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quarta-feira, 27 de junho de 2007

No meu copo, na minha mesa 124 - Montevalle Reserva 02, Casa de Santar 03, Murganheira Branco Seco 06; Petisqueira do Gould (Paço d'Arcos)




Continuando nos arredores da capital, aproveitámos uma folga para dar um saltinho a Paço d’Arcos. Indo pela Avenida Marginal em direcção a Cascais, sai-se na primeira saída para Paço d’Arcos, desembocando-se logo na Rua Costa Pinto, onde o nº 47 aloja o restaurante Os Arcos e alguns metros à frente, no nº 93, se encontra a Petisqueira do Gould. Na mesma zona, quase em frente, há a Casa Gallega e ainda um restaurante italiano e, num patamar mais abaixo, a Marítima e um restaurante asiático. Há muito por onde escolher.
Depois de espreitarmos à montra d’Os Arcos e da Petisqueira do Gould, ali a 100 metros um do outro, optámos por este último, ficando Os Arcos para próxima oportunidade. Franqueada a porta, encontrámos um espaço reduzido, quase intimista (a sala dispõe apenas de 30 lugares), onde somos conduzidos à mesa pelo anfitrião, o Sr. Amando Carvalho, dono daquele espaço.
Como entretém-de-boca apareceram na mesa umas tirinhas de presunto, pão de alho torrado e um creme à base de sapateira servido na própria concha.
Quando passamos à escolha dos pratos, a oferta, não sendo excessivamente extensa, é bastante variada, o que dificulta a escolha. Nos pratos do dia há arroz de garoupa com gambas, costeletinhas de borrego e posta mirandesa, entre outros. Como somos mais carnívoros, olhámos mais para o lado das carnes e chamou-nos a atenção a alheira de caça, o entrecôte grelhado e o tornedó, e ficámos ali a matutar no que escolher. Perante a nossa indecisão, o dono aproxima-se e sugere-nos a posta mirandesa, de carne certificada. Para fazer parelha acabámos por escolher o tornedó à portuguesa, frito em azeite e alho.
Os pratos foram apresentados num carrinho de servir e pedimos para dividir as doses em partes iguais, de modo partilhar os dois pratos. O dono acabou por servir-nos primeiro a posta mirandesa e guardou o tornedó na estufa. Obviamente, ambos mal passados.
A posta estava muito tenra, salpicada por um tempero original, em que se notaram algumas notas de canela e de ervas não identificadas pelos mastigantes.
Quanto ao tornedó, extremamente suculento e tenro, de carne de Lafões, sobressaiu precisamente pela simplicidade da confecção, que permitiu que a qualidade da carne se exibisse sem peias.
E quanto ao vinho? A decisão tinha sido esta: almoçar num restaurante desconhecido e beber um vinho desconhecido. A carta era extensa, principalmente no Douro e ainda mais no Alentejo. Estávamos de olho num Gouvyas quando o dono nos sugeriu um Montevalle Reserva 2002, da empresa Bago de Touriga, de Luís Soares Duarte e João Roseira. Trata-se de um vinho feito com uvas de vinhas velhas cultivadas em Soutelo, no Cima Corgo, e São João de Lobrigos, no Baixo Corgo. Fermentado 100% em lagar e engarrafado após 24 meses de estágio em barricas usadas, é um vinho de produção limitada, que não é habitual ver no circuito comercial. Em conversa connosco ao longo da refeição, o dono disse-nos que tinha encomendado 80 caixas mas que só lhe vão chegando a pouco e pouco.
O vinho foi servido inicialmente num copo de prova, sendo o resto decantado sem que fosse necessário pedi-lo. Pedimos, sim, um frappé porque o vinho se apresentou com a temperatura um pouco elevada. Após uns 10 minutos com o decanter dentro do balde com gelo, o vinho ficou à temperatura adequada, podendo então ser devidamente apreciado, para o que foram devidamente apresentados copos em forma de tulipa.
Fugindo um pouco ao habitual, este vinho não contém a quase omnipresente Touriga Nacional, ficando-se pelas habituais Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca. Apresenta uma cor com tonalidades violáceas, aroma frutado e a denotar alguma juventude. Na boca é medianamente encorpado e equilibrado, com uma acidez moderada e grau alcoólico não excessivo. Apesar dos 24 meses de estágio, a madeira não se sobrepõe no conjunto, deixando um fim de boca suave e fresco com um toque apimentado.
Como a garrafa se esgotou, ainda tivemos que recorrer a meia garrafa do que houvesse disponível, e a escolha recaiu num Casa de Santar 2003, que se mostrou bem à altura do desafio. Há cerca de um ano tínhamos provado uma garrafa desta colheita, e devemos dizer que esta meia garrafa nos surpreendeu favoravelmente. Muito equilibrado, muito macio mas suficientemente encorpado e persistente para não ficar perdido nas sobras do vinho anterior. Merece uma revisão da nota apresentada anteriormente.
Pelo meio, foram chegando mais uns reforços de pão torrado, batatas fritas às rodelas muito finas e os copos sempre preenchidos graças à extrema atenção do anfitrião, com quem fomos trocando algumas impressões acerca de outros vinhos, da origem das carnes e de outras sugestões que nos foi apresentando. Para finalizar, pedimos um delicioso e muito macio bolo de chocolate com gelado de nata, que rematou o repasto da melhor forma.
A grande surpresa aconteceu apenas três dias depois. Há coisas que não se preparam antecipadamente, simplesmente acontecem porque calha. Encontrámo-nos nesse fim-de-semana a propósito dum evento cultural ali para os lados de São Domingos de Rana e, já cerca das 21 horas, com os estômagos meio vazios depois de termos enganado a fome com uns croquetes e rissóis, resolvemos ir petiscar qualquer coisa para fechar a noite. Tinha-se pensado num belo bife, mas dado o adiantado da hora achámos melhor ficar por uma coisa mais leve, pensando-se então no peixe. Como já dissemos, não somos grandes piscícolas, pelo que não é fácil escolher o que comer. A hipótese de ir para o peixe grelhado, sugerida pelo tuguinho, foi desde logo liminarmente rejeitada. Queria-se peixe, sim, mas qualquer coisa que soubesse bem. Estando ali pela zona, acabámos por voltar ao local do crime, e fomos outra vez parar a Paço d’Arcos. Toca a fazer a mesma volta do outro dia, e na montra d’Os Arcos os preços do peixe eram algo assustadores. Com alguma renitência do tuguinho, fomos outra vez bater à porta da Petisqueira!
Fomos outra vez magnificamente atendidos, voltando a trocar alguns dedos de conversa com o Sr. Amando Carvalho, aproveitando o facto de termos ficado noutro ponto da sala onde pontificam alguns recortes de jornais para nos inteirarmos da origem daquele espaço. Ficámos a saber que a Petisqueira surgiu depois da ourivesaria que a antecedeu ter sido assaltada e os proprietários despojados dos seus pertences. Para refazerem o negócio montaram um restaurante com um desenho interior que mereceu um prémio da Câmara Municipal de Oeiras.
Quase com as 10 horas da noite a bater, olhámos então, desta vez, para os peixes, e optámos pelos filetes de peixe-galo com arroz mariscado. Estavam soberbos, muito saborosos, assim como o arroz, malandrinho como convém. Desta vez rejeitámos as entradas e ficámos suficientemente preenchidos sem exagerar, que era o que se pretendia.
Para terminar, repetimos a sobremesa. Não havia opção que nos agradasse mais.
Quanto ao vinho, voltámos a seguir a sugestão do Sr. Amando e escolhemos o Murganheira Branco Seco. Confirmou tudo o que se esperava: um vinho de grande elegância, com grande frescura na boca devido a uma acidez correcta e um grau alcoólico adequado (12%), que aumenta o prazer de beber sem nos pesar nem se tornar enjoativo, como muitos brancos fermentados em madeira e cheios de álcool que temos encontrado ultimamente. Este, sim, é mais ao nosso gosto. Frutado quanto baste, com alguma predominância floral que é proporcionada pela Malvasia Fina, uma casta que temos encontrado em brancos muito elegantes.
Quanto ao preço, tratando-se de duas refeições muito diferentes, o dispêndio também acabou por sê-lo. Na primeira pagámos 45 € por cada refeição, com uma garrafa de vinho a 26 € e ainda mais meia, enquanto na segunda, sem entradas, com apenas uma garrafa de vinho a 10 € e sem cafés, ficámo-nos por uns singelos 20 € por cabeça. Donde se conclui facilmente que é precisamente nas entradas e nos vinhos, mais que nos pratos, que se estabelece a diferença de preços. Mas não custa pagar o que pagámos da primeira vez quando se sai dum restaurante com o nível de satisfação que este nos proporcionou.
Perante este serviço de pratos e de vinhos irrepreensível, a qualidade da confecção e a atenção, afabilidade e simpatia do dono, só podemos considerar este restaurante como excelente. No final de duas visitas, prometemos voltar, não com três dias de intervalo, mas este local tornou-se visita obrigatória para nós. Não é preciso grandes poses para se atingir a excelência - apenas simpatia, competência e qualidade.

