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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Na minha mesa, no meu copo 227 - Fialho (Évora); Chaminé 2007


Na mesma volta do Chico, a passagem por Évora deu-me a oportunidade de voltar ao Fialho, onde tinha estado apenas uma vez em 1997. Em todo este tempo tive oportunidade de ouvir muitas opiniões díspares acerca do Fialho. Que já não é o que era, que há restaurantes melhores em Évora, que é muito caro, que há outros onde se come melhor, que as pessoas que conhecem bem os restaurantes vão a outros... Ouvi falar no Luar de Janeiro, na Cozinha de Santo Humberto, etc.
Entretanto muita coisa aconteceu. Os guias de restaurantes, os críticos como José Quitério, a Internet, os sites dedicados à gastronomia. No site do Expresso surgiu a secção “Boa cama, boa mesa” e os comentários dos leitores. Antes de preparar este passeio andei a ler o que encontrei sobre estes restaurantes que referi e mais alguns para estabelecer comparações. Mesmo assim mantive a intenção de voltar ao Fialho e marquei mesa para o almoço com dois dias de antecedência. Em boa hora o fiz!
Depois de regressar de lá, voltei a ir ao site do Expresso ler outra vez os comentários acerca do Fialho, e fiquei sem perceber o que é que o pessoal quer. Ao almoço, com a família, tivemos uma refeição simplesmente fabulosa! Perdiz à Fialho, estufada com cogumelos, divinal! Medalhões de porco preto com migas de espargos, saborosíssimos. Bochechas de porco preto em vinho tinto, tenríssimas e deliciosas. Serviço rápido, simpático, atencioso, eficiente, e isto com a casa cheia, sempre com clientes a chegar. Pede-se alguma coisa e demora 2 minutos no máximo. As doses são bem servidas, o suficiente para se ficar plenamente satisfeito. Querem mais o quê? Que nos calcem umas pantufas, nos limpem a boca e nos levem à casa de banho?
Numa volta nocturna pela cidade estive a espreitar outras ementas em Évora, nomeadamente a da Cozinha de Santo Humberto, ali mesmo junto à Praça do Giraldo, e ficam a léguas da do Fialho.
No final paga-se bem? Claro que sim: paga-se pela qualidade que se obtém, mas paga-se por uma refeição magnífica. Agora pergunto eu: há melhor em Évora? Em que aspecto? Servem doses maiores, daquelas tipo farta-brutos? Há mais baratos? Acredito que sim. Mas melhores que este? Em termos de serviço e qualidade da confecção? Mostrem-me onde é que eu vou lá.
O que é ridículo é criticar um restaurante destes por causa do... cherne! Um dos comentários depreciativos que li dizia que o cherne é congelado e que nem nos passa pela cabeça o que se acontece naquela cozinha. Engraçado. Vai-se a um dos locais emblemáticos da cozinha alentejana pedir cherne e depois queixa-se porque o peixe é congelado! Se querem comer peixe talvez fosse melhor ideia pedir uma sopa de cação, esse sim, um dos pratos representativos do Alentejo. Se querem cherne vão a um restaurante ao pé do mar. É como ir a uma marisqueira e depois dizer mal do cozido à portuguesa... Tenham juízo!
Resta falar das sobremesas e do vinho. Mandámos vir uns ovos-moles ferrados, um leite-creme e um pudim de requeijão, e os estômagos já não davam para mais, até porque também aqui tínhamos umas empadinhas de galinha à nossa espera para entrada. Todos estavam muito saborosos, com a particularidade de os ovos-moles serem servidos à moda do leite-creme, queimados com o ferro (daí o ferrados). Original, sem dúvida.
Para o vinho tive novamente que me refugiar em meia-garrafa e a escolha desta vez recaiu num Chaminé, das Cortes de Cima. Não sendo nada de extraordinário, desempenha-se bem da sua missão. Bom corpo e estrutura mediana, persistente quanto baste, aroma muito jovem e com predominância frutada, um daqueles vinhos que podem servir como aposta para o dia-a-dia.
Em resumo, este Fialho é seguramente um dos melhores restaurantes do país, digam o que disserem. Nos últimos três anos (desde a existência deste blog) tive oportunidade de visitar alguns restaurantes de altíssimo nível, nomeadamente enquanto estive em Portalegre (lembro-me do Cobre, da Gruta, do Rolo Grill, do Sever, do Tomba Lobos, do São Rosas e da Cadeia Quinhentista, além da Petisqueira do Gould, dos Arcos, da Cozinha Velha, do Vallecula, do Cortiço, da Falésia, da Cantina) e depois de estar no Fialho quase me apetece dizer que ainda está num patamar acima dos outros todos. Como sabem usamos uma escala de 0 a 5 para pontuar os restaurantes, mas a este apetece-me dar... 7!

