Mostrar mensagens com a etiqueta Touriga Franca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Touriga Franca. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

No meu copo 139 - José Preto 2004


Tinha alguma expectativa em relação a este vinho. O tuguinho já tinha comprado uma garrafa e o ano passado resolvi também comprar uma. Tive oportunidade de prová-lo num dos jantares de férias e fiquei desiludido. As referências que tenho dos vinhos de Trás-os-Montes fora da denominação de origem Douro são geralmente bastante boas, bem acima da média (lembremo-nos do Valle Pradinhos e do Bons Ares, por exemplo).

Este José Preto de 2004, saído da adega do produtor em Sendim, Miranda do Douro, apresentado como o primeiro VQPRD do Planalto Mirandês, ficou aquém das expectativas. Aroma pouco pronunciado, algo delgado de corpo, um daqueles vinhos que nos deixam em dificuldades para escrever sobre ele. Não que seja mau, mas também não se pode dizer que seja verdadeiramente bom. Ficamos pelo sofrível... Não nos deixa grandes memórias...

Kroniketas, enófilo esclarecido



Vinho: José Preto 2004 (T)
Região: Planalto Mirandês
Produtor: José Francisco Lopes Preto
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Franca, Touriga Nacional, Mourisco Tinto
Preço em feira de vinhos: 4,89 €
Nota (0 a 10): 5

sábado, 29 de setembro de 2007

No meu copo 137 - Terra Franca rosé 2005

Os brancos e rosés de férias (IV)

Este também foi aberto numa tarde de Verão com grelhados. Embora não seja desagradável, apresentou um aroma algo discreto e paladar ligeiramente frutado e seco. Não pareceu capaz de grandes voos. Mesmo pelo pouco preço que custou, acaba por não merecer o gasto e realmente parece não ter tido grande investimento por parte da empresa.
Enfim, não deixou memórias.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Terra Franca 2005 (R)
Região: Regional Beiras
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 12%
Castas: Baga, Rufete, Tinta Barroca, Touriga Franca
Preço em feira de vinhos: 1,88 €
Nota (0 a 10): 5

domingo, 1 de julho de 2007

No meu copo 125 - Casa Ferreirinha Reserva 96, Quinta da Leda 2001, Callabriga 2000


Estes estavam à espera duma oportunidade. Desde há cerca três anos, quando descobrimos o Callabriga e o Quinta da Leda, começámos a apostar na gama de vinhos da Casa Ferreirinha, mais propriamente naqueles que se situam nos patamares do meio para cima (acima do Esteva e do Vinha Grande e abaixo do Barca Velha).
Para estas provas reservámos duas garrafas de cada e fizemo-las separadamente ao longo dos últimos meses, reunindo os “Comensais Dionisíacos”, já com o Politikos, a aquisição mais recente, na equipa titular.

Comecemos por cima, pelo filho bastardo do Barca Velha, ou aquele que não chegou a sê-lo mas que poderia lá ter chegado: o Reserva 96, que já se chamou Reserva Especial, mais tarde só Reserva, e agora apenas Colheita. Tudo no ponto certo: os decanters limpos e arejados (um para cada garrafa), os copos de pé alto e boca larga, em forma de tulipa, a temperatura de serviço, os sedimentos deixados no fundo da garrafa. Para que nada falhasse. Afinal, o momento era solene e era a estreia absoluta nos nossos copos. À espera, um cabritinho do Alto Alentejo assado no forno com todos os requisitos e acompanhado com um belíssimo arroz de miúdos confeccionado especialmente pela senhora-mãe do Mancha Negra.
Começou por mostrar uma cor rubi ligeiramente atijolada e aromas discretos a fruta madura. Macio na boca, final de duração média, corpo na mesma. A primeira garrafa ainda teve alguma evolução no decanter, pelo que a segunda foi decantada com maior antecedência. Surpreendentemente, esta revelou-se menos exuberante e, longe de ganhar com o tempo de abertura, pareceu esvair-se. Dos três, este é o vinho mais suave (até pela idade), mas quando se esperava que desse o salto para cima… pareceu morrer nos copos. Declínio ou necessidade de esperar mais tempo? Também há mais duas garrafas, teremos que deixá-las esperar mais um ano, dois, cinco ou dez?
No final, o sentimento foi unânime: esperava-se mais deste vinho, que acabou por ficar aquém das expectativas. Sem dúvida que eram altas, mas não correspondeu de todo. Será que houve ali... preconceito?

Segue-se na escala o Quinta da Leda 2001. Foi a grande descoberta de há uns 3 anos no Encontro com o Vinho e logo ali o achámos excepcional. O preço também o é, mas é daqueles vinhos que nos enchem as medidas até mais não poder. Ou era...
O processo seguido foi o mesmo: decantado previamente, com antecedência suficiente para libertar os aromas mais profundos. Copos e temperatura adequados e a outra metade do cabrito assado no forno acompanhado com batatinhas e grelos, desta vez confeccionado pela senhora-mãe do tuguinho. A primeira garrafa foi decantada com duas horas de antecedência em relação à hora de consumo e foi uma completa decepção. Logo no aroma se verificou alguma falha, com o bouquet muito discreto e a prova a confirmá-lo, com um corpo surpreendentemente delgado e um final curto.
Não lhe tendo feito bem a decantação, optámos por não decantar a segunda garrafa, abrindo imediatamente antes de beber, para ver como se comportava. Igual. Ainda pareceu apresentar inicialmente algum vigor, mas rapidamente se esvaiu. A grande complexidade que lhe conhecíamos não estava lá de todo. Foi a grande decepção desta tripla prova. Perante isto, só nos resta esperar para provar a colheita seguinte de que dispomos, a de 2004. Pode ser que tenha sido apenas azar com o ano. Senão, os quase 20 € gastos em cada garrafa foram mal empregues.

