível, nomeadamente enquanto estive em Portalegre (lembro-me do Cobre, da Gruta, do Rolo Grill, do Sever, do Tomba Lobos, do São Rosas e da Cadeia Quinhentista, além da Petisqueira do Gould, dos Arcos, da Cozinha Velha, do Vallecula, do Cortiço, da Falésia, da Cantina) e depois de estar no Fialho quase me apetece dizer que ainda está num patamar acima dos outros todos. Como sabem usamos uma escala de 0 a 5 para pontuar os restaurantes, mas a este apetece-me dar... 7!

Para terminar, volto ao Expresso e a uma crónica de José Quitério na edição de 22 de Novembro de 2008 para deixar a palavra ao especialista. Eis alguns excertos:

“Fialho, sempre!” (título do artigo)
“Cozinha regional portuguesa no seu melhor”
“Na cozinha dos irmãos Fialho, já septuagenários, honram-se os produtos alentejanos” (subtítulos)
“Serviço profissional e gentil”
“Tenho a impressão que esta casa não é tão falada e valorizada quanto merece (eu próprio há 19 anos que não escrevia uma palavrinha). Será por ter aura de cara? Ora, adeus... Vai-se a ver e, à excepção dos praticados ao quilo, os preços dos peixes oscilam entre €13,50 e €19, e os das carnes entre €13 e €18. Será porque andam para aí uns gabirus a maldizer a cozinha regional portuguesa, que é o factor que mais nitidamente nos diferencia de outros povos e culturas? Por Zeus, o pós-modernismo e a estupidez não têm tanto poder...
Seja como for, aquilo a que a consciência obriga é a proclamar bem alto que os irmãos Amor e Gabriel Fialho, já septuagenários, continuam, sempre fiéis à grande matriz, a saber fazer do seu Fialho um magnífico restaurante alentejano, que o mesmo é dizer, português.”


Mais palavras para quê? Deixemo-nos de tretas. O Fialho é um templo da gastronomia.

Kroniketas, gastrónomo viajante

Restaurante: Fialho
Travessa dos Mascarenhas, 16
7000-557 Évora
Telef: 266.703.079
Preço por refeição: 25 a 35 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: Chaminé 2007 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Cortes de Cima
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Syrah, Touriga Nacional, Trincadeira, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 4,89 €
Nota (0 a 10): 6

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Na minha mesa 226 - O Chico (São Manços)

Uma saída em família até ao interior alentejano levou-me a revisitar um restaurante que descobri há uns anos, quase por acaso, ao consultar o guia de restaurantes da Visão, que coleccionei há uns anos. Em trânsito pelas proximidades de Évora, olhando para os restaurantes da zona vimos um em São Manços, localidade situada junto ao IP2 em direcção ao sul. Lá fomos à procura do Chico.
Em São Manços quase que se entra por uma rua a sai-se por outra. E o Chico parece um simples café de aldeia sem nada de especial que nos faça pensar em ir lá procurar algo especial. A verdade é que, para além de um pequeno balcão à entrada e de uma pequena sala com capacidade para não mais de 30 lugares, não se descobre o que nos espera antes de nos sentarmos à mesa.
Primeiro deparamo-nos com várias prateleiras onde estão expostas dezenas de vinhos alentejanos de todos os tipos. Pode-se percorrer as garrafas à procura de qualquer marca e quase que é difícil lembrarmo-nos de uma que não esteja lá. Enquanto esperamos pela refeição podemo-nos ir entretendo com umas excelentes empadas de carne, ainda quentinhas, que saem a grande ritmo para as mesas de todos os clientes. Mas a melhor parte vem quando se pega na ementa para passar aos pratos de resistência. Os pratos típicos alentejanos dominam, com destaque para a caça na época apropriada. Nas vezes que lá fui tive a felicidade de ser essa época e desta vez assim voltou a acontecer. À minha espera estava um delicioso arroz de lebre malandrinho, servido com uma concha em terrina de sopa, muito bem temperado e com um toque de hortelã a completar o panorama. É de comer até à última peça e até ao último bago de arroz. Para os apreciadores de caça, um verdadeiro maná.
Depois de já termos o estômago e o palato regalados com uma tal refeição, ainda arranjamos um espaço para provar as deliciosas sobremesas. A escolha recaiu numa encharcada e numa sericaia com ameixa de Elvas. A encharcada estava esplêndida, com a consistência certa e com calda na quantidade adequada, enquanto a sericaia estava um pouco maçuda.
Como só eu é que ia beber álcool tive que me socorrer de meia garrafa. Escolhi um vinho da zona, o EA tinto, da Fundação Eugénio de Almeida, que já não provava há alguns anos. E francamente decepcionou-me. Achei-o desequilibrado, delgado e pouco aromático, demasiado ácido na boca, muito longe do padrão que esperava. Posso ter tido azar mas se é este o perfil actual deste vinho, mais vale esquecê-lo. De tal forma que achei que nem valia a pena mencioná-lo no título do post.
Em suma, este Chico é um local a revisitar sempre que a oportunidade se proporcione, principalmente em tempo de caça. Quem passar pelos lados de Évora ou pelo IP2, vale a pena marcar mesa e fazer um pequeno desvio por São Manços para se deliciar com uma bela refeição. O preço é moderado (pagámos 45 € por uma refeição para dois adultos, um adolescente e uma criança), o serviço simpático e acolhedor, quase familiar, num ambiente descontraído e informal à boa maneira alentejana, onde nos sentimos como em casa.

