sexta-feira, 3 de março de 2006

Na minha cozinha 24 - Waterzoo de frango

A pedido de várias famílias, aqui vai a receita do “waterzoo” para aguçar o apetite.

Ingredientes:
1 frango
4 cenouras
2 alhos franceses
2 cebolas
1 aipo
1 ramo de salsa
2 colheres de sopa de margarina
1 cubo de caldo de galinha
2 gemas
1/2 copo de natas
Sal e pimenta q. b.


Corte o frango aos bocados. Descasque as cenouras e corte em palitos. Pique os alhos franceses, as cebolas e o aipo.
Num tacho, deite os legumes e o ramo de salsa e faça cozer em lume brando com a margarina. Junte o frango e o caldo de galinha. Cubra com água e pimenta e deixe cozer cerca de 30 minutos.
Entretanto bata as gemas com as natas e uma colher de margarina. Retire o frango depois de cozido. Junte ao molho as gemas com as natas e a margarina e mexa bem em lume brando até ligar o molho.
Rectifique os temperos. Cubra o frango com o molho e sirva com batatas cozidas.

Kroniketas, cozinheiro que não enfia o barrete

PS: Esta é uma receita que foi apresentada na televisão há muitos anos pelo cozinheiro Michel, que é belga. É referida como sendo uma sopa de galinha flamenga, que tem origem precisamente na Flandres. Este nome é mencionado na história “Astérix entre os belgas” (de Uderzo/Goscinny), quando um guerreiro belga olha para uma malga de sopa e exclama: “Waterzooie! Waterzooie! Prato insípido!” É também nesta história que o mesmo guerreiro se lembra pela primeira vez de sugerir à mulher para fritar batatas.

quinta-feira, 2 de março de 2006

Reflexões à volta da garrafa (2) - Os fundamentalistas

(republicação adaptada; post original de 20 de Julho de 2004, nas Krónikas Tugas)

