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domingo, 24 de fevereiro de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XIV)

Altas Quintas




Finalmente o momento há tanto tempo esperado: a visita às Altas Quintas. Na realidade o local chama-se Quinta da Queijeirinha e fica na estrada de Portalegre para Alegrete. Passei lá várias vezes mas só há pouco tempo tive oportunidade de visitar o local, sob a orientação do próprio João Lourenço, o produtor que vendeu a Herdade do Perdigão e encontrou ali, a meio da serra de São Mamede, o local ideal para o seu novo projecto.
Toda a zona envolvente, um pouco acima de Portalegre, está situada num planalto ali a meia encosta, que é por onde se distribuem as várias quintas de produção vitivinícola por onde passei nestes últimos meses: a Herdade dos Muachos, a Herdade do Porto da Bouga, a Adega da Cabaça, a Quinta do Centro, de Rui Reguniga e Richard Mayson, a Quinta do Seixo, de Jorge d’Avillez, e esta Quinta da Queijeirinha. O Monte das Cortês, berço do Casa de Alegrete, já fica lá no alto da encosta.
Estava um dia de sol e céu limpo, depois de várias semanas de frio intenso e nevoeiro, e o ar que se respirava até revigorava a alma. Enquanto esperava que João Lourenço dispusesse de alguns minutos do seu tempo para me atender, dei uma volta pelo casario, olhei a vinha ao longe, agora despida de folhas, mais ao longe ainda uma pequena barragem, algumas árvores de fruto a integrarem-se na vegetação da encosta e uma pequena segunda quinta mais acima, donde saiu o nome Altas Quintas. Ali ao pé alguns cavalos davam o toque do que resta da antiga vocação agro-pecuária da quinta. Por instantes fiquei a pensar como será viver ali, na própria quinta, levantar e já estar no local de trabalho, com uma paisagem paradisíaca para olhar e livre do bulício das cidades...
Desde 2003 que a propriedade foi reconvertida para a produção vitivinícola. Dessa altura resta alguma cultura de laranjeiras, castanheiros e oliveiras. A vinha domina, com 80 hectares em produção e 25 novos. As instalações existentes foram igualmente aproveitadas para o novo projecto. A antiga vacaria foi reconvertida em sala de barricas, enquanto ao lado vai surgir uma sala de provas. Noutra casa encontram-se as cubas de fermentação para tintos, brancos e rosés, à mistura com alguns balseiros de madeira igualmente destinados à fermentação dos tintos, numa sucessão impressionante de salas repletas do mais moderno equipamento que me foi dado observar. Numa parede um painel mostra a temperatura das cubas, controlada por computador.
Por uma porta sai-se duma sala de fermentação e entra-se na zona de engarrafamento e embalamento. A linha de engarrafamento é maior que a da Adega Cooperativa de Portalegre e da Herdade dos Muachos e totalmente automatizada. Na altura estavam na ponta da linha os rótulos dum novo vinho a ser lançado pela casa: Mensagem de Aragonês, que tinha lançamento previsto, já com algum atraso devido a problemas com a feitura do original rótulo, para o final de Janeiro (nesta altura, a confirmarem-se segundo as previsões do produtor, já deverá ter chegado ao mercado e o Pingas no Copo já apresentou uma prova). O embalamento e arrumação do vinho em caixas passa-se numa antiga sala de gado caprino. Saindo por outra porta entra-se na adega onde repousam milhares de garrafas. Mais ao lado ainda há uma entrada em rampa para camiões.
A produção anual ronda as 200.000 garrafas, havendo muito trabalho na vinha para limitar a produção e melhorar a qualidade. Todos os tintos fermentam em madeira, entre 6 meses e 1 ano. As castas predominantes são as tradicionais Aragonês, Trincadeira, Alfrocheiro e Alicante Bouschet, esta muito por influência do enólogo Paulo Laureano. Nos tintos em produção encontram-se o Crescendo, o Altas Quintas e o Altas Quintas Reserva, e agora o Mensagem de Aragonês. Nos restantes a aposta para já limita-se ao Crescendo.
Pelo que tive oportunidade de ver o vinho Altas Quintas já chegou ao oriente: numa prateleira no escritório estão alguns exemplares representativos de garrafas do Reserva exportado para a China e Hong-Kong. No final, João Lourenço ainda teve a amabilidade de me presentear com uma garrafa do novel Mensagem de Aragonês dentro duma caixinha toda catita. Está guardada à espera duma boa ocasião para a abrir.
Foi uma visita bastante enriquecedora, onde pude ver a grandiosidade duma empreitada destas, que deve ter custado umas boas dezenas ou centenas de milhares de euros, com a mais alta tecnologia ao serviço da elaboração dum grande produto. Só me restou agradecer a atenção dispensada e a oferta que me foi feita e desejar continuação do sucesso que a marca Altas Quintas tem vindo a obter no pouco tempo que tem de existência no mercado.