Kroniketas, gastrónomo viajante

Restaurante: O Chico
Rua do Sol, 44-C
7005-739 São Manços
Telef: 266.722.208
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4,5

Vinho: EA (T)
Região: Alentejo (Évora)
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida - Adega da Cartuxa
Grau alcoólico: 13%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Castelão, Alfrocheiro, Moreto
Preço em feira de vinhos: 4,87 €
Nota (0 a 10): 4

sábado, 31 de maio de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XXV)

O balanço final

Terminada a minha permanência em Portalegre, preenchida por bastantes visitas a restaurantes e produtores de vinho e pela descoberta da gastronomia e vinicultura da região, vale a pena fazer um balanço final destas deambulações por terras do Alto Alentejo.
Em termos vínicos aproveitei para descobrir uma série de marcas que ainda não tinha provado e algumas revelações muito interessantes. O perfil de muitos destes vinhos, particularmente nas terras altas de Portalegre, é diferente da maioria dos outros vinhos alentejanos, da planície. Mais frescos, mais suaves e menos pesados, embora isso por si só não faça deles necessariamente melhores vinhos que os outros. Também aconteceram algumas decepções, como o Pedra Basta, o Monte da Penha Reserva e o Monte da Cal Reserva. Revelações agradáveis foram o Casa de Alegrete e o Terrenus, não esquecendo o excelente Herdade das Servas Aragonês, mas esse não foi uma surpresa, vindo de onde vem.
Quanto à gastronomia, dentro da tipicidade regional que sempre procurei, e que por si só também não constituiu nenhuma revelação especial, o que mais me surpreendeu (pela positiva) foi a qualidade superior do serviço e da confecção da maioria dos restaurantes visitados. Fiquei verdadeiramente siderado com o profissionalismo da maioria daquelas pessoas e o modo como levam a sério a sua actividade. Atendimento de altíssima qualidade e com grande eficiência, que faz o cliente ficar com vontade de voltar, a complementar uma confecção absolutamente irrepreensível. Destaco nesse aspecto o Rolo Grill, o Tomba Lobos, o Cobre, o Caldeirão de Sabores, a Gruta, a Cadeia Quinhentista e o São Rosas, estes dois últimos em Estremoz. Ainda em Estremoz, talvez a grande desilusão de toda a minha permanência na região, a não menos famosa Adega do Isaías, um espaço como já não se usa e que de modo nenhum justifica a fama que tem. Será que a ASAE já lá foi?
O que mais impressiona é o facto de Portalegre ser uma cidade bem no interior do país e longe de quase tudo, sem grandes referências nas proximidades, a não ser as vilas de Marvão e Castelo de Vide, mas não é certamente a região turística mais apelativa. Isso parece não demover os profissionais da gastronomia de apostar acima de tudo na qualidade, como aliás devia ser apanágio de todos os que entram neste ramo. Tomara a grande maioria dos restaurantes de Lisboa e do Algarve, os dois principais destinos turísticos do país, terem a qualidade destes que por aqui encontrei.