Finalmente, o Callabriga 2000, que é o produto que está acima do Vinha Grande, sendo apontado como a aposta da casa para a exportação. Abrimos as duas garrafas com os já célebres (entre nós) bifes de novilho de raça Angus com ervas de Provence, que o mestre cozinheiro Kroniketas tem vindo a apurar. Mais uma vez, seguindo o conselho do contra-rótulo, foram previamente decantados para libertar os aromas e para nos livrarmos dos sedimentos da garrafa. Como já aconteceu algumas vezes, quando o líquido estava a acabar estava o vinho a atingir o seu máximo esplendor.
Revelou uma boa concentração de cor, com um aroma profundo algo frutado. Redondo na boca mas com boa estrutura, taninos discretos e acidez suave, madeira muito disfarçada, tudo muito equilibrado. Fim de boca suave mas prolongado. Com o passar da refeição foram-se libertando os aromas terciários, alguma especiaria a vir lá do fundo tornando o final mais persistente, mostrando que temos ali um vinho para altos voos e capaz de estar algumas horas a fazer-nos companhia. Foi pena ter acabado no melhor da festa, mas para a próxima decantamo-lo mais cedo (sim, porque ainda há umas garrafitas de reserva). Pena é que tenham mudado o formato da garrafa nas últimas colheitas (tal como ao Quinta da Leda, aliás), pois esta borgonhesa era a imagem de marca da casa e ficava-lhe muito bem.

Em suma, desta trilogia de Ferreirinhas, o balanço que se pode fazer é que as altas expectativas saíram globalmente defraudadas, sendo que foi o vinho no patamar mais baixo que melhor se comportou. Não encontramos explicação para o sucedido com o Reserva e o Quinta da Leda, pois ambos estavam em perfeitas condições de consumo, mas não apresentaram nem a estrutura, nem a persistência, nem a complexidade aromática que esperávamos de vinhos desta gama. Se as garrafas de que ainda dispomos confirmarem estas impressões, terão de ser apostas a esquecer... Infelizmente. Não estávamos habituados a estas decepções nos vinhos da Sogrape...

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape

Vinho: Reserva Ferreirinha 96 (T)
Grau alcoólico: 12,5%
Preço em hipermercado: 39,99 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta da Leda 2001 (T)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 17,86 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Callabriga 2000 (T)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 13,75 €
Nota (0 a 10): 9

quarta-feira, 27 de junho de 2007

No meu copo, na minha mesa 124 - Montevalle Reserva 02, Casa de Santar 03, Murganheira Branco Seco 06; Petisqueira do Gould (Paço d'Arcos)