Kroniketas, enófilo itinerante

Altas Quintas, Produção de Vinhos
Quinta da Queijeirinha, Estrada de Alegrete
7300-563 Portalegre

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XII)

Casa de Alegrete


Para lá da povoação de Alegrete a caminho de Besteiros, bem lá no alto da serra de S. Mamede para cima dos 600 metros de altitude, fica a vinha donde sai o Casa de Alegrete, a grande revelação desta minha permanência por terras de Portalegre. O dono, João Torres Pereira, era um vendedor de maquinaria industrial em Lisboa, onde viveu durante 37 anos, até que o sogro, proprietário de 60 hectares de vinha no Monte das Cortês, um terreno de xisto em plena encosta da serra, pôs a propriedade em nome da filha.
Durante anos as uvas eram vendidas à Adega Cooperativa de Portalegre, até que em 2003, apercebendo-se de algumas dificuldades por que passava a Adega, João Torres Pereira propôs à mulher que fizessem o seu próprio vinho com aquelas uvas. Para isso chamou o enólogo Paulo Fíuza Nigra (da família Fiúza, produtora de vinhos no Ribatejo) para avaliar as potencialidades das uvas. E assim se avançou para a produção do primeiro vinho na colheita de 2004. Não dispondo de equipamento próprio para a vinificação das uvas (o terreno e o casario era essencialmente destinado ao pastoreio de ovelhas), estas foram transportadas para a adega da Farizoa, na Terrugem, propriedade da Companhia das Quintas. Para fazer face às necessidades de produção (e minimizar os custos que a produção à distância acarreta), João Torres Pereira, que entretanto se apaixonou pela vinha e pelo Alentejo, está a planear a construção de uma adega no antigo casario do monte.
A evolução do vinho, acompanhada pelo enólogo, recomendou a aquisição de barricas para lhe permitir um estágio de modo a desenvolver as suas potencialidades. O estágio acabou por chegar a um ano antes de ser engarrafado. Com uma produção inicial pouco acima das 10.000 garrafas, a primeira colheita foi desde logo um êxito na região, seguindo-se a de 2005, já mais volumosa, que já tive oportunidade de provar por três vezes. As seguintes, 2006 e 2007, ainda aguardam o que o futuro lhes irá reservar.
Composta por três parcelas de vinhas com 10, 20 e 30 anos com as castas tradicionais misturadas, começa agora uma fase de alguma reconversão e melhoramento na vinha com a implantação de novas cepas e a instalação de varas e arames de modo a aumentar a altura das cepas e melhorar a exposição solar. Para já não é feita rega da vinha, deixando ao solo e ao clima o desenvolvimento da uva, pois o produtor considera que o terreno lhe dá todas as possibilidades de obter um excelente produto. Para ajudar a natureza é dada muita atenção à poda, o que implica deitar muita uva para o chão, limitando a produção. A colheita de 2006 rendeu 25.000 garrafas, enquanto 2007 irá render apenas 16.000, pois a aposta é na manutenção dum nível de qualidade que permita afirmar a marca sem procurar crescer desmesuradamente em quantidade.
A intenção de João Torres Pereira é manter os pés bem assentes na terra e não querer chegar ao céu rapidamente. A julgar pelas provas que fiz deste vinho, parece-me que vai no bom caminho e tem todas as condições para se afirmar no mercado, mantendo um preço muito aceitável. Consegui comprar ao produtor a 7 € por garrafa.
Fixem este nome, pois é muito bem capaz de vir a dar que falar.

