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domingo, 6 de maio de 2007

Krónikas duma viagem a Paris - 2















No último dia em Paris tive oportunidade de deslocar-me a um supermercado para ver os preços dos vinhos. Curiosamente, era de um grupo que também está em Portugal, o Auchan, proprietário dos hipermercados Jumbo.
Se em Portugal a oferta de marcas e regiões já é por muitos considerada excessiva, ao pé do que se vê em França não é nada. As denominações de origem, que aqui são fáceis de identificar, em França têm uma panóplia de variações com as sub-regiões e os tipos de vinho que deixam qualquer um menos informado completamente à nora.
Em Bordéus, por exemplo, podem aparecer vinhos do Médoc ou de Saint-Emilion, duas das sub-regiões. Depois há as várias classificações (como os Premier Cru, Grand Cru, etc), que definem a categoria do vinho, provavelmente como cá os Reserva e os Garrafeira, e que variam conforme a região. Isto só olhando de relance, porque as variantes são imensas. No meio de tantas designações por vezes não é fácil perceber de que região se trata a não ser pela indicação “Appellation Contrôlée”, onde normalmente consta o nome da região a que a denominação de origem se refere.
O mais notável nas centenas de vinhos presentes nas prateleiras foi o nível de preços praticados. Em todas as regiões, com excepção de Champagne, existem vinhos a 2, 3, 4, 6 euros. Brancos, tintos e rose. São poucos os que ultrapassam os 10 euros e ainda menos os que ficam acima dos 20 euros.
Não sei se a imensa galeria de vinhos que encontrei é representativa dos vinhos franceses, pois certamente, lá como cá, haverá garrafeiras especializadas onde se encontram as raridades a preços mais caros. Mas o que mais me surpreendeu foi ver que a percentagem de vinhos acima dos 5 euros é muitíssimo inferior ao que vemos por cá. Ora sabendo-se que se trata do país vinícola mais famoso do mundo, não deixa de espantar que essa fama não seja usada para inflacionar os preços. Pelo menos é a isso que estamos habituados por cá, onde basta um vinho ganhar fama para duplicar o preço, e às vezes já é caro antes de ter fama.
Deste modo, parece-me que não será apenas pelos maiores volumes de produção que os preços são mais baixos, mas antes pela política de preços praticada quer pelos produtores quer pelos revendedores. Sempre me pareceu que em Portugal se exagera nos preços de modo injustificado e não deixa de ser um pouco amargo verificar que para lá dos Pirinéus se pode comprar vinho mais facilmente a preços acessíveis. Talvez os nossos produtores devessem ir lá aprender alguma coisa.
Dadas as limitações agora existentes para o transporte de líquidos nos aviões, e com muita pena minha, não podendo trazer vinho como bagagem de mão limitei-me a comprar duas garrafas de vinho branco da Alsácia, um da casta Riesling e outro da casta Gewurztraminer, a preços entre os 4 e os 6 euros. E vieram bem embrulhadas dentro da mala de roupa, felizmente chegando cá inteiras...
Quero ainda destacar aquilo que vi numa montra, algures por Montparnasse: uma caixa de vinhos com um champanhe Brut Premier e um vinho do Porto 10 anos da Ramos Pinto, por 60 euros. Noutra caixa estão várias bebidas entre as quais um Porto Dow’s 10 anos. É verdade, estão ali as fotos a confirmá-lo. Os franceses consideram o vinho do Porto ao mesmo nível do seu próprio champanhe. É notável.

