Álvaro Castro é um dos produtores com maior prestígio na região demarcada do Dão. Sedeado em Pinhanços, no distrito da Guarda, a meio caminho entre Seia e Gouveia, há mais de uma década que os vinhos de Álvaro Castro se têm vindo a impor no panorama nacional sobretudo pelas marcas Quinta de Saes e Quinta da Pellada. Nas últimas feiras de vinhos surgiu no Continente um vinho de 2004 com a marca do produtor, sem mais referências adicionais. As Krónikas Vinícolas apostaram no produto simplesmente por causa do nome do produtor.
No fim-de-semana do Carnaval tive oportunidade de abrir uma delas num almoço no Alentejo, para acompanhar uma açorda de perdiz, seguida de um robalo escalado na brasa (a garrafa já estava aberta, por isso não valia a pena mudar) e por fim o resto da perdiz frita. A impressão foi excelente. Apresentou uma cor granada muito concentrada, fugindo aos padrões típicos da região, desenvolvendo aromas secundários algum tempo depois de estar no copo, com aroma pronunciado a frutos vermelhos e uma acidez muito equilibrada com álcool em dose moderada. Mas para além duma boa concentração de corpo apresentou aquela elegância típica dos vinhos do Dão, que dificilmente qualquer outra região conseguirá igualar. Revelou-se um daqueles vinhos que quanto mais se bebe mais apetece beber.
Seguramente será uma das melhores apostas deste produtor. Aproveitando o facto de ter decorrido a feira de queijos, enchidos e vinhos do Continente onde estava disponível a colheita de 2005, aproveitei para ir lá adquirir mais uma garrafa, até porque o preço não é excessivo. Sem dúvida um grande vinho. Teve entrada directa nas nossas sugestões.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Álvaro Castro 2004 (T)
Região: Dão
Produtor: Álvaro Castro
Grau alcoólico: 13%
Preço em feira de vinhos: 6,85 €
Nota (0 a 10): 8,5
sexta-feira, 2 de março de 2007
No meu copo 93 - Dão Álvaro Castro 2004
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Krónikas Vinícolas
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sábado, 13 de janeiro de 2007
I Encontro de Eno-blogs - O evento
E esta noite deu-se o grande acontecimento. Na York House, às Janelas Verdes, encontraram-se os autores de vários blogs vinícolas mais respectivos convidados e alguns independentes que se quiseram associar à iniciativa (e muito bem), o que proporcionou momentos de animado convívio e trocas de opiniões, a prova de algumas boas pingas e um jantar repleto de deliciosas iguarias.
Se não me falham as contas, registámos a presença do Copo de 3, do Saca-a-rolha, de Os vinhos, do Vinho a copo, além do promotor da iniciativa, o Pingas no Copo e os independentes Chapim, AJS, Pedro Sousa (PT) e Chicão (peço desculpa se me faltou alguém, mas no primeiro encontro é difícil fixar os nomes e as caras de toda a gente e associá-los desde logo aos pseudónimos usados nos blogs). O comparsa madeirense do Elixir de Baco também quis associar-se através de duas garrafitas de Verdelho da Madeira, que marcharam logo na prova, provocando algumas opiniões divergentes devido à discrepância entre o agrado da prova de boca e o seu final quase instantâneo. Mas valeu a pena a prova. Uma saúde para ti, companheiro. E que a próxima nos permita contar com a tua presença.
As Krónikas Vinícolas fizeram-se representar em peso, pois levaram 3 convidados que participam habitualmente nos repastos do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os Comensais Dionisíacos” (entre eles o Politikos, do Polis&Etc), pelo que, juntamente com o Vinho a Copo, fomos o blog mais representado.
No meio de tantos vinhos degustados antes e durante o jantar, como não tirámos notas é difícil sistematizar tudo o que foi provado, mas salvaguardados os diferentes gostos e preferências de cada um, para mim houve um claro vencedor da noite: o Hexagon, da José Maria da Fonseca, numa garrafa de litro e meio, que me encheu as medidas mais que qualquer outro (devo dizer que esta opinião não é sequer unânime entre o grupo das Krónikas Vinícolas, é puramente pessoal). Grande corpo, grande estrutura, excelente exuberância aromática, este topo de gama criado, como sempre, sob a batuta de Domingos Soares Franco, que deve ter um preço proibitivo aí no mercado. Não me lembro quem levou o vinho, mas em boa hora o fez e tiro-lhe o meu chapéu.