Kroniketas, enófilo itinerante

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (IX)

Herdade dos Muachos





A Herdade dos Muachos fica situada na freguesia da Urra, uma povoação a alguns quilómetros de Portalegre seguindo pela estrada para Elvas.
Entrando na Urra e tomando o caminho para Assumar, entramos em pleno campo, numa estrada estreita pelo meio de olivais e montados. Há vacas, porcos e ovelhas a pastar e algumas placas a indicar a certificação de Carnalentejana. Depois de passar a linha de comboio, numa passagem de nível sem guarda, aparece à direita a entrada da Herdade dos Muachos. Estamos já no meio de nada, a cerca de 5 km da Urra.
A entrada é feita entre videiras e oliveiras até se encontrar os edifícios da adega. A visita começou por um edifício em frente à adega onde decorrem obras para a construção da futura sala de provas, que será equipada com uma cozinha que permitirá a realização de outros eventos como casamentos e baptizados.
A Herdade dos Muachos tem cerca de 239 hectares, onde existe gado e montado para além dos 50 hectares de vinha, dos quais 18 plantados em 2005. A produção de vinho começou pelo pai, José Maria Pombo Carvalho, e dois filhos, tendo a primeira colheita sido produzida em 2003. Produz cerca de 200.000 litros por ano, com base nas castas tintas Trincadeira, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Aragonês, Syrah e Carignan, e nas brancas Arinto, Roupeiro, Chardonnay e Sauvignon Blanc.
O portefólio de vinhos é constituído pelo Herdade dos Muachos branco Regional e Colheita Seleccionada, um tinto DOC, um Reserva tinto e um Garrafeira tinto, que sai para o mercado no mínimo 3 anos após a colheita e após um ano em garrafa. Também é produzido o Portal de Alegrete no formato bag-in-box.
Na cave do edifício principal estão as cubas de fermentação, a adega onde o vinho estagia e a linha de engarrafamento. O branco fermenta em balseiros de carvalho francês e americano, sendo utilizados uma única vez após o que passam a ser utilizados para estágio dos tintos.
A produção é supervisionada pelo enólogo António Saramago, que também dirige os trabalhos na Herdade do Porto da Bouga, a alguns quilómetros dali junto à povoação de Caia.

Kroniketas, enófilo itinerante

José Carvalho - Sociedade Agrícola
Herdade dos Muachos
Telef: 245.204.256/7
7300-575 Urra - Portalegre

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (VIII)

Tapada do Chaves


Este é um dos nomes mais prestigiados entre os produtores de vinho do Alentejo, e da região de Portalegre em particular.
A Tapada do Chaves produz desde 1920 e pertenceu à mesma família durante décadas, até que em 1998 a dona Gertrudes Fino vendeu a propriedade à Murganheira, a empresa da região de Lamego conhecida pelos seus excelentes espumantes. A título de curiosidade refira-se que o Banco Português de Negócios detém parte significativa do capital da empresa.
A propriedade é constituída por 45 hectares, dos quais 32 são de vinha. Recentemente foram plantadas algumas novas castas para diversificar a produção. A aposta é mais na qualidade em detrimento da quantidade, pelo que são produzidos anualmente apenas cerca de 100.000 litros de vinho, distribuídos por 5 marcas:
Tapada do Chaves Reserva tinto, Tapada do Chaves Reserva Vinhas Velhas tinto (destinado essencialmente à exportação para o Brasil), Tapada do Chaves Branco, Tapada do Chaves Espumante Bruto e Almojanda tinto (Regional).
A propriedade situa-se na estrada de Portalegre para o Crato, mesmo antes da povoação de Frangoneiro, e espreguiça-se suavemente pela encosta em filas muito bem alinhadas. As várias castas estão muito bem identificadas, sendo visível a parte mais nova onde irão despontar os cachos de Alicante Bouschet.
Na parte mais antiga das instalações, repleta de relíquias associadas ao vinho (e não só), ainda perduram os antigos tanques de fermentação, pelos quais o vinho era introduzido para os depósitos por baixo e durante a fermentação subia por tubos até encher os tanques. Ao chegar ao mesmo nível de outros tanques que estavam ao lado cheios de água era terminada a fermentação. São ainda visíveis as talhas de barro onde o vinho era armazenado. Existe ainda uma sala de provas para os visitantes, que podem marcar uma visita através da rota de vinhos do Alentejo.
No piso inferior encontram-se as cubas de fermentação e a adega com as barricas de carvalho francês, americano e russo e o depósito onde repousam as garrafas. Dada a reduzida produção, a empresa faz apenas um engarrafamento por ano e por esse motivo não dispõe de linha de engarrafamento própria, pois os responsáveis consideram que não justifica o investimento e a manutenção da mesma. Assim, o processo de engarrafamento é entregue a uma empresa contratada para o efeito que disponibiliza o equipamento necessário. O vinho é transportado por mangueiras para a linha de engarrafamento onde depois decorre o resto do processo. Sinais dos novos tempos.

