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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (X)

No meu copo, na minha mesa 161 - Casa de Alegrete 2005; Caldeirão de Sabores (Portalegre)


Uma das surtidas gastronómicas resultou numa completa revelação, quer a nível do restaurante quer a nível do vinho. O restaurante Caldeirão de Sabores, no bairro dos Assentos, junto à entrada de Portalegre pelo lado sul, é um espaço relativamente pequeno onde tive oportunidade de degustar uma refeição magnífica.
Depois dumas entradas à base de peixe que não fizeram as minhas delícias, passou-se àquilo que interessa: uma empada de lebre e um “magret” de pato (uma espécie de pato estufado fatiado). Tudo acompanhado com uma salada mista para desenjoar.
Ambos estavam excelentes, com natural realce para a empada de lebre, muito macia e apetitosa. Para sobremesa as escolhas foram mais prosaicas: mousse de chocolate e requeijão com doce de abóbora, que cumpriram na perfeição.
O serviço é de grande qualidade e eficiência, apenas com um senão de alguma demora nos pratos, mas dada a especificidade da empada de lebre talvez fosse inevitável essa demora. Um local que se recomenda, portanto.
Conhecido o restaurante, o vinho foi, então, a grande revelação da noite. Já o tinha visto numa montra doutro restaurante e aqui foi a escolha imediata: um Casa de Alegrete, aqui dos arredores (Alegrete é uma povoação que fica na encosta da serra de S. Mamede, uns 10 quilómetros para sueste da cidade). A impressão foi excelente. Um vinho macio, aberto e suave, em que os 14% de álcool estão perfeitamente disfarçados, o que faz com que não se torne cansativo ao contrário de muitos com este grau alcoólico. É um bom exemplo de como um vinho com 14 graus pode ser aveludado. O estágio de 12 meses em madeira dá-lhe alguma consistência, aparecendo aquela bem integrada com os aromas de fruta predominantes no primeiro ataque na boca. As castas Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet (talvez a grande “coqueluche” do Alentejo nesta altura) em harmonia quase perfeita.
É um daqueles vinhos que vão melhorando com o tempo de abertura da garrafa, desenvolvendo uma persistência e um fim de boca prolongado e ao mesmo tempo macio, tornando-se mais apetitoso à medida que os copos se sucedem. Por isso torna-se um vinho guloso, que se bebe com prazer sem se dar por isso, de tal forma que duas pessoas beberam duas garrafas... É um vinho quase desconhecido no panorama nacional, dada a pouca produção que praticamente se esgota no mercado da região, dum produtor (João Torres Pereira) e dum enólogo (Paulo Fiúza Nigra) que desconhecia por completo, mas do qual é praticamente impossível não gostar. Tem um perfil que me agrada sobremaneira, persistente e ao mesmo tempo elegante, aquilo que vai faltando em muitos vinhos “da moda”, particularmente no Alentejo. Decididamente, uma aposta a rever na primeira oportunidade que tiver enquanto ainda estou por cá.
Em suma, uma daquelas refeições para não esquecer: restaurante e vinho excelentes, numa combinação exemplar.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: Caldeirão de Sabores
Travessa Luís Pathe, 12
Bairro dos Assentos
7300-037 Portalegre
Telef: 966.795.751
Preço médio por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4,5

Vinho: Casa de Alegrete 2005 (T)
Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: João Torres Pereira
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet
Preço no restaurante: 13 €
Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

No meu copo 158 - Quatro Castas Reserva 2001

Há uns 6 anos deparámos com um novo vinho da Herdade do Esporão, denominado Quatro Castas. Tal como acontece com os vinhos da Sogrape, todos os vinhos desta proveniência interessam-nos sobremaneira e este não fugiu à regra.
Rapidamente tratámos de o adquirir e degustar com todo o interesse. O resultado foi... esmagador! Durante algum tempo considerámo-lo um dos melhores vinhos do país (dentro daqueles que conhecíamos, obviamente). E até hoje, excluindo o Torre do Esporão e os Private Selections, que ainda não bebemos, consideramo-lo sem dúvida o melhor vinho da herdade, acima do Esporão Reserva. Convém referir que há mais de 10 anos que conhecemos todos os outros vinhos da Herdade do Esporão, desde o Esporão Reserva, que foi uma das nossas primeiras preferências, passando pelo Monte Velho (de que acompanhámos praticamente todas as colheitas, quando ainda era um VQPRD com 11,5 graus de álcool macio e suave), o Alandra, todos os monocasta (a começar pelo Cabernet Sauvignon, seguindo pelo Aragonês e o Trincadeira, até aos neófitos Bastardo, Syrah, Touriga Nacional e Alicante Bouschet) e o mais recente Vinha da Defesa, sem esquecer os brancos.
O Quatro Castas foi uma surpresa, com um corpo, um bouquet, uma profundidade aromática, uma complexidade e uma persistência extraordinários, e as sucessivas provas confirmaram esta impressão: para nós, tornou-se inquestionavelmente o melhor vinho do Esporão. É um vinho feito com as melhores quatro castas de cada ano vinificadas em partes iguais, pelo que nunca sabemos que castas lá estão em cada colheita (essa informação não é mencionada no contra-rótulo, apenas no site para a colheita apresentada), mas a tendência é para ser entre Aragonês, Trincadeira, Touriga Nacional, Syrah, Alicante Bouschet, Bastardo e Cabernet Sauvignon (esta ultimamente abandonada nos varietais por, segundo os responsáveis, “perder a tipicidade”). É fermentado durante uma semana a temperaturas controladas em cubas de inox, com maceração prolongada, seguindo-se um estágio de 6 meses em barricas novas de carvalho americano e francês e mais 6 meses em garrafa. Normalmente chega ao mercado já com cerca de 3 anos de idade.
Agora, desde que temos o blog, as provas são mais diversificadas pelo que as oportunidades de repetir são menores. Mas um dia destes provámos a colheita de 2001, que confirmou tudo o que pensamos deste vinho. Não apresentou a exuberância de outros tempos, porque o tempo também não perdoa e nos vinhos do Alentejo ainda menos, mas continua (para nós) a ser um vinho de excepção: o bouquet já é mais discreto, o frutado menos pronunciado e a persistência menos prolongada. Mas as características originais estão todas lá. Além disso, tem um grau alcoólico elevadíssimo mas que não se sente na prova, pois como é apanágio dos vinhos do Esporão, está tão bem feito que não se sente o álcool. Tomara muitos dos vinhos da moda conseguirem ser assim.
Como ainda temos em stock as colheitas de 2002 e 2003, um dia destes vamos voltar à carga com uma comparação das várias colheitas. Porque este é outro daqueles vinhos que quase passam despercebidos, como o Garrafeira dos Sócios de que falámos noutro dia. Porque, como aquele, também não é um vinho da moda, daqueles que nos querem impingir à viva força como sendo os que os consumidores “preferem” (isso ainda está por provar). Pedimos desculpa pelo incómodo e por continuar a fugir à moda, mas para nós este é um vinho de excepção. E ninguém nos desvia daqui.

tuguinho e Kroniketas, enófilos e tal

Vinho: Quatro Castas Reserva 2001 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Herdade do Esporão
Grau alcoólico: 15%
Castas: quatro destas, conforme o ano - Aragonês, Trincadeira, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, Syrah, Bastardo, Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 10,79 €
Nota (0 a 10): 9

sábado, 22 de dezembro de 2007

Krónikas do Alto Alentejo (VII)