Para terminar, volto ao Expresso e a uma crónica de José Quitério na edição de 22 de Novembro de 2008 para deixar a palavra ao especialista. Eis alguns excertos:

“Fialho, sempre!” (título do artigo)
“Cozinha regional portuguesa no seu melhor”
“Na cozinha dos irmãos Fialho, já septuagenários, honram-se os produtos alentejanos” (subtítulos)
“Serviço profissional e gentil”
“Tenho a impressão que esta casa não é tão falada e valorizada quanto merece (eu próprio há 19 anos que não escrevia uma palavrinha). Será por ter aura de cara? Ora, adeus... Vai-se a ver e, à excepção dos praticados ao quilo, os preços dos peixes oscilam entre €13,50 e €19, e os das carnes entre €13 e €18. Será porque andam para aí uns gabirus a maldizer a cozinha regional portuguesa, que é o factor que mais nitidamente nos diferencia de outros povos e culturas? Por Zeus, o pós-modernismo e a estupidez não têm tanto poder...
Seja como for, aquilo a que a consciência obriga é a proclamar bem alto que os irmãos Amor e Gabriel Fialho, já septuagenários, continuam, sempre fiéis à grande matriz, a saber fazer do seu Fialho um magnífico restaurante alentejano, que o mesmo é dizer, português.”


Mais palavras para quê? Deixemo-nos de tretas. O Fialho é um templo da gastronomia.

Kroniketas, gastrónomo viajante

Restaurante: Fialho
Travessa dos Mascarenhas, 16
7000-557 Évora
Telef: 266.703.079
Preço por refeição: 25 a 35 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: Chaminé 2007 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Cortes de Cima
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Syrah, Touriga Nacional, Trincadeira, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 4,89 €
Nota (0 a 10): 6

quinta-feira, 8 de maio de 2008

No meu copo 177 - Herdade do Peso Reserva 2002; Herdade do Peso Trincadeira 2000

Aproveitando uma folga de ambos, os bandalhos que fazem este blog resolveram fazer uns bifes a acompanhar umas garrafas. A escolha dos líquidos recaiu em dois vinhos da Herdade do Peso, a propriedade da Sogrape no Alentejo, na zona da Vidigueira, perto das Cortes de Cima e do novo projecto de Paulo Laureano.
Em provas anteriores já tínhamos apreciado o Alfrocheiro e o Aragonês e há algumas semanas estive numa prova de alguns destes vinhos na Wine O’Clock, na qual se destacou naturalmente o Reserva, que é feito precisamente com uma combinação daquelas duas castas e nesta prova mais demorada não nos decepcionou. Mostrou um aroma profundo com destaque a frutos vermelhos, alguma especiaria mas bastante discreta, bem estruturado na boca com a madeira muito bem casada e taninos muito firmes mas bem domados, terminando suave, longo e persistente.
De realçar que tratando-se dum vinho com 12 meses de estágio em madeira e 14% de grau alcoólico, nenhuma dessas características sobressaiu na prova, tendo-se apresentado muito equilibrado e prometendo alguma longevidade. No entanto, a pujança apresentada agora a par com o polimento de todas as arestas parece-nos indicar que está no ponto óptimo para ser bebido... e apreciado.
Passámos depois ao Trincadeira, já mais envelhecido e muito menos apelativo. Apresentou-se mais redondo mas também discreto, parecendo um pouco monocórdico quando comparado com o Reserva. Mostrou algum fundo vegetal típico da casta mas faltou-lhe algum corpo e aquela estrutura que muitas vezes suporta as outras castas mais exuberantes. Talvez demasiado linear e sem a complexidade que se esperava.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape

Vinho: Herdade do Peso Reserva 2002 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 19,49 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Herdade do Peso, Trincadeira 2000 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 16,78 €
Nota (0 a 10): 7

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

No meu copo, na minha mesa 56 - Convento da Tomina 2005; Lusitano (Praia da Rocha)







Já aqui falámos há alguns meses dum restaurante na Praia da Rocha (Portimão) a propósito do réveillon 2005-2006. Agora com a chegada do Verão, como frequentador indefectível do local, as oportunidades de passar por outros restaurantes da zona são imensas. Recentemente tive oportunidade de conhecer outro restaurante perto do anterior. Chama-se este Lusitano, abriu há alguns meses e por enquanto não tem grande frequência. Mas o aspecto, visto de fora, é bom e convida a uma visita.
À porta está um mapa de Portugal, onde são anunciados pratos regionais que cobrem praticamente todo o país, desde a posta mirandesa à carne de porco com amêijoas, passando pela açorda de marisco e pelos grelhados de porco preto, chegando até à espetada à madeirense. Talvez demasiado ambicioso, mas nada como experimentar. Por enquanto deparamo-nos com uma sala praticamente vazia, que só se compõe um pouco para lá das 21 horas, mas mesmo assim ainda fica menos de meia.
Entre os comensais presentes escolheram-se os rojões à minhota, duas espetadas madeirenses e, no meu caso, um bife à Marrare, obviamente mal passado.
O bife estava excelente de tempero, o molho espesso e no ponto certo de feitura, ainda meio ensanguentado. Veio acompanhado com batatas fritas e grelos cozidos, que ligaram na perfeição.
Quanto às espetadas, acompanhadas com uma maçaroca de milho, pecaram por estar, ao contrário do bife, demasiado passadas, para mais sendo carne de vaca. Os rojões, acompanhados com castanhas, pelo menos de aspecto, também estavam satisfatórios.
Para sobremesa, também abarcando todas as regiões, a preferência caiu numas encharcadas do Convento de Santa Clara e em dois D. Rodrigos. A encharcada estava apetitosa, polvilhada com canela, embora talvez demasiado sólida, pois é um doce que se come à colher e não deve necessitar de ser cortado.
O serviço primou pelo esmero e pela atenção. O encarregado do atendimento à mesa, ainda novo, não pareceu ser um novato nestas andanças, ou pelo menos amador. Pelo contrário, pela postura revelada pareceu ser alguém com formação na área e não um biscateiro para os meses de Verão. Sempre atento às necessidades e com a preocupação de saber se estava tudo em ordem ao longo da refeição, não hesitando em aconselhar nas escolhas, quer dos pratos quer dos vinhos. Foi precisamente seguindo uma sugestão sua que escolhemos o vinho, um Convento da Tomina 2005, regional alentejano, de Francisco Nunes Garcia (que apareceu com um vinho com o seu próprio nome a um preço exorbitante). Também neste aspecto o serviço mereceu boa nota, pois ao servir o vinho para prova, já vinha munido com uma manga de refrigeração, prevendo desde logo que a temperatura não seria a adequada. Que diferença para 95% dos restaurantes portugueses, que no Verão nos tentam impingir vinho quente dizendo que está bom porque é à temperatura ambiente!
Depois de arrefecido para a temperatura adequada, o Convento da Tomina pôde então ser apreciado nas melhores condições, a que não faltaram os copos de pé alto e boca larga (outra raridade). Nas primeiras impressões mostrou um aroma profundo e intenso, a que não serão alheios os 14,5% de álcool, uma cor rubi carregada, a que se seguiu uma prova de corpo cheio, com um toque ligeiramente frutado e alguma predominância de especiarias que prolongam o final de boca. Devidamente acompanhado por pratos com algum requinte mas também generosamente temperados, para aguentar o corpo e o álcool, é um vinho que pode fazer excelente figura numa grande refeição e que não é excessivamente caro para o que vale. Podemos colocá-lo sem dificuldade na gama média-alta, ao nível dos grandes vinhos que não custam fortunas.
Em resumo, o restaurante Lusitano merece ser novamente visitado, restando saber como se comportará o serviço no pico do Verão com a afluência maciça de veraneantes. Não me parece, contudo, que se dirija aos turistas estrangeiros, pois o menu virado para os produtos regionais será chamariz apenas para o cliente português que quer experimentar produtos diversos.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Lusitano
Avenida Tomás Cabreira - Edifício Casa da Praia
Praia da Rocha - Portimão
Telef: 282.412.177
Preço médio por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4