Nos eventos entre Natal e fim-de-ano, incluindo um jantar de aniversário, tivemos oportunidade de provar o espumante da Tapada do Chaves, de que daremos conta no respectivo post.

Kroniketas, enófilo itinerante

Tapada do Chaves, Sociedade Agrícola e Comercial
Frangoneiro - Apartado 170
7301-901 Portalegre
Telef: 245.201.973

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

O cair da folha em Portalegre

Cenários quase irreais

Na Praça da República...


...na Quinta do Seixo...


...e na Tapada do Chaves.


Kroniketas, enófilo itinerante

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Krónikas do Alto Alentejo (IV)

Adega Cooperativa de Portalegre



A Adega Cooperativa de Portalegre foi fundada em 1955, tendo assim comemorado há pouco tempo os seus 50 anos. As uvas que recebe pertencem aos viticultores seus associados, sendo destinadas aos diversos tipos de vinho de acordo com a sua qualidade e características segundo o cadastro constante na Adega Cooperativa.
Em 2005 a Adega Cooperativa adquiriu a Adega da Cabaça, nos arredores de Portalegre, para onde futuramente passarão as instalações e que acrescenta 20 hectares de vinha à produção. Actualmente a Adega Cooperativa recebe por ano cerca de 3 milhões de quilos para processamento, a partir dos quais produz cerca de 2 milhões de litros. O enólogo residente é Rui Vieira, tendo Rui Reguinga como enólogo consultor.
As instalações são de média dimensão, assim como a cave de envelhecimento em barricas e a linha de engarrafamento e rotulagem, contígua às mesmas. Algumas garrafas, contudo, são rotuladas à mão, nomeadamente algumas edições especiais, havendo ainda outras que requerem um cuidado especial para aposição dum selo de lacre no rótulo, como o Meio Século 50, cujo contingente se encontra em destaque nalguns caixotes ali à mão de semear. Toda a zona com as cubas de desengace, prensagem e fermentação fica situada no exterior, ficando o edifício coberto destinado às caves, laboratório, sala de provas e zona de encaixotamento e carga.
A produção de vinhos da Adega Cooperativa de Portalegre distribui-se pelas marcas Aramenha branco e tinto (vinho bag-in-box), Terras de Baco branco e tinto (vinho de mesa, a menos de 2 €), Conventual e Conventual Reserva branco e tinto (vinho regional, de 3 a 6 €), Portalegre branco e tinto (vinho DOC, a cerca de 12 €) e Meio Século 50, vinho tinto DOC comemorativo dos 50 anos da Adega, a cerca de 30 €. Actualmente a Adega tem uma promoção de Natal de caixas com várias combinações dos seus vinhos a preços substancialmente mais baixos. As encomendas poderão ser feitas para a morada da Adega ou por mail, disponíveis no site da Adega.

Kroniketas, enófilo viajante

Adega Cooperativa de Portalegre
Apartado 126
Tebaida, Ribeira do Baco
7301-901 Portalegre
Telef: 245.300.530

domingo, 18 de novembro de 2007

Krónikas do Alto Alentejo (III)