Kroniketas, enófilo viajante

terça-feira, 1 de maio de 2007

Krónikas duma viagem a Paris - 1



As férias escolares da Páscoa foram aproveitadas para uma deslocação a uma das cidades míticas do mundo: Paris. Por sinal, a única onde já me desloquei mais de uma vez. Já lá fui solteiro, recém-casado, e desta vez o objectivo foi levar os filhos para conhecerem a Eurodisney.
As constantes deambulações pela cidade e as deslocações ao parque Disneyland não deixaram grande folga para repastos de nouvelle cuisine e muito menos para degustações vinícolas a condizer. A primeira abordagem ocorreu logo no dia da chegada, já para lá das 3 da tarde, hora local.
Cansados da viagem e esfomeados, fora de horas para almoçar, demos uma volta pelo 17ème arrondissement à procura da salvação, e esta apareceu-nos num restaurante chinês tipo self-service, depois de conduzidos de táxi por um motorista chinês. Esta coincidência viria a revelar um padrão que se repetiu nos dias seguintes: em Paris, os chineses são os trabalhadores e os japoneses são os turistas...
No dito chinês, onde ainda voltaríamos num dos regressos da Disney, depois de escolhermos todas as massas e arrozes mais o pato, a galinha e as gambas, vi umas garrafas na vitrina que me chamaram a atenção. Resolvi experimentar meia de Côtes du Rhône. O vinho estava ligeiramente refrescado e, para minha surpresa, não se saiu nada mal com a comida chinesa. Revelou-se um vinho aberto, muito suave e aromático, extremamente fácil de beber. Pareceu-me ser apropriado para refeições não muito condimentadas.
Noutra ocasião, depois dum dia cansativo a percorrer a cidade desde Montmartre até Pigalle, desde a Torre Eiffel ao Arco do Triunfo, usando todas as linhas de metropolitano possíveis e passando ainda por um passeio de Bateau Parisien, com frio e chuva à mistura, acabámos a jantar num restaurante libanês, sob alguma desconfiança. Mas o atendimento simpático ajudou-nos a escolher umas brochettes (espetadas) de carne de porco, vaca e frango, acompanhadas com um arroz e uma salada à moda do local, e um vinho também do país. Um Clos St. Thomas de 2002, com 14% de álcool mas sem ser agressivo. Um vinho de perfil moderno, feito com as castas omnipresentes onde quer que se vá: Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah e uma menos conhecida, Grenache. Bebeu-se bem, seguindo a tendência dos vinhos da moda.
Na segunda visita ao chinês ainda repeti o Côtes du Rhône e noutra ocasião experimentei um rosé barato. E por aqui ficou a experiência francesa no que toca a vinhos. Na véspera do regresso ainda fiz uma visita a um supermercado, de que darei conta na segunda parte desta croniqueta.

Kroniketas, enófilo viajante

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Brevemente nas Krónikas Vinícolas


Krónikas duma viagem a Paris

Kroniketas, enófilo viajante

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Krónikas duma viagem ao Douro - 7

