
Cister da Ribeira 2001
Respondendo ao desafio lançado pelo Copo de 3 (tinto português com menos de 13% de álcool) as Krónikas Vinícolas associam-se à iniciativa. Para esta primeira prova, e por falta de oportunidade para uma escolha mais criteriosa, aproveitei um vinho que me ofereceram à saída do Encontro com o Vinho. É um Douro da região de Cima Corgo, um Cister da Ribeira de 2001, da Quinta de Ventozelo, situada em Ervedosa do Douro, perto de São João da Pesqueira. É feito com as castas mais representativas da região do Douro: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca.
Apesar de ter boa matéria-prima, o resultado é francamente pobre. Tem uma cor rubi carregada, o aroma é discreto, a prova na boca pouco exuberante, com algumas notas de especiarias muito pouco pronunciadas, talvez um pouco de couro e um final curto, corpo delgado e acidez talvez um pouco acima do ideal para a graduação do vinho: 12,5%.
Em suma, pareceu-me um vinho um pouco desequilibrado nas suas componentes, que não deixa grandes memórias. É mais uma daquelas experiências do Douro que me deixam de pé atrás quando saímos dos topos de gama. Fui depois consultar os catálogos das feiras de vinhos e percebi porque é que este vinho custa o que custa. Mas na gama mais baixa, e por esse preço, pode-se comprar e beber muito melhor.
Enfim, para começar a prova não foi uma escolha muito feliz, vamos ver se para as próximas tenho mais sorte.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Cister da Ribeira 2001 (T)
Região: Douro
Produtor: Quinta de Ventozelo
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 1,68 €
Nota (0 a 10): 5
quinta-feira, 16 de novembro de 2006
Prova à Quinta - O primeiro
Publicada por
Krónikas Vinícolas
à(s)
01:43
|
Etiquetas: Douro, Prova à 5ª, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tinto Cao, Tintos, Touriga Franca, Touriga Nacional, Ventozelo
quinta-feira, 21 de setembro de 2006
Diz quem sabe


Hoje recebi a Revista de Vinhos deste mês e desde logo me entretive a ler uma conversa de João Paulo Martins “à mesa com” o produtor e enólogo João Portugal Ramos, autor de excelentes vinhos alentejanos.
Entre vários considerandos acerca da produção de vinho em Portugal e a afirmação de que “o Alentejo é imbatível”, a conversa terminou com uma bombástica:
“Confesso também que começo a ficar farto dos vinhos virtuais do Douro, que são muito bons mas não existem. E até dou de barato que, nos topos de gama, o Douro tenha mais vinhos que o Alentejo, mas a região em si, em termos de qualidade média, e até das cooperativas, não tem sequer comparação, é muito inferior”.
Fiquei pasmado por finalmente encontrar alguém que tem uma opinião igual à minha acerca deste tema. Já o disse e escrevi, neste blog e nas Krónikas Tugas, que não considero os vinhos do Douro, em termos de qualidade média, assim tão bons como se apregoa por aí. Já tive até a oportunidade de referir várias grandes decepções tidas com vinhos do Douro apresentados como muito bons, e nada baratos. Foi até agora a região com cujos vinhos apanhei mais decepções. Há, de facto, vinhos muito bons no Douro, mas também eu já tinha chegado à conclusão que esses são os caros, porque quando vamos para a gama média, aqueles de 4 ou 5 €, não há nada que os recomende mais que os de outra região qualquer, antes pelo contrário. Até me sinto, às vezes, um pouco incomodado por ver tamanha unanimidade à volta dos vinhos do Douro que eu não partilho. No programa “A hora de Baco” os convidados, invariavelmente, quando falam do seu vinho preferido, vão cair no Douro, principalmente, e no Alentejo. Palavra que estou cansado de ouvir sempre a mesma coisa, Douro-Alentejo, Douro-Alentejo, Douro-Alentejo. Gostava de ver aparecer alguém com uma opinião diferente destas, para variar.