Do lado contrário, a decepção da noite foi um Dão Casa de Santar Tinto Superior, de 2001. Dado o patamar de qualidade a que esta casa nos habituou, esperava-se que este Tinto Superior, que suponho estar situado num patamar acima do Reserva (que já é um vinho de superior qualidade), estivesse próximo do sublime, mas afinal acabou por revelar-se vulgar, sem encantar, ao que me pareceu, nenhum dos presentes. O meu comentário na hora foi que lhe faltava corpo... e alma, e está tudo dito.
No final da refeição houve dois vinhos do Porto para comparar, um Colheita de 91 (da Niepoort) e um LBV (da Warre's), e o meu veredicto é... X. Gostei de ambos, cada um com o seu perfil., embora não sejam comparáveis, mas não consigo pender para qualquer dos lados. Para mais pormenores, aconselho a leitura dos outros blogs presentes, onde certamente haverá uma descrição mais detalhada das muitas provas realizadas.
Quanto ao repasto, a entrada de folhado de pato estava saborosíssima, os filetes de linguado excelentes (marcharam enquanto o diabo esfrega um olho), e as presas de porco (que substituíram as costeletas de borrego devido a imponderáveis de última hora) também se comeram bem, embora fossem o prato mais vulgar dos três. Também a tarte estava muito boa, com um gelado e um toque de canela bastante agradáveis.
No final de tudo, o regresso processou-se de táxi, tal como a ida, para não arriscar, mas afinal não estávamos tão afectados como seria de supor, pois bebeu-se com moderação e sem exageros. Afinal, somos todos amantes dos néctares de Baco mas não alcoólicos.
Só me resta agradecer ao anfitrião da York House, José Tomaz de Mello Breyner, pela disponibilidade demonstrada para acolher esta iniciativa, ao Pingus Vinicus por ter dinamizado a coisa e concentrado a informação para os preparativos do acto, e a todos os comparsas que escrevem, lêem e comentam os nossos blogs, e que tive o prazer de conhecer neste encontro e com os quais troquei opiniões bastante interessantes, enriquecendo mais um pouco os meus conhecimentos sobre este mundo tão fascinante que é o do vinho. Faço votos para que esta tenha sido apenas a primeira de muitas iniciativas do género que se repitam pelo tempo fora. Um brinde a vocês todos.
À nossa!
Kroniketas, enófilo esclarecido e ainda sóbrio
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sábado, 18 de novembro de 2006
No meu copo 68 - Dão Meia Encosta 2001
Um dia destes ao almoço resolvi pedir meia garrafa de vinho para acompanhar uns escalopes de vitela com cogumelos. Claro que as opções de meias garrafas são sempre escassíssimas, pelo que não há muito por onde escolher. Como já não o bebia há muito tempo, resolvi experimentar o Dão Meia Encosta, para ver como estava. Por acaso foi um dos primeiros vinhos que provei quando me iniciei nestas lides do vinho, ainda de forma muito incipiente, e foi dos primeiros a agradar-me.
Pois voltou a não me decepcionar. Tem aquela suavidade inigualável nos vinhos do Dão e que hoje tanto vai rareando. Ainda é um vinho elegante, que se bebe com agrado, sem ter toda aquela carga de fruta, álcool e acidez que molda o perfil dos vinhos actuais. É um vinho aberto, de corpo médio, frutado quanto baste, aroma discreto e acidez correcta. Este exemplar era de 2001, mas revelou ainda frescura e juventude, o que é outra qualidade que aprecio nos vinhos do Dão, que aguentam bastante bem a idade. Num vinho alentejano, por exemplo, 5 anos nalguns casos pode já ser demais.
Curiosamente, evoluiu favoravelmente no copo ao longo da refeição, chegando ao fim com uma maior evidência dos taninos, mostrando alguma garra que inicialmente parece não existir. Em todo o caso, aconselha-se para acompanhar pratos delicados e não excessivamente temperados.