Na minha mesa 47 - Ramalhão



De regresso a casa, última paragem para um repasto em local recomendado pelo guia de restaurantes. Descendo de Viseu, dirigimo-nos ao Ramalhão, em Montemor-o-Velho, no caminho entre Coimbra e a Figueira da Foz.
Montemor-o-Velho é uma localidade não muito grande, onde vamos entrando pela rua principal e rapidamente, sem procurar, encontramos um portão com uma placa que tem escrito “Ramalhão”. A entrada é fora do comum: entra-se por um quintal com ar meio desarrumado, subimos umas escadas para o interior duma casa onde encontramos uma casa de banho, continuamos a subir e chegamos a uma porta que dá para outra rua. Temos então que entrar pela esquerda, junto à cozinha, para chegar à sala do restaurante.
A sala é relativamente grande, com um ar meio rústico. A primeira expectativa é prometedora. Começa a desvanecer-se quando um casal já com uma idade respeitável (mais ele do que ela) vem à mesa. Ao contrário dos outros locais por onde passámos, aqui o atendimento é frio e distante. Somos olhados com um ar de desconfiança e parece que nos estão a fazer algum favor. Não há um sorriso, não há um aceno de simpatia, as respostas são secas e ríspidas. Rapidamente começamos a sentir algum incómodo por estar ali.
A ementa é variada e apetitosa, à base de pratos regionais. Pedimos uma dose de cabrito e uma de arroz de galinha vadia, porque os mais jovens comem pouco, o que nos faz ser olhados de soslaio pela reduzida quantidade do pedido. O cabrito mais uma vez cumpriu as expectativas e o arroz de galinha, num género de cabidela em tacho de barro, estava delicioso e malandrinho.
Quanto a bebidas, um singelo Frei João que também fez o papel que dele se espera. Os mais novos querem Ice Tea mas o dono responde rispidamente que “aqui não temos disso, bebem água”.
Começamos a ter vontade de devorar rapidamente a comida para desandar dali para fora. Quando chega a fase das sobremesas, estamos à espera da ementa mas uma necessidade fisiológica obriga a uma deslocação à casa de banho. Ao contrário do normal em locais públicos, esta casa de banho tem toalha de pano onde toda a gente limpa as mãos e tem sabonete de glicerina ao invés de sabonete líquido.
O dono chega entretanto e atira de chofre “eu ia dizer as sobremesas mas como a sua mulher não está cá eu volto depois”. Fico a olhar para ele sem sequer ter tempo de reagir. Quando a família está de novo completa à mesa, não escolhemos nada: ele decide que traz um prato com os vários doces existentes para provarmos um pouco de cada. Assim se fará.
Entre pudins, bolos e tartes despachámos as sobremesas e pagámos a conta. Saímos sem grande vontade de voltar. O almoço foi bom, mas não soube tão bem naquele ambiente tão pouco acolhedor.
Em síntese, na última etapa da viagem podemos criar aquilo que nos tinham pedido na primeira, quando parámos no Almourol: um slogan para o restaurante. E para este é fácil: “se quer ser recebido com simpatia e atenção, não vá ao Ramalhão”.
No final desta visita, ficamos a pensar o que leva os guias de restaurantes a tecer tantos encómios a um local com este tipo de atendimento. Será porque quando lá vão são recebidos nas palminhas, comem do bom e do melhor e se calhar no fim ainda têm a refeição de borla? E nem uma palavra acerca das casas de banho, com utensílios que já não se usam em locais públicos? Não basta que a comida seja boa, é preciso que o cliente se sinta bem onde está e este não foi, definitivamente, o caso.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Ramalhão
Rua Tenente Valadim, 24
3140-255 Montemor-o-Velho
Telef: 239.689.435
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 2

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Krónikas duma viagem ao Douro - 6

No meu copo, na minha mesa 45 - Paço dos Cunhas de Santar 2004; O Cortiço




















Na parte final da viagem, um local que desde o início foi definido como paragem obrigatória. Referenciado por pessoas amigas e por todos os guias de restaurantes, rumámos a Viseu para visitar o Cortiço. Fica situado no centro histórico da cidade, numa rua estreita que sai da praça onde está a estátua de D. Duarte.
Telefonou-se a reservar mesa, e ainda bem, porque à hora marcada para o jantar (20 h) a sala não está cheia mas começa rapidamente a ficar lotada, porque o espaço não é muito amplo, e facilmente nos apercebemos de que a procura é grande. Nas paredes, decoradas de forma a puxar para o rústico, algumas fotografias de visitantes conhecidos e, sobretudo, recortes e escritos de gente que por lá passou. Percorrendo algumas encontramos assinaturas do grupo Vozes da Rádio, dos UHF, do Rio Grande, para citar apenas alguns. Há até uns versos de Jorge Palma com muita graça.
Sob a supervisão sisuda do que parece ser o gerente da casa, uma equipa de empregados de mesa jovens atende de forma solícita e eficiente. Comenta-se que aqueles rapazes parecem ter feito uma formação em hotelaria, porque cumprem todos os preceitos de quem está devidamente instruído, longe do amadorismo que se vê por aí.
A oferta é vasta, o que dificulta a escolha. Pedimos conselho ao jovem que vem à mesa, acabando por optar por meia-dose de coelho bêbado estufado e meia-dose de vitela assada, porque as doses são generosas. Vieram acompanhadas pelas tradicionais batatinhas assadas além de legumes salteados. O coelho estava delicioso, com um molho espesso que fazia lembrar o do javali do Vallecula, enquanto a vitela, em fatias, era extremamente tenra e também com um molho apetitoso.
Para sobremesa um doce também referenciado na casa: o doce das formigas, que actualmente tem réplicas conhecidas em todo o país. É o doce em camadas com leite-creme, bolacha e natas, com granulado de chocolate por cima. Mas este estava mais cremoso do que é habitual.
Para regar tão requintada refeição, um vinho do Dão como se impunha na região. Provou-se primeiro um pequeno jarro de vinho da casa, que não agradou por ser muito agreste. Pediu-se então meia garrafa de Paço dos Cunhas de Santar, de 2004, que revelou a elegância e suavidade tão características dos bons vinhos do Dão. Não é o melhor que já bebemos, mas faz jus a uma qualidade média que não envergonha ninguém. O preço também não foi exorbitante para a bitola habitual em restaurantes: 6 €.
Ponderados todos os parâmetros de avaliação, ficamos indecisos acerca da nota que havemos de dar. Não há defeitos a apontar em nenhum item, mas ainda temos na memória o jantar memorável do Vallecula, pelo que parece inevitável tirar uns pozinhos a este. Foi excelente, mas não tão exuberante, pelo que vamos dar-lhe meio ponto a menos. Mas é, sem dúvida, um local a voltar quando se passar por Viseu.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: O Cortiço
Rua Augusto Hilário, 45
3500-089 Viseu
Telef: 232.423.211
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4,5

