

É longe. Se formos daqui do sul não iremos lá de propósito, certamente, mas se por lá andarmos a cirandar vale a pena adentrar a sua porta.
O interior já não é o que era. Ainda bem. Apesar de algumas coisas boas se terem perdido, o que se ganhou em qualidade de vida supera as desvantagens. Houvesse por esses lados mais possibilidades de emprego e mais variadas e a população não se acotovelaria certamente no litoral.
Um dos sítios que tem evoluído bastante é Trancoso, não só administrativamente (passou de vila a cidade) como também ao nível do tecido da localidade. Em contraponto às vetustas pensões de outrora (algumas ainda por lá continuam), conta agora com um moderno hotel de 4 estrelas, o que permite pensar noutros voos ao nível do turismo.
Trancoso, apesar da evolução que tem sofrido, mantém o casco histórico quase intocado, protegido por um castelo cuja muralha externa está praticamente intacta, encerrando a parte histórica da cidade dentro das suas paredes. Apesar de ser cidade, Trancoso faz parte do roteiro das aldeias históricas. E faz muito bem, direi eu, apesar da aparente contradição.
Mas, quando falei em porta, não me referia às da cidade, mas sim às de um restaurante, causa desta crónica. Inaugurado há cerca de 5 anos, o Área Benta fica bem dentro da área histórica, escondido numa rua estreita no sopé da encosta do castelo. Para lá chegar o mais simples será entrar pela famosa Porta Del Rei e cruzar em toda a sua extensão a rua da Corredoura que se lhe segue. Desembocados no grande largo interior veremos o pelourinho à direita. Dando a nossa direita ao monumento embocaremos por uma curta rua entalada entre o antigo edifício do Grémio da Lavoura, de fachada recuada por trás de arcos e hoje residência para estudantes, e a igreja de São Pedro, onde jazem os restos do profeta e sapateiro Bandarra, filho dos mais conhecidos da terra.
Voltando à esquerda depararemos quase imediatamente com a placa do restaurante, alojado num bem antigo edifício em granito, completamente remodelado no interior.
Mas vamos ao que interessa. Dispensando o bar que fica no piso térreo, subindo as escadas encontrar-nos-emos na sala de refeições, dividida em duas metades desiguais pelas referidas escadas. A decoração é eficaz e simples, os talheres não dobram e os guardanapos são de pano. O tecto falso em madeira também nos concede um ar condicionado silencioso e funcional, porque no Verão estas paragens são bem quentes.
As entradas costumam incluir os enchidos tradicionais da região – morcela da Guarda, farinheira, chouriça -, bem como algumas saladinhas (polvo, orelha de porco) e afins (moelas guisadas, mexilhões), que habitualmente não desmerecem.
Para pratos principais escolheram-se o bacalhau à Avó Lurdinhas – filete do gadídeo sem espinhas, enterrado numa mistura espessa em que a cebola quase picada domina e acolitado por batata cozida – e a posta de vitela à Área Benta, frita no ponto e coberta por uma fatia de queijo da Serra derretido, acompanhada por batata cortada em pedaços pequenos (como para a salada russa), primeiro cozida e depois levemente salteada com salsa. Não provei o bacalhau, mas quem o deglutiu não torceu o nariz. Pela vitela posso eu ser o defensor, porque estava óptima, e as tais batatinhas a ela se ligaram bem, fazendo esquecer o duo habitual da batata frita e do arroz branco.
Para beber escolheu-se algo que não nos deixaria ficar mal: um João Portugal Ramos – Trincadeira, de 2003, que obviamente se portou à altura e saiu quase todo connosco do restaurante.
Para fim de refeição, além do melão da região experimentou-se o tradicional requeijão com doce de abóbora. O doce estava bom, mas esta não é a melhor altura para comer requeijão.
Ainda se cobriu o estômago com o bendito café e uma aguardente C.R.F., porque não se ia conduzir a seguir.
Este é um restaurante a que, ao longo da sua vida de meia década, já visitei umas quantas vezes. Teve uma fase mais fraca há cerca de 3 anos, mas pelo que me foi dado ver (mais comer, mas enfim) recuperou bem. O serviço é simpático, com os donos incluídos também no serviço de mesa, e não se espera demasiado.