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

Restaurante: A Petisqueira do Gould
Rua Costa Pinto, 93
2770-213 Paço de Arcos
Telef: 21.443.33.76
Preço médio por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: Montevalle Reserva 2002 (T)
Região: Douro
Produtor: Bago de Touriga Vinhos Lda.
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço no restaurante: 26 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Casa de Santar 2003 (T) (garrafa de 375 ml)
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Murganheira Branco Seco 2006 (B)
Região: Távora-Varosa
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial do Varosa
Grau alcoólico: 12%
Castas: Malvasia Fina, Cerceal, Gouveio Real
Preço no restaurante: 10 €
Nota (0 a 10): 8

domingo, 24 de junho de 2007

No meu copo, na minha mesa 123 - Muxagat 2003; O Nobre (Montijo)



Uma ida à “outra margem” para ver um espectáculo musical levou as Krónikas Vinícolas a passar junto a este famoso restaurante, que visitámos há 8 anos ainda na Ajuda, em Lisboa. Desde logo ficou a vontade de redescobrir este espaço com tradição na gastronomia, junto à Praça de Toiros do Montijo. E uma bela noite lá fomos pela ponte Vasco da Gama a caminho do novo Nobre.
O novo espaço é amplo e arejado, com um grande parque de estacionamento logo à chegada e entrada para uma sala enorme. As mesas estão dispostas de modo a haver um generoso espaço de circulação, e mesmo assim tem capacidade para uma boa centena de pessoas.
A recepção aos clientes é atenciosa e desde logo somos confrontados com algumas entradas na mesa, ao que se segue uma enorme ementa de entradas, especialidades, peixes, carnes, etc. O difícil é escolher.
Escolhemos um folhado de caça brava e uma costeleta de vitela à mirandesa. Mas antes experimentámos a já famosa sopa de santola, que veio dentro da concha da própria santola e se revelou bastante saborosa.
O folhado vinha acompanhado de alface com umas rodelinhas de maçã, para refrescar o folhado, embora qualquer acompanhamento mais sólido não fizesse mal nenhum. A costeleta trouxe um acompanhamento mais habitual, batatas fritas e brócolos cozidos, regada com azeite. Ambos estavam bastante saborosos e, a meio do folhado, já começávamos a ficar atestados.
Para sobremesa ainda tivemos coragem para avançar para uma sopa dourada, que veio servida num prato enorme polvilhado à volta com açúcar em pó e canela. Uma delícia que já foi difícil derrotar, mas aguentámos estoicamente o desafio até ao fim.
Para os líquidos a oferta também era enorme. Surpreendentemente, para o nível do restaurante, os preços praticados não são obscenos, conseguindo-se escolher vinhos na casa dos 20 €, e foi precisamente um desses que escolhemos. Uma novidade: Muxagat 2003, produzido por Mateus Nicolau de Almeida, filho de João Nicolau de Almeida (enólogo e administrador da Ramos Pinto) e neto de Fernando Nicolau de Almeida, o criador do Barca Velha. Portanto, a 3ª geração também já voa sozinha e já tem o seu próprio vinho, que deve o seu nome ao local onde se situa a vinha, próximo da localidade de Muxagata, a poucos quilómetros de Vila Nova de Foz Côa. Bem no coração do Douro Superior, portanto, ali nas vizinhanças da Quinta da Ervamoira (já visitada por nós o ano passado), da Quinta da Leda, da Quinta do Vale Meão, berços de alguns dos melhores vinhos da região… e do país.
E que dizer deste Muxagat? Para começar, pouca informação no contra-rótulo, o que não nos permite saber quais são as castas utilizadas. Presumivelmente lá estarão a Touriga Nacional, a Tinta Roriz, a Tinta Barroca, a Touriga Franca ou o Tinto Cão. Fazendo fé na informação indicada neste post do Vinho da Casa, destas só a Tinta Barroca não está lá.
Na cor é bastante concentrado, a puxar para o retinto, no aroma apresenta sugestões de frutos vermelhos maduros. Na prova é bem encorpado, com um ligeiro toque apimentado, uma acidez correcta bem casada com a madeira, que não se sobrepõe a um conjunto equilibrado com final persistente. Para esse equilíbrio contribui também o grau alcoólico moderado, “apenas” 13%, o que é raro nos tempos que correm, principalmente no Douro, mas que talvez revele uma nova tendência para voltarmos a graus alcoólicos “normais”, o que seria bastante agradável. Em suma, um vinho simpático por um preço teoricamente acessível.
Resta acrescentar que esta era a única garrafa existente no restaurante e, segundo o chefe de sala, é um vinho pouco solicitado, que só é pedido por conhecedores. Imaginem... Esta calhou-nos bem.
Quanto ao restaurante, já íamos preparados para abrir os cordões à bolsa, recordando a despesa de há 8 anos. Logo o preço dos pratos ameaçava fazer subir a parada. Depois, o preço do vinho acabou por equilibrar a coisa. No final, duas refeições por 91 euros. Mas pela qualidade do serviço e da confecção, vale a pena ir lá. Não é todos os anos, mas de vez em quando sabe bem fazer uma pequena extravagância destas. Até porque nos ficou a luzir no olho uma perdiz à transmontana que estava na ementa...

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

Restaurante: O Nobre
Avenida de Olivença
2870 Montijo
Telef: 21.231.75.11/96.982.52.78 - Fax: 21.231.75.14
E-mail: nobremontijo@sapo.pt
Preço médio por refeição: 45/50 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: Muxagat 2003 (T)
Região: Douro
Produtor: Muxagat Vinhos
Grau alcoólico: 13%
Castas: Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Nacional, Touriga Franca
Preço no restaurante: 19,50 €
Nota (0 a 10): 7

sexta-feira, 11 de maio de 2007

No meu copo, na minha mesa 112 - Dão Meia Encosta Garrafeira 73, Quinta de Cabriz Reserva 2003; Curral dos Caprinos



Este restaurante é um clássico. Um nome que é sempre de considerar para uma refeição bem preparada mesmo ao pé da serra de Sintra, a pedir um passeio após o repasto. Para além disso há uma enorme garrafeira onde se podem encontrar verdadeiras relíquias, com mais de 30 anos, em bom estado de conservação sem ser a preços obscenos. Rumando a Sintra, há que tomar a estrada em direcção a Colares e à Praia das Maçãs e pouco à frente sair no cruzamento em direcção a Cabriz e Várzea de Sintra.
Há dois pisos com salas, sendo o piso superior bem mais agradável que o térreo, pois é todo rodeado de janelas, ao contrário do outro que é completamente interior e mais acanhado em termos de espaço.
Uma das especialidades da casa é o cabrito no forno, que vem cortado em pequenos pedaços rodeados de batatinhas e regados com molho do assado. Não é o melhor cabrito que já comi mas cai bem. Existem, contudo, muitas outras opções em duas páginas repletas de especialidades e pratos do dia.
Antes de se escolher a refeição somos quase inundados por uma série de entradas quentes, como rissóis e croquetes, para além de outras frias como o queijo fresco e fatias de presunto. Difícil de resistir quando a fome aperta.
Nas sobremesas também há imensas escolhas, com a curiosidade de algumas terem nomes bem sugestivos como “pijama”, pijaminha” e “cuequinha”, que são pratos com misturas de doces, frutas e gelados, com variadas combinações. Pode-se sempre optar pelos mais tradicionais, como o pudim de gemas ou a mousse de chocolate.
Mas a grande atracção é a garrafeira. Para além de se poder pedir uma garrafa de bom vinho por 13 ou 14 euros, bem longe dos 30 ou 40 que se vêem por aí, ainda encontramos vinhos de Reserva e Garrafeira dos anos 70, 80 e 90 pelo mesmo preço. Não resisti à curiosidade de experimentar uma dessas relíquias e pedi um Dão Meia Encosta Garrafeira de 1973. Foi aberto com todos os cuidados (não sem que a rolha se partisse, mas sem cair na garrafa) e posteriormente decantado. Mostrou uma cor ainda a revelar saúde embora com o acastanhado típico de um vinho desta idade. Houve que deixá-lo respirar algum tempo para vê-lo evoluir, mas estava em plena forma, sem qualquer sinal de declínio nem de estar a ficar “passado”. Claro que um vinho destes não é apreciado por toda a gente, há que conhecer as suas características para poder usufruir de tão nobre envelhecimento. Já não vai melhorar, mas pareceu estar num patamar estável de conservação.
Para compensar a velhice deste Meia Encosta pediu-se um mais novo, um Quinta de Cabriz Reserva de 2003. Trinta anos mais novo e a mostrar bem essa juventude. Uma bela cor rubi ainda fechada, com um aroma pronunciado a frutos vermelhos e silvestres, a fazer lembrar amora e cereja, e uma grande frescura na boca, onde o frutado e a acidez se equilibram bem com um teor alcoólico elevado. O mais curioso é que estes vinhos custaram 14 e 13 €, respectivamente, o que deve ser caso único em Portugal.
À saída ainda houve a oportunidade de trazer a garrafa do Dão Meia Encosta e, no remate da conversa, adquiri outro Garrafeira de 1977 pelo preço módico de 10 euros! Disse-me o chefe que prefere vendê-las baratas, se os clientes as quiserem levar, do que tê-las guardadas a estragarem-se sem que ninguém lhes pegue. E acho que faz bem. Quando quiser outra, já sei onde ir buscá-la. Só espero que esta de 77 esteja com tão boa saúde como a de 73 que lá bebi.
Como nota menos positiva realce-se a demora do serviço, principalmente nos pratos pedidos. Parece que ao fim-de-semana dispensam parte do pessoal e ficam com 3 pessoas a atender uma sala para cerca de 130 clientes. Depois o serviço ressente-se...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Curral dos Caprinos
Rua 28 de Setembro, 13
Cabriz - Várzea de Sintra
Telef: 21.923.31.13
Preço médio por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4

Vinho: Dão Meia Encosta Garrafeira 73 (T)
Região: Dão
Produtor: Sociedade dos Vinhos Borges
Grau alcoólico: 12%
Preço no restaurante: 14 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Quinta de Cabriz Reserva 2003 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola - Quinta de Cabriz
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Alfrocheiro, Tinta Roriz, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 6,98 €
Nota (0 a 10): 7,5

terça-feira, 3 de abril de 2007

Na minha mesa 101 - Cozinha Velha (Palácio de Queluz)