Vinho: Paço dos Cunhas de Santar 2004 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola

Grau alcoólico: 13%
Preço em restaurante: 6 €
Nota (0 a 10): 7

domingo, 14 de maio de 2006

Krónikas duma viagem ao Douro - 5

No meu copo, na minha mesa 44 - Planalto; Cacho D’Oiro (Régua)

De passagem por Peso da Régua, uma sugestão dum guia de restaurantes encaminha-nos para o centro da cidade à procura do restaurante Cacho D’Oiro. A procura não é grande, porque aparece uma placa a indicar o restaurante num beco sem saída. Há uns quantos lugares para estacionar, mas é preciso fazer umas quantas manobras para virar o carro no pouco espaço disponível sem bater nos que lá estão.
Franqueada a porta, encontramos um espaço amplo, com escada para um andar superior e mesas em quantidade. É sábado ao almoço, pelo que é fácil sentar, mas a pouco e pouco começam a chegar grupos de pessoas que acabam por lotar o espaço.
A ementa é variada dentro dos pratos normais na região. Escolheu-se uns filetes de polvo e um cabrito assado. Os filetes são tenros e saborosos, mas trazem um acompanhamento pouco adequado, batatas fritas, o que torna necessário pedir arroz branco. Não há mais nenhum, nem de tomate nem de feijão, o que se lamenta. O cabrito cumpre aquilo que sempre se espera deste prato, com acompanhamento de batatas e legumes.
Para acompanhar pediu-se vinho branco Planalto, da Sogrape. É um vinho de cor citrina seco e aromático, frutado quanto baste, com boa acidez que vai muito bem com os filetes e bebe-se de forma gulosa. Não sendo muito leve, acompanha pratos de peixe com algum tempero, mas não convém exagerar. Convém mantê-lo num frappé ou numa manga de refrigeração para que não aqueça durante a refeição.
O atendimento é simpático e eficiente, com pessoal jovem e solícito que responde rapidamente às chamadas. A refeição é satisfatória, mas nada de extraordinário nem de nos deixar de boca aberta. Ou seja, estando na Régua vale a pena ir lá, mas não valerá ir lá de propósito como a Valhelhas para ir ao Vallecula.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Cacho D’Oiro
Rua Branca Martinho
5050-292 Peso da Régua
Telef: 254.321.455
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 3

Vinho: Planalto (B)
Região: Douro
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 12,5%

Castas: Malvasia Fina, Viosinho, Gouveio
Preço em feira de vinhos: 3,95 €
Nota (0 a 10): 7

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Krónikas duma viagem ao Douro - 4

Nas margens do Douro





Depois do momento sublime que foi a visita à Quinta da Ervamoira, chegou a etapa que nos levaria ao principal objectivo da viagem: em direcção ao rio Douro. Na zona de Vila Nova de Foz Côa o rio parece perto, mas ainda está muito longe da vista. É preciso andar quilómetros para o encontrarmos. Seguindo para norte pode-se chegar ao Douro no Pocinho, outro ponto de referência na região, mas optamos por procurar o rio mais a jusante e deixamos o Douro Superior rumando em direcção à Régua, mergulhando profundamente no coração da Região Demarcada.