É um vinho que sem brilhar também não deslustra. Nada parece ter sido deixado ao acaso, está tudo no sítio certo. Para o dia-a-dia é uma aposta simpática e, principalmente nos tempos que correm, uma excelente alternativa aos vinhos hiper-alcoólicos e super-encorpados da moda. E pasme-se, tem só 12 graus de álcool! Tivesse-o eu provado antes do Cister da Ribeira, e a minha prova à quinta teria corrido bem melhor. Dentro deste patamar pode ser considerado um valor seguro, pelo que o incluímos nas nossas escolhas.
Kroinketas, enófilo esclarecido
Vinho: Meia Encosta 2001 (T)
Região: Dão
Produtor: Sociedade dos Vinhos Borges
Grau alcoólico: 12%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 2,20 €
Nota (0 a 10): 6,5
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sábado, 28 de outubro de 2006
No meu copo 63 - Quinta de Cabriz, Experiência VL-1 1999

Odeio pargo! Convém especificar que é apenas quando cozido, porque adoro um bom pargo legítimo assado no forno! E foi precisamente esse o prato que acompanhou o vinho de que aqui vou falar. Bem assadinho, coberto de cebola às rodelas e com batatinhas aos cubos bem embebidas no molho que, como não podia deixar de ser, também leva vinho.
Esta experiência da Quinta do Cabriz foi uma espécie de vinho em sentido contrário ao que se devia fazer. Como diz no contra-rótulo: “Em vez de mosto de gota usámos mosto de prensa; em vez de corrigir a acidez optámos por manter o desequilíbrio dos ácidos; em vez de fermentar abaixo de 20°, fermentou bem acima; em vez de 3 meses de madeira, teve exactamente um ano! É um vinho difícil, mas estimula-nos os sentidos.” - Virgílio Loureiro, o seu criador, dixit!*
Esta garrafa foi-me oferecida pelo Continente (Obrigado Doutor Belmiro! E ainda dizem que é forreta, veja lá!), no âmbito do seu Clube de Vinhos, já nos idos de 2002. A cor era dourada, a denunciar o prolongado contacto com a madeira. O aroma era discreto e não muito atractivo, mas sem odores estranhos, bastante limpo.
Na boca revelou-se excelente, com os 13 graus de álcool discretos e elegantemente casados com a madeira, também ela nada impositiva. Um fim de boca que muitos tintos não possuem concluiu as manifestações deste bom vinho nos meus sentidos.
É actuando assim que se evita que todos os vinhos fiquem iguais. Podem não se conquistar os clientes que procuram sempre o mesmo, mas de certeza que se vão ganhar outros que se tornarão fiéis.
A moda por vezes pode ser uma ditadura. E as ditaduras têm de ser contrariadas. Quase sempre dá bons resultados.
tuguinho, enófilo esforçado
Vinho: Quinta do Cabriz Experiência VL-1 1999 (B)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola - Quinta de Cabriz
Grau alcoólico: 13%
Preço: não foi comercializado
Nota (0 a 10): 7
* Virgílio Loureiro é um dos enólogos mais reputados do país. Professor no ISA, doutorado em Microbiologia Alimentar e especialista em Análise Sensorial, tem uma paixão pelo Dão, donde é originário, e pelos vinhos brancos, de que resulta esta experiência que baptizou com as suas iniciais. Colabora no Clube de Vinhos do Continente e na selecção dos vinhos para a Feira de Vinhos.
sábado, 14 de outubro de 2006
No meu copo 61 - Dão Grão Vasco 2003
Devo dizer que este vinho nunca me agradou. Toda a regra tem excepção e, neste caso, acho que é a excepção à qualidade aqui abundantemente elogiada dos vinhos da Sogrape.
Há uns meses tive a oportunidade de experimentar o novo Grão Vasco do Alentejo, que não deslustrou, mas este clássico do Dão, definitivamente, não me consegue convencer. Recentemente bebido em restaurante, continua a pecar pelo mesmo que sempre lhe achei, ou seja, um vinho com alguma falta de aroma, um pouco “chato”, daqueles vinhos com sabor quase neutro.