Vamos falar agora de alguns chavões que por vezes se vão ouvindo por aí. Ponto assente: eu costumo dizer que as minhas opiniões só me vinculam a mim próprio. Não as tomo como verdades absolutas (não me levo tão a sério a esse ponto), reflectem apenas a minha verdade, os meus gostos, o meu modo de ver o que me rodeia. No caso concreto deste assunto, no entanto, o que aqui fica escrito reflecte a linha de pensamento dos autores deste blog.
Outro ponto assente: gostos não se discutem, e cada um faz as suas escolhas segundo os seus próprios parâmetros de avaliação e o seu grau de exigência.
Na compra de um bem, artigo ou serviço, o que é mais importante para mim, ou o factor que eu mais valorizo, será aquilo que vai determinar a minha decisão, e pode ser completamente diferente da pessoa que chega imediatamente antes ou depois de mim. Daí também vai depender o montante que cada um está disposto a gastar na aquisição do bem em causa. Se eu vou jantar a um restaurante com um serviço esmerado, uma ementa variada, uma carta de vinhos extensíssima e empregados de mesa de fato e lacinho, tenho um grau de exigência elevado e estou disposto a pagar por isso. Mas se entrar no McDonald’s ou na Pizza Hut não espero pagar muito.
Vem isto a propósito de uma conversa sobre vinhos que uma vez tive num jantar com uns amigos. Nisto dos vinhos os critérios são ainda mais subjectivos, porque os parâmetros de avaliação têm sobretudo a ver com uma questão de gosto pessoal. Não é como nos computadores, em que tudo é mensurável em números e nós sabemos o que implica determinada velocidade do processador, capacidade de memória, espaço em disco ou memória da placa gráfica. Mas quando se abre uma garrafa de vinho, para além de não se saber exactamente o que vai sair de lá, a apreciação é individual e ainda por cima condicionada por inúmeros factores externos ao próprio vinho (temperatura do local e do vinho, comida, copos, até a companhia).
Na conversa em causa, um dos convivas citava uma opinião que tinha ouvido (ele já não se lembrava bem de quem, mas era de alguém supostamente bem informado dentro do ramo) acerca dos vinhos alentejanos. A citada opinião referia que “dificilmente o Alentejo poderá ter vinhos verdadeiramente bons, porque lhe falta uma coisa essencial: o solo de xisto”.
Logo à partida esta opinião parte duma premissa falsa. Não há nada escrito em lugar nenhum que diga que os solos onde se cultiva a vinha têm que ser de xisto. Mas o que é curioso é que a afirmação contém em si mesma várias falsidades. Ora vejamos:
1º - O tipo de solo é um dos factores mais variáveis. Existem solos de xisto, basalto, granito, argila (caso da Bairrada), areia (caso de Colares), e todos podem produzir bons vinhos.
2º - O solo não é o único factor (e não é necessariamente o mais determinante) na qualidade do vinho. Pode moldar as suas características mas há outros igualmente importantes: o clima e, acima de todos, obviamente, a uva. Portanto, antes de mais nada, a natureza é que manda e qualquer um destes factores da natureza tem o seu peso no resultado final, pelo que é redutor fazer depender a qualidade do vinho das características do solo.
3º - Também não é verdade que não haja xisto no Alentejo e isso demonstra-se da forma mais simples possível: com o nome dum vinho do Redondo, produzido pela Roquevale, chamado precisamente “Terras de xisto”. Curiosamente, não me lembro de mais nenhum vinho em que a própria marca faça referência ao xisto.
4º - Depois não basta cultivar as uvas. É preciso fazer o vinho e aqui entra o enólogo, para além da tecnologia de que a empresa produtora dispõe. E o papel do enólogo tem cada vez mais importância na definição do estilo de vinho que se quer colocar no mercado.
Mas aquela afirmação ainda poderia ser comentada de outro modo. Na mesma altura almocei também com um amigo e abrimos uma garrafa de ½ litro de Touriga Nacional da Herdade do Esporão, de 2000. Contei-lhe a conversa anterior e comentei assim: “quem diz aquilo de certeza que nunca bebeu este vinho”.
De facto, só quem nunca provou algumas preciosidades alentejanas que há por aí é que pode fazer uma afirmação gratuita como aquela. Experimentem comprar o Garrafeira dos Sócios, da Cooperativa de Reguengos de Monsaraz (Carmim), o Reserva Sogrape (ou mais recentemente os Herdade do Peso), um dos vinhos monocasta da Herdade do Esporão (Aragonês, Trincadeira, Bastardo, Touriga Nacional, Syrah) ou o Quatro castas (preços entre os 10 e 15 €); ou, se não quiserem gastar tanto, experimentem o Reguengos Reserva, o Roquevale de rótulo preto, os monocasta da Carmim ou do João Portugal Ramos ou o Borba Reserva (entre os 5 e os 10 €). A seguir venham-me dizer que não prestam, ou que há por aí muito melhor!
Claro que há gostos e gostos. Não vou afirmar que os vinhos do Alentejo são os melhores do mundo ou do país, apesar de serem os que tenho em maior quantidade na minha garrafeira (isso é questão para mais tarde). Mas há bons vinhos em todas as regiões do país, e apreciá-los é não só uma questão de gosto, mas também de cultura e de educar o paladar e o olfacto para se conseguir captar toda a gama de aromas e sabores tão diferenciados que os nossos vinhos apresentam. E olhem que vale a pena.
O que é preciso é não sermos fundamentalistas, porque neste como em muitos outros aspectos o fundamentalismo limita-nos o raciocínio e estreita-nos a vista (e neste caso mais o olfacto e o paladar). No caso dos vinhos, é demasiadamente redutor dizer-se que “os desta região é que são bons”, “os daquela região não prestam” ou “estes são os melhores”. Assim como aquela frase que diz “vinho é tinto, branco é refresco e verde é a cor da garrafa”. Será?