Continuando nos arredores da capital, aproveitámos uma folga para dar um saltinho a Paço d’Arcos. Indo pela Avenida Marginal em direcção a Cascais, sai-se na primeira saída para Paço d’Arcos, desembocando-se logo na Rua Costa Pinto, onde o nº 47 aloja o restaurante Os Arcos e alguns metros à frente, no nº 93, se encontra a Petisqueira do Gould. Na mesma zona, quase em frente, há a Casa Gallega e ainda um restaurante italiano e, num patamar mais abaixo, a Marítima e um restaurante asiático. Há muito por onde escolher.
Depois de espreitarmos à montra d’Os Arcos e da Petisqueira do Gould, ali a 100 metros um do outro, optámos por este último, ficando Os Arcos para próxima oportunidade. Franqueada a porta, encontrámos um espaço reduzido, quase intimista (a sala dispõe apenas de 30 lugares), onde somos conduzidos à mesa pelo anfitrião, o Sr. Amando Carvalho, dono daquele espaço.
Como entretém-de-boca apareceram na mesa umas tirinhas de presunto, pão de alho torrado e um creme à base de sapateira servido na própria concha.
Quando passamos à escolha dos pratos, a oferta, não sendo excessivamente extensa, é bastante variada, o que dificulta a escolha. Nos pratos do dia há arroz de garoupa com gambas, costeletinhas de borrego e posta mirandesa, entre outros. Como somos mais carnívoros, olhámos mais para o lado das carnes e chamou-nos a atenção a alheira de caça, o entrecôte grelhado e o tornedó, e ficámos ali a matutar no que escolher. Perante a nossa indecisão, o dono aproxima-se e sugere-nos a posta mirandesa, de carne certificada. Para fazer parelha acabámos por escolher o tornedó à portuguesa, frito em azeite e alho.
Os pratos foram apresentados num carrinho de servir e pedimos para dividir as doses em partes iguais, de modo partilhar os dois pratos. O dono acabou por servir-nos primeiro a posta mirandesa e guardou o tornedó na estufa. Obviamente, ambos mal passados.
A posta estava muito tenra, salpicada por um tempero original, em que se notaram algumas notas de canela e de ervas não identificadas pelos mastigantes.
Quanto ao tornedó, extremamente suculento e tenro, de carne de Lafões, sobressaiu precisamente pela simplicidade da confecção, que permitiu que a qualidade da carne se exibisse sem peias.
E quanto ao vinho? A decisão tinha sido esta: almoçar num restaurante desconhecido e beber um vinho desconhecido. A carta era extensa, principalmente no Douro e ainda mais no Alentejo. Estávamos de olho num Gouvyas quando o dono nos sugeriu um Montevalle Reserva 2002, da empresa Bago de Touriga, de Luís Soares Duarte e João Roseira. Trata-se de um vinho feito com uvas de vinhas velhas cultivadas em Soutelo, no Cima Corgo, e São João de Lobrigos, no Baixo Corgo. Fermentado 100% em lagar e engarrafado após 24 meses de estágio em barricas usadas, é um vinho de produção limitada, que não é habitual ver no circuito comercial. Em conversa connosco ao longo da refeição, o dono disse-nos que tinha encomendado 80 caixas mas que só lhe vão chegando a pouco e pouco.
O vinho foi servido inicialmente num copo de prova, sendo o resto decantado sem que fosse necessário pedi-lo. Pedimos, sim, um frappé porque o vinho se apresentou com a temperatura um pouco elevada. Após uns 10 minutos com o decanter dentro do balde com gelo, o vinho ficou à temperatura adequada, podendo então ser devidamente apreciado, para o que foram devidamente apresentados copos em forma de tulipa.
Fugindo um pouco ao habitual, este vinho não contém a quase omnipresente Touriga Nacional, ficando-se pelas habituais Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca. Apresenta uma cor com tonalidades violáceas, aroma frutado e a denotar alguma juventude. Na boca é medianamente encorpado e equilibrado, com uma acidez moderada e grau alcoólico não excessivo. Apesar dos 24 meses de estágio, a madeira não se sobrepõe no conjunto, deixando um fim de boca suave e fresco com um toque apimentado.
Como a garrafa se esgotou, ainda tivemos que recorrer a meia garrafa do que houvesse disponível, e a escolha recaiu num Casa de Santar 2003, que se mostrou bem à altura do desafio. Há cerca de um ano tínhamos provado uma garrafa desta colheita, e devemos dizer que esta meia garrafa nos surpreendeu favoravelmente. Muito equilibrado, muito macio mas suficientemente encorpado e persistente para não ficar perdido nas sobras do vinho anterior. Merece uma revisão da nota apresentada anteriormente.
Pelo meio, foram chegando mais uns reforços de pão torrado, batatas fritas às rodelas muito finas e os copos sempre preenchidos graças à extrema atenção do anfitrião, com quem fomos trocando algumas impressões acerca de outros vinhos, da origem das carnes e de outras sugestões que nos foi apresentando. Para finalizar, pedimos um delicioso e muito macio bolo de chocolate com gelado de nata, que rematou o repasto da melhor forma.
A grande surpresa aconteceu apenas três dias depois. Há coisas que não se preparam antecipadamente, simplesmente acontecem porque calha. Encontrámo-nos nesse fim-de-semana a propósito dum evento cultural ali para os lados de São Domingos de Rana e, já cerca das 21 horas, com os estômagos meio vazios depois de termos enganado a fome com uns croquetes e rissóis, resolvemos ir petiscar qualquer coisa para fechar a noite. Tinha-se pensado num belo bife, mas dado o adiantado da hora achámos melhor ficar por uma coisa mais leve, pensando-se então no peixe. Como já dissemos, não somos grandes piscícolas, pelo que não é fácil escolher o que comer. A hipótese de ir para o peixe grelhado, sugerida pelo tuguinho, foi desde logo liminarmente rejeitada. Queria-se peixe, sim, mas qualquer coisa que soubesse bem. Estando ali pela zona, acabámos por voltar ao local do crime, e fomos outra vez parar a Paço d’Arcos. Toca a fazer a mesma volta do outro dia, e na montra d’Os Arcos os preços do peixe eram algo assustadores. Com alguma renitência do tuguinho, fomos outra vez bater à porta da Petisqueira!
Fomos outra vez magnificamente atendidos, voltando a trocar alguns dedos de conversa com o Sr. Amando Carvalho, aproveitando o facto de termos ficado noutro ponto da sala onde pontificam alguns recortes de jornais para nos inteirarmos da origem daquele espaço. Ficámos a saber que a Petisqueira surgiu depois da ourivesaria que a antecedeu ter sido assaltada e os proprietários despojados dos seus pertences. Para refazerem o negócio montaram um restaurante com um desenho interior que mereceu um prémio da Câmara Municipal de Oeiras.
Quase com as 10 horas da noite a bater, olhámos então, desta vez, para os peixes, e optámos pelos filetes de peixe-galo com arroz mariscado. Estavam soberbos, muito saborosos, assim como o arroz, malandrinho como convém. Desta vez rejeitámos as entradas e ficámos suficientemente preenchidos sem exagerar, que era o que se pretendia.
Para terminar, repetimos a sobremesa. Não havia opção que nos agradasse mais.
Quanto ao vinho, voltámos a seguir a sugestão do Sr. Amando e escolhemos o Murganheira Branco Seco. Confirmou tudo o que se esperava: um vinho de grande elegância, com grande frescura na boca devido a uma acidez correcta e um grau alcoólico adequado (12%), que aumenta o prazer de beber sem nos pesar nem se tornar enjoativo, como muitos brancos fermentados em madeira e cheios de álcool que temos encontrado ultimamente. Este, sim, é mais ao nosso gosto. Frutado quanto baste, com alguma predominância floral que é proporcionada pela Malvasia Fina, uma casta que temos encontrado em brancos muito elegantes.
Quanto ao preço, tratando-se de duas refeições muito diferentes, o dispêndio também acabou por sê-lo. Na primeira pagámos 45 € por cada refeição, com uma garrafa de vinho a 26 € e ainda mais meia, enquanto na segunda, sem entradas, com apenas uma garrafa de vinho a 10 € e sem cafés, ficámo-nos por uns singelos 20 € por cabeça. Donde se conclui facilmente que é precisamente nas entradas e nos vinhos, mais que nos pratos, que se estabelece a diferença de preços. Mas não custa pagar o que pagámos da primeira vez quando se sai dum restaurante com o nível de satisfação que este nos proporcionou.
Perante este serviço de pratos e de vinhos irrepreensível, a qualidade da confecção e a atenção, afabilidade e simpatia do dono, só podemos considerar este restaurante como excelente. No final de duas visitas, prometemos voltar, não com três dias de intervalo, mas este local tornou-se visita obrigatória para nós. Não é preciso grandes poses para se atingir a excelência - apenas simpatia, competência e qualidade.

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

Restaurante: A Petisqueira do Gould
Rua Costa Pinto, 93
2770-213 Paço de Arcos
Telef: 21.443.33.76
Preço médio por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: Montevalle Reserva 2002 (T)
Região: Douro
Produtor: Bago de Touriga Vinhos Lda.
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço no restaurante: 26 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Casa de Santar 2003 (T) (garrafa de 375 ml)
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Murganheira Branco Seco 2006 (B)
Região: Távora-Varosa
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial do Varosa
Grau alcoólico: 12%
Castas: Malvasia Fina, Cerceal, Gouveio Real
Preço no restaurante: 10 €
Nota (0 a 10): 8

domingo, 24 de junho de 2007

No meu copo, na minha mesa 123 - Muxagat 2003; O Nobre (Montijo)