Kroniketas, gastro-enófilo regressado

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XXIV)

No meu copo, na minha mesa 180 - .com 2005; São Rosas (Estremoz)

Foi a minha despedida do Alto Alentejo e das minhas actividades em Portalegre. Com o carro carregado até acima, saí à hora de almoço e em Estremoz fiz a segunda tentativa no São Rosas, o restaurante de Margarida Cabaço (produtora do vinho Monte dos Cabaços) e uma das principais referências gastronómicas da região, dentro das muralhas do castelo. Desta vez estava aberto. Lá deixei o carro com a bagagem à vista ali no largo junto à pousada e não me arrependi.
O espaço não é muito amplo mas mostra-se bastante acolhedor, quase intimista (não tanto como na Cadeia Quinhentista, mas ainda assim...). A zona de refeições fica mais abaixo, à esquerda, e à direita fica um pequeno balcão com o bar, pelo que o visitante tem uma perspectiva de todo o estabelecimento quando franqueia a porta de entrada.
Estando sozinho, fui conduzido à mesa mais ao fundo, ao canto da sala e junto a uma série de prateleiras onde repousam variadas garrafas de vinho, com os respectivos locais devidamente catalogados. Para beber uma era só esticar um braço e tirá-la...
A ementa apresenta-nos uma enorme variedade de opções de pendor regional, mas sendo eu um amante da caça (no prato, não para ir caçar) voltei a optar por um prato de perdiz, tal como tinha feito na Cadeia Quinhentista. Desta vez com o nome Perdiz à Glória, estufada e regada com molho de azeite, acompanhada com batatas, couve e esparregado. Uma verdadeira delícia.
Na sobremesa voltei a deixar-me seduzir pelos doces conventuais e terminei em beleza com uma excelente encharcada.
Para acompanhar estes pitéus escolhi meia garrafa do vinho do “filho da patroa”, como lhe chamou o empregado que me atendeu: o .com, produção de Tiago Cabaço que resolveu voar sozinho. E parece fazê-lo bem. Apesar dos 14 graus de álcool, apresentou-se muito equilibrado, sem aquele perfil pesado e enjoativo que tenho notado em muitos destes vinhos hiper-alcoólicos. Predomina a fruta e mostra-se macio, os taninos estão bem domados e envolvidos por um bom corpo. Pareceu-me ser uma aposta simpática e bem conseguida.
O serviço é 5 estrelas, mais uma vez com grande profissionalismo e eficiência, sem qualquer falha. No final duma excelente refeição não deixei de dar os parabéns ao responsável. Foi o que se chama terminar em beleza e com a certeza de que hei-de lá voltar. Este entra no rol dos obrigatórios.

Kroniketas, gastro-enófilo viajante

Restaurante: São Rosas
Largo D. Diniz, 11
7100-509 Estremoz
Tel: 268.333.345
Preço por refeição: 33 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: .com 2005 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Tiago Cabaço
Grau alcoólico: 14%
Castas: Alicante Bouschet, Aragonês, Cabernet Sauvignon, Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 2,98 €
Nota (0 a 10): 7

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XXIII)