Agora vem o produtor/enólogo mais premiado dos últimos anos lançar esta “bomba”. Ele certamente sabe do que fala, o que me deixa extremamente confortado porque a opinião do especialista é igual à minha. Aleluia! Houve alguém que teve a coragem de desmistificar a auréola que se criou em torno dos vinhos do Douro. Porque é preciso não esquecer que quando falamos do Douro, dum modo geral, não estamos a falar de Barca Velha.
Kroniketas, enófilo esclarecido
(Imagens retiradas da Revista de Vinhos nº 202, de Setembro de 2006, com a devida vénia)
Veja aqui as nossas apreciações a alguns vinhos do Douro:
Planalto
Passadouro e Bons Ares
Quinta dos Aciprestes (1)
Quinta dos Aciprestes (2)
Vinha Grande
Quinta do Portal
Duas Quintas
Publicada por
Krónikas Vinícolas
à(s)
01:26
|
Etiquetas: Douro, JP Ramos, Revista Vinhos
sexta-feira, 28 de julho de 2006
No meu copo 55 - Bons Ares 2002, Passadouro 2003

Um convívio interbloguista levou o núcleo duro do Grupo Gastrónomo-Etilista ao Vasku’s, um dos nossos restaurantes preferidos da capital. Fugindo ao habitual fondue, os quatro comensais optaram por um bife do lombo com molho pimenta, que estava delicioso como se esperava.
Claro que o grande tema do repasto não se fez à volta do prato mas à volta do copo. Para fugirmos também aos habituais alentejanos onde já não há muito por descobrir, e face à escassez de opções em regiões como a Bairrada, o Dão, o Ribatejo e a Estremadura (da Península de Setúbal não havia um único tinto), fomos para o Douro e começámos por escolher um Bons Ares tinto. Foi-nos apresentada uma sugestão pelo chefe de serviço que dava pelo nome de Passadouro como valendo a pena experimentar. Como se tratava de uma marca desconhecida de todos, resolvemos seguir a sugestão e começar por este.
É um vinho da zona do Pinhão, de cor muito escura, compacta, a tender para o violeta. Foi um pouco decepcionante. É um daqueles vinhos que, como já tenho aqui referido, me fazem questionar porque é que o Douro tem assim tanta fama nos vinhos de mesa. Pareceu-me (e não foi só a mim) perfeitamente vulgar e, tratando-se dum vinho de 2003, os aromas apresentaram-se ainda muito crus, pouco definidos e pouco exuberantes. O final de boca também é curto e não deixa grandes memórias, apesar dos 14% de álcool que não me pareceu que o beneficiem grande coisa. Pode ser que ainda melhore muito na garrafa mas daí até ser um excelente vinho vai uma grande distância. O meu comentário foi simples: não é vinho que me vá apetecer ter na garrafeira.
Esgotado o líquido da primeira garrafa, insistimos no Bons Ares, da Ramos Pinto. Esta é sempre daquelas casas que nos oferecem apostas seguras e tal como o seu primo Duas Quintas, aqui amplamente divulgado, este não nos deixou ficar mal na escolha. A Quinta dos Bons Ares é uma das duas donde saem as uvas para o Duas Quintas (a outra é a da Ervamoira, já por nós visitada). Neste caso a Ramos Pinto fez outro vinho apenas com uvas desta quinta, mais a jusante no rio Douro e situada em maior altitude, o que confere mais frescura e vivacidade aos vinhos ali produzidos. Curiosamente, por uma dessas particularidades em que é fértil a nossa legislação, este vinho não tem denominação de origem Douro mas sim Regional Trás-os-Montes, porque uma das castas usadas é o Cabernet Sauvignon. Mesmo sendo usada de norte a sul do país, vinho onde entre passa a ser vinho regional, porque não faz parte das castas recomendadas. Em nenhuma região. Vá-se lá saber porquê! Há uns 15 anos que bebo vinhos de Cabernet e esta casta tem-me proporcionado alguns dos melhores que tive oportunidade de provar...