Por estradas sinuosas e montanhas a perder de vista, é-nos dado contemplar a profusão de vinhas que forram aquelas encostas: é a paisagem omnipresente ao longo de intermináveis quilómetros. O aspecto mais curioso que o viajante encontra, enquanto avança lenta e cuidadosamente pelas serras, é o facto de aparecerem grandes placas no meio das vinhas a indicar o nome das empresas proprietárias. E assim nos vamos cruzando com alguns nomes que costumamos ver nos rótulos das garrafas: Ferreira, Real Companhia Velha, Quinta de Ventozelo, Quinta de La Rosa, Quinta do Vallado, Quinta Seara D’Ordens, etc. O que também chama a atenção é a diferença do estado evolutivo das uvas nestas vinhas em relação àquelas que vemos no centro e sul do país. Aqui estão muito mais atrasadas, com as folhas ainda a rebentar timidamente, enquanto no Ribatejo e na Estremadura já existe uma folhagem bem mais exuberante. Mesmo no microclima da Ervamoira, o calor ainda não chegou para amadurecer a vinha.

Há muito caminho para andar até passar por São João da Pesqueira e continuar a lenta aproximação ao rio. A todo o momento esperamos ver uma nesga de água no fundo do vale. Quando finalmente vemos o leito espreitar por trás duma curva já estamos a descer a encosta. Quando o relevo se aplana um pouco, ele aí está diante dos nossos olhos, o Douro, ladeado por margens imponentes. Estamos numa encruzilhada onde o Pinhão está ali mesmo ao pé. Hoje ficamos ali, junto à famosa estação dos comboios, com o Vintage House Hotel logo a seguir e o rio frente à nossa janela. Ali se junta o rio Pinhão ao Douro, permitindo-nos passear nas margens de ambos.

No dia seguinte é o momento há tanto ansiado: o passeio ao longo da margem esquerda em direcção à Régua. Como se esperava, o espectáculo é deslumbrante e motiva diversas paragens para fotografias, ao mesmo ritmo dum casal num BMW que pára nos mesmos locais. Mesmo junto à estrada deparamo-nos com uma quinta da Porto Ferreira, com o nome na porta e lá em cima, na encosta. Nesta região o nome Ferreira repete-se várias vezes na margem direita juntamente com outros nomes conhecidos de empresas de vinhos do Porto, como Taylor’s, Offley, ou Cálem.

A meio caminho ainda vale pena parar na barragem da Régua para espreitar as comportas por onde os barcos de cruzeiro sobem e descem, já próximo da Régua passamos por Folgosa e paramos quase com os pés dentro de água.

Em Peso da Régua aparece uma figura mítica no cimo dum monte: o boneco da Sandeman, o homem da capa negra. Ali estaciona um barco rabelo das Caves do Castelinho. Depois do almoço ainda vale a pena apanhar a estrada para Vila Real e subir ao miradouro a meia-dúzia de quilómetros onde, passeando pelo meio de mais uma vinha, vemos toda a região em redor, com umas curvas do Douro lá em baixo e a serra do Marão ao longe. Aqui termina a melhor etapa da viagem, iniciada com a visita à Quinta da Ervamoira. O caminho agora é para sul e o Douro vai ficar definitivamente para trás.

Kroniketas, enófilo esclarecido

PS: Neste como nos posts anteriores, sugere-se que clique nas fotos para vê-las ampliadas.