É bom ter sítios destes na dita província, que não desmereceriam se se situassem em Lisboa ou no Porto. É assim que também se desenvolve o país.
tuguinho, enófilo esforçado
Restaurante: Área Benta
Rua dos Cavaleiros, 30A
6420-040 Trancoso
Telef: 271.817.180
Web: www.areabenta.pt
Preço médio por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4
sexta-feira, 18 de agosto de 2006
Na minha mesa 57 - Área Benta (Trancoso)
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Etiquetas: Beira Alta, Restaurantes
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 6
No meu copo, na minha mesa 45 - Paço dos Cunhas de Santar 2004; O Cortiço 

Na parte final da viagem, um local que desde o início foi definido como paragem obrigatória. Referenciado por pessoas amigas e por todos os guias de restaurantes, rumámos a Viseu para visitar o Cortiço. Fica situado no centro histórico da cidade, numa rua estreita que sai da praça onde está a estátua de D. Duarte.
Telefonou-se a reservar mesa, e ainda bem, porque à hora marcada para o jantar (20 h) a sala não está cheia mas começa rapidamente a ficar lotada, porque o espaço não é muito amplo, e facilmente nos apercebemos de que a procura é grande. Nas paredes, decoradas de forma a puxar para o rústico, algumas fotografias de visitantes conhecidos e, sobretudo, recortes e escritos de gente que por lá passou. Percorrendo algumas encontramos assinaturas do grupo Vozes da Rádio, dos UHF, do Rio Grande, para citar apenas alguns. Há até uns versos de Jorge Palma com muita graça.
Sob a supervisão sisuda do que parece ser o gerente da casa, uma equipa de empregados de mesa jovens atende de forma solícita e eficiente. Comenta-se que aqueles rapazes parecem ter feito uma formação em hotelaria, porque cumprem todos os preceitos de quem está devidamente instruído, longe do amadorismo que se vê por aí.
A oferta é vasta, o que dificulta a escolha. Pedimos conselho ao jovem que vem à mesa, acabando por optar por meia-dose de coelho bêbado estufado e meia-dose de vitela assada, porque as doses são generosas. Vieram acompanhadas pelas tradicionais batatinhas assadas além de legumes salteados. O coelho estava delicioso, com um molho espesso que fazia lembrar o do javali do Vallecula, enquanto a vitela, em fatias, era extremamente tenra e também com um molho apetitoso.
Para sobremesa um doce também referenciado na casa: o doce das formigas, que actualmente tem réplicas conhecidas em todo o país. É o doce em camadas com leite-creme, bolacha e natas, com granulado de chocolate por cima. Mas este estava mais cremoso do que é habitual.
Para regar tão requintada refeição, um vinho do Dão como se impunha na região. Provou-se primeiro um pequeno jarro de vinho da casa, que não agradou por ser muito agreste. Pediu-se então meia garrafa de Paço dos Cunhas de Santar, de 2004, que revelou a elegância e suavidade tão características dos bons vinhos do Dão. Não é o melhor que já bebemos, mas faz jus a uma qualidade média que não envergonha ninguém. O preço também não foi exorbitante para a bitola habitual em restaurantes: 6 €.
Ponderados todos os parâmetros de avaliação, ficamos indecisos acerca da nota que havemos de dar. Não há defeitos a apontar em nenhum item, mas ainda temos na memória o jantar memorável do Vallecula, pelo que parece inevitável tirar uns pozinhos a este. Foi excelente, mas não tão exuberante, pelo que vamos dar-lhe meio ponto a menos. Mas é, sem dúvida, um local a voltar quando se passar por Viseu.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: O Cortiço
Rua Augusto Hilário, 45
3500-089 Viseu
Telef: 232.423.211
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4,5
Vinho: Paço dos Cunhas de Santar 2004 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola
Grau alcoólico: 13%
Preço em restaurante: 6 €
Nota (0 a 10): 7
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Krónikas Vinícolas
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Etiquetas: Alfrocheiro, Beira Alta, Dao, Dao Sul, Restaurantes, Tinta Roriz, Tintos, Touriga Nacional, Viagens
