Na minha mesa 172 - O Álvaro (Urra)

Esta foi outra visita quase de última hora a um dos locais recomendados na zona de Portalegre. A localidade da Urra fica a cerca de 10 km para sul e numa praça da rua principal fica o Álvaro. Começou por ser uma casa de petiscos que foi ganhando fama e clientes até se afirmar como restaurante.
O espaço não é muito amplo e a entrada está separada da sala de refeições. Na ementa estava recomendado o lacão assado, uma espécie de pernil de porco, e foi essa a escolha feita. Veio acompanhado com ovo mexido e batatas às rodelas, numa dose generosa perfeitamente adequada para duas pessoas. Para sobremesa optou-se por uma mousse de chocolate que não desmereceu.
Em destaque estava o vinho do mês, que já aqui elogiámos, o Casa de Alegrete, e foi a escolha óbvia. Mais uma vez saiu-se a preceito da função e correspondeu às expectativas.
Não sendo a última maravilha ao cimo da terra, foi uma boa refeição, que contudo não pode ombrear com outras servidas noutros locais. Talvez o Álvaro continue a ser mais vocacionado para os petiscos, embora como restaurante não desagrade. O preço também não choca, aliás foi mais caro o vinho (15 €) que o prato (9,5 €).
Kroniketas, enófilo itinerante
Vinho: Casa de Alegrete 2005 (T)
Restaurante: O Álvaro
Largo Capitão António Manuel Simão Redondo, 58
7300-589 Urra
Telef: 245.382.283
Preço por refeição: 17,5 €
Nota (0 a 5): 3
terça-feira, 1 de abril de 2008
Krónikas do Alto Alentejo (XVIII)
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Krónikas do Alto Alentejo (XII)
Casa de Alegrete

Para lá da povoação de Alegrete a caminho de Besteiros, bem lá no alto da serra de S. Mamede para cima dos 600 metros de altitude, fica a vinha donde sai o Casa de Alegrete, a grande revelação desta minha permanência por terras de Portalegre. O dono, João Torres Pereira, era um vendedor de maquinaria industrial em Lisboa, onde viveu durante 37 anos, até que o sogro, proprietário de 60 hectares de vinha no Monte das Cortês, um terreno de xisto em plena encosta da serra, pôs a propriedade em nome da filha.
Durante anos as uvas eram vendidas à Adega Cooperativa de Portalegre, até que em 2003, apercebendo-se de algumas dificuldades por que passava a Adega, João Torres Pereira propôs à mulher que fizessem o seu próprio vinho com aquelas uvas. Para isso chamou o enólogo Paulo Fíuza Nigra (da família Fiúza, produtora de vinhos no Ribatejo) para avaliar as potencialidades das uvas. E assim se avançou para a produção do primeiro vinho na colheita de 2004. Não dispondo de equipamento próprio para a vinificação das uvas (o terreno e o casario era essencialmente destinado ao pastoreio de ovelhas), estas foram transportadas para a adega da Farizoa, na Terrugem, propriedade da Companhia das Quintas. Para fazer face às necessidades de produção (e minimizar os custos que a produção à distância acarreta), João Torres Pereira, que entretanto se apaixonou pela vinha e pelo Alentejo, está a planear a construção de uma adega no antigo casario do monte.
A evolução do vinho, acompanhada pelo enólogo, recomendou a aquisição de barricas para lhe permitir um estágio de modo a desenvolver as suas potencialidades. O estágio acabou por chegar a um ano antes de ser engarrafado. Com uma produção inicial pouco acima das 10.000 garrafas, a primeira colheita foi desde logo um êxito na região, seguindo-se a de 2005, já mais volumosa, que já tive oportunidade de provar por três vezes. As seguintes, 2006 e 2007, ainda aguardam o que o futuro lhes irá reservar.