Posiciona-se na gama média/baixa, é um daqueles vinhos de “combate”, para o dia-a-dia, mas tanto a Sogrape tem vinhos melhores na gama como no Dão há vinhos muito melhores para o mesmo nível de preços. Por exemplo, o Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada, que custa mais ou menos o mesmo e é bem melhor.
Definitivamente, acho que é das apostas menos conseguidas da Sogrape.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Grão Vasco 2003 (T)
Região: Dão
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Jaen, Alfrocheiro, Tinta Pinheira, Touriga Nacional, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 2,78 €
Nota (0 a 10): 5
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Etiquetas: Alfrocheiro, Carvalhais, Dao, Jaen, Sogrape, Tinta Pinheira, Tinta Roriz, Tintos, Touriga Nacional
terça-feira, 10 de outubro de 2006
No meu copo 60 - Porta dos Cavaleiros, Reserva Seleccionada 1975
O jogo da selecção foi o pretexto, porque o objectivo primeiro era mesmo apreciar alguns néctares do senhor Baco. Foi com isto em mente que o núcleo duro dos Comensais Dionisíacos, conjugado com o não menos duro Politikos do blog Polis & Etc., se reuniram à mesa na casa de um dos membros eméritos deste grupo gastrónomo-etilista, para enfrentarem umas costeletas de novilho grelhadas, acolitadas por tiras de entremeada no banco dos suplentes.
Para a parte líquida fora escolhida uma vetusta botelha de litro e meio, uma Magnum, de um vinho do Dão feito à moda antiga, quando os imbecis dos yupies e outros urbanóides da treta ainda não tinham imposto a lei do vinho novinho e frutado para palatos normalizados. Rezava no rótulo que fora produzido pelas Caves São João, se chamava Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada, e que as uvas donde provinha o dito cujo tinham sido colhidas no já distante Verão de 1975!
Foi com um misto de receio e reverência que se procedeu ao ritual do descasque do lacre, do sacar da rolha (que já não estava nos melhores dos seus dias) e da primeira snifadela ao conteúdo. De dentro da garrafa não saíam odores estranhos, apenas aromas normais num vinho, o que nos deu redobradas esperanças de que dali não sairia vinagre. O vinho foi decantado, mas não totalmente, porque a garrafa era magnum e o decantador não, mas a cor que mostrava era retinta e não a cor de tijolo de possível má evolução.
Deitou-se um pouco em cada um dos quatro copos, foi-se cheirando e, embora não fosse exuberante de aroma (e poderia um vinho de mesa com esta idade sê-lo?), a primeira prova deixou quatro maxilares inferiores (vulgo queixos) derrubados sobre a mesa, feitos cair pelo espanto (ficámos portanto de queixo caído)!
Esperávamos um vinho aceitável, por não mostrar sinais de má saúde, e saiu-nos uma coisa espantosa, com um sabor complexo, um corpo elegante mas com estrutura e uma vivacidade que nos remetia para uma colheita bem mais próxima do que a do Verão quente de 1975. E, como era de esperar, a coisa foi melhorando à medida que o vinho jazia nos copos, desdobrando novos odores e fazendo desaparecer o ligeiríssimo sabor a mofo que ainda mantinha no início (não se espante – se o leitor ficasse fechado durante 31 anos numa garrafa garanto-lhe que cheiraria pior!).
Provavelmente este vinho deve ter sido imbebível nos primeiros cinco anos, mas se assim não fosse duvido que se tivesse chegado a estes resultados – às vezes saber esperar é mesmo uma virtude. Rapidamente o que ainda se encontrava na garrafa foi decantado e bebido com o mesmo prazer. É que surpresas agradáveis como esta não são vulgares, como aliás é apanágio das coisas realmente boas.
Quando finalmente se finou, passámos para um Dão Pipas de 1983, para continuarmos nos vinhos velhos, sabendo de antemão que seria difícil igualar o desempenho do primeiro vinho. E realmente também este estava muito bem, sem problemas de evolução, mas não conseguia atingir a elegância nem a complexidade aromática do Porta dos Cavaleiros de 1975.