Uma ida à “outra margem” para ver um espectáculo musical levou as Krónikas Vinícolas a passar junto a este famoso restaurante, que visitámos há 8 anos ainda na Ajuda, em Lisboa. Desde logo ficou a vontade de redescobrir este espaço com tradição na gastronomia, junto à Praça de Toiros do Montijo. E uma bela noite lá fomos pela ponte Vasco da Gama a caminho do novo Nobre.
O novo espaço é amplo e arejado, com um grande parque de estacionamento logo à chegada e entrada para uma sala enorme. As mesas estão dispostas de modo a haver um generoso espaço de circulação, e mesmo assim tem capacidade para uma boa centena de pessoas.
A recepção aos clientes é atenciosa e desde logo somos confrontados com algumas entradas na mesa, ao que se segue uma enorme ementa de entradas, especialidades, peixes, carnes, etc. O difícil é escolher.
Escolhemos um folhado de caça brava e uma costeleta de vitela à mirandesa. Mas antes experimentámos a já famosa sopa de santola, que veio dentro da concha da própria santola e se revelou bastante saborosa.
O folhado vinha acompanhado de alface com umas rodelinhas de maçã, para refrescar o folhado, embora qualquer acompanhamento mais sólido não fizesse mal nenhum. A costeleta trouxe um acompanhamento mais habitual, batatas fritas e brócolos cozidos, regada com azeite. Ambos estavam bastante saborosos e, a meio do folhado, já começávamos a ficar atestados.
Para sobremesa ainda tivemos coragem para avançar para uma sopa dourada, que veio servida num prato enorme polvilhado à volta com açúcar em pó e canela. Uma delícia que já foi difícil derrotar, mas aguentámos estoicamente o desafio até ao fim.
Para os líquidos a oferta também era enorme. Surpreendentemente, para o nível do restaurante, os preços praticados não são obscenos, conseguindo-se escolher vinhos na casa dos 20 €, e foi precisamente um desses que escolhemos. Uma novidade: Muxagat 2003, produzido por Mateus Nicolau de Almeida, filho de João Nicolau de Almeida (enólogo e administrador da Ramos Pinto) e neto de Fernando Nicolau de Almeida, o criador do Barca Velha. Portanto, a 3ª geração também já voa sozinha e já tem o seu próprio vinho, que deve o seu nome ao local onde se situa a vinha, próximo da localidade de Muxagata, a poucos quilómetros de Vila Nova de Foz Côa. Bem no coração do Douro Superior, portanto, ali nas vizinhanças da Quinta da Ervamoira (já visitada por nós o ano passado), da Quinta da Leda, da Quinta do Vale Meão, berços de alguns dos melhores vinhos da região… e do país.
E que dizer deste Muxagat? Para começar, pouca informação no contra-rótulo, o que não nos permite saber quais são as castas utilizadas. Presumivelmente lá estarão a Touriga Nacional, a Tinta Roriz, a Tinta Barroca, a Touriga Franca ou o Tinto Cão. Fazendo fé na informação indicada neste post do Vinho da Casa, destas só a Tinta Barroca não está lá.
Na cor é bastante concentrado, a puxar para o retinto, no aroma apresenta sugestões de frutos vermelhos maduros. Na prova é bem encorpado, com um ligeiro toque apimentado, uma acidez correcta bem casada com a madeira, que não se sobrepõe a um conjunto equilibrado com final persistente. Para esse equilíbrio contribui também o grau alcoólico moderado, “apenas” 13%, o que é raro nos tempos que correm, principalmente no Douro, mas que talvez revele uma nova tendência para voltarmos a graus alcoólicos “normais”, o que seria bastante agradável. Em suma, um vinho simpático por um preço teoricamente acessível.
Resta acrescentar que esta era a única garrafa existente no restaurante e, segundo o chefe de sala, é um vinho pouco solicitado, que só é pedido por conhecedores. Imaginem... Esta calhou-nos bem.
Quanto ao restaurante, já íamos preparados para abrir os cordões à bolsa, recordando a despesa de há 8 anos. Logo o preço dos pratos ameaçava fazer subir a parada. Depois, o preço do vinho acabou por equilibrar a coisa. No final, duas refeições por 91 euros. Mas pela qualidade do serviço e da confecção, vale a pena ir lá. Não é todos os anos, mas de vez em quando sabe bem fazer uma pequena extravagância destas. Até porque nos ficou a luzir no olho uma perdiz à transmontana que estava na ementa...

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

Restaurante: O Nobre
Avenida de Olivença
2870 Montijo
Telef: 21.231.75.11/96.982.52.78 - Fax: 21.231.75.14
E-mail: nobremontijo@sapo.pt
Preço médio por refeição: 45/50 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: Muxagat 2003 (T)
Região: Douro
Produtor: Muxagat Vinhos
Grau alcoólico: 13%
Castas: Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Nacional, Touriga Franca
Preço no restaurante: 19,50 €
Nota (0 a 10): 7

quinta-feira, 21 de junho de 2007

No meu copo 122 - Hexagon 2003

O fascínio por este vinho vem desde o 1º encontro de eno-blogs, realizado em Janeiro na York House. Na altura, para mim foi a grande surpresa da noite.
Um dia destes, numa visita à Makro deparámo-nos com este à venda, tendo sido adquirida uma singela garrafa para dividir por dois. E não perdemos muito tempo a bebê-la. Fizemo-lo a acompanhar umas costeletas de novilho grelhadas.
É curiosa a referência ao nome do vinho no contra-rótulo: os seis lados do hexágono relacionados com seis castas e seis gerações da família José Maria da Fonseca, onde agora predomina como enólogo Domingos Soares Franco. “Hexagon é a procura da excelência que tem marcado a minha geração e a minha família ao longo dos tempos”, diz Soares Franco. E com este vinho conseguiu-a.
Não decantámos o vinho, mas ele merecia. Fomo-lo degustando calmamente e ao longo de uma hora desenvolveu aromas fantásticos, apresentando um fim de boca que nunca mais acaba. Um vinho que nos enche a boca e que apetece ficar ali a saborear por tempo indeterminado. Taninos bem firmes mas redondos, madeira bem integrada num conjunto de grande complexidade de aromas e sabores. É o topo de gama da José Maria da Fonseca, e está lá muito bem.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Hexagon 2003 (T)
Região: Terras do Sado
Produtor: José Maria da Fonseca
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Syrah, Tinto Cão, Trincadeira, Tannat
Preço em hipermercado: 33,04 €
Nota (0 a 10): 9

sábado, 14 de abril de 2007

No meu copo 105 - Quinta Sá de Baixo 2003

Outro vinho do Douro da gama média-baixa com um perfil correspondente. Não difere muito do anterior, em estrutura, em aroma, em acidez, em fim de boca.