Composta por três parcelas de vinhas com 10, 20 e 30 anos com as castas tradicionais misturadas, começa agora uma fase de alguma reconversão e melhoramento na vinha com a implantação de novas cepas e a instalação de varas e arames de modo a aumentar a altura das cepas e melhorar a exposição solar. Para já não é feita rega da vinha, deixando ao solo e ao clima o desenvolvimento da uva, pois o produtor considera que o terreno lhe dá todas as possibilidades de obter um excelente produto. Para ajudar a natureza é dada muita atenção à poda, o que implica deitar muita uva para o chão, limitando a produção. A colheita de 2006 rendeu 25.000 garrafas, enquanto 2007 irá render apenas 16.000, pois a aposta é na manutenção dum nível de qualidade que permita afirmar a marca sem procurar crescer desmesuradamente em quantidade.
A intenção de João Torres Pereira é manter os pés bem assentes na terra e não querer chegar ao céu rapidamente. A julgar pelas provas que fiz deste vinho, parece-me que vai no bom caminho e tem todas as condições para se afirmar no mercado, mantendo um preço muito aceitável. Consegui comprar ao produtor a 7 € por garrafa.
Fixem este nome, pois é muito bem capaz de vir a dar que falar.
Kroniketas, enófilo itinerante
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Krónikas do Alto Alentejo (XI)
No meu copo, na minha mesa 163 - Muachos Reserva 2003; Casa de Alegrete 2005; O Escondidinho (Portalegre)


Este foi um dos restaurantes a merecer repetição. Fica perto duma das praças principais da cidade, o Rossio, mas à entrada duma rua estreitinha onde quase passa despercebido ao olhar dos transeuntes. Ao entrar deparamos com uma pequena sala com 4 mesas, prolongando-se o espaço para a direita, onde se encontra um bar, a cozinha e as casas de banho e uma sala mais espaçosa, e para a esquerda onde fica a sala mais recatada e acolhedora. Enquanto jantava na sala mais recatada, fui reparando num armário perto da minha mesa onde algumas garrafas se encontravam em exposição. Foi ali que vi pela primeira vez o Casa de Alegrete, já referido mais atrás, e que mais tarde se tornaria escolha recorrente.
A segunda visita já foi mais preparada, merecendo reserva e encomenda antecipada. Lebre com feijão foi o prato de resistência, não sem que antes aparecessem na mesa alguns acepipes para entrada, entre os quais pernas de rã (sinceramente, não fiquei fã). Como mandam os cânones, a lebre vinha em tacho de barro e deu para ir comendo, comendo, comendo... até fartar. Para sobremesa repetiu-se o inevitável fidalgo, certamente um dos melhores doces à base de ovo que existem, complementado por um bolo de chocolate regado com creme de chocolate que mais parecia mousse... É de lamber os beiços!
O serviço é esmerado e cuidado, sem nada a apontar. Escolhidos os petiscos certos, pode-se ter ali uma excelente refeição com um óptimo atendimento.
Para o vinho, não resisti a repetir o Casa de Alegrete 2005. Confirmou a excelente impressão da primeira prova, e voltou-se a beber quase com sofreguidão. Para complementar com algo diferente escolheu-se um Herdade dos Muachos Reserva 2003. De cor rubi bastante intensa, mostrou bom corpo e estrutura, suave e aromático, com taninos bem domados mas a suportarem um todo persistente sem deixar de ter alguma elegância. Um vinho equilibrado que se bateu bem com o prato de lebre mas que também pode mostrar-se com outros pratos um pouco mais delicados. A rever noutra ocasião.
Em resumo, duas boas refeições, bem acompanhadas por dois bons representantes dos vinhos de Portalegre. Um local que vale a pena (re)visitar.