No meu copo, na minha mesa 146 - Herdade das Servas, Aragonês 2004; O Cobre (Portalegre)
Foi a primeira incursão gastronómica em Portalegre desde que aqui assentei arraiais (na primeira visita houve um almoço noutro local, de que falarei proximamente). A oferta é muita, ao contrário do que eventualmente se poderia esperar, embora me tenha desiludido a oferta de pratos de caça (é mais à base de javali e, vá lá, de vez em quando veado). Lebre e perdiz, as minhas peças de caça de eleição, nem vê-las.
Como vou estar por cá durante algumas semanas, vou ter tempo para explorar o que há por aí, na serra de São Mamede, no caminho para Estremoz, no caminho para o Crato e Alter do Chão. Há muitas referências e vou tentar aproveitar as oportunidades que tiver.
A primeira visita foi a um local referenciado pelos grelhados do norte alentejano, junto ao hospital de Portalegre. Curiosamente, neste local existia outra referência recorrente, que aparece em todos os guias gastronómicos: o Rolo Grill. A verdade é que esse “grill” agora passou-se para as termas de Cabeço de Vide, e no mesmo local surgiu este Cobre. Guiado por residentes na cidade, fui experimentar este restaurante, que tem uma sala de dimensão média (cerca de 40 lugares), embora a ventilação seja algo deficiente. Estavam 11 graus na rua e um calor de Verão no interior do restaurante. Todos os agasalhos tiveram que ser despidos e as mangas arregaçadas.
Na mesa repousavam já algumas entradas de enchidos (não é propriamente a minha predilecção em qualquer refeição), mas a grande dificuldade foi a escolha do vinho e do prato (a oferta é enorme, principalmente entre as carnes). Acabaram por ser pedidos um leitão assado encomendado no próprio dia da região da Bairrada (quanto a mim, para comer leitão assado não vale a pena vir ao norte alentejano, prefiro ir à Mealhada), enquanto eu escolhi, de várias opções apresentadas pelo dono, uma mista de veado e javali, com setas, na frigideira (as setas são um tipo de cogumelo que vinha embebido no molho). A acompanhar, umas migas de couve envolvidas em ovo, embora muito longe de outras já comidas no Abrigo. Foi um prato diferente daquilo que conheço, bastante saboroso, embora um pouco fora do meu género preferido, muito à base da fritura. Mas com uma confecção irrepreensível.
Como sobremesa optei por um doce que já se tornou um clássico em todo o país, quase sempre apresentado como “doce da casa”, neste caso sob a designação de “Doce maravilha”, que não é mais que as habituais natas sobre bolacha embebida em café e uma espécie de leite creme, polvilhado com umas pepitas de chocolate. A verdade é que este, sem sombra de dúvida, foi um dos melhores que já experimentei.
O vinho foi escolhido mais ou menos a olho e por sugestão. Falou-se no inevitável Altas Quintas (o Reserva custava “apenas” 45 €), havia uma prateleira com uma imensa exposição de vinhos alentejanos (e alguns outros) e entre alguns que não conheço acabámos por escolher um Herdade das Servas Aragonês 2004. Primeiro foi colocada uma “pinga no copo” para provar e logo aí se verificou estarmos na presença de um grande vinho, com uma grande estrutura e um corpo volumoso. Sugeri que fosse decantado e já o “decanter” estava a postos...
Depois vieram os adequados copos grandes em forma de tulipa, enquanto o vinho repousava à espera de desenvolver os aromas e amaciar o corpo e os taninos. Depois de bebido de novo, encontrámos um corpo interminável, com uma persistência daquelas que dura, dura, dura... e um final com um toque ligeiramente apimentado, como é muito característico da casta Aragonês. Ao longo da refeição foi-se tornando cada vez mais macio, mantendo o corpo e a estrutura na boca. Os aromas a fruta não são muito pronunciados, diluindo-se mais na predominância das especiarias. Mas um vinho que nos enche os sentidos, um grande vinho sem qualquer dúvida (o próprio professor Virgílio Loureiro destaca como característica marcante dos grandes vinhos a sua persistência, marca distintiva da longevidade que o vinho pode suportar).
A Herdade das Servas é um dos produtores alentejanos dos novos tempos, que conheci há uma meia-dúzia de anos através de uma marca até então completamente ignorada, o Monte das Servas, que me surpreendeu grandemente pela positiva. Longe estava eu de imaginar o sucesso que viria a ter daí para cá. Actualmente, é um dos produtores de referência no Alentejo, com a propriedade situada a alguns quilómetros de Estremoz, junto à estrada nacional 4 em direcção a Arraiolos (é quase vizinha do Monte da Caldeira, de João Portugal Ramos). A gama de produtos tem vindo a diversificar-se, actualmente o antigo Monte das Servas ganhou o apelido de Colheita Seleccionada e entretanto apareceram os Reservas e os monocastas. Esta experiência com o Aragonês foi altamente gratificante, revelando todo o potencial dos vinhos da casa. Sem dúvida uma marca a fixar como referência incontornável dos produtores alentejanos do século XXI.
Para mais informações acerca deste produtor, sugere-se a leitura do artigo do Copo de 3 sobre a visita à herdade, um bom documento para ficarmos mais inteirados do que a casa tem para nos oferecer. Se o tempo e a disponibilidade o permitirem, ainda vou tentar, um dia qualquer, passar por lá na ida ou na volta para fazer um visita. O único problema é que entre Portalegre e Lisboa os produtores de vinho são tantos que seriam necessários vários dias para os visitar a todos...
Em resumo, o serviço é da altíssima qualidade (de realçar que um dos empregados, alguns minutos depois do vinho decantado, veio perguntar-nos se podia servir o vinho, o que é raro acontecer), pleno de profissionalismo e ao mesmo tempo de simpatia, a confecção irrepreensível, o serviço de vinhos seguindo todos os trâmites, pelo que só podemos considerar que é quase merecedor da nota máxima. Apesar de tudo, já encontrámos alguns que nos encheram mais as medidas, mas este fica como um daqueles onde vale a pena voltar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: O Cobre
Av. Pio XII, Lote 17 - R/C Dto (junto ao hospital)
7300-073 Portalegre
Telef: 245.328.472
Preço médio por refeição: 40 €
Nota: 4,5