Adega Cooperativa de Borba




Foi a última visita aos produtores de vinho, já quase em fase de regresso definitivo a casa. Voltei a deslocar-me um pouco para sul e fui até Borba, visitar as instalações da Adega Cooperativa, uma das mais antigas do país e a mais antiga do Alentejo.
Fundada em 1955, tem cerca de 350 sócios que cultivam um total de 2200 hectares de vinha, sendo 65% são de uvas tintas e 35% de brancas, com destaque para Aragonês, Trincadeira, Castelão, Alicante Bouschet, Roupeiro e Rabo de Ovelha em termos de área plantada.
As instalações da Adega Cooperativa de Borba, situada junto à entrada vindo de Estremoz, ocupam cerca de 12.000 m2 e delas fazem parte a zona de fermentação em cubas, a linha de engarrafamento, a cave de estágio em garrafa e barricas e ainda uma loja de venda ao público, onde além da compra se pode ainda fazer a prova de alguns vinhos da casa. Sendo uma Adega Cooperativa, tal como em Portalegre, as vinhas não estão localizadas junto às instalações pelo que não foi possível visitar nenhuma vinha, ao contrário do que acontece com os restantes produtores onde me desloquei. Mas pude ver todo o circuito que o vinho percorre e onde repousa. A Adega Cooperativa recebe anualmente 18 milhões de quilos de uvas e produz 14 milhões de litros por ano. Esta enorme dimensão, completamente diferente dos patamares dos outros produtores que visitei, resulta não em uma mas duas linhas de engarrafamento, totalmente automatizadas desde a colocação das paletes com as garrafas até ao embalamento em caixas.
O portefólio da casa engloba uma vasta gama com mais de 30 marcas, entre brancos, tintos e rosés, que vão desde as de grande consumo como o Convento da Vila e o Galitos para comercialização em bag-in-box, até aos topos de gama Garrafeira e Cinquentenário (produzido para comemorar os 50 anos da Adega), passando pelos conhecidos Reserva com rótulo de cortiça (um dos mais equilibrados em relação qualidade/preço e talvez a grande referência da casa actualmente), o muito badalado Montes Claros Reserva, os mono e bi-varietais, os Borba DOC e AdegaBorba.pt. São ainda produzidos vinhos licorosos, aguardentes vínicas e bagaceiras. Muito trabalho para o enólogo da casa, Óscar Gato.
Os tintos AdegaBorba.pt, varietais, Reserva e Garrafeira têm estágios em madeira, que vão desde 3 a 18 meses, tendo ainda um posterior estágio em garrafa, que vai até 9 meses no Cinquentenário.
No final ainda me desloquei à loja onde pude fazer uma rápida prova do AdegaBorba.pt branco, tinto e rose. Antes de vir embora, como recordação adquiri uma garrafa do Cinquentenário e uma do Garrafeira. Reparei que os preços eram bastante competitivos em relação ao que se vê no mercado, estando o Reserva mais barato do que o mais barato que já encontrei nas grandes superfícies, mas parece que isto nem sempre acontece nos produtores. Neste caso pareceu-me que compensa ao visitante comprar os vinhos na casa.
E assim terminei as minhas incursões vitícolas por terras do Alto Alentejo. Dali ainda dei um salto ao Redondo e passei junto à Roquevale, mas já não houve tempo para entrar. Talvez numa próxima ocasião...

Kroniketas, enófilo itinerante

Adega Cooperativa de Borba
Rossio de Cima
7151-913 Borba
Telef: 268.891.660

domingo, 18 de maio de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XXII)

No meu copo, na minha mesa 178 - Lóios 2006; Cadeia Quinhentista (Estremoz)














De passagem por Estremoz, depois da visita ao Monte da Caldeira de João Portugal Ramos, fui à procura do famoso restaurante São Rosas, junto à Pousada de Santa Isabel. Logo por azar estava fechado. Fiquei por ali a ver a paisagem lá em baixo, a dar uma vista de olhos à pousada quando o meu olhar pousou numa placa que indicava “Cadeia Quinhentista”, que já alguém me tinha referido, para uma rua estreitinha que saía junto da pousada. Fui ver o aspecto e entrei, atraído pelas opções de caça da ementa. Ainda cá fora, para além da ementa está uma explicação sobre a história do edifício. Ali funcionou a cadeia de Estremoz. Depois de abandonada, o actual dono, que entretanto tinha saído da Pousada de Santa Isabel, negociou com a Câmara Municipal a reconversão do edifício para restaurante, e assim nas antigas masmorras repousam agora as mesas do restaurante e um bar (no piso superior há outro bar).
O ambiente é acolhedor, estando o interior decorado com cores quentes, em tons de vermelho, há música ambiente a dar as boas vindas ao cliente. Era dia de semana, ao almoço, pelo que não havia muita gente. Fui conduzido por uma simpática senhora a uma mesa na sala mais interior e sentei-me junto a uma janela fechada a grades.
Estando sozinho, não havia grandes possibilidades de fazer escolhas muito complicadas, mas entre as elaboradíssimas opções existentes na carta comecei por uma canja de perdiz, seguindo-se como prato principal meia perdiz marinada em azeite, que veio decorada com pequeninos bagos de uva e castanhas. Ambos estavam excelentes, com a perdiz em azeite a mostrar aromas diferentes do habitual mas muito bem confeccionada.
Para sobremesa um doce incontornável do Alentejo, que repeti sempre que pude, tal como a encharcada: a sopa dourada, irrepreensível, um daqueles doces que fazem a delícia de quem gosta de doces à base de ovos.
Finalmente, o vinho. Tive que optar por meia garrafa e a escolha recaiu num vinho de João Portugal Ramos, o Lóios. Não sendo nada de extraordinário, faz parte daquele lote de vinhos que, sendo baratos, são agradáveis e fáceis de beber. Embora os 14% de álcool se façam sentir, mostra alguma macieza e uma predominância frutada, com alguma persistência final. Um vinho agradável sem grandes complexidades nem pretensões.
A par de tudo isto, um serviço excelente, competentíssimo, atento, eficiente e simpático. A meio da refeição o próprio dono veio ter comigo para saber se estava tudo a decorrer a contento. A senhora que me conduziu à mesa e me atendeu durante a refeição mostrou ter formação na matéria, tal o profissionalismo que demonstrou ao longo de todo o serviço. O preço faz-se sentir mas pela elevada qualidade do serviço acaba por não ser excessivo. É um local a voltar para uma refeição calma em ambiente recatado.