No meu copo, na minha mesa 154 - Monte das Servas, Escolha 2005; Adega do Isaías (Estremoz)
Num trajecto de fim-de-semana para Portalegre, parei em Estremoz para almoçar na Adega do Isaías. Era sábado e antes do meio-dia telefonei para marcar uma mesa para 6, mas já não havia, o que diz bem da procura por este local emblemático da cidade. Arriscámos à mesma e fomos procurá-lo. Fica numa rua estreita perto do centro turístico e é relativamente fácil lá chegar a pé (e o Mappy dá uma ajuda). Quase não se dá por ele quando se encontra um local com gente à porta e lá está escrito o nome.
Não havia mesas nem lista de espera, mas resolvemos ficar. Era tarde para tentar outro local. Quando finalmente nos sentámos, após quase uma hora de espera, já havia uma fila na rua. À entrada um grelhador junto á montra. O acesso faz-se por uma passagem estreita. A sala é ao fundo, com mesas corridas e bancos corridos de madeira. Não há janelas nem ventilação. Todos os cheiros dos grelhados ficam impregnados na sala, que começa a ficar com fumo. Dá ideia que era uma taberna que começou a servir petiscos e foi crescendo até se tornar um restaurante com serviço à carta. Mas o estilo continua a ser de adega.
Para o repasto escolhemos migas de espargos com carne do alguidar, burras de porco (o mesmo que as bochechas só que com todo o osso junto) com batatas assadas e depois ainda foi necessário mandar vir um reforço com plumas de porco preto.
As burras não eram muito fartas, pois metade era osso, mas estavam saborosas. Acabaram-se depressa. As migas com carne também apaladadas, mas as plumas que vieram no fim estavam salgadas.
Nas sobremesas, dois clássicos do Alentejo: encharcada e sericaia. Eu optei pela encharcada, um dos meus doces favoritos. Irrepreensível.
O serviço de vinhos também está próximo da taberna. Pedimos um Monte das Servas Escolha, ali de perto, mas os copos eram quadrados, iguais aos da água. Ainda pedi copos para vinho e trouxeram outros iguais. Desisti, não valia a pena explicar o que queria, apesar de haver mesas à volta a beber vinho em copos decentes.
Este Monte das Servas, que há alguns anos conheci com outro rótulo, parece agora mais estilizado. Mais frutado, com mais especiarias, mais taninos e persistência. No entanto, aparece como mais um vinho carregado de álcool. Bateu-se bem com os pratos deglutidos, mas temo que se torne um pouco cansativo.
Quando bebi este vinho pela primeira vez, era muito carregado, muito encorpado, com aromas mais fechados, pujante e com boa persistência mas sem ser agressivo. Agora o álcool abafa quase tudo. Confesso que começo a ficar um pouco saturado destes vinhos com 14 graus, o que no Alentejo é corriqueiro. Felizmente, parece que a tendência está a desaparecer, para que voltemos a ter mais aromas e mais vinhos diferenciados. Com tanto álcool, tanta concentração e tanta fruta, começo a não conseguir distingui-los uns dos outros.
Acabámos por sair sem perceber bem as razões de tanta fama para este restaurante. A comida não é nada de extraordinário, o serviço tão-pouco, e as condições de segurança deixam muito a desejar. Não há portas de emergência, não há janelas, toda a gente está acantonada no fundo da sala, donde se houver um acidente não se consegue sair, pois o único acesso é estrangulado. Pode ter sido uma casa muito típica que fez o seu nome assim, mas actualmente não me pareceu que marque a diferença.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: Adega do Isaías
Rua do Almeida, 21
7100-537 Estremoz
Telef: 268.322.318
Preço médio por refeição: 14 €
Nota (0 a 5): 3

Vinho: Monte das Servas, Escolha 2005 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Herdade das Servas
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Touriga Nacional, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 4,48 €
Nota (0 a 10): 7

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

No meu copo 153 - Reguengos Garrafeira dos Sócios, 96 e 2000

Há muitos anos, no Edmundo de Benfica (na esquina da Estrada de Benfica com a Avenida Gomes Pereira), estávamos nos primórdios das incursões vinícolas, eu e o Mancha pedimos um Esporão para acompanhar um naco na pedra ou uma costeleta de vitela grelhada. Na altura havia, basicamente, quatro regiões conhecidas: Borba, Redondo, Reguengos e Vidigueira. De Portalegre pouco se falava, de Évora ainda menos e os produtores mais conhecidos eram sobretudo adegas cooperativas. No Douro havia uma meia-dúzia de vinhos de mesa, no Ribatejo era carrascão e na Estremadura havia muito... e mau. Dão, Bairrada e Península de Setúbal eram zonas vitivinícolas de referência.
O Esporão era já um vinho de referência e um dos melhores do Alentejo, senão mesmo o melhor da época. Mas não havia... O chefe sugeriu-nos um outro que disse ser parecido. O seu nome: Garrafeira dos Sócios, da Cooperativa de Reguengos de Monsaraz. Aceitámos com alguma relutância mas em boa hora o fizemos, porque nos deu a conhecer um vinho que, à época, nos encantou. Uma suavidade extraordinária, um bouquet profundo, um certo aroma floral e um corpo de grande elegância. Imediatamente o equiparámos ao Esporão em qualidade!
Durante vários anos este tornou-se o nosso vinho preferido. O Mancha dizia que este vinho era veludo, e de facto era. Merecia sempre nota máxima. Lendo o contra-rótulo ficámos então a saber que era uma produção especial para os sócios da cooperativa, com uvas seleccionadas, e só depois de estes se terem abastecido o restante era colocado no mercado. Até hoje continua a ser assim.
Com o tempo fomos conhecendo muitos outros vinhos, as referências foram aumentando e o gosto foi-se alterando, o próprio perfil do vinho foi-se alterando, acompanhando um pouco as tendências da moda, e o Garrafeira dos Sócios deixou de ter o protagonismo nas nossas preferências que antes tinha, mas nunca perdeu um lugar de destaque. É certo que hoje o bebemos muito menos vezes do que há 10 anos mas ele está sempre lá, nas nossas garrafeiras, e voltar a degustá-lo é como reencontrar um velho amigo que não se vê há muitos anos, ou ouvir uma daquelas músicas antigas dos grupos que fizeram as delícias da nossa juventude.
Há algum tempo tive oportunidade de provar a colheita de 2000. Voltou a encantar-me. Continua com aquela suavidade que lhe conhecia, uma bela cor rubi carregada, um leve amadeirado sem ser em excesso, final longo e sedoso, tudo muito equilibrado e harmonioso.
Mas a grande surpresa aconteceu precisamente esta noite, num jantar em Portalegre, no restaurante A Gruta, de que darei conta qualquer dia (há vários artigos para publicar antes...). Em exposição estavam, entre vastas dezenas de garrafas, algumas garrafas de Garrafeira dos Sócios de 96. Ficámos na dúvida. Um vinho com esta idade... Perguntei ao chefe se achava que o vinho estaria bebível. Experimentámos num copo de prova. Começou por apresentar um tom acastanhado, sinal de evolução avançada que muitas vezes não augura nada de bom. O primeiro aroma mostrou os mesmos sinais, de que já tinha passado o ponto óptimo. Resolvemos esperar pela decantação e deixá-lo respirar enquanto fomos bebericando em copos de boca larga. Aos poucos os aromas foram-se libertando e ficando mais limpos. A melhoria foi evidente e passada cerca de meia-hora ele aí estava em todo o seu esplendor. Era este o Garrafeira dos Sócios que eu conhecia há 10 anos. Macio, aromático, suave, verdadeiro veludo. Até chamámos o chefe Felício para o provar e o veredicto foi o mesmo: fantástico.
Um vinho que se impõe pela diferença. Enquanto outros (a maioria) primam pelo frutado, pela pujança, pelo corpo e pelo álcool, este prima pela elegância, pela delicadeza, pela suavidade, sem perder os traços marcantes de um vinho alentejano. Um dos raros vinhos que actualmente se destacam dos demais, por isso é um vinho que continuamos a beber com verdadeira paixão.
Só me espanta que seja tão pouco falado, pois é dos poucos onde ainda se podem procurar traços que não sejam só de fruta, especiarias, álcool ou madeira. Não é um vinho da moda, e ainda bem. Oxalá continue assim.