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Krónikas duma viagem ao Douro - 3

Quinta da Ervamoira






Ponto alto da viagem foi a visita à Quinta da Ervamoira, propriedade da casa Ramos Pinto no Douro Superior, situada na zona de Vila Nova de Foz Côa, perto da aldeia de Muxagata, em pleno parque arqueológico. Adquirida em 1974 por José António Ramos Pinto Rosas (descendente do fundador Adriano Ramos Pinto), que sonhou fazer ali um local de eleição para a produção de vinho, esta quinta possui condições de solo e de clima (edafoclimáticas, como dizem os entendidos) quase únicas e é um local privilegiado para o cultivo da vinha. Localizada numa zona montanhosa mas a baixa altitude (cerca de 150 metros), está rodeada de montanhas que criam um microclima propício a um bom amadurecimento das uvas (no pico do Verão as temperaturas na quinta podem atingir os 50º C), o que permite fazer a vindima muito mais cedo do que na maioria das outras quintas da Região Demarcada do Douro. É um dos locais que teriam ficado submersos pela Barragem de Foz Côa, se esta tivesse sido construída. Depois de visitá-la, só podemos dizer: ainda bem que não fizeram a barragem!

A Casa Ramos Pinto foi fundada em 1880 por Adriano Ramos Pinto e é conhecida sobretudo como produtora de vinho do Porto, de que podemos encontrar variadíssimas marcas no mercado, tendo mesmo uma garrafa de Porto Ramos Pinto sido enviada no avião de Gago Coutinho e Sacadura Cabral quando estes realizaram a travessia do Atlântico Sul. Foi já na Quinta da Ervamoira, uma das quatro que a Ramos Pinto possui na Região Demarcada do Douro (as outras são a Quinta dos Bons Ares, a Quinta do Bom Retiro e a Quinta da Urtiga), que a Ramos Pinto começou a produção de vinho de mesa, precisamente com a colheita de 1990 do Duas Quintas (que tive o privilégio de conhecer), a que já fizemos referência no início da existência deste blog.

Sob a direcção de João Nicolau de Almeida, sobrinho de José Rosas e filho de Fernando Nicolau de Almeida (o criador do famoso Barca Velha, produzido pela Casa Ferreirinha a partir da Quinta da Leda, situada ali perto, na freguesia de Almendra), que é simultaneamente administrador e enólogo na Ramos Pinto, nos 200 hectares da Quinta da Ervamoira foram plantados de raiz 180 hectares de vinha, com grande predominância de uvas tintas de que foram seleccionadas as 5 melhores castas recomendadas para a região: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Fancesa, Tinta Barroca e Tinto Cão. Esta vinha é considerada um modelo na região do Douro pois foi, segundo os seus responsáveis, a primeira a ser plantada com as vinhas ao alto (em vez dos habituais socalcos na horizontal das encostas mais íngremes) e com as castas separadas por talhões.

Na Quinta da Ervamoira o visitante sente-se num local paradisíaco, em perfeita comunhão com a natureza, onde apetece ficar sentado a contemplar aquela imensidão de vinha tão bem organizada e a perder de vista, numa perfeita harmonia com a paisagem envolvente. Ouvidas as explicações da guia, quase nos sentimos tentados a ir para lá ajudar no que deve ser um trabalho fascinante. João Nicolau de Almeida manda proceder a análises das uvas diariamente durante o período da vindima, o que determina os talhões onde as uvas vão sendo colhidas em função da sua maturação e grau alcoólico. As uvas seleccionadas durante a vindima são transportadas para a Quinta dos Bons Ares, situada mais a Oeste, onde a Ramos Pinto possui um dos seus centros de vinificação. Para produzir o Duas Quintas são vinificadas também as uvas desta quinta, dando então origem ao Duas Quintas (branco e tinto). Da Ervamoira também saem uvas para vinhos do Porto, havendo até um Tawny de 10 anos com o nome da própria quinta.

Para além da contemplação da paisagem, a visita inicia-se numa casa-museu onde nos é contada a história da Ramos Pinto e da própria quinta, que antes de pertencer à Ramos Pinto tinha o nome de Quinta de Santa Maria. Nela estão presentes variados achados arqueológicos para além de diversas ilustrações sobre o ciclo de cultivo da vinha, da história da quinta e dos vinhos da casa. No final é feita uma prova de vinho do Porto acompanhada de castanhas com amêndoa. Para grupos numerosos a prova pode contemplar um Porto Vintage com explicações detalhadas sobre a produção do vinho e há também a opção de fazer um almoço regional na quinta, desde que haja número suficiente de interessados.