Misturada em 40% com a famosa Touriga Nacional (60%), daí resultou um vinho, este sim, excelente. Cheio de estrutura e corpo, com um final prolongado e aromas muito mais exuberantes, extremamente equilibrado em todas as componentes, depois de se beber ainda se fica a saborear. Este é daqueles que não enganam e obviamente faz parte da minha garrafeira e das nossas escolhas. E é vinho para se bater bem com pratos mais pesados e condimentados. Um dos convivas comentou que “daria um excelente vinho do Porto”. Pois, dali também saem desses...
Considero que este vinho não é inferior ao Duas Quintas, pelo contrário, é até ligeiramente superior, pelo que o classifico uns pozinhos acima. O que até faz sentido, pois é mais caro.
No final do repasto foram apresentadas aos comparsas as duas garrafas de Reserva Ferreirinha recentemente compradas. Puderam admirá-las e manipulá-las, mas não apreciar o conteúdo, porque agora vão repousar na garrafeira do tuguinho, que fica como fiel depositário (é mesmo o que se pode chamar o fiel de armazém). Quando já não fizer calor, então vamos abri-las. Agora foi só para abrir o apetite…
E não digo mais nada porque vou de férias. O tuguinho que trate do estaminé durante o mês de Agosto. Boas provas.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Passadouro 2003 (T)
Região: Douro (Pinhão)
Produtor: Quinta do Passadouro - Sociedade Agrícola
Grau alcoólico: 14%
Preço no restaurante: 21 €
Nota (0 a 10): 6,5
Vinho: Bons Ares 2002 (T)
Região: Trás-os-Montes (regional)
Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 11,99 €
Nota (0 a 10): 8
PS: Este post foi escrito acompanhado do som e da imagem do DVD do ano: Pink Floyd - Pulse. Para falar de grandes vinhos, nada como encontrar inspiração em grandes músicas.
Publicada por
Krónikas Vinícolas
à(s)
20:03
|
Etiquetas: Cabernet Sauvignon, Douro, Lisboa, Passadouro, Ramos Pinto, Restaurantes, Tintos, Touriga Nacional, Tras-os-Montes
segunda-feira, 24 de julho de 2006
Na minha garrafeira 53 - Reserva Ferreirinha 1996
Um dia destes as Krónikas Vinícolas perderam o amor a uns cobres e abriram os cordões à bolsa. Já aqui falámos dos diversos vinhos da Casa Ferreirinha, dos melhores do país, e falta-nos um no currículo.
O Reserva Ferreirinha, anteriormente chamado Reserva Especial e que parece que vai passar a chamar-se apenas Colheita, é o filho mais pobre do Barca Velha, custando 4 vezes menos. É aquele que esteve guardado durante anos a evoluir e que, na prova final, não foi considerado merecedor do rótulo Barca Velha, pelo que leva o outro rótulo. Como também já referimos, parece que por vezes há enganos, pelo que se pode ter a sorte de apanhar um verdadeiro Barca Velha com outro rótulo e muito mais barato.
Passando pelo Jumbo, andámos durante umas semanas a mirar umas de 1996 que lá estavam a 39,99 €, depois desapareciam e depois voltava a haver. 10 anos para este vinho parece ser uma óptima idade para bebê-lo. Contactados os comparsas do costume, decidiu-se adquirir duas para degustar por quatro. Como havia mais duas, fiquei com elas para mim, para compor a garrafeira...
Agora ficam a repousar o resto do Verão nas melhores condições possíveis e lá mais para o Outono, quando já não está calor e não é necessário arrefecer o vinho, deverá ser a melhor altura para saboreá-las. Prometemos contar depois como foi.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Publicada por
Krónikas Vinícolas
à(s)
21:10
|
Etiquetas: Douro, Ferreirinha, Sogrape, Tintos
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Na minha mesa 48 - Adega da Tia Matilde

Um clássico de Lisboa, situado ali nas proximidades do antigo apeadeiro do Rego. Espaço amplo, com várias zonas separadas, bar com sala de espera, vários balcões com sobremesas nos locais de circulação e, mais recentemente, garagem subterrânea que facilita bastante num local onde o espaço para estacionamento não abunda. Mais importante ainda, um local de tradição benfiquista, a começar pelo dono.