Kroniketas, enófilo esclarecido

PS: Para tranquilizar os espíritos mais inquietos, o vinho branco que se vê nos copos não é, definitivamente, o Garrafeira dos Sócios... :-)

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Carmim (Coop. Agrícola de Reguengos de Monsaraz)
Castas: Aragonês, Castelão, Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 9,95 €

Vinho: Reguengos Garrafeira dos Sócios 96 (T)
Grau alcoólico: 13%
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Reguengos Garrafeira dos Sócios 2000 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Nota (0 a 10): 8,5

domingo, 16 de dezembro de 2007

Krónikas do Alto Alentejo (VI)

No meu copo, na minha mesa 152 - Dom Martinho 2004; Restaurante Poeiras (Portalegre)
Mais uma visita gastronómica em Portalegre. Desta vez não foi nenhuma escolha preparada, tratava-se apenas de encontrar um local para jantar. Passando à porta de alguns, olhando lá para dentro e para a ementa, escolhemos um em pleno centro histórico, ao lado do Governo Civil, na Praça da República, local de esplanadas, bares e estudantes, talvez o local mais movimentado na pouca animação nocturna da cidade.
Franqueadas as portas de vidro, deparámo-nos com um restaurante de aspecto mais ou menos comum, onde duas televisões transmitiam um jogo de futebol do campeonato, de dimensão média, sem grandes sofisticações mas acolhedor.
A ementa não é muito vasta mas a oferta é simpática. Comecei por uma cremosa sopa de feijão generosamente servida no prato fundo, enquanto esperava por umas bochechas de porco estufadas com batatas salteadas. A carne estava tenríssima e muito saborosa, separada dos ossos, em dose avantajada que ainda dava para outra refeição.
Para sobremesa havia a tentação da encharcada, mas foi escolhido um caseiro Doce São Bernardo, feito à base de amêndoa, ovo e canela. Um doce muito consistente, algo enjoativo como acontece muitas vezes com os doces de amêndoa, mas agradável de comer se não for em quantidade exagerada.
Em resumo, outro restaurante onde se pode almoçar ou jantar com qualidade, ter um bom atendimento e não pagar um preço excessivo.
Para acompanhar continuei nos vinhos norte-alentejanos, desta vez descendo um pouco até Estremoz, concretamente à Quinta do Carmo. Escolhi o parente mais pobre do Quinta do Carmo, um Dom Martinho de 2004, que deve o seu nome a uma parcela da Quinta do Carmo com o mesmo nome.
É um vinho frutado e com algum aroma floral, com corpo e final médio. Não apresenta nenhuma característica que se destaque, pelo que se fica pela mediania. Bebe-se com facilidade, não desagrada e também não encanta.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: Poeiras
Praça da República, 9 a 15
7300-109 Portalegre
Telef: 245.201.862
Preço médio por refeição: 12 €
Nota (0 a 5): 3,5

Vinho: Dom Martinho 2004 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Quinta do Carmo
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Syrah
Preço em feira de vinhos: 5,54 €
Nota (0 a 10): 6,5

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

No meu copo 151 - Monte dos Cabaços 2003

Começou por uma vinha que vendia as uvas. Filha de pai alentejano da zona de Estremoz, Margarida Cabaço regressou da Holanda, onde estudava, aos 16 anos, para junto da família que voltava a Estremoz. Aí viria a casar com um proprietário local que possuía uma vinha. O tempo que sobrava do tratamento da vinha começou a ser aproveitado para organizar uns almoços e jantares para os amigos, mais tarde casamentos e baptizados, e daí até um restaurante foi um pequeno passo. Assim viria a nascer o São Rosas, um dos actuais ex-libris gastronómicos da cidade.
A seguir ao restaurante veio o vinho próprio para servir no restaurante, e assim as uvas que eram vendidas passaram a ser usadas na produção do Monte dos Cabaços, tinto e branco. Tive oportunidade de adquirir por 5,95 € uma garrafa do tinto de 2003 com a Revista de Vinhos.
De cor muito carregada e aroma marcado por notas minerais, muito cheio na prova de boca com predominância de fruta e especiarias, é um daqueles vinhos chamados de “perfil moderno”, com muita fruta, muita concentração e muito álcool, que alguns dizem que é o que vai ao encontro do gosto do consumidor actual. Apetece-me sempre perguntar: será mesmo isto que o consumidor quer, ou é o que estão a tentar impingir-lhe? É que, a mim, estes vinhos cansam-me. Bebem-se bem algumas vezes mas depois começam a saturar, porque se tornam todos iguais. Nada os diferencia, e os que tenho provado ultimamente deste género acabam por ser “mais do mesmo”. Por isso é que acabamos sempre por voltar aos clássicos que já conhecemos há muito tempo..

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Monte dos Cabaços 2003 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Maragarida Cabaço
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, Syrah
Preço em hipermercado:9,99 €
Nota (0 a 10): 7

sábado, 8 de dezembro de 2007

Krónikas do Alto Alentejo (V)

No meu copo, na minha mesa 150 - Altas Quintas Crescendo 2005; O Abrigo (Portalegre)
Uma das incursões gastronómicas em Portalegre incluiu uma visita ao restaurante “O Abrigo,” no centro histórico da cidade. Trata-se de um espaço que fica um piso abaixo do chão, embora com acesso directo para a rua, não muito amplo, de características eminentemente regionais. Descendo as escadas após a entrada, deparamo-nos com um pequeno átrio onde já estão algumas mesas e um balcão de acesso à cozinha. Em exposição encontram-se também algumas garrafas de vinho da região. A sala propriamente dita fica depois duma porta rotativa do tipo saloon.
E quanto aos comes? Seguindo algumas sugestões, houve uns deliciosos miminhos de porco grelhados e uma fantástica costeleta de novilho. Os acompanhamentos são variados, mais ou menos à vontade do freguês, mas o grande destaque vai para a miolada de couve, uma espécie de migas de couve envolvidas em ovo, absolutamente irresistível. É de comer e chorar por mais, tanto assim que teve de se pedir mais do que um reforço.
Nas sobremesas a escolha recaiu noutro doce típico alentejano, a sericaia, acompanhada com a ameixa em calda. Estava boa, apesar de já termos encontrado melhor na origem.
Da oferta vinícola optámos novamente por continuar na região, cujos vinhos se encontram em destaque nos expositores, e escolhemos um dos vinhos da moda: o Altas Quintas Crescendo 2005. Feito com Aragonês e uma pequena percentagem de Trincadeira, fermentou em balseiros de carvalho tendo depois estagiado 12 meses em barricas de carvalho, as mesmas que são primeiro utilizadas para estagiar o Altas Quintas. Encontrei um tinto muito concentrado, bastante frutado e com 14% de álcool, taninos muito presentes, dando-lhe um perfil robusto mas que me pareceu algo agressivo. Não lhe encontrei a frescura que se anuncia para estes tintos alentejanos em altitude. Talvez precise de amaciar algum tempo na garrafa.
No entanto temos de considerar que a garrafa veio para a mesa com uma temperatura algo elevada, pelo que houve que pedir um “frappé” para arrefecer o vinho, o que pode ter prejudicado a prova mesmo depois de se ter baixado a temperatura. Certamente justificará uma segunda prova, pois estou em crer que esta não terá sido conclusiva.
O serviço é simpático e atencioso, fazendo-se com eficácia. O maior senão é a excessiva temperatura do restaurante e a pouca ventilação, o que torna o ambiente um pouco pesado, com o cheiro dos cozinhados a ficar entranhado na roupa. Este restaurante é muito frequentado sobretudo aos almoços, sendo uma aposta simpática para comer bem sem ser por preço excessivo. Poderá, no entanto, ser aconselhável reservar mesa atempadamente.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: O Abrigo
Rua de Elvas, 74
7300-147 Portalegre
Telef: 245.331.658
Preço médio por refeição: 15 €
Nota (0 a 5): 4