Iniciamos a segunda centena de provas das Krónikas Vinícolas com uma visita ao restaurante da pousada adjacente ao Palácio de Queluz. Chama-se Cozinha Velha e proporcionou-nos uma refeição quase sublime em dia de aniversário.
Quem não souber da existência daquele restaurante, passa ao pé do palácio e não fica a saber, porque nada o indica e a entrada não se vê de longe. Só entrando no parque do palácio é que se vê uma porta com uma ementa.
Ao entrarmos deparamos com uma sala enorme, sumptuosa, bem ao estilo dum local para reis e presidentes. Uma decoração que não consigo descrever e da qual espero que a foto dê uma pequena ideia. Somos atendidos por empregados trajados a rigor, não se ouve um ruído na sala, toda a gente fala quase em surdina.
A mesa também está decorada, com velas e flores. Antes da ementa vêm dois empregados com cestos de pão variado perguntar-nos qual é que queremos e servem-no num pires à parte.
A ementa é de cortar o fôlego. Tanto os pratos como os preços, mas quase salivamos só de ler e ficamos ali a ler aquilo vezes sem conta até nos conseguirmos decidir. Finalmente pedimos duas doses de “cabritinho de leite frito em banha de porco, sobre telha de massa folhada, mousse de grelos e broa de milho”, uma “codorniz desossada e recheada com alheira de Mirandela, sobre puré de batata trufado” e um “lombinho de porco ibérico com migas de espargos e poejos e molho de Bulhão Pato”. Uff!
Comecei com o cabrito (na foto) mas uma inesperada aparição de cogumelos no molho da codorniz obrigou a uma troca de pratos, ficando eu a deliciar-me com o prato da ave. O cabrito era bom mas relativamente vulgar, mas a codorniz estava espectacular. Aquela combinação de acompanhamentos é fantástica e ainda fui buscar mais uns bocados da magnífica mousse de grelos ao prato do cabrito.
Nas sobremesas não foi preciso escolher. Fomos à mesa central e servimo-nos no buffet de sobremesas, onde constavam frutas, doces e queijos e onde ainda estava disponível um “decanter” com Vinho do Porto Tawny a 4,5 € o copo.
O vinho? Uma escolha menos feliz para a refeição em causa. A ideia era experimentar o vinho velho da casa mas este já não existe, tendo sido substituído pelo Serras de Azeitão. Sem ver a carta mandámos vir esse, que sendo bebível ficou muito aquém da categoria da refeição que merecia um vinho com outro nível. Fica para outra ocasião.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Cozinha Velha
Pousada D. Maria I, Largo do Palácio de Queluz
2745-191 Queluz
Telef: 21.435.661.58
Preço médio por refeição: 40 a 50 €
Nota (0 a 5): 5

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

No meu copo, na minha mesa 86 - Herdade dos Grous 2004; Três Bagos, Sauvignon Blanc 2003; Restaurante O Orelhas



Foi com alguma expectativa que me desloquei a este restaurante às portas de Lisboa, na localidade de Queijas, entre Carnaxide e o Estádio Nacional. Havia muitas e boas referências ao mesmo, quer em termos da comida quer da garrafeira, e até das possibilidades de conseguir uma vaga, pois só com marcação se consegue lá ir. E às vezes, quando as expectativas são muito altas, acabam por sair defraudadas.
Não digo que a minha visita ao Orelhas tenha sido decepcionante, mas ficou um pouco aquém do esperado. Desde logo, um aspecto desagradável é a má renovação do ar, pois os cheiros da cozinha, que fica à vista da sala, vão-se acumulando tornando-se um pouco sufocantes e entranhando-se na roupa. Quando se sai de lá, todos nós cheiramos a fumo de fritos ou grelhados.
Em termos de atenção, dificilmente seria melhor. Os empregados estão sempre em cima do acontecimento e respondem aos pedidos com rapidez. Nessa atenção está incluída a sugestão dos pratos e dos vinhos a escolher. E aqui é que as coisas se passam de modo diferente do habitual. Não há uma ementa para escolher: somos perguntados se queremos carne ou peixe e em função da preferência são dadas 2 ou 3 opções, que no caso da carne era só uma, costeletas de cabrito fritas em azeite e alho, em que recaiu a minha preferência. No caso do peixe, a escolha (largamente maioritária, aliás), foi robalo grelhado.
No meu caso as costeletas de cabrito cumpriram satisfatoriamente a função mas esperava mais, dada a qualidade da matéria-prima. Do robalo não posso falar porque não o provei, mas sei que 11 pessoas pagaram cerca de 255 € pelo peixe!
No caso dos vinhos, outra grande fama da casa, é de ficar sem respiração: a vasta carta, bem recheada com vinhos de qualidade de todas as regiões, é completamente proibitiva em termos de preços. A esmagadora maioria dos vinhos estão listados a mais de 100 € a garrafa, sendo que não mais de 5, no total, custavam menos de 20 €. Seguramente mais de 90% das opções custam mais de 50 €. Um despautério!
Assim sendo, as escolhas para quem não quer pagar por uma garrafa de vinho mais que o preço de todo o jantar, tem pouco por onde escolher. A nossa escolha seria um Duas Quintas branco, a 14 €, e um Monte da Peceguina tinto, a 15 €, mas o empregado que nos atendeu orientou-nos noutro sentido, e trouxe um Três Bagos, de Sauvignon Blanc, e um Herdade dos Grous.
O Três Bagos não agradou a ninguém. Um sabor enjoativo, demasiado amanteigado, e pouco aroma. Uma surpresa pela negativa. Tendo em conta experiências anteriores com esta casta, e à semelhança da Chardonnay, começo a desconfiar que estas castas brancas francesas não têm grandes condições para dar bons vinhos em Portugal, ao contrário das tintas, talvez devido ao clima. Provavelmente precisam de climas mais frios para darem vinhos com maior frescura e suavidade, ao passo que as tintas beneficiam de maior calor para dar vinhos mais macios. Recordo que ainda o ano passado bebi dois excelentes vinhos franceses destas castas, e não deve ser por acaso que não gostei das versões portuguesas.
Quanto ao tinto, um dos recentes vinhos alentejanos, de Albernoa, entre Beja e Castro Verde, portou-se bem. De cor carregada, aroma frutado, encorpado e macio na boca. Feito a partir das castas Aragonês, Alicante Bouschet, Syrah e Touriga Nacional, apresenta uma acidez bem equilibrada com a madeira e com o álcool, que foge à tendência actual do exagero, ficando-se por uns razoáveis 13,5 graus, que não abafam os aromas e paladares do vinho. Não me parecendo excepcional, mostrou-se elegante e equilibrado, tendo todas as condições para agradar. É um vinho de perfil moderno, fácil de beber já, que certamente vai merecer novas oportunidades de prova.
Globalmente, a refeição foi agradável mas as diversas condicionantes apontadas fizeram com que as expectativas saíssem algo defraudadas. As escolhas são demasiado limitadas e os preços, definitivamente, não são nada meigos. Por um preço semelhante comemos bem mais e melhor na Travessa do Rio.

Kroniketas, enófilo esforçado

Restaurante: O Orelhas
Rua Cesário Verde, 80 - Loja F
2795 Queijas
Telef: 21.416.45.97
Preço médio por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 3,5

Vinho: Três Bagos, Sauvignon Blanc 2003 (B)
Região: Douro
Produtor: Lavradores de Feitoria
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Sauvignon Blanc
Preço no restaurante: 14 €
Nota (0 a 10): 4

Vinho: Herdade dos Grous 2004 (T)
Região: Alentejo (Albernoa)
Produtor: Herdade dos Grous
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Alicante Bouschet, Aragonês, Touriga Nacional, Syrah
Preço em feira de vinhos: 8,40 €
Nota (0 a 10): 7

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Lisboa à Prova

No passado dia 13, dia seguinte ao histórico encontro de eno-blogs, desloquei-me à Cordoaria Nacional para o encerramento do concurso Lisboa à Prova, que decorreu durante alguns meses e onde estiveram a votação os 30 melhores restaurantes de Lisboa. No referido dia 13 decorria durante a tarde a entrega dos prémios e a partir das 18:30 seria o festival dos 30 finalistas, com um espaço de degustação.
Não cheguei a saber quem venceu, nem me preocupei com isso, mas fui ver que acepipes estariam à disposição dos visitantes. Chegámos entre as 19:30 e as 20 horas, e depois de algum tempo de espera para a compra dos bilhetes, a um preço perfeitamente aceitável (5 € para os adultos e 3 € para as crianças), lá entrámos no recinto da degustação.
O primeiro impacto foi um pouco assustador, pois estavam magotes de gente em todos os stands dos restaurantes representados, dificultando a passagem e tornando quase impossível saber o que se podia provar. O bilhete dava 4 cupões para degustação e um para uma bebida. Mas, depois de percorrermos a custo os corredores (os stands estavam dispostos ao centro, costas com costas e ao longo do recinto, e o público passava pelo lado exterior), voltámos ao ponto de partida para tentar começar a perceber o que se poderia comer, pois começavam a ser horas. E aí, o drama: não havia pratos! Nem talheres. Perguntámos a alguém com uma farda onde se arranjavam pratos e disseram-nos que em cima dos aparadores. Só que não estavam lá nenhuns. Foi preciso descobrir uma porta que dava acesso a outro espaço onde se lavavam pratos e talheres, ficar à porta e esperar que alguém trouxesse pratos ainda molhados, e sacar umas colheres e uns garfos. Mais fácil foi arranjar copo, era pagar 3 € para ter um copo e recebê-los de volta quando o copo fosse devolvido.
Consegui degustar umas excelentes bochechas de porco no stand do Tromba Rija, onde também pedi umas gotas de vinho Nova Safra, que estava ali a jeito. Ao lado um pouco de cabrito no forno e a finalizar um bacalhau verde não sei onde. Já perto das 21, foi hora de passar às sobremesas mas, em fim de festa, acabámos por conseguir provar diversos doces já sem nos pedirem as últimas senhas. De novo no Tromba Rija, podia-se raspar a travessa duma excelente Sopa Dourada, que ainda deu para repetir. Fiquei jantado, em suma.
Mas como não há bela sem senão, à boa maneira portuguesa, tinha que falhar qualquer coisa e a barraca dos pratos e dos talheres é incompreensível. Parece que calcularam 1500 visitantes e apareceu mais do dobro. Parece que em Portugal não sabem fazer contas e, como sempre, nunca se prevê nada como deve ser.