Vinho: Herdade das Servas, Aragonês 2004 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Herdade das Servas
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês
Preço no restaurante: 27 €
Nota (0 a 10): 8,5

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Krónikas do Alto Alentejo (II)



A serra, a vinha, o montado

Aqui em Portalegre a vida corre mais devagar, há mais tempo para tudo (até para não fazer nada), e estou a 900 metros do local de trabalho, 2 minutos de carro e 12 minutos a pé, e na periferia da cidade já estou em pleno campo, com um quintal, oliveiras à porta, passarinhos a cantar de manhã. Mas no centro da cidade vêem-se, sobretudo, estudantes de capa e batina, supostamente da Escola Superior de Educação e da Escola Superior de Enfermagem. A semana passada deve sido tempo de praxe: uma rapariga tinha metade da cara pintada de roxo e outra tinha na cabeça umas orelhinhas do tipo-rato Mickey (porque raio não as tirou ela, pensei eu?).
Ir ao supermercado é quase como um passeio, não há quase ninguém, nem bicha nas caixas, e há quatro supermercados para aí num raio de 500 metros (Modelo, Intermarché, Leclerc e Lidl) e três bombas de gasolina, sendo que a do Leclerc vende combustível entre 10 e 15 cêntimos mais barato que as outras. Isto do outro lado da rotunda que as separa... Ali ao lado, a zona industrial com as poucas fábricas que restam, mais para a esquerda um estádio junto a um kartódromo e a zona onde se concentraram há duas semanas os jipes para a Baja de Portalegre, que vim a saber depois que já vai na 21ª edição e é um dos clássicos todo-o-terreno do país e uma das provas mais importantes. Quando saí para o regresso a casa eles andavam por ali, junto ao IP2, e o estacionamento nas bermas prolongava-se por quilómetros.
Aqui à volta a vinha é omnipresente, assim como a oliveira e o montado, este mais a caminho de Estremoz. Ainda se podem ver uns rebanhos a pastar perto da estrada. Empregos é que parece que nem por isso. Os lanifícios já tiveram a sua importância mas fecharam. À semelhança do resto do país, parece que o comércio e os serviços predominam. Só me pergunto é: se poucos produzem, como é que todos compram?
Subindo a serra de S. Mamede encontram-se várias propriedades vitícolas. Já passei à porta da Adega da Cabaça, da Quinta do Centro (de que o enólogo Rui Reguinga é um dos proprietários) e passei ao lado das Altas Quintas sem dar por isso. Ainda hei-de voltar e procurar também a Tapada do Chaves. E na Adega Cooperativa de Portalegre passo todos os dias...