Vinho: Altas Quintas Crescendo 2005 (T)
Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: Altas Quintas
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 7,95 €
Nota (0 a 10): 7


Outras provas deste vinho em: A Adega (6,5 em 10), Pingas no Copo (15 em 20) e Vinho da Casa (16 em 20).

domingo, 18 de novembro de 2007

Krónikas do Alto Alentejo (III)

No meu copo, na minha mesa 146 - Herdade das Servas, Aragonês 2004; O Cobre (Portalegre)
Foi a primeira incursão gastronómica em Portalegre desde que aqui assentei arraiais (na primeira visita houve um almoço noutro local, de que falarei proximamente). A oferta é muita, ao contrário do que eventualmente se poderia esperar, embora me tenha desiludido a oferta de pratos de caça (é mais à base de javali e, vá lá, de vez em quando veado). Lebre e perdiz, as minhas peças de caça de eleição, nem vê-las.
Como vou estar por cá durante algumas semanas, vou ter tempo para explorar o que há por aí, na serra de São Mamede, no caminho para Estremoz, no caminho para o Crato e Alter do Chão. Há muitas referências e vou tentar aproveitar as oportunidades que tiver.
A primeira visita foi a um local referenciado pelos grelhados do norte alentejano, junto ao hospital de Portalegre. Curiosamente, neste local existia outra referência recorrente, que aparece em todos os guias gastronómicos: o Rolo Grill. A verdade é que esse “grill” agora passou-se para as termas de Cabeço de Vide, e no mesmo local surgiu este Cobre. Guiado por residentes na cidade, fui experimentar este restaurante, que tem uma sala de dimensão média (cerca de 40 lugares), embora a ventilação seja algo deficiente. Estavam 11 graus na rua e um calor de Verão no interior do restaurante. Todos os agasalhos tiveram que ser despidos e as mangas arregaçadas.
Na mesa repousavam já algumas entradas de enchidos (não é propriamente a minha predilecção em qualquer refeição), mas a grande dificuldade foi a escolha do vinho e do prato (a oferta é enorme, principalmente entre as carnes). Acabaram por ser pedidos um leitão assado encomendado no próprio dia da região da Bairrada (quanto a mim, para comer leitão assado não vale a pena vir ao norte alentejano, prefiro ir à Mealhada), enquanto eu escolhi, de várias opções apresentadas pelo dono, uma mista de veado e javali, com setas, na frigideira (as setas são um tipo de cogumelo que vinha embebido no molho). A acompanhar, umas migas de couve envolvidas em ovo, embora muito longe de outras já comidas no Abrigo. Foi um prato diferente daquilo que conheço, bastante saboroso, embora um pouco fora do meu género preferido, muito à base da fritura. Mas com uma confecção irrepreensível.
Como sobremesa optei por um doce que já se tornou um clássico em todo o país, quase sempre apresentado como “doce da casa”, neste caso sob a designação de “Doce maravilha”, que não é mais que as habituais natas sobre bolacha embebida em café e uma espécie de leite creme, polvilhado com umas pepitas de chocolate. A verdade é que este, sem sombra de dúvida, foi um dos melhores que já experimentei.
O vinho foi escolhido mais ou menos a olho e por sugestão. Falou-se no inevitável Altas Quintas (o Reserva custava “apenas” 45 €), havia uma prateleira com uma imensa exposição de vinhos alentejanos (e alguns outros) e entre alguns que não conheço acabámos por escolher um Herdade das Servas Aragonês 2004. Primeiro foi colocada uma “pinga no copo” para provar e logo aí se verificou estarmos na presença de um grande vinho, com uma grande estrutura e um corpo volumoso. Sugeri que fosse decantado e já o “decanter” estava a postos...
Depois vieram os adequados copos grandes em forma de tulipa, enquanto o vinho repousava à espera de desenvolver os aromas e amaciar o corpo e os taninos. Depois de bebido de novo, encontrámos um corpo interminável, com uma persistência daquelas que dura, dura, dura... e um final com um toque ligeiramente apimentado, como é muito característico da casta Aragonês. Ao longo da refeição foi-se tornando cada vez mais macio, mantendo o corpo e a estrutura na boca. Os aromas a fruta não são muito pronunciados, diluindo-se mais na predominância das especiarias. Mas um vinho que nos enche os sentidos, um grande vinho sem qualquer dúvida (o próprio professor Virgílio Loureiro destaca como característica marcante dos grandes vinhos a sua persistência, marca distintiva da longevidade que o vinho pode suportar).
A Herdade das Servas é um dos produtores alentejanos dos novos tempos, que conheci há uma meia-dúzia de anos através de uma marca até então completamente ignorada, o Monte das Servas, que me surpreendeu grandemente pela positiva. Longe estava eu de imaginar o sucesso que viria a ter daí para cá. Actualmente, é um dos produtores de referência no Alentejo, com a propriedade situada a alguns quilómetros de Estremoz, junto à estrada nacional 4 em direcção a Arraiolos (é quase vizinha do Monte da Caldeira, de João Portugal Ramos). A gama de produtos tem vindo a diversificar-se, actualmente o antigo Monte das Servas ganhou o apelido de Colheita Seleccionada e entretanto apareceram os Reservas e os monocastas. Esta experiência com o Aragonês foi altamente gratificante, revelando todo o potencial dos vinhos da casa. Sem dúvida uma marca a fixar como referência incontornável dos produtores alentejanos do século XXI.
Para mais informações acerca deste produtor, sugere-se a leitura do artigo do Copo de 3 sobre a visita à herdade, um bom documento para ficarmos mais inteirados do que a casa tem para nos oferecer. Se o tempo e a disponibilidade o permitirem, ainda vou tentar, um dia qualquer, passar por lá na ida ou na volta para fazer um visita. O único problema é que entre Portalegre e Lisboa os produtores de vinho são tantos que seriam necessários vários dias para os visitar a todos...
Em resumo, o serviço é da altíssima qualidade (de realçar que um dos empregados, alguns minutos depois do vinho decantado, veio perguntar-nos se podia servir o vinho, o que é raro acontecer), pleno de profissionalismo e ao mesmo tempo de simpatia, a confecção irrepreensível, o serviço de vinhos seguindo todos os trâmites, pelo que só podemos considerar que é quase merecedor da nota máxima. Apesar de tudo, já encontrámos alguns que nos encheram mais as medidas, mas este fica como um daqueles onde vale a pena voltar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: O Cobre
Av. Pio XII, Lote 17 - R/C Dto (junto ao hospital)
7300-073 Portalegre
Telef: 245.328.472
Preço médio por refeição: 40 €
Nota: 4,5

Vinho: Herdade das Servas, Aragonês 2004 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Herdade das Servas
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês
Preço no restaurante: 27 €
Nota (0 a 10): 8,5