Kroniketas, enófilo esclarecido

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

No meu copo, na minha mesa 82 - Text Cabernet-Merlot; A Carvoaria (Cascais)


Um restaurante e um vinho surpreendentes. A Carvoaria fica em Cascais num bairro de ruas estreitas junto ao Pavilhão do Dramático, que nos anos 70 e 80 era a catedral dos concertos de rock em Portugal. Algures por ali encontra-se este restaurante à base de carne confeccionada à moda da África do Sul. As opções são imensas mas todas à volta de pratos sul-africanos, com destaque para uma série de bifes com nomes ingleses.
Para duas pessoas escolhemos dois bifes “Charolais” com molho de natas e pimenta verde, mal passados como se impunha. Vieram duas peças de carne alta e rosada muito tenra e saborosa, com um molho espesso e não excessivamente apimentado. Outra surpresa foi um acompanhamento de rodelinhas de cebola frita, muito saborosa, que ao contrário do que eu esperava não provocou mau hálito nem dificuldades de digestão.
Na parte dos vinhos, a carta não é muito extensa mas as opções são boas e suficientes para vários gostos e preços. Também aqui havia a opção de vinhos sul-africanos, embora dois dos quatro da lista não existissem (um péssimo hábito cada vez mais comum em Portugal), acabando por ser escolhido um que não constava da lista sugerido pelo chefe, único funcionário a atender os clientes (aparentemente é o dono do local).
O vinho escolhido, completamente desconhecido, dava pelo nome de “Text” e era composto por um lote das castas Cabernet Sauvignon e Merlot. Mostrou uma cor rubi bastante concentrada. Ao primeiro contacto olfactivo sobressaíram desde logo os aromas a frutos vermelhos, pimentos verdes, groselha, um pouco achcolatados, tão típicos da Cabernet. É um aroma que me apaixona e parece ir buscar quaisquer memórias escondidas sempre que cheiro os vinhos desta casta.
Na boca o vinho apresentou-se macio, pois a Merlot equilibra a adstringência natural da Cabernet e retirou-lhe a predominância habitual de especiarias que esta apresenta quando vinificada em extreme. Um corpo suave e elegante, embora suficientemente poderoso para encher o palato e proporcionar um final de boca prolongado mas macio.
Em resumo, é um vinho de perfil moderno, que se bebe com facilidade. Para mim é daqueles vinhos que apetece ir bebendo quase sem se dar por isso, até porque não segue a moda, tão em voga em Portugal, do álcool excessivo, ficando-se por uns aceitáveis 13 graus, que estão perfeitamente ajustados para o corpo e a acidez moderada do vinho.
O restaurante é daqueles onde vale a pena ir para almoçar ou jantar sossegadamente, num ambiente quase intimista. O espaço não é grande, tem apenas 40 lugares, o ambiente é calmo e sossegado, o serviço rápido e atencioso, a confecção é excelente. Tem tudo para nos sentirmos lá bem e sairmos melhor.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: A Carvoaria (sul-africano)
Rua João Luís de Moura, 24
2750-387 Cascais
Telef: 21.483.04.06
Preço médio por refeição: 20 a 25 €
Nota (0 a 5): 4,5

Vinho: Text, Cabernet Sauvignon e Merlot (T) (sem data de colheita)
Região: Western Cape (África do Sul)
Produtor: Text Wine - Craighall
Grau alcoólico: 13%
Castas: Cabernet Sauvignon, Merlot
Preço no restaurante: 13,50 €
Nota (0 a 10): 7,5

sábado, 13 de janeiro de 2007

I Encontro de Eno-blogs - O evento

E esta noite deu-se o grande acontecimento. Na York House, às Janelas Verdes, encontraram-se os autores de vários blogs vinícolas mais respectivos convidados e alguns independentes que se quiseram associar à iniciativa (e muito bem), o que proporcionou momentos de animado convívio e trocas de opiniões, a prova de algumas boas pingas e um jantar repleto de deliciosas iguarias.
Se não me falham as contas, registámos a presença do Copo de 3, do Saca-a-rolha, de Os vinhos, do Vinho a copo, além do promotor da iniciativa, o Pingas no Copo e os independentes Chapim, AJS, Pedro Sousa (PT) e Chicão (peço desculpa se me faltou alguém, mas no primeiro encontro é difícil fixar os nomes e as caras de toda a gente e associá-los desde logo aos pseudónimos usados nos blogs). O comparsa madeirense do Elixir de Baco também quis associar-se através de duas garrafitas de Verdelho da Madeira, que marcharam logo na prova, provocando algumas opiniões divergentes devido à discrepância entre o agrado da prova de boca e o seu final quase instantâneo. Mas valeu a pena a prova. Uma saúde para ti, companheiro. E que a próxima nos permita contar com a tua presença.
As Krónikas Vinícolas fizeram-se representar em peso, pois levaram 3 convidados que participam habitualmente nos repastos do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os Comensais Dionisíacos” (entre eles o Politikos, do Polis&Etc), pelo que, juntamente com o Vinho a Copo, fomos o blog mais representado.
No meio de tantos vinhos degustados antes e durante o jantar, como não tirámos notas é difícil sistematizar tudo o que foi provado, mas salvaguardados os diferentes gostos e preferências de cada um, para mim houve um claro vencedor da noite: o Hexagon, da José Maria da Fonseca, numa garrafa de litro e meio, que me encheu as medidas mais que qualquer outro (devo dizer que esta opinião não é sequer unânime entre o grupo das Krónikas Vinícolas, é puramente pessoal). Grande corpo, grande estrutura, excelente exuberância aromática, este topo de gama criado, como sempre, sob a batuta de Domingos Soares Franco, que deve ter um preço proibitivo aí no mercado. Não me lembro quem levou o vinho, mas em boa hora o fez e tiro-lhe o meu chapéu.
Do lado contrário, a decepção da noite foi um Dão Casa de Santar Tinto Superior, de 2001. Dado o patamar de qualidade a que esta casa nos habituou, esperava-se que este Tinto Superior, que suponho estar situado num patamar acima do Reserva (que já é um vinho de superior qualidade), estivesse próximo do sublime, mas afinal acabou por revelar-se vulgar, sem encantar, ao que me pareceu, nenhum dos presentes. O meu comentário na hora foi que lhe faltava corpo... e alma, e está tudo dito.
No final da refeição houve dois vinhos do Porto para comparar, um Colheita de 91 (da Niepoort) e um LBV (da Warre's), e o meu veredicto é... X. Gostei de ambos, cada um com o seu perfil., embora não sejam comparáveis, mas não consigo pender para qualquer dos lados. Para mais pormenores, aconselho a leitura dos outros blogs presentes, onde certamente haverá uma descrição mais detalhada das muitas provas realizadas.
Quanto ao repasto, a entrada de folhado de pato estava saborosíssima, os filetes de linguado excelentes (marcharam enquanto o diabo esfrega um olho), e as presas de porco (que substituíram as costeletas de borrego devido a imponderáveis de última hora) também se comeram bem, embora fossem o prato mais vulgar dos três. Também a tarte estava muito boa, com um gelado e um toque de canela bastante agradáveis.
No final de tudo, o regresso processou-se de táxi, tal como a ida, para não arriscar, mas afinal não estávamos tão afectados como seria de supor, pois bebeu-se com moderação e sem exageros. Afinal, somos todos amantes dos néctares de Baco mas não alcoólicos.
Só me resta agradecer ao anfitrião da York House, José Tomaz de Mello Breyner, pela disponibilidade demonstrada para acolher esta iniciativa, ao Pingus Vinicus por ter dinamizado a coisa e concentrado a informação para os preparativos do acto, e a todos os comparsas que escrevem, lêem e comentam os nossos blogs, e que tive o prazer de conhecer neste encontro e com os quais troquei opiniões bastante interessantes, enriquecendo mais um pouco os meus conhecimentos sobre este mundo tão fascinante que é o do vinho. Faço votos para que esta tenha sido apenas a primeira de muitas iniciativas do género que se repitam pelo tempo fora. Um brinde a vocês todos.
À nossa!