Assim em jeito de conclusão, apraz-me dizer que, no caso vertente, concordo inteiramente com o glosado provérbio popular: velhos são os trapos!
tuguinho, enófilo embevecido
Vinho: Porta dos Cavaleiros - Reserva Seleccionada 1975 (T) (garrafa Magnum)
Região: Dão
Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 12%
Preço (no Pingo Doce em 1998): 8995$
Nota (0 a 10): 10
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segunda-feira, 22 de maio de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 6
No meu copo, na minha mesa 45 - Paço dos Cunhas de Santar 2004; O Cortiço 

Na parte final da viagem, um local que desde o início foi definido como paragem obrigatória. Referenciado por pessoas amigas e por todos os guias de restaurantes, rumámos a Viseu para visitar o Cortiço. Fica situado no centro histórico da cidade, numa rua estreita que sai da praça onde está a estátua de D. Duarte.
Telefonou-se a reservar mesa, e ainda bem, porque à hora marcada para o jantar (20 h) a sala não está cheia mas começa rapidamente a ficar lotada, porque o espaço não é muito amplo, e facilmente nos apercebemos de que a procura é grande. Nas paredes, decoradas de forma a puxar para o rústico, algumas fotografias de visitantes conhecidos e, sobretudo, recortes e escritos de gente que por lá passou. Percorrendo algumas encontramos assinaturas do grupo Vozes da Rádio, dos UHF, do Rio Grande, para citar apenas alguns. Há até uns versos de Jorge Palma com muita graça.
Sob a supervisão sisuda do que parece ser o gerente da casa, uma equipa de empregados de mesa jovens atende de forma solícita e eficiente. Comenta-se que aqueles rapazes parecem ter feito uma formação em hotelaria, porque cumprem todos os preceitos de quem está devidamente instruído, longe do amadorismo que se vê por aí.
A oferta é vasta, o que dificulta a escolha. Pedimos conselho ao jovem que vem à mesa, acabando por optar por meia-dose de coelho bêbado estufado e meia-dose de vitela assada, porque as doses são generosas. Vieram acompanhadas pelas tradicionais batatinhas assadas além de legumes salteados. O coelho estava delicioso, com um molho espesso que fazia lembrar o do javali do Vallecula, enquanto a vitela, em fatias, era extremamente tenra e também com um molho apetitoso.
Para sobremesa um doce também referenciado na casa: o doce das formigas, que actualmente tem réplicas conhecidas em todo o país. É o doce em camadas com leite-creme, bolacha e natas, com granulado de chocolate por cima. Mas este estava mais cremoso do que é habitual.
Para regar tão requintada refeição, um vinho do Dão como se impunha na região. Provou-se primeiro um pequeno jarro de vinho da casa, que não agradou por ser muito agreste. Pediu-se então meia garrafa de Paço dos Cunhas de Santar, de 2004, que revelou a elegância e suavidade tão características dos bons vinhos do Dão. Não é o melhor que já bebemos, mas faz jus a uma qualidade média que não envergonha ninguém. O preço também não foi exorbitante para a bitola habitual em restaurantes: 6 €.
Ponderados todos os parâmetros de avaliação, ficamos indecisos acerca da nota que havemos de dar. Não há defeitos a apontar em nenhum item, mas ainda temos na memória o jantar memorável do Vallecula, pelo que parece inevitável tirar uns pozinhos a este. Foi excelente, mas não tão exuberante, pelo que vamos dar-lhe meio ponto a menos. Mas é, sem dúvida, um local a voltar quando se passar por Viseu.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: O Cortiço
Rua Augusto Hilário, 45
3500-089 Viseu
Telef: 232.423.211
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4,5
Vinho: Paço dos Cunhas de Santar 2004 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola
Grau alcoólico: 13%
Preço em restaurante: 6 €
Nota (0 a 10): 7
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sexta-feira, 28 de abril de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 2
Na minha mesa, no meu copo 41 - Vallecula; Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada 2003, Quinta de Saes 2003


Algures no sopé da Serra da Estrela, entre a Covilhã, Guarda e Manteigas, existe um local paradisíaco onde corre o Zêzere e onde o tempo parece não passar. Chama-se Valhelhas e é daqueles locais onde se consegue ouvir o silêncio, os pássaros, o rio... E existe ali, naquele local recôndito, um restaurante de nome Vallecula, numa casa feita em pedra.