A oferta é variada, com peixes, mariscos, bacalhau, caça, cabrito, etc. A dificuldade está na escolha. Os preços é que não são nada meigos.
Num grupo de 7 pessoas, escolheu-se para começar uma caldeirada e depois um cabrito no forno com arroz de miúdos. Ambos em doses q. b. e com bom paladar. Antes, para entreter, umas pataniscas de bacalhau muito tenras e ainda quentinhas. O presunto à disposição é que não convenceu: muito seco e com ar de velho.
Para regar a refeição, deparámo-nos com o tradicional problema dos restaurantes portugueses: preços exorbitantes para a maioria dos vinhos. Difícil é encontrar um vinho a preço aceitável. Sugestionado por uma recente apreciação do Tuguinho, sugeri um Quinta dos Aciprestes de 2003, a 14 €, que colheu o agrado dos presentes. Corroborando a apreciação já anteriormente apresentada, quero acrescentar que se apresentou ainda fechado, com os aromas um pouco escondidos e uma ligeira adstringência que mostram estarmos perante um vinho com todos os sinais de juventude bem presentes e que, seguramente, irá melhorar com mais uns anos na garrafa. Tem todas as condições para desenvolver aromas mais exuberantes, tornando-se também mais macio. É sem dúvida um vinho a rever... depois de termos umas garrafas guardadas na garrafeira durante uns 3 ou 4 anos.
De notar ainda que foi necessário pedir para refrescar o vinho, pois estava com temperatura excessiva, outra pecha habitual em Portugal quando se aproxima o tempo quente.
Nas sobremesas as opções também são variadas embora dentro da normalidade, sendo o mais original uma tranche de maçã que tinha forma de pudim.
O serviço é eficaz e atencioso, com muita gente sempre com atenção às mesas. Só na conta é que fomos surpreendidos, ao deparar com um montante de 38 € por cabeça. Já se sabe como é: sem restrição nas entradas a conta dispara. Os próprios pratos escolhidos também foram mais caros do que se esperava. Ou seja, é um restaurante onde se come bem e onde vale a pena ir, mas olhe bem para a coluna dos preços quando escolher, para não ser apanhado de surpresa no fim.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: Adega da Tia Matilde
Rua da Beneficência, 77
1600-017 Lisboa
Telef: 21.797.21.72
Preço médio por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 4
Publicada por
Krónikas Vinícolas
à(s)
01:04
|
Etiquetas: Douro, Lisboa, Real C Velha, Restaurantes, Tintos
domingo, 14 de maio de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 5
No meu copo, na minha mesa 44 - Planalto; Cacho D’Oiro (Régua)
De passagem por Peso da Régua, uma sugestão dum guia de restaurantes encaminha-nos para o centro da cidade à procura do restaurante Cacho D’Oiro. A procura não é grande, porque aparece uma placa a indicar o restaurante num beco sem saída. Há uns quantos lugares para estacionar, mas é preciso fazer umas quantas manobras para virar o carro no pouco espaço disponível sem bater nos que lá estão.
Franqueada a porta, encontramos um espaço amplo, com escada para um andar superior e mesas em quantidade. É sábado ao almoço, pelo que é fácil sentar, mas a pouco e pouco começam a chegar grupos de pessoas que acabam por lotar o espaço.
A ementa é variada dentro dos pratos normais na região. Escolheu-se uns filetes de polvo e um cabrito assado. Os filetes são tenros e saborosos, mas trazem um acompanhamento pouco adequado, batatas fritas, o que torna necessário pedir arroz branco. Não há mais nenhum, nem de tomate nem de feijão, o que se lamenta. O cabrito cumpre aquilo que sempre se espera deste prato, com acompanhamento de batatas e legumes.
Para acompanhar pediu-se vinho branco Planalto, da Sogrape. É um vinho de cor citrina seco e aromático, frutado quanto baste, com boa acidez que vai muito bem com os filetes e bebe-se de forma gulosa. Não sendo muito leve, acompanha pratos de peixe com algum tempero, mas não convém exagerar. Convém mantê-lo num frappé ou numa manga de refrigeração para que não aqueça durante a refeição.