Kroniketas, enófilo esclarecido e ainda sóbrio

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

No meu copo, na minha mesa 79 - Quinta do Sanguinhal 98; William Fevre 2004; Restaurante O Jacinto



Este é um dos restaurantes de Lisboa que conheço há mais tempo. Situa-se numa vivenda em Telheiras, na zona da antiga Quinta de S. Vicente, junto à Azinhaga das Galhardas. Para lá chegar, a melhor forma é apanhar a 2ª circular no sentido Aeroporto-Benfica e sair na primeira a seguir ao Campo Grande. Entra-se directamente na azinhaga e chega-se imediatamente a uma espécie de alameda onde fica o restaurante. Indo do lado de Benfica, ou se vai ao Campo Grande e volta-se para trás para usar esta saída, ou tem de se entrar por Telheiras e, algures nuns semáforos a seguir à escola, virar à direita e andar por umas ruelas sem grande identificação até chegar à rua do restaurante.
Em tempos recuados tinha uma das melhores açordas de marisco da capital, senão a melhor. Valia a pena ir lá para comer a açorda. Também havia uns croquetes quentinhos para entrada que eram uma delícia. Na década de 80 atravessou uma crise que pode ter sido justificada por cortar nos ingredientes. Lembro-me duma açorda que em vez de marisco tinha apenas delícias do mar. Actualmente tem marisco, embora pouco e cortado ao meio, mas a açorda continua a ter aquele paladar que fez as minhas delícias há 30 anos. A verdade é que nas últimas visitas a casa estava cheia, e na última assim aconteceu.
Além da inevitável açorda de marisco, ainda vieram para a mesa um caril de gambas, uma picanha e uma perna de porco assada no forno. Destes só provei a picanha, porque fui lá de propósito para comer a açorda de marisco (isto porque ir ao Pap’Açorda no Bairro Alto nem sempre é prático). A picanha cumpriu como é habitual. A açorda também. Muito bem temperada, com muita salsa, bastante aromática, na consistência certa. Enfim, apesar de modesta na quantidade de marisco, soube bem comer e deixou-me plenamente satisfeito, assim como os restantes comensais que optaram pelo prato.
Para sobremesa vieram apenas duas encharcadas de ovo, talvez um dos melhores doces de ovos que existem. Tal como no Alqueva, comeu-se e ficou a apetecer mais.
O serviço é atencioso, simpático, rápido e eficaz, o ambiente acolhedor, a ementa variada. Não será o melhor restaurante de Lisboa, mas tem todas as condições para ser um dos melhores, e só não será se os responsáveis não quiserem.
Para os líquidos, como havia peixes e carnes, pediu-se um branco e um tinto, e tentámos fugir ao mais habitual, pedindo dois vinhos menos vistos. Apesar de uma carta de vinhos extensa (embora pobre nalgumas regiões), como é frequente nos restaurantes portugueses pede-se um vinho que está na carta e depois não existe na garrafeira. Assim voltou a acontecer por duas vezes, e acabámos por ficar por um William Fevre (branco) e um Quinta do Sanguinhal (tinto).
Foi a minha segunda experiência com um William Fevre. A primeira tinha sido no Chafariz do Vinho, com um Sauvignon Blanc de 2004. Desta vez não era mencionada a casta, mas no contra-rótulo vinha a indicação de ser apenas Chardonnay. Tinha uma bela cor amarelo palha, era frutado como quase todos os Chardonnay, mas desta vez sem ser enjoativo, com um toque floral e bastante equilibrado em termos de corpo e acidez, denotando bastante frescura no paladar. Agradou a todos os presentes, embora eu tivesse gostado mais do Sauvignon Blanc por ser mais suave.
Para o tinto escolhemos este da região de Óbidos, que em tempos já teve algum destaque com o Gaeiras (branco e tinto), mas que na última década tem andado mais ou menos desaparecida. A verdade é que este Quinta do Sanguinhal, de 1998, já com alguma evolução bem presente, revelou-se ainda em grande forma e foi uma agradável surpresa. Bom corpo, uma cor retinta e bons taninos, bom equilíbrio entre o carácter frutado e a madeira nova de carvalho francês, suave e elegante no paladar. Ficámos curiosos acerca deste vinho com menos dois ou três anos, poderá ser um caso a ter muito em conta. Sem dúvida um vinho a rever.

tuguinho e Kroniketas, enófilos esforçados e esclarecidos

Restaurante: O Jacinto
Av. Ventura Terra, 2 (Telheiras)
1600 Lisboa
Telef: 21.759.17.28
Preço médio por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4

Vinho: William Fevre 2004 (B)
Região: Chablis (França)
Produtor: William Fevre - Chablis
Grau alcoólico: 12%
Castas: Chardonnay
Preço no restaurante: 27,50 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Quinta do Sanguinhal 98 (T)
Região: Estremadura (Óbidos)
Produtor: Companhia Agrícola do Sanguinhal
Grau alcoólico: 12%
Castas: Castelão, Tinta Miúda, Carignan
Preço no restaurante: 15,50 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

No meu copo, na minha mesa 78 - João Pires 2004; Vinha da Defesa 2004; A Travessa do Rio



Para o fim-de-ano juntaram-se no restaurante Travessa do Rio, em Benfica, os faltosos do último repasto com esta metade das Krónikas Vinícolas. Tivemos, portanto, a outra metade dos “Comensais Dionisíacos” de regresso ao local do crime, pois foi naquele local que numa noite de Julho de 2000 foi dado o nome ao grupo e elaborados os estatutos.
Tratando-se de um grupo alargado com outros comensais e mais alguns descendentes, depois de alguns entreténs-de-boca como rissóis, queijos, presunto, ovas e filetes, o pessoal já estava meio jantado quando passámos à ementa. As opções eram variadas e para todos os gostos, mesmo não sendo em número muito elevado. Por consenso entre todos, para 8 adultos e 3 crianças pediram-se 3 doses de filetes de peixe-galo com arroz de marisco e 3 de palleta de cordeiro assada no forno.
Sem ser necessário pedi-lo expressamente, foram servidos primeiro os filetes, que estavam deliciosos assim como o arroz, que veio a acompanhar num prato à parte, malandrinho e de comer e chorar por mais. Rapidamente a minha dose de arroz desapareceu, e o mestre de serviço imediatamente se prontificou a trazer um reforço, mesmo sem eu pedir.
Terminada a função com o peixe, passámos então à carne, que cumpriu o que se esperava. Uns excelentes bocados de cabrito com batatinhas assadas e grelos cozidos, que marcharam até ao fim, embora nesta fase o apetite já fosse desaparecendo, mas perante tão deliciosos pitéus é difícil resistir.
Para acompanhar a refeição pedimos um vinho branco e um tinto. Dados os preços obscenos para o vinho que se continua a praticar nos restaurantes, cada vez é mais difícil escolher vinhos decentes sem ser por valores indecentes. Mas conseguimos fazer duas boas escolhas, dois vinhos que têm lugar assegurado nas nossas sugestões. Para o branco escolheu-se um João Pires, a 9,50 € (preço em feira de vinhos: 4,48 €), por sinal um dos meus brancos preferidos, e para o tinto um Vinha da Defesa, da Herdade do Esporão (que por coincidência foi o vinho bebido há exactamente um ano, na passagem-de-ano anterior), por 14,50 € (preço em feira de vinhos: 6,28 €). Ambos da colheita de 2004.
Como se esperava, estavam os dois excelentes. Já tínhamos feito uma apreciação ao João Pires de 2004. O Vinha da Defesa 2004 tem mais álcool que o de 2003, 14,5%, mostrando um aroma mais exuberante logo de início. Mantém o carácter frutado, com os taninos bem presentes, típicos do Aragonês, mas muito disfarçados por um corpo cheio e um leve toque caramelizado que lhe é dado pelo Castelão. Parece ter melhorado em relação ao de 2003, estar mais apurado, embora quanto a mim continue a verificar-se um excesso de álcool.
Como se aproximava a meia-noite e ainda havia uns doces para degustar em casa com o espumante, abdicámos das sobremesas.
A Travessa do Rio fica num beco entre a Estrada de Benfica e a Avenida Gomes Pereira. A pé pode-se entrar por baixo das arcadas da Estrada de Benfica e está-se imediatamente junto à porta. De carro entra-se pela avenida Gomes Pereira e vira-se para a Travessa do Rio, a última perpendicular antes da Estrada de Benfica. Foi a minha terceira vista a este restaurante, e esta foi a que mais me agradou em termos de refeição e de serviço. Casa cheia e, apesar de tudo, serviço eficiente, pronto, atencioso. Sempre que faltava algo na mesa (nas entradas, nas bebidas ou no prato) logo alguém se prontificava a trazer mais. O serviço de vinhos não é excepcional mas houve o cuidado de servir o vinho tinto em copos adequados, de pé alto, boca larga e em forma de tulipa para podermos arejar e aspirar o aroma do vinho.
Na conta é que fiquei com dúvidas sobre se tínhamos pago mais do que aquilo que comemos nas entradas, pois não sei se todas as doses foram encetadas. Os preços dos pratos não são suaves, na casa dos 15 euros ou mais, mas a qualidade dos mesmos e do serviço compensa largamente. De resto, numa refeição com menos entradas pode-se conseguir pagar um pouco menos. Uma referência a fixar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: A Travessa do Rio
Travessa do Rio, 6
1500-551 Lisboa
Telef: 21.716.05.43
Preço por refeição: 30 a 35 €
Nota (0 a 5): 5

Vinho: João Pires 2004 (B)

Vinho: Vinha da Defesa 2004 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Herdade do Esporão
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Castelão
Preço em feira de vinhos: 6,28 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

No meu copo, na minha mesa, 77 - A.C. Borba 2002, Aragonês e Alfrocheiro 2002; Alqueva (Amadora)