Kroniketas, enófilo viajante

Restaurante: Cadeia Quinhentista
Rua Rainha Santa Isabel
7100 Estremoz
Telef: 268.323.400
Preço por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: Lóios 2006 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: João Portugal Ramos
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Castelão e outras
Preço em feira de vinhos: 2,64 €
Nota (0 a 10): 6,5

domingo, 11 de maio de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XXI)

João Portugal Ramos




Uma das minhas visitas mais desejadas por terras do Alto Alentejo era às instalações de João Portugal Ramos, em Estremoz. Situada junto à estrada nacional para Arraiolos a cerca de 3 km de Estremoz, ainda antes da Herdade das Servas, a entrada para o Monte da Caldeira passa quase despercebida ao viajante pois o portão está afastado da estrada e fica logo a seguir a uma curva, pelo que só com atenção se percebe o que ali está. A própria placa com o nome do produtor não está muito visível.
Passei por lá num dia de semana de manhã em que regressava a Portalegre. Cheguei à porta e resolvi entrar. Dirigi-me à recepção e perguntei como eram as visitas. Disseram-me que se quisesse podia fazê-la naquela hora, e lá fui.
João Portugal Ramos é um dos mais conceituados enólogos do país e do Alentejo em particular, com vários vinhos de renome no panorama nacional, tendo já inclusivamente sido premiado. Possui também uma empresa no Ribatejo, a Falua, tendo-se estabelecido em Estremoz em 1988 e plantado a primeira vinha em 1990, depois de vários anos como consultor em diversas empresas de norte a sul do país.
O Monte da Caldeira é a sede da empresa de João Portugal Ramos no Alentejo, onde tem várias parcelas de vinha num total de 450 hectares, estando ainda em fase de plantação uma parcela na encosta por baixo do castelo de Estremoz. Está em funcionamento desde 2003 e todas as instalações do Monte da Caldeira foram construídas de raiz, pelo que foi possível criar todas as facilidades pretendidas, uma das quais é um túnel de trasfega do vinho para a linha de engarrafamento... por baixo da rua! Actualmente produz cerca de 6 milhões de garrafas por ano.
Na zona dos escritórios está a sala de cubas e, junto a esta, a sala de barricas. Existem também alguns lagares de mármore destinados à pisa de parte da produção dos melhores tintos. Em 2005 foram adquiridas novas cubas destinadas à remontagem do vinho de entrada de gama. Existem também balseiros de madeira para fermentação e estágio dos tintos, que vão ser usados durante 10 anos.
O primeiro vinho produzido por João Portugal Ramos no Monte da Caldeira foi o Vila Santa, a que se foram seguindo os restantes produtos que actualmente conhecemos. Os tintos estagiam em madeira, durante períodos que vão decrescendo de acordo com a gama de posicionamento do vinho: 1 ano para o Marquês de Borba Reserva, 9 meses para o Vila Santa, 6 meses para os monocastas Aragonês, Trincadeira, Syrah e Tinta Caiada, 5 meses para o Marquês de Borba. Só o Lóios não tem estágio em madeira.
Para além destes tintos existe ainda uma produção especial proveniente da outra parcela de vinha situada a caminho de Sousel, a Quinta da Viçosa, que resulta da combinação da melhor casta portuguesa e estrangeira de cada ano. Daqui já resultaram combinações muito curiosas como Trincadeira-Syrah, Aragonês-Petit Verdot (parece que esgotou num ápice) e a mais recente Touriga Nacional-Merlot. O Quinta da Viçosa estagia um ano em madeira.
Atravessando a rua entra-se na linha de engarrafamento, totalmente automatizada, desde a colocação das garrafas até ao embalamento nas caixas. Ali a intervenção humana é praticamente inexistente a não ser para vigiar o bom funcionamento do processo. Curiosamente enquanto lá estive uma das garrafas tombou, pelo que foi necessário parar a linha para recolocar as garrafas todas no sítio. Um momento raro, certamente.
Tal como para a Herdade das Servas, o desejo expresso no final da visita (onde não tive oportunidade de falar com o próprio, que andava por terras do oriente juntamente com outros produtores) foi o de que nos continue a brindar com belíssimos vinhos e alguns dos melhores tintos do Alentejo.