Mediano de corpo, fácil de beber, pouco exuberante nos aromas, é outro exemplo de vinho do Douro da gama média-baixa que perde claramente para outras regiões.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta Sá de Baixo 2003 (T)
Região: Douro
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola - Encostas do Douro
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 2,88 €
Nota (0 a 10): 6

quinta-feira, 12 de abril de 2007

No meu copo 104 - Lavradores de Feitoria 2003

Já tínhamos provado um branco desta casa, no restaurante “O Orelhas”, que não agradou de todo. Agora provámos um tinto bem mais simpático. Relativamente leve, aberto, macio. Frutado e com alguma frescura resultante de uma certa juventude ainda presente.


De grau alcoólico moderado e com taninos macios, elegante na boca mas com um final curto. Mais um vinho a preço razoável aparentemente sem grandes pretensões. Bebe-se com facilidade, embora sem encantar. Pelo mesmo preço há dezenas de outros mais apelativos.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Lavradores de Feitoria 2003 (T)
Região: Douro
Produtor: Lavradores de Feitoria
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 3,59 €
Nota (0 a 10): 6

segunda-feira, 19 de março de 2007

No meu copo 99 - Douro Sogrape Reserva 2000

Já havia saudades de um vinho assim. Conhecemos os Reservas da Sogrape há mais de uma década, praticamente desde que eles surgiram no mercado. Os primeiros Reservas que provámos foram o Douro de 1987 e o Dão de 1985, encontrados na feira de vinhos do Pingo Doce de 1992, ainda com o rótulo bege e recortado. Daí para cá fomos acompanhando a sua evolução e os lançamentos nas várias regiões, principalmente no Dão, onde é contemporâneo do Douro, depois na Bairrada e há cerca de 3 anos no Alentejo.
Há cerca de oito anos, os dois basbaques que fazem este blog tiveram uma refeição memorável (e cara, a cerca de 10 contos por cabeça) no desaparecido “Nobre” da Ajuda, regada por um não menos memorável Douro Sogrape Reserva de 95, um vinho de grande categoria que nos encheu verdadeiramente as medidas. Essa colheita viria, aliás, a merecer uma edição especial para a Expo 98 com um rótulo alusivo à expedição, vendido no pavilhão do G7, uma associação dos 7 maiores produtores nacionais de vinho, de que a Sogrape naturalmente faz (ou fazia) parte. Dessa colheita ainda comprámos várias garrafas, a preços entre os 1800 e os 2000 escudos. Poucos meses depois tivemos o grato prazer de degustar uma garrafa dessa colheita nesse célebre e único jantar.
Como sabem aqueles que nos visitam, somos fãs quase incondicionais dos vinhos da Sogrape, que nunca nos deixam ficar mal, a não ser nalgum caso excepcionalíssimo. Estes reservas têm mantido ao longo dos anos um padrão de qualidade uniforme e sempre elevado, por um preço que não sendo dos mais baratos consideramos, ainda assim, claramente merecedor do investimento.
Este Douro de 2000 foi apreciado recentemente na companhia de pratos diversos como um valente cozido à portuguesa, com todos os matadores, digamos, uns bifes com ervas de Provence, umas perdizes estufadas. E o menos que podemos dizer é que esteve bem à altura de todos. De cor púrpura, bem retinto, com um bouquet estupendo e um sabor a condizer, neste vinho de sete anos a fruta, como é óbvio, já tinha evoluído para outros sabores bem mais subtis, um fundo especiado, um ligeiro fumado e frutos vermelhos, mas tudo muito aveludado e de taninos domados a ligarem lindamente com os 13 graus de um álcool que nem se sentia. Boa estrutura sem ser pesado e um longo fim de boca completavam o quadro.
Já o provámos em diversas ocasiões com cabrito no forno, costeletas de novilho, bifes, assado misto, arroz de caça, perdiz, sei lá que mais... E fica bem com praticamente tudo. Em suma, o que se deseja mais de um vinho? Que voe?
Claro que este é presença obrigatória permanente nas nossas garrafeiras e nas nossas sugestões. E se for verdade que a Sogrape vai deixar de produzir estes Reservas, será uma grande perda e uma má decisão. Porque o Vinha Grande, que supostamente será o seu sucessor, ainda lhe fica uns furos abaixo.

tuguinho e Kroniketas, enófilos e tudo

Vinho: Douro Sogrape Reserva 2000 (T)
Região: Douro
Produtor:
Sogrape
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 10,99 €
Nota (0 a 10): 8,5

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

No meu copo 91 - Porto Quinta do Infantado LBV 2001

Pois que do jantar dos "bandalhos" (e não "cambada", como equivocamente o Kroniketas referiu) parece que me calhou dissertar sobre o vinho dos finalmentes (ou dos quase-finalmentes, porque alguns acabaram mesmo foi com uma aguardente do INIA) - um LBV do ano de 2001, da Quinta do Infantado.

Já me foi dado provar uns quantos LBV, uns filtrados, outros não, e de diversos estilos. Cumpre-me assim confessar várias coisas: acho que os filtrados ficam pífios, quando comparados com os que não sofreram essa operação; gosto mais dos que assumidamente são mais "frutados".

Posto isto, direi que este Quinta do Infantado não me encheu as medidas. É certo que se bebe sem problema, mas pareceu-me demasiado seco e delgado para os meus gostos em termos de LBV, apesar de não ser filtrado. Já bebi bem melhor da Ramos Pinto ou da Dow's, para só mencionar alguns.

Em conclusão, pelo preço que este custou há coisas melhores. Mas nisto como noutras coisas, é uma questão de gosto, e os gostos não se discutem. Lamentam-se!

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Porto Quinta do Infantado LBV 2001 (T)
Região: Douro/Porto
Produtor: Quinta do Infantado
Grau alcoólico: 19,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinto Cão
Preço em feira de vinhos: 12,89 €
Nota (0 a 10): 6,5

sábado, 25 de novembro de 2006

No meu copo 70 - Quinta do Crasto 2003

Eis aqui mais um vinho do Douro que me deixa com dúvidas sobre o que hei-de achar. À partida a expectativa era alta, mas a impressão ficou aquém do esperado. O aroma é pouco vivo e o ataque na boca pouco pronunciado. Fazemos girar o vinho pelos cantos da boca à procura dos aromas e dos sabores, mas o vinho aparece algo delgado, algo indefinido. Depois de deglutir é que se sente o álcool e aparecem os taninos bem presentes, deixando um final prolongado com notas de especiarias.
Em suma, não tenho grande coisa a dizer deste vinho, porque não guardei grandes memórias dele. Mais uma vez deixou-me aquela sensação de... muita parra e pouca uva que acontece com muitos vinhos do Douro quando saímos dos topos de gama.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta do Crasto 2003 (T)
Região: Douro
Produtor: Sociedade Agrícola da Quinta do Crasto
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca

Preço em feira de vinhos: 8,39 €
Nota (0 a 10): 6

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Prova à Quinta - O primeiro


Cister da Ribeira 2001

Respondendo ao desafio lançado pelo Copo de 3 (tinto português com menos de 13% de álcool) as Krónikas Vinícolas associam-se à iniciativa. Para esta primeira prova, e por falta de oportunidade para uma escolha mais criteriosa, aproveitei um vinho que me ofereceram à saída do Encontro com o Vinho. É um Douro da região de Cima Corgo, um Cister da Ribeira de 2001, da Quinta de Ventozelo, situada em Ervedosa do Douro, perto de São João da Pesqueira. É feito com as castas mais representativas da região do Douro: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca.
Apesar de ter boa matéria-prima, o resultado é francamente pobre. Tem uma cor rubi carregada, o aroma é discreto, a prova na boca pouco exuberante, com algumas notas de especiarias muito pouco pronunciadas, talvez um pouco de couro e um final curto, corpo delgado e acidez talvez um pouco acima do ideal para a graduação do vinho: 12,5%.
Em suma, pareceu-me um vinho um pouco desequilibrado nas suas componentes, que não deixa grandes memórias. É mais uma daquelas experiências do Douro que me deixam de pé atrás quando saímos dos topos de gama. Fui depois consultar os catálogos das feiras de vinhos e percebi porque é que este vinho custa o que custa. Mas na gama mais baixa, e por esse preço, pode-se comprar e beber muito melhor.
Enfim, para começar a prova não foi uma escolha muito feliz, vamos ver se para as próximas tenho mais sorte.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Cister da Ribeira 2001 (T)
Região: Douro
Produtor: Quinta de Ventozelo
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca

Preço em feira de vinhos: 1,68 €
Nota (0 a 10): 5

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Na minha mesa, no meu copo 42 - Adega e Presuntaria Transmontana; Quinta dos Aciprestes 2003

Já de alguns anos a esta parte que as margens do Douro na zona do Porto deixaram de ser de faina fluvial e começaram a abrigar outras espécies. A velha Ribeira rejuvenesceu e apareceram restaurantes e bares que trouxeram outras gentes às suas ruas. Um pouco mais tarde, do outro lado do rio assistiu-se a outra pequena revolução: quase toda a zona de cais perto das caves de vinho do Porto foi reconstruída e aí, da ponte de Dom Luís até bem mais à frente, na direcção da foz do rio, surgiu o que podemos apelidar de émulo das docas de Lisboa.
A zona é absolutamente privilegiada e dos restaurantes, cafés, bares e outras lojas que ocupam os pavilhões construídos à beira-rio pode desfrutar-se da melhor vista sobre o Porto, tanto à luz do dia como de noite.
Além dos pavilhões construídos de origem, também as antigas fachadas que dão para o cais se foram reconvertendo e os restaurantes são mais que muitos, incluindo até uma das sortidas do famigerado Tromba Rija fora de Marrazes.
Praticamente ao lado deste existe outro, denominado Adega e Presuntaria Transmontana II, e que foi a evolução natural da adega original, situada numa rua perpendicular, um pouco mais acima na encosta de Gaia. Este número II já era meu conhecido e sempre fora servido a contento mas, na última tentativa para lá nos amesendarmos, lugares era coisa que não havia… Foi então que o patrão Lopes, proprietário do local, nos sugeriu uma visita ao número I, acabadinho de remodelar e por isso ainda pouco conhecido dos frequentadores da zona e portanto com lugares livres que chegavam para o nosso jantar. E assim seguimos o sr. Lopes e cinco minutos depois (a pé) estávamos num simpático espaço que ainda cheirava a novo. Da antiga “tasca” nem rasto, talvez só a configuração do espaço no rés-do-chão. Este piso alberga algumas poucas mesas, um balcão à entrada e a cozinha, e era o espaço original da adega, mas a remodelação também foi ampliação e agora uma escada leva-nos a um 1º piso que acaba por ser a verdadeira sala de jantar do restaurante.
Para começo da contenda é logo servido um Porto branco, doce e fresquinho, que acaba por preparar o estômago para o que vem a seguir. Não sendo um gémeo do tromba rija, também aqui as entradas são importantes no repasto total, e assim que nos sentamos temos logo várias tábuas com diversos enchidos, presunto, diferentes queijos e bom pão. Ficam por lá também uma travessinha com alcaparras (azeitonas britadas) e uns lombos de biqueirão em vinagrete que são uma delícia! Trazem-nos ainda um agradável folhado de farinheira, quentinho, e outras coisinhas boas que se me apagaram da memória, em virtude talvez de algum acontecimento mais etílico.
Escolheu-se para prato principal uma posta de carne à transmontana, que apareceu tenríssima e no ponto, bem temperada com abundância de alho e já trinchada em tiras manuseáveis, acolitada por batatinhas a murro e legumes salteados servidos a sair do lume na própria frigideira.
Depois disto tudo ainda tivemos de arranjar espaço (porque vontade havia) para nos dirigirmos ao estendal de doces e frutas que se anicha numa das pontas da sala. Desde trouxas de ovos a pudim do Abade de Priscos, de leite-creme queimado a sopa dourada, de mousse de chocolate a arroz-doce e a aletria, há de tudo e bem feito. Sim, também há muita fruta para quem quiser.
E que beberagem nos acompanhou nesta prova de fogo, perguntarão? Apesar da qualidade, também a Adega sofre do mal da maioria dos restaurantes portugueses: tentamos “promover” o consumo de bom vinho com preços exorbitantes! A lista está composta, embora não seja muito extensa, e lá consegui encontrar um vinho que não me pareceu demasiado dispendioso e que nos podia garantir qualidade. Escolhi um Quinta dos Aciprestes, Douro DOC, obviamente tinto. Conheci este vinho quando do seu lançamento, talvez há uns cinco anos, quando o promoviam no Jumbo e que, se bem me recordo, me custou 700 dos velhos escudos por botelha. Na altura gostei, embora não me tenha parecido excepcional. E foi baseado nessa recordação que o escolhi, ciente de que mau vinho não era. Pois bem, o bicharoco excedeu as minhas expectativas e revelou-se opaco, quase rubi na cor, e com uma primeira impressão que nos trouxe à memória um vintage ou LBV novos. A boca andava ali à roda dos frutos vermelhos, com um final complexo que levava ao próximo golo com facilidade. Passou a fazer parte da minha lista de compras para as próximas feiras, nos ainda longínquos Setembro e Outubro.
Concluindo, já tinha a Adega e Presuntaria Transmontana como um bom poiso para refeiçoar nas minhas idas ao Porto, mas esta ocasião revelou-se mais saborosa do que as últimas, sabe-se lá porquê.
Os convivas são geralmente presenteados com miniaturas de Vinho do Porto, de produção do proprietário, e agora também com azeite.
Já para lá tínhamos ido de táxi e de táxi voltámos para o hotel. O que é que vocês estavam a pensar?