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

No meu copo 141 - Terra Quente 99

Há muitos anos, nas férias, em casa dum amigo, ele trouxe para a mesa um vinho de Valpaços de nome Terra Quente. Na altura eu nem sabia que havia vinho em Valpaços. O jantar era uma carne no forno, bem temperada, a pedir um vinho pujante.
Pois este Terra Quente deixou-me siderado, com um corpo fortíssimo, pujante, aroma vinoso, grande persistência, uma surpresa saída do nada...
Ainda bebi mais umas quantas vezes mas depois o vinho desapareceu. Julguei que já não existia, até que há um ano, nas feiras de vinhos, encontrei umas garrafas da colheita de 99 no Feira Nova. Comprei duas, para ver como ele estava. Claro que sem demasiadas expectativas.
Nas férias lá abri uma das garrafas, na noite dos vinhos transmontanos. Ainda tentei encontrar alguns resquícios do que me lembrava nele de há uns 10 anos, mas já não tinha a exuberância de outros tempos, com um corpo já delgado e o aroma muito evoluído. Um pouco à semelhança do Bons Ares de 99, referido no post anterior, já em curva descendente. Ainda se houvesse por aí uma colheita recente, para tirar dúvidas...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Terra Quente 99 (T)
Região: Trás-os-Montes
Produtor: Adega Cooperativa de Valpaços
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Trincadeira Preta, Tinta Carvalha, Mourisca, Aragonês
Preço em feira de vinhos: 2,99 €
Nota (0 a 10): 6

terça-feira, 24 de julho de 2007

No meu copo 131 - Vale de Ancho Reserva 2004

Tudo tem a sua época: há a época da caça, a época do futebol, a época das comezainas… E foi mesmo com o intuito de encerrar a época (isto apesar de no defeso se realizarem sempre uns repastos particulares e de preparação) que voltámos ao local do crime, salvo seja. Sim, adivinharam, voltámos à Petisqueira do Gould! Aliás, já perguntámos ao proprietário se não tinha nenhum sistema de passe ou de refeições pré-compradas. E a Petisqueira porquê? Porque só o núcleo duríssimo dos Comensais Dionisíacos conhecia o amesendamento e os outros membros já andavam aguados... Juntou-se assim a cambada, 5 bandalhos (pois, não reunimos o pleno...) à mesa de jantar numa sexta-feira de um Verão mesquinho, dispostos a passar um bom bocado (embora alguns preferissem o pastel de nata...). Já aqui avaliámos o restaurante, pelo que apenas vou referir o que foi deglutido pelos mastigadores impiedosos: um par optou pelo tornedó à portuguesa, suculento e no ponto, acolitado por batata às rodelas finas e por grelos salteados, outro por uma alheira de caça e um outro par optou pelo peixe, no caso filetes de peixe galo com arroz mariscado e pregado frito com açorda de ovas. Para beber pedimos um Vale de Ancho Reserva, que já nos andava debaixo de olho, além de já nos ter sido recomendado por outros apreciadores.
De uma cor granada, sem ser retinto, o vinho mostrou um excelente corpo e taninos suaves e sem arestas, completamente pronto a beber. Na boca revelou sabor a ameixa muito suave e, quando agitado e provado a seguir, apresentou couro, com um ligeiro fumado por trás (devo dizer que não mastigámos o couro, pois era rijo como tudo...). O aroma, não sendo exuberante, tinha lá tudo o que um vinho moderno e bem feito consegue tirar das duas castas de que este Vale de Ancho também foi feito. Ainda se bebeu também um Convento da Tomina, mas isso são outras histórias, e sobre esse já aqui falámos há quase um ano.
Em suma, belo vinho, prontíssimo a beber, forte sem ser agressivo, de bons aromas e melhores sabores. O único senão é o preço, mas aqui aplicam-se as regras do mercado: quando a produção é limitada, se o produto é bom o preço é alto. Mas, correndo o risco de nos repetirmos, um dia não são dias, a vida é curta e assim por diante, portanto, que se lixe!
À vossa!

tuguinho, enófilo esforçado e porta-voz fiel do grupelho

Vinho: Vale de Ancho Reserva 2004 (T)
Região: Alentejo (Montemor-o-Novo)
Produtor: Soc. Agrícola Gabriel Francisco Dias & Irmãs
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet
Preço no restaurante: 68 €
Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 19 de junho de 2007

No meu copo 121 - Reguengos Reserva 99, 2000, 2001


Terminamos esta ronda por terras do Alentejo voltando a Reguengos de Monsaraz e à Carmim para falar do Reserva, que acompanhamos há muitos anos e que tínhamos em stock desde Janeiro de 2004. Quando provámos a colheita de 99 fomos logo a seguir comprar umas quantas garrafas, que ficaram esquecidas até há pouco tempo, quando achámos que era tempo de fazer uma rotação de stock porque o tempo útil de consumo já tinha sido ultrapassado.
A verdade é que o vinho se mostrou ainda em forma. Nas colheitas que saem para o mercado é um vinho de cor granada e bastante encorpado, com a madeira bem marcada mas sem ser em excesso, resultado dos cerca de 4 anos de estágio a que é submetido. Apresenta normalmente um fim de boca prolongado, taninos bem presentes mas redondos.
A curiosidade aqui era ver como se comportavam estas três colheitas. A de 99 mostrou-se ainda em boa forma, sem mostrar sinais claros de declínio, podendo beber-se desde logo e aguentando mesmo uma garrafa aberta até ao dia seguinte sem afectar a frescura do vinho. Não deixando de ser uma surpresa, dado ser um vinho alentejano já com quase 8 anos, a verdade é que fez jus à apreciação que mereceu no final de 2003 e que nos levou a apostar nele para guardar durante uns anos.
Já a colheita de 2000 apresentou-se muito mais fechada, com um aroma inicial com algum mofo, que tornou necessário decantá-lo para o deixar respirar e limpar mais os aromas. Ao fim de uma hora a evolução era evidente, desenvolvendo aromas a passas e especiarias e mostrando um fim de boca cada vez mais persistente.
O da colheita de 2001 tinha um problema: a garrafa tinha vertido algumas gotas e receávamos que estivesse passado. Depois de retirada a rolha que, apesar de ter vertido, estava em bom estado, ao cheirar o vinho perpassou pelas nossas mentes a lembrança do vinho do Porto, o que não era bom presságio. Verteu-se um pouco para o copo. A cor, granada profunda como já referido, não denotava a evolução que o odor deixava prever e, quando o provámos, o sabor era óptimo, a especiarias e madeira bem casada, os taninos redondos mas vincados e um fim de boca suave e de média duração. Aliás, cheirado no copo, o vinho do Porto não estava lá, apenas um aroma também discreto e complexo, a mostrar a boa saúde do vinho.
Não sendo nenhuma das colheitas mais recentes e não tendo a vivacidade que aquelas normalmente apresentam, estas três demonstraram, ainda assim, que este Reserva pode ser guardado algum tempo sem nos pregar uma partida e é uma excelente aposta para acompanhar pratos de carne alentejanos tradicionais, daqueles bem fortes e consistentes que pedem um vinho robusto sem ser agressivo. Tem também a vantagem de apresentar um preço bastante convidativo, podendo actualmente comprar-se a menos de 4 €. Em 2000 chegou a comprar-se a 1125$. Recentemente, uma promoção no Pingo Doce apresentava 6 garrafas ao preço de 5, o que resultava em 3,325 € por garrafa, que é um excelente preço para o vinho em questão.

