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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Na minha mesa 226 - O Chico (São Manços)

Uma saída em família até ao interior alentejano levou-me a revisitar um restaurante que descobri há uns anos, quase por acaso, ao consultar o guia de restaurantes da Visão, que coleccionei há uns anos. Em trânsito pelas proximidades de Évora, olhando para os restaurantes da zona vimos um em São Manços, localidade situada junto ao IP2 em direcção ao sul. Lá fomos à procura do Chico.
Em São Manços quase que se entra por uma rua a sai-se por outra. E o Chico parece um simples café de aldeia sem nada de especial que nos faça pensar em ir lá procurar algo especial. A verdade é que, para além de um pequeno balcão à entrada e de uma pequena sala com capacidade para não mais de 30 lugares, não se descobre o que nos espera antes de nos sentarmos à mesa.
Primeiro deparamo-nos com várias prateleiras onde estão expostas dezenas de vinhos alentejanos de todos os tipos. Pode-se percorrer as garrafas à procura de qualquer marca e quase que é difícil lembrarmo-nos de uma que não esteja lá. Enquanto esperamos pela refeição podemo-nos ir entretendo com umas excelentes empadas de carne, ainda quentinhas, que saem a grande ritmo para as mesas de todos os clientes. Mas a melhor parte vem quando se pega na ementa para passar aos pratos de resistência. Os pratos típicos alentejanos dominam, com destaque para a caça na época apropriada. Nas vezes que lá fui tive a felicidade de ser essa época e desta vez assim voltou a acontecer. À minha espera estava um delicioso arroz de lebre malandrinho, servido com uma concha em terrina de sopa, muito bem temperado e com um toque de hortelã a completar o panorama. É de comer até à última peça e até ao último bago de arroz. Para os apreciadores de caça, um verdadeiro maná.
Depois de já termos o estômago e o palato regalados com uma tal refeição, ainda arranjamos um espaço para provar as deliciosas sobremesas. A escolha recaiu numa encharcada e numa sericaia com ameixa de Elvas. A encharcada estava esplêndida, com a consistência certa e com calda na quantidade adequada, enquanto a sericaia estava um pouco maçuda.
Como só eu é que ia beber álcool tive que me socorrer de meia garrafa. Escolhi um vinho da zona, o EA tinto, da Fundação Eugénio de Almeida, que já não provava há alguns anos. E francamente decepcionou-me. Achei-o desequilibrado, delgado e pouco aromático, demasiado ácido na boca, muito longe do padrão que esperava. Posso ter tido azar mas se é este o perfil actual deste vinho, mais vale esquecê-lo. De tal forma que achei que nem valia a pena mencioná-lo no título do post.
Em suma, este Chico é um local a revisitar sempre que a oportunidade se proporcione, principalmente em tempo de caça. Quem passar pelos lados de Évora ou pelo IP2, vale a pena marcar mesa e fazer um pequeno desvio por São Manços para se deliciar com uma bela refeição. O preço é moderado (pagámos 45 € por uma refeição para dois adultos, um adolescente e uma criança), o serviço simpático e acolhedor, quase familiar, num ambiente descontraído e informal à boa maneira alentejana, onde nos sentimos como em casa.

Kroniketas, gastrónomo viajante

Restaurante: O Chico
Rua do Sol, 44-C
7005-739 São Manços
Telef: 266.722.208
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4,5

Vinho: EA (T)
Região: Alentejo (Évora)
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida - Adega da Cartuxa
Grau alcoólico: 13%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Castelão, Alfrocheiro, Moreto
Preço em feira de vinhos: 4,87 €
Nota (0 a 10): 4