Depois de sair da Quinta da Ervamoira sentimo-nos mais ricos e sabedores. Embora longe, fica uma certa nostalgia de nos virmos embora e uma secreta vontade de um dia lá voltar. Talvez numa fase mais adiantada de maturação das uvas ou até após a época da vindima, quando as cores das folhas que vão morrendo a pouco e pouco enchem as encostas duma multiplicidade de tonalidades admiráveis.

Até um dia!

Kroniketas, enófilo esclarecido

PS: Sugre-se a utilização dos links assinalados para consulta de mais informações acerca da Casa Ramos Pinto, da Quinta da Ervamoira e das outras quintas (com fotografias e mapas de localização) e dos vinhos da casa.

sexta-feira, 28 de abril de 2006

Krónikas duma viagem ao Douro - 2

Na minha mesa, no meu copo 41 - Vallecula; Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada 2003, Quinta de Saes 2003





Algures no sopé da Serra da Estrela, entre a Covilhã, Guarda e Manteigas, existe um local paradisíaco onde corre o Zêzere e onde o tempo parece não passar. Chama-se Valhelhas e é daqueles locais onde se consegue ouvir o silêncio, os pássaros, o rio... E existe ali, naquele local recôndito, um restaurante de nome Vallecula, numa casa feita em pedra.
Só de propósito é que alguém lá vai parar, mas vale bem a viagem. Uma sala que alberga umas 30 pessoas, um único funcionário (que por sinal é o dono) a atender os clientes e a dar conselhos. Ele mostra a lista mas explica o que há. Para comilões e em especial amantes de carne, é um maná.
Javali de montaria na carqueja, filete de vitela, borrego grelhado, peixinhos do rio para entrada, queijo fresco de cabra, alheira de caça, arroz doce com leite de cabra, cocktail de frutos secos, as iguarias são de fazer crescer água na boca, do princípio ao fim da refeição. Os comensais renderam-se a um magnífico prato de borrego, grelhado no ponto ainda rosado, tenro de quase se desfazer na boca, e um não menos magnífico javali estufado com molho espesso que parecia sempre pouco no prato. Tudo acompanhado por arroz e umas excelentes migas e não menos excelente esparregado. Nas sobremesas o arroz doce fez sucesso, assim como o cocktail de frutos secos.
Os vinhos listados são exclusivamente da região da Serra da Estrela, fazendo jus à característica de restaurante regional. Dão e Cova da Beira estão bem representados numa lista com cerca de 60 nomes. Infelizmente um dos vinhos pedidos não existia, pelo que optou-se primeiro por um Dão Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada, que cumpriu o seu papel dentro daquilo que se esperava: é um vinho fácil de beber, aberto e macio, com uma bela cor rubi característica dos tintos do Dão, e que acompanha bem praticamente todos os pratos de carne. Em seguida pediu-se um Quinta de Saes, que mostrou um sabor algo estranho, resultante de qualquer componente desconhecido que os presentes não conseguiram identificar. Um defeito do vinho, ou uma característica a que não estamos habituados? Fica a dúvida para uma próxima oportunidade, mas a verdade é que, apesar do aroma mais pronunciado e profundo e dum corpo mais cheio, parecendo que era “mais vinho” que o anterior, acabámos por não ficar a ganhar com a troca. A culminar a opípara refeição ainda foi oferecido (só um dos presentes aceitou) um cálice de aguardente, mais um produto da região. Até a água gaseificada era da região.
O dono é de uma simpatia extrema, desdobrando-se em atenções pelas várias mesas da sala, tentando sempre que nada falte a ninguém. Enquanto vai atendendo os nossos pedidos vai conversando com os clientes, criando um ambiente que, embora sossegado, é descontraído e acolhedor e faz-nos esquecer o passar das horas. Neste caso, o grupo entrou às 8 da noite e abandonou quase às 10 e meia, sem grande pressa para sair. Mas ficou a vontade de voltar. A não perder na próxima passagem pela Serra da Estrela.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Vallecula
Praça Dr. José de Castro
6300-235 Valhelhas
Telef: 275.487.123
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: Quinta de Cabriz, Colheita Seleccionada 2003 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola - Quinta de Cabriz
Grau alcoólico: 13%
Preço em feira de vinhos: 2,72 €
Nota (0 a 10): 6,5