Kroniketas, enófilo viajante

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Krónikas do Alto Alentejo (I)

Uma temporada em Portalegre

Cheguei Domingo à noite para umas semanas de trabalho. A antena parabólica não está ligada e a ligação à Internet sem fios da Zapp não funciona.
Sinto-me como se tivesse voltado à pré-história...

Kroniketas, um alentejano do sul na capital mais a norte

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Quinta da Ervamoira, Take 2




Os leitores habituais certamente se recordam do escrito do Kroniketas, nos idos de Abril do ano passado, sobre a Quinta da Ervamoira. Não vou repetir a sua prelecção, agora que esta outra metade das Krónikas Vínicolas visitou também a dita quinta, mas vou deixar aqui as minhas impressões e algumas curiosidades sortidas.
Teve o escriba sorte e azar nesta visita. Sorte porque chovera no dia anterior (ali na quinta, 1mm) e assim as temperaturas de Agosto daquela zona apareceram amenizadas, não mais de 30º. Azar porque devido a essa mesma chuva a vindima, que devia ter sido iniciada no dia da visita, foi adiada quatro dias. Portanto não suámos mas não vindimámos também.
Convém dizer que o acesso à quinta se faz por uma estradinha de terra batida com cerca de oito quilómetros e que, portanto, é mesmo melhor ir no jipe da propriedade, que até já está incluído no preço da visita. O trajecto até inclui o atravessamento da Ribeira de Piscos, que por ali serpenteia.
Tal como o Kroniketas, a nossa visita iniciou-se pelo espaço museológico, espalhado por várias salas da casa da quinta, que conjuga a informação sobre o vinho e a sua produção com os artefactos arqueológicos da villa romana que foi descoberta na propriedade. O último espaço dentro de portas é a loja, na qual podemos ver as garrafas dos vinhos de mesa e do Porto que podemos adquirir, por preços bem simpáticos. Integrando desde 1990 o grupo francês Roederer, também este champanhe pode ser adquirido na loja. Os vinhos, esses não estão ali, e sim numa garrafeira integrada na casa da quinta, com temperatura controlada de 18º. Um cuidado que se salienta.
A visita terminou longamente, visto que incluíramos almoço na dita cuja. Havia-se escolhido um menu simples, com entrada de melão e presunto, um arroz de pato como prato principal, e um gelado de amêndoa caseiro a finalizar. Bebeu-se o Duas Quintas Celebração e à sobremesa o Quinta da Ervamoira Tawny 10 Anos.
Não pretendo fazer nesta peça uma prova destes vinhos (mas fiquem descansados que os escribas deste retiro têm em stock tanto um como outro, para se fazer uma prova bem fundamentada), mas digo-vos que o Celebração, que pretende estar entre o Duas Quintas “normal” e o Reserva, se mostrou pujante, de cor aberta e com taninos domados mas bem presentes, a mostrar que tem estaleca para se aguentar por uns tempos; e que o Tawny, que já conhecia, se mostrou complexamente aromático e ligeiramente seco, e foi servido à temperatura certa. Ficam prometidas as provas.
Uma palavra para o local onde são servidas as refeições, uma espécie de alpendre por onde entra o silêncio mas não o calor, e que dá uma dimensão especial à refeição ali tomada. Depois do almoço terminado foi possível ficar por ali a morangar e também calcorrear as vinhas e apanhar uns quantos cachos bem madurinhos.
Acabo com duas curiosidades.
Este Duas Quintas Celebração pretende comemorar um não-acontecimento: a não construção da barragem no Côa, que deixaria a quinta mais apta para a aquicultura do que para o vinho, sendo portanto um vinho especial e não uma marca nova para integrar o portfólio da Ramos Pinto.
Finalmente (Kroniketas, deixaste passar esta), uma palavra para o nome da quinta. Não foi por quererem que o nome original de Quinta de Santa Maria foi alterado para Quinta da Ervamoira – foi porque já existia uma quinta com o mesmo nome registada anteriormente. E porquê Ervamoira? O nome vem dum romance de uma senhora francesa, Suzanne Chantal, cuja acção se passava no Douro e cujo nome era… “Ervamoïra”! Só foi tirar a trema do “i” e ficou-se com o nome…
Pode ser que um dia destes se volte lá, o bando completo. Eu não me importo nada…


tuguinho, enófilo esforçado