Nota: este vinho usa as uvas do mesmo lote que, depois de devidamente seleccionadas, servem para fazer o topo de gama da casa, o Garrafeira dos Sócios.

tuguinho e Kroniketas, enófilos esforçado e esclarecido (respectivamente)

Vinho: Reguengos Reserva 99 (T)
Grau alcoólico: 13%

Vinho: Reguengos Reserva 2000 (T)
Grau alcoólico: 13,5%

Vinho: Reguengos Reserva 2001 (T)
Grau alcoólico: 14%

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Carmim (Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz)
Castas: Aragonês, Trincadeira, Castelão, Moreto
Preço em feira de vinhos: 3,78 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 12 de junho de 2007

No meu copo 120 - Herdade Penedo Gordo: branco 2006, tinto 2005


Uma cerimónia religiosa seguida do tradicional almoço trouxe-me ao copo dois vinhos alentejanos cuja existência eu desconhecia. Para localizar a sua origem tive que fazer uma pesquisa de modo a localizar Orada no código postal 7150. Resultado: concelho de Borba. E lá provámos o branco e o tinto da Herdade do Penedo Gordo.
O branco de 2006 foi bebido com o prato de peixe, um arroz de marisco com tamboril, ou arroz de tamboril com marisco... Como me acontece quase sempre com os brancos alentejanos, não me agradou. É rústico, pouco aromático, falta-lhe elegância, como a (se calhar, digo eu...) 99% dos brancos alentejanos. Não deixa memórias.
Quanto ao tinto de 2005, a acompanhar lombinhos de porco com castanhas, embora bem mais bebível, também não trouxe nada de novo. Mostrou um carácter predominantemente frutado, tanto no nariz como na boca, embora tivesse evoluído, ao fim de algum tempo, para um fim de boca mais prolongado e marcado por especiarias. Só que... no meio de tantos, ficou-me a sensação de ser apenas mais um para engrossar a interminável lista de novos produtores, mas que dificilmente marcará alguma diferença. Até porque no panorama actual não é fácil.
Não faço ideia do preço destes vinhos, mas pelo seu perfil calculo que andem pelos 4 ou 5 euros. Posicionam-se, certamente, na gama média ou média-baixa. A verdade é que uma semana depois já não me lembrava do nome. Se não fossem as fotos tinham passado rapidamente ao esquecimento.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Borba)
Produtor: António M. Esteves Monteiro

Vinho: Herdade Penedo Gordo 2006 (B)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Antão Vaz, Roupeiro
Preço: desconhecido
Nota (0 a 10): 5

Vinho: Herdade Penedo Gordo 2005 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet, Touriga Nacional
Preço: desconhecido
Nota (0 a 10): 6

sexta-feira, 8 de junho de 2007

No meu copo 119 - Carmim, Aragonês e Trincadeira 99

Nos primeiros tempos das Krónikas Vinícolas apreciámos aqui dois varietais da Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz (Carmim), o Bastardo e o Cabernet Sauvignon de 2000, que estiveram em grande e, se calhar, pela última vez, pois foram as últimas colheitas que vi à venda. O tempo passa sem darmos por ele e agora verifico que já passou quase um ano e meio e desde aí nunca mais tinha provado nenhum destes varietais da Carmim, apesar de haver sempre alguns na garrafeira. Agora resolvi ir buscar os outros dois, que se mantêm no mercado. O Aragonês e o Trincadeira já foram lançados há uns 6 ou 7 anos, e tive oportunidade de conhecer todas as colheitas iniciais, ainda com um rótulo claro.
Desde sempre foram vinhos que se pautaram por uma grande dose de adstringência, puxando bem pelas características mais fortes de cada uma das castas - contrariamente ao que acontece, por exemplo, nos varietais do Esporão, ali vizinho, que são muito mais macios. Curioso é também verificar que aqui, na Carmim, o Trincadeira é tão ou mais pujante que o Aragonês, enquanto no Esporão há uma diferença significativa entre as duas, com a Trincadeira muito mais amaciada e a dar vinhos cheios e envolventes, ficando para o Aragonês as despesas dos vinhos mais robustos e taninosos.
Estas duas garrafas foram consumidas com uma boa perna de borrego no forno e revelaram-se, como não podia deixar de ser, perfeitamente adequados para este prato tão típico do Alentejo. Claro que já não tinham a frescura de quando foram comprados (já residiam na garrafeira desde 2002) mas depois de respirarem um pouco ficaram mais limpos de aromas. Perderam um pouco daquela vivacidade que os caracteriza, como é normal, mas ficaram bem mais macios, sem perder um fundo muito marcado a especiarias, que é habitual nestes varietais.
Mais tempo na garrafeira não lhes ia trazer nada de bom, e felizmente ainda fui buscá-los bem bebíveis, mas... provavelmente não seria por muito mais tempo. Quem os tiver, não os guarde mais de dois ou três anos. Já foram vinhos caros (quando foram lançados cheguei a comprá-los por mais de 2000$ a garrafa), mas depois entraram na normalidade e agora conseguem-se comprar por cerca de 4 euros, o que é um excelente preço para a qualidade que costumam ter. Fazem parte das nossas escolhas permanentes.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Carmim (Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz)

Vinho: Aragonês 99 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Aragonês

Preço em feira de vinhos: 4,15 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Trincadeira 99 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Trincadeira

Preço em feira de vinhos: 3,88 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Prova à Quinta - O sétimo


Pera-Manca branco 2003; Periquita 2004

Para este desafio lançado em tempo oportuno pelo Vinho da Casa, para encontrar vinhos produzidos por casas com mais de 20 anos, resolvemos seleccionar dois vinhos, a exemplo do que já fizemos nos dois desafios anteriores, em que apresentámos 4 na prova de Cabernet Sauvignon e 2 na prova de brancos varietais. Escolhemos um branco e um tinto com tradição secular: o Pera-Manca e o Periquita.

No caso do Pera-Manca, estamos perante um dos vinhos brancos mais famosos (e caros) do país. Já existe desde o século XV e obteve medalhas de ouro em Bordéus nos já longínquos anos de 1897 e 1898. Contudo, andei anos (não desde o século XV...) para me decidir a comprá-lo por duvidar que valesse o elevado preço que custa, até pela minha desconfiança em relação aos brancos alentejanos, que já tive oportunidade de referir em mais que uma ocasião. Mas como a vida também é feita de alguns mitos, por vezes é preciso ir ao seu encontro para sabermos da razão ou não da sua existência. No caso dos vinhos trata-se, tão-somente e na maior parte dos casos, de abrir os cordões à bolsa.
Este foi comprado numa feira de vinhos em 2004 e ficou à espera de uma oportunidade que justificasse abri-lo. Foi num almoço de família à volta dum pargo assado no forno, tendo havido o cuidado de o refrescar de véspera, para garantir que à hora de bebê-lo não íamos encontrar um vinho meio morno.
Perante tão grande expectativa, o mínimo que posso dizer é que o vinho não defraudou. De facto, apresenta alguma elegância que é raro encontrar nos brancos alentejanos, sem deixar de fazer prevalecer um corpo com alguma pujança, um aroma frutado e complexo em equilíbrio com uma boa acidez, que resultam num fim de boca fresco e prolongado. Sem dúvida um vinho adequado para pratos de peixe elaborados, como o pargo ou o bacalhau no forno. Feito com 85% de Antão Vaz e 15% de Arinto, a sua boa estrutura e acidez permitem uma boa ligação com os sabores intensos e a gordura destes pratos. Como ainda não o tinha provado, não sei se mudou o perfil ou não, mas não é, seguramente, um vinho da moda.
Continuo, contudo, a ser mais fã de outro tipo de brancos, mas não rejeito a hipótese de voltar a este Pera-Manca, porque estes brancos também fazem falta. E também podemos deliciar-nos com a arte do rótulo, que é uma coisa rara. Como entretanto mudaram o rótulo, esta garrafa ficou como recordação.