O atendimento é simpático e eficiente, com pessoal jovem e solícito que responde rapidamente às chamadas. A refeição é satisfatória, mas nada de extraordinário nem de nos deixar de boca aberta. Ou seja, estando na Régua vale a pena ir lá, mas não valerá ir lá de propósito como a Valhelhas para ir ao Vallecula.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: Cacho D’Oiro
Rua Branca Martinho
5050-292 Peso da Régua
Telef: 254.321.455
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 3
Vinho: Planalto (B)
Região: Douro
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Malvasia Fina, Viosinho, Gouveio
Preço em feira de vinhos: 3,95 €
Nota (0 a 10): 7
Publicada por
Krónikas Vinícolas
à(s)
02:07
|
Etiquetas: Brancos, Douro, Douro Litoral, Gouveio, Malvasia Fina, Restaurantes, Sogrape, Viagens, Viosinho
segunda-feira, 1 de maio de 2006
Na minha mesa, no meu copo 42 - Adega e Presuntaria Transmontana; Quinta dos Aciprestes 2003
Já de alguns anos a esta parte que as margens do Douro na zona do Porto deixaram de ser de faina fluvial e começaram a abrigar outras espécies. A velha Ribeira rejuvenesceu e apareceram restaurantes e bares que trouxeram outras gentes às suas ruas. Um pouco mais tarde, do outro lado do rio assistiu-se a outra pequena revolução: quase toda a zona de cais perto das caves de vinho do Porto foi reconstruída e aí, da ponte de Dom Luís até bem mais à frente, na direcção da foz do rio, surgiu o que podemos apelidar de émulo das docas de Lisboa.
A zona é absolutamente privilegiada e dos restaurantes, cafés, bares e outras lojas que ocupam os pavilhões construídos à beira-rio pode desfrutar-se da melhor vista sobre o Porto, tanto à luz do dia como de noite.
Além dos pavilhões construídos de origem, também as antigas fachadas que dão para o cais se foram reconvertendo e os restaurantes são mais que muitos, incluindo até uma das sortidas do famigerado Tromba Rija fora de Marrazes.
Praticamente ao lado deste existe outro, denominado Adega e Presuntaria Transmontana II, e que foi a evolução natural da adega original, situada numa rua perpendicular, um pouco mais acima na encosta de Gaia. Este número II já era meu conhecido e sempre fora servido a contento mas, na última tentativa para lá nos amesendarmos, lugares era coisa que não havia… Foi então que o patrão Lopes, proprietário do local, nos sugeriu uma visita ao número I, acabadinho de remodelar e por isso ainda pouco conhecido dos frequentadores da zona e portanto com lugares livres que chegavam para o nosso jantar. E assim seguimos o sr. Lopes e cinco minutos depois (a pé) estávamos num simpático espaço que ainda cheirava a novo. Da antiga “tasca” nem rasto, talvez só a configuração do espaço no rés-do-chão. Este piso alberga algumas poucas mesas, um balcão à entrada e a cozinha, e era o espaço original da adega, mas a remodelação também foi ampliação e agora uma escada leva-nos a um 1º piso que acaba por ser a verdadeira sala de jantar do restaurante.
Para começo da contenda é logo servido um Porto branco, doce e fresquinho, que acaba por preparar o estômago para o que vem a seguir. Não sendo um gémeo do tromba rija, também aqui as entradas são importantes no repasto total, e assim que nos sentamos temos logo várias tábuas com diversos enchidos, presunto, diferentes queijos e bom pão. Ficam por lá também uma travessinha com alcaparras (azeitonas britadas) e uns lombos de biqueirão em vinagrete que são uma delícia! Trazem-nos ainda um agradável folhado de farinheira, quentinho, e outras coisinhas boas que se me apagaram da memória, em virtude talvez de algum acontecimento mais etílico.