tuguinho, enófilo esforçado

Restaurante: Adega e Presuntaria Transmontana II
(daqui podem partir para a I, que é mais difícil de encontrar)
Avenida Diogo Leite, N.º 80
4400 - 111, Vila Nova de Gaia
Telef: 223.758.380
Preço médio por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4

Vinho: Quinta dos Aciprestes 2003 (T)
Região: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Grau alcoólico: 14%

Castas: Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço no restaurante: cerca de 14 €
Nota (0 a 10): 7,5

sexta-feira, 7 de abril de 2006

No meu copo 38 - Mateus Rosé

Eis-nos finalmente chegados à prova do famoso Mateus Rosé, o vinho português mais vendido no estrangeiro e principal receita da Sogrape, a empresa produtora.
Consta que até Saddam Hussein bebia Mateus Rosé, que é um vinho pouco apreciado em Portugal. Talvez por estar a meio caminho entre o branco e o tinto, o rosé é muitas vezes desconsiderado entre nós.
Pessoalmente gosto de beber rosé da mesma forma que branco ou tinto, desde que a ocasião seja adequada. No caso do Mateus, sendo um vinho leve e com pouca graduação alcoólica (apenas 11%), serve tanto como aperitivo, como acompanhante de entradas ou para refeições leves, ficando igualmente muito bem a acompanhar comida italiana ou chinesa. Pode mesmo dizer-se que é um vinho mais versátil que o branco e o tinto, pois não choca com quase nada. E como se bebe fresco ainda pode servir para beber calmamente como refresco numa esplanada.
A última prova foi com um prato de bacalhau no forno com azeite e cebola acompanhado de batatas às rodelas. Como já tive ocasião de referir, não sou grande apreciador de vinho tinto com bacalhau e pensei que me ia arrepender da escolha dum rosé, pois estava mais inclinado para um verde. Mas a verdade é que o Mateus se saiu muito bem da prova, tão bem que ainda foi pedida uma segunda garrafa para apenas duas pessoas. A sua leveza e frescura tornam-no adequado praticamente para qualquer circunstância.
Nós próprios nos esquecemos dos rosés nas nossas sugestões, mas este merece lá estar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Mateus (R) - Vinho de mesa sem data de colheita
Região: Trás-os-Montes (sem denominação de origem)
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 11%

Castas: Baga, Rufete, Tinta Barroca, Touriga Franca
Preço em feira de vinhos: 2,40 €
Nota (0 a 10): 6,5

sexta-feira, 24 de março de 2006

Na minha garrafeira 33 - Os vinhos da Casa Ferreirinha


A Casa Ferreirinha é habitualmente mais conhecida pela produção de vinhos do Porto, associados à marca Porto Ferreira. Recentemente o nome tornou-se mais familiar pela produção duma série televisiva acerca da vida de D. Antónia Ferreira, a Ferreirinha. No século XIX a Ferreirinha teve um papel importante na luta contra a filoxera, uma doença que dizimou as vinhas da Europa, ao enxertar cepas americanas, resistentes à doença, com as cepas portuguesas existentes.
Actualmente a Casa Ferreirinha, à semelhança de outras grandes casas do Douro, é propriedade da Sogrape mas continua a produzir os seus vinhos com a marca da casa. Na Casa Ferreirinha é produzido aquele que os críticos consideram habitualmente o rei dos vinhos portugueses, o mítico Barca Velha, criado por Fernando Nicolau de Almeida em 1952. Trata-se dum vinho que é raro encontrar à venda e, quando aparece, é sempre por preços exorbitantes (digamos, para cima dos 100 ou mesmo 200 euros), pelo que não está ao alcance do consumidor comum ter acesso a este vinho.
O Barca Velha estagia normalmente durante quase 10 anos em garrafa, e só ao fim desse tempo os enólogos da Casa Ferreirinha decidem se o vinho vai ser colocado à venda como Barca Velha. Quando não é considerado como de qualidade excepcional de modo a justificar esse rótulo, é-lhe colocado outro rótulo e vendido como Reserva Especial Ferreirinha, que recentemente passou a chamar-se Colheita em vez de Reserva. Daqui resulta que por vezes acontece que o vinho acaba por evoluir na garrafa de tal modo que justificava ser um Barca Velha e é vendido como Reserva/Colheita. Segundo João Paulo Martins, isso já aconteceu e os enólogos da casa equivocaram-se nalgumas avaliações, vendendo verdadeiros Barca Velha com outro rótulo. Pelo que quem puder ter acesso a um Reserva ou Colheita pode aproveitar para tentar comprar um Barca Velha em segunda versão. Curiosamente, foi há dias anunciado que vai sair o novo Barca Velha, acerca do qual se pode ler um artigo no Diário de Notícias.
Em termos de hierarquia, segue-se um vinho que as Krónikas Tugas descobriram há cerca de 2 anos no “Encontro com o vinho e sabores”, o Quinta da Leda, e outro que provámos quase por acaso numa feira de vinhos da Makro em 2004, o Callabriga. São dois vinhos excepcionais dos quais, a seu tempo, quando voltarmos a bebê-los (neste momento algumas garrafas repousam tranquilamente nas nossas garrafeiras), vos daremos conta.
Descendo mais um pouco na escala, encontramos dois vinhos mais populares, já na gama de preços mais acessíveis. O Vinha Grande, na gama média-alta, e o Esteva, na gama média-baixa, abaixo dos 5 euros.
Um destes dias as Krónikas Vinícolas reuniram e abriram uma garrafa de Vinha Grande de 2001, adquirido por 5,95 € numa promoção da Revista de Vinhos em Fevereiro de 2005. Prudentemente decantou-se o líquido para o arejar e evitar algum depósito que existisse no fundo da garrafa, e em boa hora o fizemos porque de facto havia depósito.
Este vinho é feito com aquilo que habitualmente se chamam as castas tradicionais do Douro, mas desta vez mencionadas no contra-rótulo: a omnipresente Touriga Nacional, a Touriga Franca, a Tinta Barroca e a Tinta Roriz (chamada Aragonês no Alentejo). As uvas são obtidas em várias quintas da empresa, situadas em diversos locais do Douro, na região do Cima-Corgo, perto do Pinhão, e mais acima, no Douro Superior, entre as quais a já famosa Quinta da Leda, junto a Barca d’Alva.
Depois de algumas decepções que de vez em quando vou tendo com vinhos do Douro, apeteceu-me dizer: “este sim”. Uma bela cor rubi brilhante, que encantou desde logo a vista dos provadores, um aroma intenso e frutado, na boca um corpo bem estruturado e equilibrado, sem se notar em demasia os 13,5% de álcool, formando um conjunto de grande elegância. Por isso aconselha-se para acompanhar pratos delicados de carne, não excessivamente pesados nem condimentados.
Não se tratando de um vinho excepcional, é uma marca a ter em conta, que seguramente não deixará ninguém ficar mal. Por esse motivo, a partir deste momento passa a fazer parte das nossas escolhas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Vinha Grande 2001 (T)
Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 8,98 €
Nota (0 a 10): 8