Kroniketas, enófilo itinerante

J. Portugal Ramos Vinhos, S. A.
Monte da Caldeira
7100-149 Estremoz
Telef: 268.339.910

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XX)

No meu copo, na minha mesa 176 - Pedra Basta 2005; Monte da Penha Reserva 2003; Restaurante Sever (Marvão)

Não foi a minha última incursão gastronómica em Portalegre, mas foi o último local visitado: o Sever, num local chamado Portagem, a caminho de Marvão, cá em baixo no sopé da serra com um rio a embelezar a paisagem. Tinha-me sido muito recomendado principalmente pelos grelhados, mas preferi avançar para pratos mais tradicionais. E que pratos...
Enquanto se esperava, foram servidos uns deliciosos tortulhos (uma espécie de cogumelos) e uma omeleta de espargos, qual deles o melhor. Isto foi-nos aguçando o apetite para o que vinha aí. E o que vinha aí era nem mais nem menos que um coelho bravo com míscaros e o inevitável arroz de lebre. Simplesmente divinais! O arroz de lebre malandrinho, como convém, claramente melhor que o do Tomba Lobos. Dos melhores que já comi. Nas sobremesas escolhi desta vez uma mousse de chocolate que fez bem o seu papel.
Quanto aos vinhos, mantendo o princípio seguido ao longo desta estada, escolhi os da região e mais dois que não conhecia. Comecei pelo Pedra Basta de 2005, o outro vinho de Rui Reguniga, em parceria com Richard Mayson na Quinta do Centro, que não tinha tido oportunidade de provar no Tomba Lobos quando provei o Terrenus. Não me convenceu. Este, ao contrário do Terrenus, é o tal vinho moderno e de estilo europeu. Achei-o algo agressivo, demasiado adstringente, mais uma vez com excesso de álcool que o torna francamente cansativo. Se achei que o Terrenus é para repetir, este achei que é para esquecer.
Em seguida experimentei o Monte da Penha Reserva 2003, de Francisco Fino, um dos ex-proprietários da Tapada do Chaves. Também não me convenceu. Por um lado achei-o algo delgado de corpo e ao mesmo tempo demasiado marcado pela madeira, que se sobrepõe aos aromas. Um conjunto algo desequilibrado.
No fim, como remate do serão ainda nos foi oferecido pelo dono um brandy espanhol de nome Luís Felipe. Nunca fui apreciador deste tipo de bebidas, mas dados os encómios que lhe foram feitos lá experimentei. Este quase que levanta um morto. O aroma não pode ser aspirado, porque quase nos queima o nariz: é meter à boca e beber de um trago. Depois ficam ali os vapores que nunca mais de vão embora. A cor é assim parecida com o estanho, com o bordo quase a parecer queimado. De facto nunca tinha visto igual. Acredito que para os aficionados deve ser uma bebida magnífica.
Em suma, uma refeição magnífica regada por dois vinhos que não se mostraram à altura de tão deliciosos pitéus. Mas o local vale bem a pena. Um espaço amplo, arejado, num local aprazível (gostava de lá voltar de dia e com bom tempo, ao contrário da noite fria de Inverno em que lá fui) e com um serviço impecável. Excelente.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: Sever
Portagem - Marvão
7330-347 São Salvador de Aramenha
Telef: 245.993.318
Preço por refeição: 37 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: Pedra Basta 2005 (T)
Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: Sonho Lusitano Vinhos
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon
Preço no restaurante: 19,50 €
Nota (0 a 10): 4