Só de propósito é que alguém lá vai parar, mas vale bem a viagem. Uma sala que alberga umas 30 pessoas, um único funcionário (que por sinal é o dono) a atender os clientes e a dar conselhos. Ele mostra a lista mas explica o que há. Para comilões e em especial amantes de carne, é um maná.
Javali de montaria na carqueja, filete de vitela, borrego grelhado, peixinhos do rio para entrada, queijo fresco de cabra, alheira de caça, arroz doce com leite de cabra, cocktail de frutos secos, as iguarias são de fazer crescer água na boca, do princípio ao fim da refeição. Os comensais renderam-se a um magnífico prato de borrego, grelhado no ponto ainda rosado, tenro de quase se desfazer na boca, e um não menos magnífico javali estufado com molho espesso que parecia sempre pouco no prato. Tudo acompanhado por arroz e umas excelentes migas e não menos excelente esparregado. Nas sobremesas o arroz doce fez sucesso, assim como o cocktail de frutos secos.
Os vinhos listados são exclusivamente da região da Serra da Estrela, fazendo jus à característica de restaurante regional. Dão e Cova da Beira estão bem representados numa lista com cerca de 60 nomes. Infelizmente um dos vinhos pedidos não existia, pelo que optou-se primeiro por um Dão Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada, que cumpriu o seu papel dentro daquilo que se esperava: é um vinho fácil de beber, aberto e macio, com uma bela cor rubi característica dos tintos do Dão, e que acompanha bem praticamente todos os pratos de carne. Em seguida pediu-se um Quinta de Saes, que mostrou um sabor algo estranho, resultante de qualquer componente desconhecido que os presentes não conseguiram identificar. Um defeito do vinho, ou uma característica a que não estamos habituados? Fica a dúvida para uma próxima oportunidade, mas a verdade é que, apesar do aroma mais pronunciado e profundo e dum corpo mais cheio, parecendo que era “mais vinho” que o anterior, acabámos por não ficar a ganhar com a troca. A culminar a opípara refeição ainda foi oferecido (só um dos presentes aceitou) um cálice de aguardente, mais um produto da região. Até a água gaseificada era da região.
O dono é de uma simpatia extrema, desdobrando-se em atenções pelas várias mesas da sala, tentando sempre que nada falte a ninguém. Enquanto vai atendendo os nossos pedidos vai conversando com os clientes, criando um ambiente que, embora sossegado, é descontraído e acolhedor e faz-nos esquecer o passar das horas. Neste caso, o grupo entrou às 8 da noite e abandonou quase às 10 e meia, sem grande pressa para sair. Mas ficou a vontade de voltar. A não perder na próxima passagem pela Serra da Estrela.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: Vallecula
Praça Dr. José de Castro
6300-235 Valhelhas
Telef: 275.487.123
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 5
Vinho: Quinta de Cabriz, Colheita Seleccionada 2003 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola - Quinta de Cabriz
Grau alcoólico: 13%
Preço em feira de vinhos: 2,72 €
Nota (0 a 10): 6,5
Vinho: Quinta de Saes 2003 (T)
Região: Dão
Produtor: Álvaro Castro
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Alfrocheiro, Tinta Roriz, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 3,35 €
Nota (0 a 10): 5
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006
No meu copo 22 - Casa de Santar tinto 2003; Casa de Santar branco 2004
Uma prova interessante: quase coincidentes no tempo, um Dão Casa de Santar tinto e um branco. Nem um nem outro são vinhos de topo, mas são ambos muito fáceis de beber.