Escolheu-se para prato principal uma posta de carne à transmontana, que apareceu tenríssima e no ponto, bem temperada com abundância de alho e já trinchada em tiras manuseáveis, acolitada por batatinhas a murro e legumes salteados servidos a sair do lume na própria frigideira.
Depois disto tudo ainda tivemos de arranjar espaço (porque vontade havia) para nos dirigirmos ao estendal de doces e frutas que se anicha numa das pontas da sala. Desde trouxas de ovos a pudim do Abade de Priscos, de leite-creme queimado a sopa dourada, de mousse de chocolate a arroz-doce e a aletria, há de tudo e bem feito. Sim, também há muita fruta para quem quiser.
E que beberagem nos acompanhou nesta prova de fogo, perguntarão? Apesar da qualidade, também a Adega sofre do mal da maioria dos restaurantes portugueses: tentamos “promover” o consumo de bom vinho com preços exorbitantes! A lista está composta, embora não seja muito extensa, e lá consegui encontrar um vinho que não me pareceu demasiado dispendioso e que nos podia garantir qualidade. Escolhi um Quinta dos Aciprestes, Douro DOC, obviamente tinto. Conheci este vinho quando do seu lançamento, talvez há uns cinco anos, quando o promoviam no Jumbo e que, se bem me recordo, me custou 700 dos velhos escudos por botelha. Na altura gostei, embora não me tenha parecido excepcional. E foi baseado nessa recordação que o escolhi, ciente de que mau vinho não era. Pois bem, o bicharoco excedeu as minhas expectativas e revelou-se opaco, quase rubi na cor, e com uma primeira impressão que nos trouxe à memória um vintage ou LBV novos. A boca andava ali à roda dos frutos vermelhos, com um final complexo que levava ao próximo golo com facilidade. Passou a fazer parte da minha lista de compras para as próximas feiras, nos ainda longínquos Setembro e Outubro.
Concluindo, já tinha a Adega e Presuntaria Transmontana como um bom poiso para refeiçoar nas minhas idas ao Porto, mas esta ocasião revelou-se mais saborosa do que as últimas, sabe-se lá porquê.
Os convivas são geralmente presenteados com miniaturas de Vinho do Porto, de produção do proprietário, e agora também com azeite.
Já para lá tínhamos ido de táxi e de táxi voltámos para o hotel. O que é que vocês estavam a pensar?
tuguinho, enófilo esforçado
Restaurante: Adega e Presuntaria Transmontana II
(daqui podem partir para a I, que é mais difícil de encontrar)
Avenida Diogo Leite, N.º 80
4400 - 111, Vila Nova de Gaia
Telef: 223.758.380
Preço médio por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4
Vinho: Quinta dos Aciprestes 2003 (T)
Região: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço no restaurante: cerca de 14 €
Nota (0 a 10): 7,5
Publicada por
Krónikas Vinícolas
à(s)
01:01
|
Etiquetas: Douro, Douro Litoral, Real C Velha, Restaurantes, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tintos, Touriga Franca
sexta-feira, 24 de março de 2006
Na minha garrafeira 33 - Os vinhos da Casa Ferreirinha

A Casa Ferreirinha é habitualmente mais conhecida pela produção de vinhos do Porto, associados à marca Porto Ferreira. Recentemente o nome tornou-se mais familiar pela produção duma série televisiva acerca da vida de D. Antónia Ferreira, a Ferreirinha. No século XIX a Ferreirinha teve um papel importante na luta contra a filoxera, uma doença que dizimou as vinhas da Europa, ao enxertar cepas americanas, resistentes à doença, com as cepas portuguesas existentes.
Actualmente a Casa Ferreirinha, à semelhança de outras grandes casas do Douro, é propriedade da Sogrape mas continua a produzir os seus vinhos com a marca da casa. Na Casa Ferreirinha é produzido aquele que os críticos consideram habitualmente o rei dos vinhos portugueses, o mítico Barca Velha, criado por Fernando Nicolau de Almeida em 1952. Trata-se dum vinho que é raro encontrar à venda e, quando aparece, é sempre por preços exorbitantes (digamos, para cima dos 100 ou mesmo 200 euros), pelo que não está ao alcance do consumidor comum ter acesso a este vinho.