Vinho: Convento da Tomina 2005 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Francisco Nunes Garcia
Grau alcoólico: 14,5%

Preço em feira de vinhos: cerca de 6 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 28 de março de 2006

No meu copo 34 - Grão Vasco Alentejo 2004

Depois dumas incursões por vinhos brancos e por outras regiões, vamos dar mais um saltinho ao Alentejo para experimentar uma novidade da Sogrape: o Grão Vasco, vinho que existia como marca de referência no Dão. Este apareceu há poucos meses no mercado, proveniente da Herdade do Peso, a propriedade da Sogrape de cujos vinhos vamos dando conta regularmente.
Como vinho da gama média a Sogrape tem há muitos anos no Alentejo o Vinha do Monte, pelo que este Grão Vasco se posiciona mais abaixo. Percebe-se desde logo que pretende encaixar-se no segmento de mercado do Monte Velho, do Monsaraz, do Borba, para falar de alguns dos mais conhecidos, embora o preço não seja de feira de vinhos. Neste caso, movidos pela curiosidade aproveitámos a feira de queijos, enchidos e vinhos do Continente, mas é possível que esteja um pouco inflacionado em relação a outros preços de referência de outros que temos na nossa lista.
Neste caso, não sei se este Grão Vasco vem acrescentar alguma coisa de novo às centenas que já existem no Alentejo (não é fácil). É um vinho com 14% de álcool, o que se está a tornar moda e me parece exagerado, encorpado e aromático quanto baste e com alguma presença de taninos que lhe confere uma certa robustez e uma certa vivacidade na prova.
Um vinho adequado para o dia-a-dia, que poderá acompanhar pratos de carne bem temperados, mas que talvez precise duma segunda apreciação para o compararmos melhor com outros do mesmo patamar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Grão Vasco 2004 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alfrocheiro, Alicante Bouschet
Preço em hipermercado: 3,59 €
Nota (0 a 10): 6

sábado, 11 de março de 2006

Na minha garrafeira 27 - Herdade do Peso, Alfrocheiro 2000

Há oportunidades que não se podem perder. E quando elas surgem por acaso, ainda menos. Foi o que aconteceu esta 6ª feira. Num hipermercado Jumbo deparámos com o Herdade do Peso, da casta Alfrocheiro, produção da Sogrape no Alentejo, a um preço imbatível: 7,99 €.
Para quem leu a apreciação que fizemos a este vinho e ao seu irmão da casta Aragonês, recordamos que o pontuámos com a nota máxima: 10! Achámo-lo sublime e desde logo o colocámos entre os nossos eleitos. O preço? 13,89 €. Ora se ele hoje se estava a rir para nós a 7,99 €, o que é que se havia de fazer a não ser comprá-lo? Ainda por cima só havia 5 garrafas no expositor, pois calcula-se que a este preço devem voar. Foi o que fizemos sem mais delongas. As Krónikas Vinícolas apossaram-se dos 5 exemplares que restavam, não vá ser o fim do stock, e assim cada duas ficaram pelo preço da que tínhamos comprado anteriormente.
Por isso, aconselha-se a quem visitar um supermercado Jumbo ou Pão de Açúcar nos próximos dias a procurar este vinho por lá e, se tiver a sorte de encontrá-lo a este preço, não hesite: leve umas duas garrafinhas para casa e trate-as com todo o carinho até as beber. Por este preço, não creio que consiga encontrar melhor.