No caso do Periquita, é apenas a marca de vinho mais antiga comercializada em Portugal, desde 1850, daí a razão da nossa escolha. Segundo a José Maria da Fonseca, é também o vinho tinto português mais vendido no estrangeiro. Também há algum tempo que não o consumia, mas o vinho modernizou-se um pouco, seguindo agora o perfil dos vinhos com muito álcool (embora sem exagero, apesar de tudo), com algum frutado. Na boca é medianamente encorpado com taninos suaves e bem integrados com um toque discreto de madeira e apresenta um fim prolongado, com bastante especiaria. É um vinho que pede pratos grelhados ou assados com algum condimento, embora sem exageros.
A garrafa também se modernizou, passando da tradicional borgonhesa que durante décadas marcou a imagem do vinho para a bordalesa que ostenta agora. Sendo agora um vinho mais moderno, não sei, contudo, se é melhor do que era. Se calhar tornou-se igual a muitos outros.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Pera-Manca 2003 (B)
Região: Alentejo (Évora)
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida - Adega da Cartuxa
Grau alcoólico: 14%
Castas: Antão Vaz, Arinto
Preço em feira de vinhos: 12,89 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Periquita 2004 (T)
Região: Terras do Sado
Produtor: José Maria da Fonseca
Grau alcoólico: 13%
Castas: Castelão, Aragonês, Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 3,29 €
Nota (0 a 10): 6

sexta-feira, 25 de maio de 2007

No meu copo 115 - Aragonês de São Miguel dos Descobridores 2005

Comprei este vinho porque o vi recomendado no catálogo da feira de vinhos do Continente de 2006 pelo Prof. Virgílio Loureiro, enólogo, professor no Instituto Superior de Agronomia e especialista em análise sensorial, e ainda consultor do Continente para a área de vinhos e responsável pelo clube de vinhos do mesmo.

Dizia ele no catálogo:
«Um autêntico “bombom”.
Vale a pena partir à descoberta deste Aragonês. Foi concebido para encantar quem o cheira pela primeira vez, apresentando um aroma delicioso e intenso. As notas aromáticas evidenciam a fruta vermelha sobremadura, as plantas silvestres e um abaunilhado cativante. Na boca, confirma tudo o que o aroma promete: é amplo, encorpado, muito aveludado, com uma acidez harmoniosa e um final aromático e ligeiramente adocicado, que convida a beber um pouco mais. Um autêntico “bombom”, que não precisa de comida por perto para animar uma conversa entre amigos. Muito bem feito!»


Depois de tão eloquente descrição, quem sou eu para acrescentar seja o que for? De facto, na primeira prova nota-se uma grande frescura, muito aroma e muita juventude, com a particularidade curiosa de apresentar uma espuma rosada escura ao ser servido no copo, por cima de uma cor retinta muito concentrada. Vai bem com pratos de carne bem temperados, pois com os mais leves pode sobrepor-se aos sabores da comida. Sem dúvida um produto a merecer uma nova prova.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Aragonês de São Miguel dos Descobridores 2005 (T)
Região: Alentejo (Redondo)
Produtor: Casa Agrícola Alexandre Relvas - Herdade de São Miguel
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Aragonês

Preço em feira de vinhos: 5,85 €
Nota (0 a 10): 7,5

terça-feira, 22 de maio de 2007

No meu copo 114 - Herdade do Pinheiro 2002

Iniciamos agora um pequeno périplo por alguns vinhos alentejanos que temos provado nos últimos tempos. Não existe um critério nem uma selecção ou ordem pré-determinada dos vinhos, apenas a ordem em que vamos escrevendo sobre alguns vinhos que nos passam pela mesa.
Começamos esta ronda por um Herdade do Pinheiro 2002. Foi a nossa primeira prova deste vinho, nascido no coração do Baixo Alentejo, em Ferreira do Alentejo, quase lá para a minha zona. Já tinha uma na garrafeira, mas num dos nossos repastos “dionisíacos”, de que qualquer dia daremos conta, o Politikos resolveu contribuir com esta.
Gostámos. É um vinho de cor rubi e aroma pronunciado a frutos vermelhos não muito maduros. Na boca mostra-se bastante cheio, com os taninos arredondados, um toque especiado e a dose certa de madeira, terminando com um fim de boca longo, daqueles que quase se mastigam. Acidez correcta e um grau alcoólico que permite apreciar os aromas sem os abafar. Parece ter estaleca para se bater com pratos de carne bem temperados. De notar que é feito com as duas castas mais emblemáticas do Alentejo, Aragonês e Trincadeira, bem secundadas pela Cabernet Sauvignon, aqui tão falada nos últimos dias, que também se dá muito bem na região. Sendo assim, tem tudo para dar certo desde que saibam tratar dele.
Em suma, para primeira abordagem agradou bastante, prometendo novas visitas. O preço de referência que temos é o da colheita de 2004, que o coloca num patamar médio-alto. Se as outras colheitas cumprirem o que esta prometeu, temos vinho para se impor. Parece-nos que não é apenas “mais um” no Alentejo, como tantos outros que temos encontrado.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Herdade do Pinheiro 2002 (T)
Região: Alentejo (Ferreira)
Produtor: Sociedade Agrícola Silvestre Ferreira
Grau alcoólico: 13%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon

Preço em feira de vinhos: 7,29 €
Nota (0 a 10): 7,5

quinta-feira, 26 de abril de 2007

No meu copo 109 - Quinta de São Francisco 2004

Em tempos havia vinhos conhecidos por aqui. Lembro-me dum bom branco da Casa das Gaeiras, que entretanto ficou meio esquecida e parece agora estar a querer renascer. A vulgarização dos vinhos da Estremadura há pouco mais de uma década criou uma imagem de falta de qualidade na região que só nos últimos anos, depois da instituição das Denominações de Origem Controlada, tem sido alterada, a começar por outras zonas, como Alenquer, e outros produtores, como a Quinta do Monte d’Oiro e a Quinta de Pancas, a resgatarem um prestígio que, na realidade, andou sempre muito por baixo, quando a Estremadura tinha talvez os piores vinhos do país. Agora têm aparecido outros produtores da região a ganhar algum protagonismo, entre os quais este, a Cooperativa Agrícola do Sanguinhal, com sede no Bombarral, que produz este vinho DOC Óbidos.
Há alguns meses tivemos oportunidade de fazer uma primeira abordagem a um vinho deste produtor, o Quinta do Sanguinhal de 98, que agradou bastante. Agora temos o Quinta de São Francisco de 2004, um vinho bastante mais jovem e frutado mas igualmente satisfatório. Tem uma boa cor rubi e alguma predominância de frutos vermelhos, sendo suave na prova mas com corpo e estrutura suficientes para fazer um bom fim de boca. Um vinho feito para agradar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta de São Francisco 2004 (T)
Região: Estremadura (Óbidos)
Produtor: Companhia Agrícola do Sanguinhal
Grau alcoólico: 13%
Castas: Aragonês, Castelão, Touriga Nacional

Preço em feira de vinhos: 4,85 €
Nota (0 a 10): 7


PS: prova de um Quinta de São Francisco 2000 no Saca a rolha

sexta-feira, 6 de abril de 2007

No meu copo 102 - Serras de Azeitão 2005


Foi este o vinho bebido na refeição descrita no post anterior. Produzido pela Bacalhôa Vinhos, é um vinho aberto, macio, com pouco corpo e ainda com muita juventude que lhe dá alguma frescura na prova, adequado para refeições mais simples. Com pratos de confecção complexa perde-se no meio de tantos sabores porque não tem estrutura nem aromas que possam enfrentar a riqueza daqueles pratos.

Sendo barato, posiciona-se no fundo da gama de vinhos da Bacalhôa. É um vinho simples e honesto, uma aposta para o dia-a-dia, sem pretensões a grandes voos e nesse patamar bebe-se bem, tanto assim que o incluímos nas nossas sugestões.