Confessamos que foi uma segunda escolha. Na semana anterior ao Natal muitos restaurantes já estão esgotados todos os dias e o primeiro da nossa lista estava nessa situação. Acabámos por não ficar penalizados com esta escolha, pois o Alqueva revelou-se acolhedor, farto e saboroso.
Apesar de o restaurante se situar num prédio moderno da Amadora, a porta em madeira velha, obviamente transplantada para ali, deu o tom para a decoração interior, à base de utensílios de lavoura e de peças de artesanato típico do Alentejo. Mesas ataviadas com toalha e guardanapos de pano, espaçosas o suficiente, completavam este ambiente acolhedor.
Na mesa já se encontravam diversas entradas, dos enchidos fatiados ao queijo, dos torresminhos a uma espécie de rancho (grão, massa e enchidos guisados), deu e sobrou para nos entreter até chegarem os pratos principais.
Os três convivas (o núcleo duro dos “Comensais dionisíacos”, porque houve 2 desistências de última hora) escolheram: bochechas de porco preto com migas de espargos verdes, mista grelhada de porco preto com as mesmas migas e uma mista de caça com feijão branco.
As migas estavam irrepreensíveis, bem como a mista grelhada de porco preto, composta por três generosos pedaços de diferentes partes do reco. As bochechas, que também provei, têm um gosto demasiado acentuado para o meu paladar, mas estavam também bem confeccionadas.
Não provei a caça guisada com o feijão, mas o Kroniketas, principal deglutidor desse prato, não se mostrou desagradado com o dito cujo, pelo contrário.
As sobremesas eram mais do que suficientes e à base de doces conventuais. Escolheram-se uma encharcada, uma sopa dourada e um torrão da rainha. A encharcada cumpriu, a sopa dourada estava um pouco seca e o torrão da rainha surpreendeu: gila e ovos com uma cobertura de canela, mas sem ser demasiado doce ou enjoativa.
Além dos cafés, ainda se provou uma aguardente da Vidigueira, que se revelou suave e saborosa, boa para finalizar uma refeição.
Para ajudar a empurrar os sólidos bebeu-se primeiro um Alfrocheiro, vinho varietal da Adega Cooperativa de Borba, seguido de um Aragonês da mesma proveniência. O Alfrocheiro bateu o Aragonês em toda a linha, provando as grandes potencialidades desta casta (descrição mais detalhada nos próximos dias).
Concluindo, o Alqueva mostrou-se com merecimento para nos receber por lá outra vez, porque da comida ao ambiente tudo se conjugou para nos proporcionar um bom jantar pré-natalício.

tuguinho, enófilo esforçado

Restaurante: Alqueva
Rua Dom João I, 4B - Amadora
2700-248 Amadora
Telef: 21.492.14.81
Preço médio por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4

Vinho: Alfrocheiro 2002 (T)
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Alfrocheiro

Preço no restaurante: 12,75 €
Nota (0 a 10): 8


Vinho: Aragonês 2002 (T)
Grau alcoólico: 13%
Casta: Aragonês

Preço no restaurante: 12,75 €
Nota (0 a 10): 7


Região: Alentejo (Borba)
Produtor: Adega Cooperativa de Borba

sexta-feira, 28 de julho de 2006

No meu copo 55 - Bons Ares 2002, Passadouro 2003


Um convívio interbloguista levou o núcleo duro do Grupo Gastrónomo-Etilista ao Vasku’s, um dos nossos restaurantes preferidos da capital. Fugindo ao habitual fondue, os quatro comensais optaram por um bife do lombo com molho pimenta, que estava delicioso como se esperava.
Claro que o grande tema do repasto não se fez à volta do prato mas à volta do copo. Para fugirmos também aos habituais alentejanos onde já não há muito por descobrir, e face à escassez de opções em regiões como a Bairrada, o Dão, o Ribatejo e a Estremadura (da Península de Setúbal não havia um único tinto), fomos para o Douro e começámos por escolher um Bons Ares tinto. Foi-nos apresentada uma sugestão pelo chefe de serviço que dava pelo nome de Passadouro como valendo a pena experimentar. Como se tratava de uma marca desconhecida de todos, resolvemos seguir a sugestão e começar por este.
É um vinho da zona do Pinhão, de cor muito escura, compacta, a tender para o violeta. Foi um pouco decepcionante. É um daqueles vinhos que, como já tenho aqui referido, me fazem questionar porque é que o Douro tem assim tanta fama nos vinhos de mesa. Pareceu-me (e não foi só a mim) perfeitamente vulgar e, tratando-se dum vinho de 2003, os aromas apresentaram-se ainda muito crus, pouco definidos e pouco exuberantes. O final de boca também é curto e não deixa grandes memórias, apesar dos 14% de álcool que não me pareceu que o beneficiem grande coisa. Pode ser que ainda melhore muito na garrafa mas daí até ser um excelente vinho vai uma grande distância. O meu comentário foi simples: não é vinho que me vá apetecer ter na garrafeira.
Esgotado o líquido da primeira garrafa, insistimos no Bons Ares, da Ramos Pinto. Esta é sempre daquelas casas que nos oferecem apostas seguras e tal como o seu primo Duas Quintas, aqui amplamente divulgado, este não nos deixou ficar mal na escolha. A Quinta dos Bons Ares é uma das duas donde saem as uvas para o Duas Quintas (a outra é a da Ervamoira, já por nós visitada). Neste caso a Ramos Pinto fez outro vinho apenas com uvas desta quinta, mais a jusante no rio Douro e situada em maior altitude, o que confere mais frescura e vivacidade aos vinhos ali produzidos. Curiosamente, por uma dessas particularidades em que é fértil a nossa legislação, este vinho não tem denominação de origem Douro mas sim Regional Trás-os-Montes, porque uma das castas usadas é o Cabernet Sauvignon. Mesmo sendo usada de norte a sul do país, vinho onde entre passa a ser vinho regional, porque não faz parte das castas recomendadas. Em nenhuma região. Vá-se lá saber porquê! Há uns 15 anos que bebo vinhos de Cabernet e esta casta tem-me proporcionado alguns dos melhores que tive oportunidade de provar...
Misturada em 40% com a famosa Touriga Nacional (60%), daí resultou um vinho, este sim, excelente. Cheio de estrutura e corpo, com um final prolongado e aromas muito mais exuberantes, extremamente equilibrado em todas as componentes, depois de se beber ainda se fica a saborear. Este é daqueles que não enganam e obviamente faz parte da minha garrafeira e das nossas escolhas. E é vinho para se bater bem com pratos mais pesados e condimentados. Um dos convivas comentou que “daria um excelente vinho do Porto”. Pois, dali também saem desses...
Considero que este vinho não é inferior ao Duas Quintas, pelo contrário, é até ligeiramente superior, pelo que o classifico uns pozinhos acima. O que até faz sentido, pois é mais caro.
No final do repasto foram apresentadas aos comparsas as duas garrafas de Reserva Ferreirinha recentemente compradas. Puderam admirá-las e manipulá-las, mas não apreciar o conteúdo, porque agora vão repousar na garrafeira do tuguinho, que fica como fiel depositário (é mesmo o que se pode chamar o fiel de armazém). Quando já não fizer calor, então vamos abri-las. Agora foi só para abrir o apetite…
E não digo mais nada porque vou de férias. O tuguinho que trate do estaminé durante o mês de Agosto. Boas provas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Passadouro 2003 (T)
Região: Douro (Pinhão)
Produtor: Quinta do Passadouro - Sociedade Agrícola
Grau alcoólico: 14%

Preço no restaurante: 21 €
Nota (0 a 10): 6,5

Vinho: Bons Ares 2002 (T)
Região: Trás-os-Montes (regional)
Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 13%

Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 11,99 €
Nota (0 a 10): 8


PS: Este post foi escrito acompanhado do som e da imagem do DVD do ano: Pink Floyd - Pulse. Para falar de grandes vinhos, nada como encontrar inspiração em grandes músicas.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

No meu copo, na minha mesa 54 - William Fevre, Sauvignon Blanc 2004; Chafariz do Vinho - Enoteca




Uma saída de fim-de-semana antes de férias levou-me a um local que não visitava há algum tempo e que tem sido alvo de conversas intra e interbloguistas. À falta de quórum bloguista, vai-se com a família. Senhoras e senhores, apresento-vos o Chafariz do Vinho, na Mãe d’Água, entre a Praça da Alegria e o Príncipe Real. Construído nas rochas da antiga mãe d’água de Lisboa, foi erguido dentro do edifício um espaço com 3 pisos onde se vê a água a correr por dentro da gruta. Em dias bons, chegando cedo, ainda se pode optar pela esplanada cá fora.
O Chafariz do Vinho - Enoteca, como o próprio nome indica, é antes de mais nada um local de degustação de vinho, onde se pode comer uns petiscos para acompanhar o líquido, mas é este o centro de todas as atenções na casa. A lista é imensa, com centenas de vinhos, portugueses e estrangeiros, certamente maior que mais de 90% dos restaurantes portugueses. Leva-se mais tempo a escolher o vinho que as comidas. Um dos proprietários é o nosso bem conhecido João Paulo Martins, crítico de vinhos, cronista da Revista de Vinhos e autor dum dos mais conceituados anuários de vinhos, e naturalmente a selecção de vinhos é feita por ele. Claro que os vinhos ali presentes são todos de qualidade acima da média, com preços a condizer, pelo que não se pode esperar ir lá para beber Monte Velho, Frei João ou Porca de Murça (estou a citar alguns vinhos baratos de que gosto, para que se não pense que estou a denegri-los). Tem ainda a particularidade de servir vinho e champanhe a copo. Para quem quer beber pouco mas provar bom, pode ser uma boa opção.
Das vezes que lá fui aproveitei para beber vinhos que não conhecia, com predominância para os estrangeiros. Alemães e franceses (brancos) têm sido escolhas recorrentes, porque é mais fácil encontrá-los bons do que bons brancos portugueses. Desta vez optei por um branco francês (até porque o tempo assim convida), da casta Sauvignon Blanc.
Não há dúvida que os franceses sabem fazer vinho, e este prova-o claramente. Com uma cor citrina desmaiada, quase incolor, um aroma frutado profundo, elegante e suave na boca mas ao mesmo tempo encorpado, com um fim de boca que nos deixa à espera do próximo trago. Bebe-se um e apetece logo outro. Mais convivas houvera e mais garrafas se despejara... Perante este vinho, fica-se com a certeza de que há mesmo vinhos brancos bons, apesar de haver quem pense o contrário e de em Portugal serem poucos.
Claro que os copos usados, do tipo flute, também ajudaram, assim como a temperatura a que o vinho foi mantido, desde logo colocado num frappé. O serviço de vinhos é esmerado ao máximo, como não podia deixar de ser.
Claro que se comeu qualquer coisa a imitar um jantar. Algumas entradas com patés e pães diversos enquanto se espera pelos mini-pratos. Um rolo de massa fresca com requeijão e espinafres, bastante suave; uma trouxa de couve com alheira de caça, bastante temperada e ligeiramente picante, a puxar mais para a bebida; e uma opção do dia, perdiz desfiada em molho de escabeche, saborosíssima. Vai-se petiscando devagar para fazer render enquanto se aprecia o vinho.
Por fim, uma surpresa: um bolo de chocolate que não estava no programa. Só vos digo que deve ter sido o melhor bolo de chocolate que já comi. Cremoso como se fosse mousse, de comer e chorar por mais. Parece que é feito em Lisboa, numa pastelaria de Campo de Ourique. Tenho que descobrir onde é.
No fim, paga-se bem mas com a sensação de que valeu a pena. Pelas comidas e pelas bebidas. Para dois adultos e duas crianças pagou-se 64,50 €. Definitivamente, é um local a colocar no roteiro de qualquer apreciador de vinhos e de quem goste de petiscos fora do comum.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: William Fevre, Sauvignon Blanc 2004 (B)
Região: Saint-Bris (França)
Produtor: William Fevre - Chablis
Casta: Sauvignon Blanc