Kroniketas, enófilo esclarecido

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

No meu copo 16 - Herdade do Peso, Alfrocheiro e Aragonês 2000

Voltamos ao Baixo Alentejo e paramos na Vidigueira para voltar a visitar a Sogrape, a maior empresa produtora de vinhos em Portugal e uma referência permanente deste blog.
Da Herdade do Peso sai o Sogrape Alentejo Reserva, de que já demos conta noutro post. Mais recentemente começaram a sair também vinhos com o próprio nome da herdade. Aqueles de que agora vos damos conta são os monocasta Alfrocheiro e Aragonês de 2000.
Começamos pelo Alfrocheiro, uma casta com pouca divulgação quando comparada com o Aragonês e a Trincadeira. A primeira prova deste vinho deixou-nos... esmagados! Um aroma extraordinário, um corpo que se mastiga, uma estrutura, um paladar e um fim de boca que nunca mais tem fim... É difícil encontrar palavras para descrever as sensações que este vinho nos provocou... E só bebemos uma garrafa! Fiquei na expectativa sobre o que seria este vinho se decantado com tempo suficiente para libertar todos os aromas que lá estão guardados! Um espanto, merecedor de nota máxima! A Sogrape ao seu melhor nível, como estamos sempre à espera (aqui para nós que ninguém nos ouve, acho que a Sogrape nos devia dar uma comissão pela publicidade que lhe fazemos...).
Claro que entrou directamente para a nossa lista de sugestões, na secção dos sublimes, porque o é de facto. Apesar do preço elevado, é daqueles vinhos que merece uma pequena extravagância e comprá-lo tapando a etiqueta com o preço.
Naturalmente que, ao pé dum vinho de excepção, o Aragonês fica prejudicado. Comparado com um vinho que nos encantou, este parece vulgar. Sendo um bom vinho (até porque a Sogrape, como sabemos, só sabe fazer vinhos bons), não tem a exuberância aromática e de corpo do seu irmão Alfrocheiro, daqueles grandes, grandes vinhos que se revelam ao primeiro trago na boca. Este Aragonês tem tudo no sítio certo, mas já não é sublime, e deste modo é difícil considerá-lo merecedor do gasto de mais de 13 €. É um vinho bem feito e correcto mas que, ao mesmo preço do Alfrocheiro, se torna caro para o que nos proporciona.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape

Vinho: Herdade do Peso, Alfrocheiro 2000 (T)
Grau alcoólico: 14%

Castas: Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 13,89 €
Nota (0 a 10): 10

Vinho: Herdade do Peso, Aragonês 2000 (T)
Grau alcoólico: 14%

Castas: Aragonês
Preço em feira de vinhos: 13,95 €
Nota (0 a 10): 7

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

No meu copo, na minha mesa: Quinta da Terrugem 97; Herdade Grande 02; Aragonês Esporão 02; Sogrape Alentejo Reserva 00; Murganheira Bruto Reserva 02