Bom para uns grelhados ao ar livre em tarde de sol, é o que o perfil deste vinho me traz à ideia. Provavelmente num dia de verão e ligeiramente refrescado.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Serras de Azeitão 2005 (T)
Região: Terras do Sado
Produtor: Bacalhôa Vinhos
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Aragonês, Syrah, Merlot

Preço em feira de vinhos: 2,35 €
Nota (0 a 10): 6

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

No meu copo 92 - Monte Judeu, Aragonês 2002

Há pouco mais de três anos desloquei-me em família para um almoço de aniversário ao restaurante “O Labrego”, na Feliteira, perto de Dois Portos (na zona de Torres Vedras). Este restaurante ainda há-de merecer uma apreciação mais detalhada aqui nas Krónikas Vinícolas depois duma visita que se espera para breve, mas por agora o que interessa referir é que ao escolher o vinho foi-nos apresentado pelo responsável um tal Monte Judeu de 2002, da Adega Cooperativa de Dois Portos, da casta Aragonês.
Comecei por torcer o nariz porque os vinhos que conhecia da zona de Torres Vedras eram dos piores que já tinha bebido, mas como nos foi dito que o referido vinho tinha sido premiado resolvemos arriscar. O almoço era cabrito no forno com arroz de miúdos (divinal, por sinal) e pedia um vinho bem encorpado e com alguma robustez, e a casta Aragonês parecia ser uma garantia de qualidade que poderia também fornecer essas características.
O resultado foi mais uma surpresa pela positiva. Apareceu-nos um vinho cheio de pujança, com bastante corpo a envolver o conjunto e com os taninos bem vivos a marcar uma adstringência final, associados a um certo carácter apimentado típico da casta. Sem dúvida, um vinho ainda por domar, pois tinha apenas um ano de existência, a precisar de algum tempo de garrafa.
Perante tão surpreendente revelação, no final adquirimos duas garrafas para levar para casa, cabendo-me ficar com uma que agora abri. Passaram três anos e agora o vinho apresentou-se muito mais macio, os taninos já quase não se notam, bebe-se com muito mais facilidade. Curiosamente, no entanto... fiquei com saudades do que tinha bebido há 3 anos. Aquela agressividade que tinha enquanto novo e que entretanto perdeu parecia, afinal, ser a própria alma do vinho. Acho que esperei tempo demais para ver como ele evoluiu. Tornou-se um vinho diferente que ganhou em suavidade o que perdeu em juventude e pujança. Como entretanto adquiri um exemplar de 2003, vou tratar de bebê-lo rapidamente para ver se ainda o apanho em plena força.
A conclusão que tiro desta experiência é que vale a pena bebê-lo novo para lhe apreciar toda a vivacidade que o afasta da vulgaridade.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Monte Judeu, Aragonês 2002 (T)
Região: Estremadura (Torres Vedras)
Produtor: Adega Cooperativa de Dois Portos
Grau alcoólico: 13%
Casta: Aragonês

Preço: cerca de 9 €
Nota (0 a 10): 7,5

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

No meu copo 90 - Pinheiro da Cruz


O primeiro contacto que tive com este vinho foi na já longínqua colheita de 1991, então através duma amiga que tinha contactos com alguém que adquiriu a garrafa directamente na produção. Tinha um carimbo no rótulo com o ano de colheita e a indicação original no brasão de que provinha da prisão de Pinheiro da Cruz, ali para os lados de Grândola e Melides.
Era um vinho surpreendente, com um perfil um pouco rústico, cheio de corpo e robustez, daqueles vinhos que se “mastigam” e nunca mais acabam. Rapidamente se revelou apropriado para se bater com pratos bem fortes e condimentados, e ao longo dos anos tive oportunidade de comprar e beber algumas vezes em restaurantes. Uma das melhores combinações que encontrei foi com um arroz de lebre muito condimentado, malandrinho e com um molho muito espesso que comia no Barrote Atiçado, na Pontinha, às portas de Lisboa (que entretanto mudou de nome para António do Barrote e de local para o Parque Colombo, em Carnide). “Aquele” Pinheiro da Cruz era perfeito para a pujança daquele prato.
Nessa altura era quase uma raridade e difícil de comprar fora da própria prisão, embora o Pingo Doce tivesse desde logo lançado a colheita de 1992 numa das suas feiras. Também por isso era caro quando aparecia. O exemplar de 1997 que aqui vos apresentamos foi um de 3 exemplares adquiridos por 2775$ (13,84 €) na feira de vinhos do Continente de 1999. Em 2005, no Corte Inglês, uma garrafa de 2002 custou 12,95 €.
Com a instauração de uma série de novas regiões vitivinícolas de norte a sul, nomeadamente a criação das DOC Alentejo, Ribatejo e Estremadura e ainda os vinhos regionais, o Pinheiro da Cruz, que entretanto alargara a produção, deixou de ser vinho de mesa como era originalmente e pretendeu também ser classificado com uma denominação de origem. Tinha todas as características do vinho alentejano, mas surpreendentemente começou a aparecer como Vinho Regional Terras do Sado a partir da colheita de 98. O rótulo estilizou-se, passou a haver informação no contra-rótulo e a indicação das castas utilizadas. E, para satisfazer as exigências da denominação de origem (certamente a burocracia impediu que fosse classificado como vinho alentejano), descaracterizou-se. A primeira colheita com o novo rótulo mostrou um vinho muito mais aberto e frutado que os anteriores, deixando de ser aquele vinho poderoso que fora até aí. Em suma, acabou por vulgarizar-se.
Deve ter sido também devido a isso que foi possível aumentar significativamente a produção e encontrá-lo agora à venda a uns módicos 6,44 € na feira de vinhos da Makro. É mais acessível, mas eu preferia o perfil antigo e mais caro.
Nos últimos meses fui à garrafeira buscar os exemplares que lá tinha, de 97, 99 e 2003. O primeiro e o último foram bebidos no recente jantar de javali com a “cambada”. O de 97 foi decantado com todos os cuidados para evitar a passagem de borras para os copos e para lhe dar tempo de respirar. Revelou-se ainda em excelente forma, a fazer lembrar os mais antigos, embora com esta idade tivesse já perdido a pujança inicial, mas ainda se bateu excelentemente com o javali. Já o de 2003, mais frutado e leve e sem aquela robustez anterior, ainda assim aguentou-se no balanço. Quanto à colheita de 99, bebida há algum tempo a acompanhar uma lebre, já não tinha a frescura inicial mas aproximava-se mais das características do de 97 e também se bateu bem com a caça.
Curioso é ver a informação do contra-rótulo, de que apresentamos aqui o de 2003 (clique na imagem para ampliar). O de 99 era composto pelas castas Periquita, Trincadeira, Alicante Bouschet e Aragonês, mas ao de 2003 ainda foram acrescentadas a Syrah e a Cabernet Sauvignon, ou seja, estamos perante as castas da moda para fazer um vinho que acompanhe a moda. Mais curioso ainda é observar a evolução do grau alcoólico de colheita para colheita: de 12,5% em 1997 para 13% em 1999 e 14% em 2003, a seguir a tendência da moda.
De realçar que deste último contra-rótulo desapareceu a frase assassina “A sua alma nasce do sentimento que os reclusos põem neste trabalho que os liberta”. Que o trabalho liberta era a frase que esperava os presos à entrada do campo da morte de Auschwitz. Há ideias que nunca se deviam ter.
Enfim, o Pinheiro da Cruz já não é aquele vinho que nos surpreende no primeiro impacto, mas ainda assim continuamos a achar que vale a pena tê-lo na garrafeira. Até porque agora se tornou bem mais acessível.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Pinheiro da Cruz 97 (T)
Região: Vinho de mesa
Produtor: Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz
Grau alcoólico: 12,5%
Preço em feira de vinhos: 2775$
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Pinheiro da Cruz 99 (T)
Região: Terras do Sado (Grândola)
Produtor: Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz
Grau alcoólico: 13%
Preço: cerca de 12 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Pinheiro da Cruz 2003 (T)
Região: Terras do Sado (Grândola)
Produtor: Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz
Grau alcoólico: 14%
Castas: Castelão, Trincadeira, Alicante Bouschet, Aragonês, Syrah, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 6,44 €
Nota (0 a 10): 7