O Barca Velha estagia normalmente durante quase 10 anos em garrafa, e só ao fim desse tempo os enólogos da Casa Ferreirinha decidem se o vinho vai ser colocado à venda como Barca Velha. Quando não é considerado como de qualidade excepcional de modo a justificar esse rótulo, é-lhe colocado outro rótulo e vendido como Reserva Especial Ferreirinha, que recentemente passou a chamar-se Colheita em vez de Reserva. Daqui resulta que por vezes acontece que o vinho acaba por evoluir na garrafa de tal modo que justificava ser um Barca Velha e é vendido como Reserva/Colheita. Segundo João Paulo Martins, isso já aconteceu e os enólogos da casa equivocaram-se nalgumas avaliações, vendendo verdadeiros Barca Velha com outro rótulo. Pelo que quem puder ter acesso a um Reserva ou Colheita pode aproveitar para tentar comprar um Barca Velha em segunda versão. Curiosamente, foi há dias anunciado que vai sair o novo Barca Velha, acerca do qual se pode ler um artigo no Diário de Notícias.
Em termos de hierarquia, segue-se um vinho que as Krónikas Tugas descobriram há cerca de 2 anos no “Encontro com o vinho e sabores”, o Quinta da Leda, e outro que provámos quase por acaso numa feira de vinhos da Makro em 2004, o Callabriga. São dois vinhos excepcionais dos quais, a seu tempo, quando voltarmos a bebê-los (neste momento algumas garrafas repousam tranquilamente nas nossas garrafeiras), vos daremos conta.
Descendo mais um pouco na escala, encontramos dois vinhos mais populares, já na gama de preços mais acessíveis. O Vinha Grande, na gama média-alta, e o Esteva, na gama média-baixa, abaixo dos 5 euros.
Um destes dias as Krónikas Vinícolas reuniram e abriram uma garrafa de Vinha Grande de 2001, adquirido por 5,95 € numa promoção da Revista de Vinhos em Fevereiro de 2005. Prudentemente decantou-se o líquido para o arejar e evitar algum depósito que existisse no fundo da garrafa, e em boa hora o fizemos porque de facto havia depósito.
Este vinho é feito com aquilo que habitualmente se chamam as castas tradicionais do Douro, mas desta vez mencionadas no contra-rótulo: a omnipresente Touriga Nacional, a Touriga Franca, a Tinta Barroca e a Tinta Roriz (chamada Aragonês no Alentejo). As uvas são obtidas em várias quintas da empresa, situadas em diversos locais do Douro, na região do Cima-Corgo, perto do Pinhão, e mais acima, no Douro Superior, entre as quais a já famosa Quinta da Leda, junto a Barca d’Alva.
Depois de algumas decepções que de vez em quando vou tendo com vinhos do Douro, apeteceu-me dizer: “este sim”. Uma bela cor rubi brilhante, que encantou desde logo a vista dos provadores, um aroma intenso e frutado, na boca um corpo bem estruturado e equilibrado, sem se notar em demasia os 13,5% de álcool, formando um conjunto de grande elegância. Por isso aconselha-se para acompanhar pratos delicados de carne, não excessivamente pesados nem condimentados.
Não se tratando de um vinho excepcional, é uma marca a ter em conta, que seguramente não deixará ninguém ficar mal. Por esse motivo, a partir deste momento passa a fazer parte das nossas escolhas.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Vinha Grande 2001 (T)
Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 8,98 €
Nota (0 a 10): 8
Publicada por
Krónikas Vinícolas
à(s)
01:14
|
Etiquetas: Douro, Ferreirinha, Sogrape, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tintos, Touriga Franca, Touriga Nacional
sábado, 11 de março de 2006
No meu copo 26 - Quinta do Portal Reserva 2000
Eu bem dizia numa das reflexões anteriores que os vinhos do Douro me davam muitas decepções. Nem de propósito. Esta garrafa foi comprada numa promoção da Revista de Vinhos, que põe à disposição dos clientes vinhos a preços acessíveis, normalmente a 5,95 € juntamente com a revista, sendo que normalmente o preço de referência desses vinhos é para cima dos 10 €. Com o número de Maio de 2005 vinha este Quinta do Portal, vinho do Douro. Na própria revista são tecidos grandes elogios ao vinho, assim como no site do proprietário. Mas...