domingo, 19 de fevereiro de 2006

No meu copo 20 - Quatro Regiões 1997

O tempo é lixado! Coisas que pareciam perfeitas há algum tempo manifestam agora debilidades nunca achadas. Vem isto a propósito da contra-prova que este sábado fizemos ao Quatro Regiões, vinho de mesa da Sogrape devido à sua peculiar forma de produção.
Este vinho é constituído por 4 lotes de uvas vinificadas em separado, provenientes de quatro emblemáticas regiões vinícolas do país: do Douro, a casta Touriga Francesa; do Dão, a casta Touriga Nacional; da Bairrada, a casta Baga; e do Alentejo, a casta Trincadeira. Depois de fermentados a temperatura controlada e sujeitos a maceração prolongada, os mostos estagiaram 8 meses em barricas de carvalho. Após o estágio, os quatro vinhos foram loteados para formarem este Quatro Regiões, vinho de mesa apenas, porque a lei portuguesa não prevê estes casos de vinhos de qualidade “trans-fronteiriços”, aproveitando o melhor de cada região.
Da colheita de 1997, este era um vinho de 9 quando o provámos pela primeira vez, há cerca de três anos. Mas como disse, o tempo não perdoa: há algumas semanas tínhamo-lo provado e decidimos não atribuir nota sem uma contra-prova, que fizemos este sábado, suportada por um singelo entrecote com alho.
O vinho, embora continue com um nível excelente como se depreende pela nota atribuída, já não é o vinho de topo que foi. Perdeu uma boa parte dos aromas e o sabor simplificou-se, detectando-se por vezes um certo fundo de decadência que pode indiciar o declínio total dentro de pouco tempo.
Portanto, em conclusão, se possui garrafas destas na sua garrafeira, beba-as agora todas, porque o vinho ainda é um bom vinho. E não há necessidade de o deixar estragar.

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Quatro Regiões, 1997 (T)
Região: Vinho de Mesa
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 12,5%

Castas: Baga, Touriga Nacional, Touriga Francesa, Trincadeira
Preço em hipermercado: 12,77 €
Nota (0 a 10): 7,5

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

No meu copo 2 - Duas Quintas 2003

Como eu costumo dizer (e também é válido para o vinho aqui acima), aqui está um vinho que nunca nos deixa ficar mal. Sem ser excepcional, é um vinho muito acima da média; sem ser barato, tem um preço bastante aceitável para a qualidade que apresenta.
Posso dizer que acompanhei este vinho praticamente desde o seu lançamento, com a colheita de 1990 apresentada na Feira de Vinhos do Pingo Doce de 1993, sendo o primeiro vinho de mesa da empresa Ramos Pinto, sobejamente conhecida pelos seus vinhos do Porto. Começou por ser barato (549$00), mas o sucesso rapidamente atingido fez o preço disparar para valores absurdos. Surgiram depois as Reservas, que têm preços verdadeiramente obscenos. Ultimamente, com a baixa generalizada dos preços, o colheita já se situa num patamar razoável.
Este vinho sempre me fascinou pela descrição da sua origem no contra-rótulo. As uvas, das castas tradicionais Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Francesa, são provenientes de duas quintas (daí o nome do vinho) situadas no Douro Superior (donde costuma sair uma boa parte dos melhores vinhos do Douro), na região de Foz Côa, com clima e solo diferentes: a Quinta da Ervamoira, situada num microclima com características quase únicas e que teria sido submersa pela barragem de Foz Côa, e a Quinta dos Bons Ares, que aliás também deu origem a um vinho com o seu nome.
De cor carregada e fechada (como é típico dos vinhos do Douro, em consonância com o perfil dos vinhos do Porto), o aroma não é muito exuberante mas vai abrindo à medida que está no copo, o que o torna um daqueles vinhos que ganham em ser decantados. Na boca é encorpado e, sem ser adstringente nem agressivo, é robusto o suficiente para se bater galhardamente com assados no forno bem temperados e grelhados na brasa. Neste caso, eu e o outro comparsa escolhemos uma picanha e um entrecosto na brasa, e a ligação foi perfeita.
Em resumo, uma aposta segura por um preço razoável. Neste caso foi à mesa do restaurante, onde os valores praticados estão completamente distorcidos e nada têm a ver com o que se pode comprar nas feiras de vinhos, mas quem quiser tê-lo em casa pode guardá-lo algum tempo porque, certamente, não se vai desiludir.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Duas Quintas 2003 (T)
Região: Douro

Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 13%

Castas: Tinta Roriz, Touriga Nacional, Touriga Francesa
Preço em feira de vinhos: 6,87 €
Nota (0 a 10): 8