Vinho: Quinta de Saes 2003 (T)
Região: Dão
Produtor: Álvaro Castro
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Alfrocheiro, Tinta Roriz, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 3,35 €
Nota (0 a 10): 5

domingo, 23 de abril de 2006

Krónikas duma viagem ao Douro - 1

Na minha mesa 40 - Almourol





A pausa da quadra pascal foi aproveitada para uma viagem exploratória ao Douro Superior, com algumas incursões gastronómicas de que iremos dando conta nos próximos dias.
A primeira paragem foi em Tancos, localidade situada à beira-Tejo mais conhecida pelas vastas instalações para instrução militar. Ninguém ali iria de propósito a não ser por indicação expressa para visitar um restaurante. Tem o nome de Almourol, tem janela para o rio e para o castelo de Almourol, algumas centenas de metros para montante.
Visto de fora é uma vivenda com esplanada interior, que funciona como uma espécie de antecâmara do restaurante, onde o visitante é confrontado com algumas referências à gastronomia ribatejana. Franqueada a porta do restaurante propriamente dito, encontramos uma sala não muito grande, onde para além das referências gastronómicas são ainda apresentadas em destaque as referências vinícolas da região. Não deixa de ser curioso, no entanto, que estejam expostos alguns exemplares significativos de vinhos do Alentejo.
Dadas as limitações de espaço, quem for sem marcação deve chegar cedo. Para almoçar é conveniente estar lá até às 13 h, sob pena de não ter mesa. De qualquer ponto da sala vê-se o Tejo a deslizar quase por baixo dos nossos pés, e na margem oposta a localidade de Arrepiado. A recepção é simpática, o ambiente luminoso e arejado.
Ao sentarmo-nos encontramos um pequeno desdobrável na mesa onde é pedido ao cliente que faça a sua apreciação do restaurante sob vários parâmetros: a recepção, o tempo de espera, o asseio e a decoração do espaço, a qualidade e confecção dos produtos consumidos, a relação qualidade/preço, etc. Uma iniciativa interessante que outros deviam seguir.
Escolhidas cuidadosamente as iguarias, vieram uns lombinhos de porco em vinha d’alhos e uma espetada de vitela. Os lombinhos estavam excelentes de sabor e magnificamente tenros, como é raro. Já a espetada estava um pouco seca, embora saborosa. De destacar o facto de, nos acompanhamentos, termos uma travessa de barro com umas excelentes migas com grelos, que ainda sobraram.
No serviço dos vinhos é que aconteceu uma surpresa: pretendia-se beber meia garrafa de um vinho ribatejano, para fazer jus à região onde estávamos. A surpresa é que nos foram anunciados vinhos alentejanos, enquanto do Ribatejo só havia o Capítulo, de Tomar, e o Casal da Coelheira, do Tramagal. Optou-se por este último, que não sendo nada de extraordinário saiu-se satisfatoriamente da função.
Nas sobremesas ficámos extasiados com um doce regional de Tancos, à base de ovos e canela (ilustrado na foto). O preço também não pesa em excesso, ficando-se por cerca de 15 € numa refeição média sem exageros de entradas e digestivos.
No final ainda nos vieram pedir o código postal, para estatísticas internas do restaurante. Curioso foi o facto de o gerente, vendo o guia de restaurantes da Visão em cima da mesa, ter perguntado se lá constava e pedir para fotocopiar a respectiva página...
Para digerir o almoço, nada como um passeio até ao castelo de Almourol, ali a 5 minutos. Pode-se fazer um passeio de barco à volta da ilha e subir até ao castelo. Em suma, são uns momentos bem passados, onde se pode comer bem e depois respirar ar puro enquanto se vê patinhos a nadar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Almourol
Rua Cais de Tancos, 6
Tancos - Vila Nova da Barquinha
Telef: 249.720.100
Preço médio por refeição: 15 €
Nota (0 a 5): 4

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Brevemente nas Krónikas Vinícolas

Krónikas duma viagem ao Douro

Kroniketas