O branco é aberto, macio, de cor citrina, com um toque floral no aroma, adequado para pratos delicados de peixe (óptimo com peixe no forno, pouco adequado para bacalhau). É um vinho que apetece beber e que se vai consumindo quase sem dar por isso. Os seus 12,5% de álcool não se sentem. Penso que pode fazer boa figura numa tarde verão a acompanhar umas entradas não muito condimentadas. O tinto tem um perfil semelhante. Sente-se macio na boca, com um final médio, aromático e encorpado quanto baste, sem ser agressivo. 13% de álcool bem diluídos. Nos tempos que correm, esta graduação não é nada de extraordinário, pois a tendência é para termos vinhos cada vez mais alcoólicos. Também vai bem com pratos delicados de carne, sem serem muito condimentados, pois corre-se o risco de os aromas do vinho ficarem abafados pelos temperos. Moderação, é o que se recomenda.
Dado o nível de preços, são vinhos perfeitamente acessíveis para um consumo corrente oferecendo uma qualidade bastante aceitável. Por isso justificam claramente a sua presença nas nossas sugestões. Dentro destes preços verá que não é fácil encontrar muito melhor.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola - Soc. Agrícola de Santar
Vinho: Casa de Santar 2003 (T)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 3,86 €
Nota (0 a 10): 6,5
Vinho: Casa de Santar 2004 (B)
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Encruzado, Cerceal, Bical
Preço em feira de vinhos: 3,29 €
Nota (0 a 10): 6,5
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sábado, 11 de fevereiro de 2006
No meu copo 18 - Dão Caves Velhas branco 2003
Após uma longa digressão pelos tintos alentejanos, finalmente “something completely different”. Um vinho do Dão e logo um branco, que é coisa que por estas bandas não nos passa muito pelo estreito.
Este Dão Caves Velhas 2003 foi uma garrafa de branco que veio como oferta na compra de duas de tinto. Experimentei-o ao longo de vários dias com diversos pratos: massa com carne (tipo massa italiana), com pescada com molho e com bacalhau no forno. Foi com este que casou melhor. É um vinho de cor citrina, com alguma estrutura, encorpado e que por isso fica melhor com pratos de peixe com algum peso, mas não demasiado. Por exemplo, com a massa italiana o vinho abafou o sabor do prato.
Não é um vinho com grandes pretensões. Não encanta, mas também não envergonha. Mas é preciso escolher bem o prato com que é servido. Em todo o caso, pelo preço que custa não se pode exigir muito mais.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Caves Velhas 2003 (B)
Região: Dão
Produtor: Caves Velhas
Grau alcoólico: 12%
Preço em feira de vinhos: cerca de 2 €
Nota (0 a 10): 5,5
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terça-feira, 20 de dezembro de 2005
No meu copo 1 - Quinta dos Carvalhais, Touriga Nacional - 2000
No passado sábado eu e o Kroniketas decidimos pastar uma late ceia após o jogo do Glorioso. Amancebaram-se umas costeletas de novilho com umas batatas fritas e um arroz branco e escolheu-se para molha-goelas um Dão, comprado há cerca de dois anos no Pingo doce pelo método "thifty-thifty" (porque não é um vinho barato - custou 19,85€ na Feira de Vinhos de 2003).
E o que sói dizer-se sobre este líquido etílico? Numa palavra: esperávamos mais (esta da palavra única era chalaça, não sei se entenderam).
De perfil clássico, embora um tanto ou quanto diferente por ser um monocasta, o corpo era apenas mediano e o fim de boca demasiado curto para o que se esperaria de um vinho deste pretenso calibre. Boa cor, bons aromas, sem espantarem - também aqui acreditávamos num aroma mais complexo e exuberante.
Outro percalço surgiu com a rolha, que se desfez mostrando a má qualidade da cortiça usada - para nosso espanto - e obrigou a filtrar o vinho para poder ser bebido.
Concluindo, a Sogrape não nos habituou a isto, tanto no que toca à rolha como na qualidade do vinho. Não estou com isto a dizer que o vinho era mau, muito longe disso! Mas, definitivamente, esperávamos mais...
tuguinho, enófilo esforçado
Vinho: Quinta dos Carvalhais, Touriga Nacional 2000 (T)
Região: Dão
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 19,85 €
Nota (0 a 10): 6,5
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Etiquetas: Carvalhais, Dao, Sogrape, Tintos, Touriga Nacional