Ou é azar meu, ou não consigo apreciar estes vinhos. É um vinho de cor carregada e concentrada, o aroma mostrou-se pouco intenso e na boca as sensações são pouco acentuadas. Bebe-se e não fica um registo olfactivo ou gustativo daquilo que se provou. Tenho apanhado muitos vinhos do Douro assim, e no final, apesar de ser tudo mais ou menos correcto, fico com a sensação de que falta ali qualquer coisa. São vinhos que não me encantam e dos quais não me lembro o que senti. Se calhar há algo que me escapa, mas a verdade é que esta falta de sensações se repete em várias provas. Definitivamente, não me convenceu.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Quinta do Portal Reseva 2000 (T)
Região: Douro
Produtor: Quinta do Portal
Preço: 10,25 € (5,95 € com a Revista de Vinhos)
Nota (0 a 10): 6
sexta-feira, 23 de dezembro de 2005
No meu copo 2 - Duas Quintas 2003
Como eu costumo dizer (e também é válido para o vinho aqui acima), aqui está um vinho que nunca nos deixa ficar mal. Sem ser excepcional, é um vinho muito acima da média; sem ser barato, tem um preço bastante aceitável para a qualidade que apresenta.
Posso dizer que acompanhei este vinho praticamente desde o seu lançamento, com a colheita de 1990 apresentada na Feira de Vinhos do Pingo Doce de 1993, sendo o primeiro vinho de mesa da empresa Ramos Pinto, sobejamente conhecida pelos seus vinhos do Porto. Começou por ser barato (549$00), mas o sucesso rapidamente atingido fez o preço disparar para valores absurdos. Surgiram depois as Reservas, que têm preços verdadeiramente obscenos. Ultimamente, com a baixa generalizada dos preços, o colheita já se situa num patamar razoável.
Este vinho sempre me fascinou pela descrição da sua origem no contra-rótulo. As uvas, das castas tradicionais Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Francesa, são provenientes de duas quintas (daí o nome do vinho) situadas no Douro Superior (donde costuma sair uma boa parte dos melhores vinhos do Douro), na região de Foz Côa, com clima e solo diferentes: a Quinta da Ervamoira, situada num microclima com características quase únicas e que teria sido submersa pela barragem de Foz Côa, e a Quinta dos Bons Ares, que aliás também deu origem a um vinho com o seu nome.
De cor carregada e fechada (como é típico dos vinhos do Douro, em consonância com o perfil dos vinhos do Porto), o aroma não é muito exuberante mas vai abrindo à medida que está no copo, o que o torna um daqueles vinhos que ganham em ser decantados. Na boca é encorpado e, sem ser adstringente nem agressivo, é robusto o suficiente para se bater galhardamente com assados no forno bem temperados e grelhados na brasa. Neste caso, eu e o outro comparsa escolhemos uma picanha e um entrecosto na brasa, e a ligação foi perfeita.
Em resumo, uma aposta segura por um preço razoável. Neste caso foi à mesa do restaurante, onde os valores praticados estão completamente distorcidos e nada têm a ver com o que se pode comprar nas feiras de vinhos, mas quem quiser tê-lo em casa pode guardá-lo algum tempo porque, certamente, não se vai desiludir.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Duas Quintas 2003 (T)
Região: Douro
Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 13%
Castas: Tinta Roriz, Touriga Nacional, Touriga Francesa
Preço em feira de vinhos: 6,87 €
Nota (0 a 10): 8
Publicada por
Krónikas Vinícolas
à(s)
01:15
|
Etiquetas: Douro, Ramos Pinto, Tinta Roriz, Tintos, Touriga Franca, Touriga Nacional