Kroniketas, enófilo itinerante
Restaurante: O Escondidinho
Travessa das Cruzes, 1 e 3
7300 Portalegre
Preço por refeição: 20-25 €
Nota (0 a 5): 4
Vinho: Casa de Alegrete 2005 (T)
Preço no restaurante: 15 €
Vinho: Muachos Reserva 2003 (T)
Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: José Carvalho - Sociedade Agrícola (Herdade dos Muachos)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Trincadeira, Alfrocheiro, Cabernet Sauvignon (15%)
Preço em hipermercado: cerca de 9 €
Nota (0 a 10): 7,5
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Krónikas do Alto Alentejo (X)
No meu copo, na minha mesa 161 - Casa de Alegrete 2005; Caldeirão de Sabores (Portalegre)

Uma das surtidas gastronómicas resultou numa completa revelação, quer a nível do restaurante quer a nível do vinho. O restaurante Caldeirão de Sabores, no bairro dos Assentos, junto à entrada de Portalegre pelo lado sul, é um espaço relativamente pequeno onde tive oportunidade de degustar uma refeição magnífica.
Depois dumas entradas à base de peixe que não fizeram as minhas delícias, passou-se àquilo que interessa: uma empada de lebre e um “magret” de pato (uma espécie de pato estufado fatiado). Tudo acompanhado com uma salada mista para desenjoar.
Ambos estavam excelentes, com natural realce para a empada de lebre, muito macia e apetitosa. Para sobremesa as escolhas foram mais prosaicas: mousse de chocolate e requeijão com doce de abóbora, que cumpriram na perfeição.
O serviço é de grande qualidade e eficiência, apenas com um senão de alguma demora nos pratos, mas dada a especificidade da empada de lebre talvez fosse inevitável essa demora. Um local que se recomenda, portanto.
Conhecido o restaurante, o vinho foi, então, a grande revelação da noite. Já o tinha visto numa montra doutro restaurante e aqui foi a escolha imediata: um Casa de Alegrete, aqui dos arredores (Alegrete é uma povoação que fica na encosta da serra de S. Mamede, uns 10 quilómetros para sueste da cidade). A impressão foi excelente. Um vinho macio, aberto e suave, em que os 14% de álcool estão perfeitamente disfarçados, o que faz com que não se torne cansativo ao contrário de muitos com este grau alcoólico. É um bom exemplo de como um vinho com 14 graus pode ser aveludado. O estágio de 12 meses em madeira dá-lhe alguma consistência, aparecendo aquela bem integrada com os aromas de fruta predominantes no primeiro ataque na boca. As castas Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet (talvez a grande “coqueluche” do Alentejo nesta altura) em harmonia quase perfeita.
É um daqueles vinhos que vão melhorando com o tempo de abertura da garrafa, desenvolvendo uma persistência e um fim de boca prolongado e ao mesmo tempo macio, tornando-se mais apetitoso à medida que os copos se sucedem. Por isso torna-se um vinho guloso, que se bebe com prazer sem se dar por isso, de tal forma que duas pessoas beberam duas garrafas... É um vinho quase desconhecido no panorama nacional, dada a pouca produção que praticamente se esgota no mercado da região, dum produtor (João Torres Pereira) e dum enólogo (Paulo Fiúza Nigra) que desconhecia por completo, mas do qual é praticamente impossível não gostar. Tem um perfil que me agrada sobremaneira, persistente e ao mesmo tempo elegante, aquilo que vai faltando em muitos vinhos “da moda”, particularmente no Alentejo. Decididamente, uma aposta a rever na primeira oportunidade que tiver enquanto ainda estou por cá.
Em suma, uma daquelas refeições para não esquecer: restaurante e vinho excelentes, numa combinação exemplar.
Kroniketas, enófilo itinerante
Restaurante: Caldeirão de Sabores
Travessa Luís Pathe, 12
Bairro dos Assentos
7300-037 Portalegre
Telef: 966.795.751
Preço médio por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4,5
Vinho: Casa de Alegrete 2005 (T)
Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: João Torres Pereira
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet
Preço no restaurante: 13 €
Nota (0 a 10): 8,5
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Krónikas Vinícolas
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