Vinho: Monte da Penha Reserva 2003 (T)
Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: Francisco Fino
Grau alcoólico: 13%
Castas: Alicante Bouschet, Aragonês, Trincadeira
Preço no restaurante: 25 €
Nota (0 a 10): 4,5

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XIX)

Herdade das Servas



O trabalho anda um bocado atrasado, mas ainda há umas Krónikas do Alto Alentejo para postar. Na última fase da minha estada em Portalegre fiz umas incursões mais para sul, para a zona de Estremoz. Uma delas foi numa visita à Herdade das Servas, junto à estrada entre Estremoz e Arraiolos, à porta da qual passava todas as semanas.
A Herdade das Servas é um produtor recente mas antigo. Segundo o testemunho de duas talhas de barro que há por lá, já se faz vinho no local há cerca de 400 anos (1667 é a data apontada), mas este nome começou a tornar-se conhecido no mercado há menos de uma década. Uma vez bebi um vinho com o nome Monte das Servas que me surpreendeu muito agradavelmente, ainda muito antes da onda recente dos vinhos hiperconcentrados e hiperalcoólicos. Era um alentejano robusto e encorpado ao melhor estilo dos tintos alentejanos tradicionais. Há poucos meses tive oportunidade de voltar a provar um desse tempo, da colheita de 2003, com “apenas” 13,5% de grau alcoólico, um daqueles de perfil antigo. Tinha cor rubi escura, aroma de frutos vermelhos, bem estruturado na boca e com boa persistência. Deve ter sido o último deste género que pude provar. Agora há uma gama alargada de vinhos que cobrem os vários patamares de gostos e preços, desde vinhos de consumo diário até Reservas e monocastas, e este Monte das Servas adquiriu a designação adicional de “Colheita seleccionada”.
Propriedade da família Serrano Mira, a Herdade das Servas conta actualmente com 200 hectares de vinha em mais do que uma localização, tendo mais 45 hectares novos que ainda não começaram a produzir. A produção situa-se em média por volta das 600.000 garrafas por ano, sendo a enologia supervisionada Luís Duarte, um dos enólogos com várias consultorias no Alentejo, entre as quais conta a Herdade dos Grous e a Herdade da Malhadinha Nova. Todas as uvas colhidas são propriedade da Herdade e transportadas directamente para vinificação na adega.
Sob a orientação da engenheira Ana Margarida, tive a possibilidade de percorrer todas as instalações da adega, desde a zona de vinificação e engarrafamento e a adega no piso inferior, até à loja, laboratório, sala de provas e as salas destinadas a refeições onde podem também ser realizados outros eventos como casamentos, baptizados e congressos ou conferências, havendo mesmo um auditório para o efeito. Prevista não está, para já, a existência de alojamentos.
A vinha principal situa-se numa extensa área à volta do edifício donde se avista a planície a sul de Estremoz, dominada pelo castelo lá no cimo do monte.
Tive ainda a oportunidade de trocar algumas impressões com Luís Serrano Mira, um dos donos e um dos irmãos que tomaram conta da Herdade, que me expressou a sua intenção de manter sempre a qualidade dos seus vinhos como principal objectivo a alcançar. Exemplo disso é a não produção do excelente Herdade das Servas Aragonês desde a colheita de 2004, por se considerar que a casta não voltou a reunir as qualidades necessárias para os requisitos do vinho, o que é um bom indicador dos critérios de exigência que os produtores impõem a si próprios.
Assim continuem, e que continuem a produzir bons vinhos como até aqui é o que se deseja.

Kroniketas, enófilo viajante

Vinho: Monte das Servas 2003 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Herdade das Servas
Grau alcoólico: 13,5%
Nota (0 a 10): 7,5