terça-feira, 19 de junho de 2007

No meu copo 121 - Reguengos Reserva 99, 2000, 2001


Terminamos esta ronda por terras do Alentejo voltando a Reguengos de Monsaraz e à Carmim para falar do Reserva, que acompanhamos há muitos anos e que tínhamos em stock desde Janeiro de 2004. Quando provámos a colheita de 99 fomos logo a seguir comprar umas quantas garrafas, que ficaram esquecidas até há pouco tempo, quando achámos que era tempo de fazer uma rotação de stock porque o tempo útil de consumo já tinha sido ultrapassado.
A verdade é que o vinho se mostrou ainda em forma. Nas colheitas que saem para o mercado é um vinho de cor granada e bastante encorpado, com a madeira bem marcada mas sem ser em excesso, resultado dos cerca de 4 anos de estágio a que é submetido. Apresenta normalmente um fim de boca prolongado, taninos bem presentes mas redondos.
A curiosidade aqui era ver como se comportavam estas três colheitas. A de 99 mostrou-se ainda em boa forma, sem mostrar sinais claros de declínio, podendo beber-se desde logo e aguentando mesmo uma garrafa aberta até ao dia seguinte sem afectar a frescura do vinho. Não deixando de ser uma surpresa, dado ser um vinho alentejano já com quase 8 anos, a verdade é que fez jus à apreciação que mereceu no final de 2003 e que nos levou a apostar nele para guardar durante uns anos.
Já a colheita de 2000 apresentou-se muito mais fechada, com um aroma inicial com algum mofo, que tornou necessário decantá-lo para o deixar respirar e limpar mais os aromas. Ao fim de uma hora a evolução era evidente, desenvolvendo aromas a passas e especiarias e mostrando um fim de boca cada vez mais persistente.
O da colheita de 2001 tinha um problema: a garrafa tinha vertido algumas gotas e receávamos que estivesse passado. Depois de retirada a rolha que, apesar de ter vertido, estava em bom estado, ao cheirar o vinho perpassou pelas nossas mentes a lembrança do vinho do Porto, o que não era bom presságio. Verteu-se um pouco para o copo. A cor, granada profunda como já referido, não denotava a evolução que o odor deixava prever e, quando o provámos, o sabor era óptimo, a especiarias e madeira bem casada, os taninos redondos mas vincados e um fim de boca suave e de média duração. Aliás, cheirado no copo, o vinho do Porto não estava lá, apenas um aroma também discreto e complexo, a mostrar a boa saúde do vinho.
Não sendo nenhuma das colheitas mais recentes e não tendo a vivacidade que aquelas normalmente apresentam, estas três demonstraram, ainda assim, que este Reserva pode ser guardado algum tempo sem nos pregar uma partida e é uma excelente aposta para acompanhar pratos de carne alentejanos tradicionais, daqueles bem fortes e consistentes que pedem um vinho robusto sem ser agressivo. Tem também a vantagem de apresentar um preço bastante convidativo, podendo actualmente comprar-se a menos de 4 €. Em 2000 chegou a comprar-se a 1125$. Recentemente, uma promoção no Pingo Doce apresentava 6 garrafas ao preço de 5, o que resultava em 3,325 € por garrafa, que é um excelente preço para o vinho em questão.

Nota: este vinho usa as uvas do mesmo lote que, depois de devidamente seleccionadas, servem para fazer o topo de gama da casa, o Garrafeira dos Sócios.

tuguinho e Kroniketas, enófilos esforçado e esclarecido (respectivamente)

Vinho: Reguengos Reserva 99 (T)
Grau alcoólico: 13%

Vinho: Reguengos Reserva 2000 (T)
Grau alcoólico: 13,5%

Vinho: Reguengos Reserva 2001 (T)
Grau alcoólico: 14%

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Carmim (Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz)
Castas: Aragonês, Trincadeira, Castelão, Moreto
Preço em feira de vinhos: 3,78 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 6 de junho de 2007

No meu copo, na minha mesa 118 - Alandra; Restaurante Tia Rosa (Melides)



Foi há 12 anos que conheci este restaurante, após uma estada no parque de campismo da Praia da Galé, próximo de Melides. Era recomendado pelo pato no forno. Passados 12 anos, voltei lá com o mesmo casal com que tinha estado da outra vez, mas agora acompanhados de mais 3 crianças que naquela altura. E voltámos ao pato.
O restaurante fica mesmo junto à estrada. Para quem apanha o ferry-boat para Tróia em Setúbal, depois de passar pela Comporta vira-se em direcção a Melides e depois de passar Pinheiro da Cruz e alguns parques, encontra-se o Tia Rosa à esquerda. Tem duas salas contíguas, uma mais iluminada que a outra, sendo que esta se torna algo escura se ficarmos longe da janela. Se bem me lembro, há 12 anos só existia a primeira sala, pelo que deve ter havido ampliação do espaço.
O pato assado no forno, primeira opção da ementa, vem cortado em metades, acompanhado de batatinhas assadas e rodelas de laranja. O molho é que se torna um pouco gorduroso demais, pelo que é preferível evitá-lo. Mas a melhor parte é o arroz de miúdos que vem à parte, que também passa pelo forno. Uma verdadeira delícia. Vale a pena lá ir pelo pato.
Para acompanhar pedimos um Alandra, o mais baixo da gama da Herdade do Esporão. Logo à entrada há umas estantes com várias garrafas em exposição, onde estão os varietais do Esporão, vários outros vinhos alentejanos e, claro, o Pinheiro da Cruz (que fica logo ali ao lado), embora na ementa só constem meia-dúzia de referências, e escolhemos a mais barata, a 4,5 €. Curiosamente, em cima das mesas estavam garrafas de Conventual, ao preço de 7,5 €, mas rejeitámos essa opção por ser um vinho que não nos convence.
Continua a ser um vinho simples mas que se bebe com agrado. Aconselha-se até que seja ligeiramente refrescado, o que não era o caso, mas não deixa de ser uma aposta simpática. De cor rubi brilhante, ligeiramente frutado, aberto, leve, macio, ainda assim com um final de boca simpático. Sem grandes pretensões, bom quanto baste e barato, para o dia-a-dia.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Tia Rosa
Estrada Nacional 261 - Fontainhas do Mar
7560-661 Melides
Telef: 269.907.144
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4

Vinho: Alandra (T) - sem data de colheita
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Herdade do Esporão
Grau alcoólico: 13%
Castas: Moreto, Castelão
Preço em feira de vinhos: 1,72 €
Nota (0 a 10): 6