Preço na Enoteca: 25,00 €
Nota (0 a 10): 8,5

Local visitado: Chafariz do Vinho - Enoteca
Chafariz da Mãe d’Água
Rua da Mãe d’Água à Praça da Alegria
1250-154 Lisboa
Telef: 21.342.20.79
Preço médio por refeição: 20 a 30 €

Nota (0 a 5): 5

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Na minha mesa 48 - Adega da Tia Matilde



Um clássico de Lisboa, situado ali nas proximidades do antigo apeadeiro do Rego. Espaço amplo, com várias zonas separadas, bar com sala de espera, vários balcões com sobremesas nos locais de circulação e, mais recentemente, garagem subterrânea que facilita bastante num local onde o espaço para estacionamento não abunda. Mais importante ainda, um local de tradição benfiquista, a começar pelo dono.
A oferta é variada, com peixes, mariscos, bacalhau, caça, cabrito, etc. A dificuldade está na escolha. Os preços é que não são nada meigos.
Num grupo de 7 pessoas, escolheu-se para começar uma caldeirada e depois um cabrito no forno com arroz de miúdos. Ambos em doses q. b. e com bom paladar. Antes, para entreter, umas pataniscas de bacalhau muito tenras e ainda quentinhas. O presunto à disposição é que não convenceu: muito seco e com ar de velho.
Para regar a refeição, deparámo-nos com o tradicional problema dos restaurantes portugueses: preços exorbitantes para a maioria dos vinhos. Difícil é encontrar um vinho a preço aceitável. Sugestionado por uma recente apreciação do Tuguinho, sugeri um Quinta dos Aciprestes de 2003, a 14 €, que colheu o agrado dos presentes. Corroborando a apreciação já anteriormente apresentada, quero acrescentar que se apresentou ainda fechado, com os aromas um pouco escondidos e uma ligeira adstringência que mostram estarmos perante um vinho com todos os sinais de juventude bem presentes e que, seguramente, irá melhorar com mais uns anos na garrafa. Tem todas as condições para desenvolver aromas mais exuberantes, tornando-se também mais macio. É sem dúvida um vinho a rever... depois de termos umas garrafas guardadas na garrafeira durante uns 3 ou 4 anos.
De notar ainda que foi necessário pedir para refrescar o vinho, pois estava com temperatura excessiva, outra pecha habitual em Portugal quando se aproxima o tempo quente.
Nas sobremesas as opções também são variadas embora dentro da normalidade, sendo o mais original uma tranche de maçã que tinha forma de pudim.
O serviço é eficaz e atencioso, com muita gente sempre com atenção às mesas. Só na conta é que fomos surpreendidos, ao deparar com um montante de 38 € por cabeça. Já se sabe como é: sem restrição nas entradas a conta dispara. Os próprios pratos escolhidos também foram mais caros do que se esperava. Ou seja, é um restaurante onde se come bem e onde vale a pena ir, mas olhe bem para a coluna dos preços quando escolher, para não ser apanhado de surpresa no fim.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Adega da Tia Matilde
Rua da Beneficência, 77
1600-017 Lisboa
Telef: 21.797.21.72
Preço médio por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 4

terça-feira, 21 de março de 2006

Na minha mesa 32 - Restaurante Abano




Apanhe a auto-estrada A5, no sentido Lisboa-Cascais. Antes de chegar ao fim apanhe a saída para Malveira da Serra. Ao chegar a esta localidade vire para a esquerda, descendo em direcção à praia do Guincho. Quase a chegar à praia, apanhe uma saída à direita para a praia do Abano.
Se preferir fazer o trajecto junto ao mar, siga para Cascais e apanhe a estrada para o Guincho pela marginal. Passe pela praia e comece a subir a serra como se fosse para Sintra. Vire à esquerda na saída para a praia do Abano.
Suba a estrada estreita, passe pelo parque de estacionamento da praia e siga devagarinho pelo caminho de terra estreito e esburacado, para não partir o carro. Escolha cuidadosamente os locais onde passa com os pneus e vá até ao fim da estrada até encontrar uma vivenda sobranceira ao mar, com o Cabo da Roca ao fundo.
Aí encontra-se um restaurante chamado simplesmente “Abano”. É uma sala pequena, com poucas mesas, donde se vê o mar agitado a correr para a praia. Se tiver a sorte de ficar junto à janela desfrute da vista em todos os momentos.
O restaurante não costuma ter muita gente, porque num local daqueles não é fácil descobri-lo. Acaba por ter a vantagem de quase termos a totalidade da atenção dos funcionários.
A ementa, bem como a carta de vinhos, são apresentadas em abanos. Nenhuma delas é muito vasta, mas é variada, e consegue abranger todos os gostos. Nas carnes destaca-se o pato com laranja, com um molho suculento, e o coelho à Abano, estufado no tacho, sempre apetitoso.
Nos peixes pode-se optar por filetes ou robalinhos, mas destaco uma óptima açorda de marisco, com muito coentro, ligeiramente picante, macia e com camarões em quantidade apreciável. Aconselha-se a escolha de um vinho verde para acompanhar, ou um branco leve como o Bucellas Caves Velhas.
Nas sobremesas pode-se escolher uma mousse de chocolate honesta, mas o destaque, quando há, é um bolo de chocolate com nozes entremeado com camadas de chantilly, que atrai só de olhar para ele.
O serviço é atencioso quanto baste e o local agradável, principalmente em tardes de sol. Almoça-se tranquilamente e com calma, come-se bem por cerca de 20 € e no fim ainda se pode ficar a aspirar a brisa do mar antes de voltar a enfrentar o caminho de cabras que a Câmara Municipal de Cascais não arranjou em mais de duas décadas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Abano
Praia do Abano
Guincho - Cascais
Telef: 21.487.03.42

Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 3,5

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

No meu copo, na minha mesa 21 - Nero d’Avola 2002; La Campania
















Hoje vamos falar duma experiência um pouco diferente. Uma refeição italiana e um vinho italiano.
Não se trata duma dessas pizzarias que há por aí aos pontapés, muito menos a Pizza Hut. Trata-se dum restaurante digno desse nome, bem no coração de Lisboa (na Rua da Artilharia 1, junto ao famigerado túnel do Marquês), com um ambiente acolhedor e uma ementa a preceito. A sala não é muito grande mas está bem aproveitada, conseguindo albergar cerca de 60 pessoas. A iluminação é discreta e suave.
Passando à ementa, as escolhas são vastas, a começar pelas sugestões do chefe logo na primeira página. Depois vêm as inevitáveis massas, pastas e antipastas, numa variedade que passa pelas pizzas, lasanhas, spaghetti, canelloni, fetuccine, tagliatelle e “tutti quanti”. Além destes mais tradicionais ainda há várias alternativas em que se incluem uns “scalopini alla crema”, “osso buco” (uma especialidade), bifes do lombo e chateaubriand e, imaginem, até um bacalhau!
Vieram para a mesa umas lasanhas normais e verdes, um fetucine verde bolognese, um “scalopini alla crema” e um das sugestões do chefe, “scalopini alla marsala”. Depois de se provar estas variedades, ninguém mais tem vontade de encomendar lasanhas na Pizza Hut! As massas estavam excelentes, assim como os dois pratos de “scalopini”.
Na sobremesa comi bolo de chocolate recheado com camadas de chantilly, o que o torna extremamente fofo e apetecível, misturado com gelado de chocolate e baunilha. Experimentei misturar os dois e o resultado foi óptimo. Da próxima vez que lá for tenho que me lembrar desta! As escolhas também são variadas, não faltando o inevitável tiramisu, além de algumas tartes e bavaroises.
Para acompanhar a refeição optámos por vinho italiano. A oferta era enorme em termos de vinhos alentejanos, mais do que todos os outros vinhos portugueses, enquanto dos italianos havia apenas 6 ou 7 marcas, de que só reconheci o Chianti, o Barolo e o Valpolicella, que já tinha provado naquele mesmo local. Na dúvida pedimos ao mestre de serviço à mesa que nos aconselhasse um vinho italiano, ao que ele, curiosamente, torceu o nariz, “com tantos vinhos bons que temos cá”. Mas a refeição era para ser italiana em tudo, e depois de perguntar se tínhamos a certeza que era mesmo isso que queríamos aconselho-nos um vinho da Sicília, de seu nome Nero d’Avola, do ano 2002, por cerca de 10 euros.
Como é habitual nos vinhos italianos que tenho bebido, revelou-se um vinho aberto, de cor rubi clara, pouco encorpado e com pouca acidez, apesar dos 13% de álcool. Bebeu-se bem com os pratos italianos, ligando melhor com as massas que com os pratos de carne. Tal como também tenho notado, parece que falta a estes vinhos alguma estrutura que os torne mais cheios. Não se pode dizer que são vinhos maus, mas até hoje ainda não provei um vinho italiano que me encantasse, nem sequer que batesse claramente os vinhos portugueses. Pode ser que nos topos de gama isso aconteça, mas em termos de qualidade média, até prova em contrário, estou convencido que os vinhos portugueses são melhores.
Em resumo, um restaurante com um serviço rápido, atencioso e eficiente, onde vale a pena voltar para comer pratos italianos bem confeccionados, e uma carta de vinhos extensa onde os vinhos portugueses estão bem representados. O preço também não é nada de assustar, se não se exagerar nas entradas e nos digestivos come-se por cerca de 15 a 20 € por pessoa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Zonin, Nero d’Avola 2002 (T)
Região: Sicília (Itália)
Produtor: Casa Vinícola Zonin - Gambellara
Casta: Nero d'Avola