Fomos atraídos por duas lebres, quais cães de caça em serviço. A diferença foi que neste caso as lebres já tinham entregue a alma ao criador e esperavam por nós dentro da panela, na casa do anfitrião, o famigerado Kroniketas.
Isto que vos vou contar foi no passado sábado, ao jantar, e tratou-se de uma reunião plenária do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os Comensais Dionisíacos”, acrescentados das consortes e respectiva filiação. Ao todo onze crescidos, que são os que nos interessam para o caso, porque as criancinhas não degustaram os vinhos que acompanharam as lebres ao seu local de descanso final, os estômagos dos convivas.
Os lagomorfos (a terminação “morfos” não tem nada a ver com comida) estavam devidamente separados em pedaços em jeito de ensopado, com batata cozida e molho espesso, de que não guardo o segredo – só comi, não cozinhei! Também compareceram, para abrilhantar a festa, três perdizes perdidas escondidas no meio de lombarda e assaz (não assadas) apetitosas.
Os vinhos provieram dessa afamada adega que é a vasta garrafeira do Kroniketas (se bem que a do tuguinho não lhe fique atrás), reforçada com umas ofertas de peso.
Depois das cervejolas da praxe e das entradas, iniciou-se o repasto propriamente dito com um Quatro Regiões 97 da Sogrape. A apreciação do néctar foi díspar, e portanto resolvemos não atribuir nota. Iremos abrir outra botelha proximamente e então diremos de nossa justiça. Os pormenores sobre este vinho peculiar serão escalpelizados nessa próxima nota de prova.
Continuámos com um Quinta da Terrugem 97 das Caves Aliança, que se mostrou um tanto delgado para o que se esperava dele. Boa cor, aroma razoável. Talvez seja já da idade, demasiado avançada para um vinho alentejano.
A saga prolongou-se num Herdade Grande 2002, um Vidigueira produzido por António Manuel Lança, que nos surpreendeu pela positiva: excelente corpo, bom aroma e uma estrutura sólida com um fim de boca razoável provaram-nos mais uma vez que não é apenas o preço que distingue os vinhos.
Antes que nos chamem bêbedos, lembrem-se que eram onze pessoas, das quais sete beberam vinho tinto. É incrível como uma garrafa se esvazia depressa nestas circunstâncias!
O percurso etílico atravessou um Aragonês 2002 do Esporão, que cumpriu, como aliás é hábito. Um ligeiro aroma a mofo desvaneceu-se rapidamente no copo e deixou apreciar na sua plenitude este monocasta que é um valor seguro, com bom aroma característico da variedade, com evolução, e uma cor espessa que teve tradução na boa estrutura e nos taninos.
Finalmente, fizemos uma paragem numa garrafa de Sogrape Alentejo Reserva 2000. E em boa hora o deixámos para o fim! Ao contrário do esperado, suplantou o Aragonês do Esporão e guindou-se ao posto de melhor vinho da noite. Uma estrutura espantosa para um Alentejo com cinco anos, uma cor retinta, aromas secundários e terciários para dar e vender. Acima das expectativas portanto, se bem que as iniciais já fossem boas.
Houve também um D.O.A. (Death On Arrival), um Vale Barqueiros de 1998 que, pelo odor e pela cor quase de tijolo, serviria apenas para temperar qualquer coisa, não para beber.
Para aquela zona dos brindes e da sobremesa, começámos com um espumante Murganheira Bruto Reserva 2002, de bolha fina e sabor elegante, que não causou estragos nos estômagos já quase repletos.
A sobremesa propriamente dita constou de bolo rançoso e de charlote de chocolate – tudo coisas sem calorias e que não engordam de forma nenhuma. Para as acompanhar, além do dito espumante, um Porto Vintage 2001 da Real Companhia Velha – um vintage moderno, sem arestas, de cor carmim carregado e ainda com laivos de doce, que se portou muito bem –, e um whisky de malte Famous Grouse Single Malt de 12 anos, para os comensais que apreciam. Ainda vi por lá passar uma garrafa de aguardente bagaceira do I.V.V., com cerca de 13 anos de idade e bastante para contar sobre os cascos que a tornaram amarela.
E pronto. Depois de muita conversa animada que prolongou o plenário quase até às duas, cada um foi para sua casa com a sensação do dever cumprido.
Sim, porque nós somos uns escravos do dever!

tuguinho, enófilo sóbrio e escravo do dever
Kroniketas, anfitrião famigerado

Nota: Para ver as imagens das garrafas mais nítidas clique na foto

Vinho: Quinta da Terrugem 97 (T)
Região: Alentejo (Borba)
Produtor: Caves Aliança
Preço em feira de vinhos: 17,5 €
Nota (0 a 10): 6,5


Vinho: Herdade Grande 2002 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: António Manuel Lança
Preço em feira de vinhos: 9,79 € (preço da colheita de 2000)
Nota (0 a 10): 7,5


Vinho: Aragonês (Esporão) 2002 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Herdade do Esporão
Preço em feira de vinhos: 11,95 €
Nota (0 a 10): 8


Vinho: Sogrape Alentejo Reserva 2000 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape
Preço em feira de vinhos: 9,89 €
Nota (0 a 10): 8,5


Vinho: Murganheira Espumante Bruto Reserva 2002 (T)
Região: Távora-Varosa
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial do Varosa
Preço em feira de vinhos: 8,75 €
Nota (0 a 10): 7


Vinho: Porto Vintage Real Companhia Velha 2001 (T)
Região: Douro/Porto
Produtor: Real Companhia Velha
Preço em feira de vinhos: 17,5 €
Nota (0 a 10): 7,5