Grau alcoolico: 13%
Preço no restaurante: cerca de 10 €
Nota (0 a 10): 6

Restaurante: La Campania (italiano)
Rua da Artilharia 1, 30 - Lisboa
Telef: 21.385.03.45
Nota (0 a 5): 4

domingo, 15 de janeiro de 2006

Vinhos de Portugal 2006
















Hoje à hora de almoço passou na RTP N o programa “Livro aberto”, de Francisco José Viegas, com o convidado João Paulo Martins, autor do livro “Vinhos de Portugal 2006”.
João Paulo Martins, redactor da Revista de Vinhos, é um licenciado em História que se dedicou ao vinho e à gastronomia, possuindo um espaço de degustação de vinhos (com petiscos para acompanhar) chamado “Chafariz do vinho - Enoteca”, construído no antigo chafariz da Mãe d’Água, perto do Príncipe Real, em Lisboa.
Ouvir João Paulo Martins falar de vinhos é um prazer, porque ele fala com prazer. O seu guia de vinhos, já com mais de 10 anos de edições, é um ponto de referência fundamental para quem pretende ter uma orientação nas suas compras de vinhos, porque é feito a pensar no consumidor (mais do que nos gostos do próprio autor), levando em conta a relação entre preço e qualidade.
Esta presença no programa de Francisco José Viegas já é tradicional (começou ainda na RTP 2), e é sempre complementada com uma garrafa aberta em estúdio para aguçar os apetites, tendo no apresentador um interlocutor interessado e participativo. Desta vez apanhei o programa por acaso, mas consultando a programação verifiquei que o programa vai passar novamente na RTP N à 1:30 da manhã deste domingo. Se tiver sorte, o programa será o mesmo e poderei então vê-lo do princípio ao fim. Para quem estiver interessado no assunto, é um programa a não perder, ou a gravar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Livro: Vinhos de Portugal 2006
Autor: João Paulo Martins
Editora: Dom Quixote
Preço Fnac: 14,94 €

Espaço:
Chafariz do Vinho - Enoteca
Chafariz da Mãe d'Água
Rua da Mãe d'Água à Praça da Alegria - Lisboa
Telefone: 21 342 20 79

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Na minha mesa 5 - Vasku’s Grill

Este restaurante, sito na Rua Passos Manuel, ali ao Jardim Constantino, é um nosso velho conhecido, sendo dos nossos poisos preferidos de há alguns anos a esta parte.
Apesar de ter perdido uma das coisas que o tornava atraente – uns magníficos profiteroles que já não fazem parte da ementa – continua a ser um porto seguro para quem quiser comer (quais “degustar”, é “comer” mesmo, “degustar” cheira-me a passarinho a debicar!) boa carne.
As ofertas centram-se no fondue (de lombo e de vazia – dos melhores em Lisboa) e nos grelhados, com boa variedade – quem quiser apreciar peixe não é aqui que deve vir.
Ora bem, mas vamos lá ao que interessa. Esta não foi uma sortida do nosso grupinho, mas também não foi um acto solitário. E mais não é preciso dizer…
Optámos por lombinhos grelhados, o meu só com alho, o outro com molho de queijo. Carne de excelente qualidade, quantidade acertada (se o leitor não for um alarve, está claro), no ponto certo, acompanhada das tradicionais batatas fritas. Foi deglutida com um Duas Quintas, que me dispenso de apreciar porque isso já foi feito num post anterior.
O prato principal foi precedido por uma caipirinha competente, sustentada por ovos verdes e croquetes de carne de boa qualidade.
Terminou-se o repasto com uma mousse de maracujá que não fez má figura no conjunto da refeição.
O espaço para os devotos da mastigação comporta umas 30 e tal pessoas, é confortável (um tudo nada quente demais, o que nos levaria a outra história passada no mesmo restaurante e relacionada com uma garrafa de vinho, mas fica para outra vez) e o ambiente é in (para quem se importar com essas coisas), com música ambiente que não chega a ser intrusiva. Convém mesmo marcar, porque senão é provável que fique a salivar à porta.
Concluindo, sempre que aqui vim nunca fui mal servido. A carne continua a ser de excelente qualidade e o preço, não sendo barato, não é exorbitante.
A outra pessoa também não se queixou.

tuguinho, enófilo esforçado

Restaurante: Vasku’s Grill
Rua Passos Manuel, 30
(que parte do Jardim Constantino e acaba no Largo de Santa Bárbara)
Telef.: 21.352.22.93
Nota (0 a 5): 4

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

No meu copo, na minha mesa 3 - Frei João 2000; Coreto de Carnide

Hoje foi dia de sortida do núcleo duríssimo do grupo gastrónomo-etilista (e não elitista!) Os Comensais Dionisíacos, alter-ego colectivo de uns tantos apreciadores do bem beber e bem comer. Não foi um repasto normal do grupo, antes uma sortida diurna ao Coreto de Carnide – portanto, o alvo principal foi mais o que se ia mastigar do que o que se ia beber.
Os líquidos primeiro: bebeu-se um singelo Frei João, um Bairrada base de gama das Caves São João que, apesar de não ser nenhum suprasumo, é um honesto néctar daquela região para ser apreciado uma meia dúzia de anos após a colheita. De corpo mediano e cor profunda (ou não fosse de casta Baga), ligou bem com o prato que nos trucidou a fome, sem nos desiludir. Sim, porque isto é importante: o Frei João preencheu os requisitos que esperávamos dele. Geralmente as decepções até são causadas por vinhos de gama mais elevada, que defraudam as expectativas dos comensais. Portanto, quanto a vinho, estamos falados.

Agora os sólidos: quem conhece o restaurante porventura terá já adivinhado o que escolhemos para forrar o estômago – o naco na pedra, pedaço de carne crua a aquecer-se sobre uma pedra granítica, grelhado pelo consumidor a seu gosto na própria mesa.
E também aqui as expectativas não foram defraudadas. Carne de muito boa qualidade numa posta generosa, uma fatia de bacon a ajudar a engordurar a base, tudo encaixado numa tábua com três molhos tipo fondue mas de confecção caseira, acompanhado por batatas fritas e esparregado de razoável qualidade.
Para sobremesa, um de nós comeu Lambe-os-beiços, que não é mais que gelado regado com chocolate quente, e eu preferi requeijão de Seia com doce de abóbora e gila – isto era o que dizia na lista, porque o doce que acompanhava o lacticínio era doce de abóbora (normal) com laranja e canela, que sabia mais ao citrino que à abóbora – gila (ou chila) nem vê-la! Foi o ponto fraco de uma boa refeição. Ah, o Kroniketas lambeu mesmo os beiços, mas como é um viciado em chocolate esta reacção não tem valor.

O restaurante é simples mas minimamente confortável, com 27 posições para outros tantos mastigantes. Não é o sítio onde se leva a potencial conquista, mas é um honesto local para apreciar alguns bons pratos, com destaque para o ex-libris da casa, o naco estirado em cima do calhau. Chegue cedo ou reserve, porque senão fica à porta.

Como nota final, refira-se a loucura que são os preços dos vinhos praticados em quase todos os restaurantes. O Frei João referido obtém-se em qualquer hipermercado em troca de 2 euros e picos, mais coisa menos coisa. Pagou-se aqui, num restaurante normalíssimo, 11 euros! Convenhamos que é um escândalo. E 2 euros e picos é preço de consumidor final, porque um restaurante paga menos por ele à distribuição! Mesmo acrescentando o serviço, roça o roubo. Não é, no mínimo, especulação?

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Frei João 2000 (T)
Região: Bairrada

Produtor: Caves São João
Grau alcoólico: 12%

Casta: Baga
Preço em feira de vinhos: 1,98 €
Nota (0 a 10): 7,5

Restaurante:
Coreto de Carnide
Rua Neves Costa, 57
(em frente ao coreto, na parte velha de Carnide)

Telef.: 21 715 23 72
Nota (0 a 5): 4