Kroniketas, enófilo esclarecido

quarta-feira, 1 de março de 2006

Salivar por antecipação

No próximo domingo (o domingo para mim dura aí até às duas da manhã de 2ª feira) prometo que estará por aqui postada (mas não prostrada!) a insolente receita "Surf'n'Turf com legumes chineses no wok"! Salivai pecadores, que a receita está próxima!!
Seguir-se-ão, fiquem já a saber, os magníficos Rissóis de Camarão à Moda da Mãe, os Ovos Verdes à dita cuja e, provavelmente, a Massada de Cherne com Gambas.
Embrulhem! (e levem para comer em casa...)

tuguinho, gastrónomo popular

Reflexões à volta da garrafa (1) - O preço é só um começo

(republicação adaptada; post original de 17 de Dezembro de 2003, nas Krónikas Tugas)

Lá dizia a propaganda do beato de Santa Comba Dão, que beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses. Nos tempos que correm não serão tantos a comer, com certeza, mas os que produzem fazem-no bem melhor. Findo que está o reinado do vinho a granel, que corria baixo das tabernas esconsas de bairro, nas últimas duas décadas tem sido percorrido um longo caminho em direcção à qualidade.
Não só os produtores, na sua maioria, apostaram definitivamente nessa qualidade, como também os consumidores, inundados de informação vinícola, com guias, roteiros e feiras de vinhos anuais, estão mais exigentes e por isso a selecção dos produtos vendidos tem de ser ainda mais rigorosa. Só há uma coisa que espanta: como é que podem aparecer todos os anos mais não sei quantas marcas de vinho, em particular do Alentejo? Haverá vinha para tanto vinho?
De qualquer modo, há por aí umas preciosidades que vale a pena descobrir sem entrar na loucura de alguns preços verdadeiramente obscenos (cá para mim, 35, 40, 50, 75 euros ou mais por uma garrafa é escandaloso, principalmente para o país que somos).
Há pouco mais de dois anos, ainda as Krónikas Tugas não estavam sequer em embrião, deparei, quase por acaso, com umas garrafas da Sogrape, sem grande aspecto, com rótulo modesto, preto com letras vermelhas. Dizia apenas isto: Quatro regiões, 1997. Feito com uvas provenientes de quatro das mais famosas regiões do país, Douro (Tinta Roriz), Dão (Touriga Nacional), Bairrada (Baga) e Alentejo (Trincadeira), vinificadas separadamente e depois loteadas para produzir o vinho de que aqui se fala. Classificado como vinho de mesa. Preço: 12,77 €, carote.
Contactados os potenciais compinchas do costume, ficou decidido comprar duas que seriam deglutidas por três (sim, porque os amigos não são só para partilhar o néctar, mas também o seu custo). E assim, na primeira ocasião lá se despejaram (para dentro) as garrafas, com a promessa de voltar à carga. Resultado: um espectáculo! Mas vindo da Sogrape outra coisa não seria de esperar. Claro que, agora, o vinho já não está no seu máximo, como já aqui demos conta, mas a impressão então recolhida permanece. Afinal, de que serve uma classificação do IVV, quando o que está dentro da garrafa é que conta?
Nos últimos anos exagerou-se no preço dos vinhos, mas a moda parece ter passado e já se ter voltado a patamares mais razoáveis. Errado é comprar pelo rótulo, ou comprar só o caro porque o caro deve ser bom (se puderem fazê-lo). Se não sabe, procure o conselho de quem conhece, ou um dos inúmeros guias que por aí andam (ou, em última análise, se estiver mesmo desesperado, leia as Krónikas Vinícolas!). Mas deixem-me dizer que muitas vezes temos confirmado que diferenças grandes de preços - por exemplo entre um vinho “normal” de uma marca e a respectiva Reserva - não se justificam minimamente. Gastando muito menos podem comprar-se vinhos quase tão bons. Só um exemplo: o Duas Quintas, de que já falámos oportunamente e de que já se consegue comprar uma garrafa por menos de 7 €. O preço do Reserva vai para os 35 - 40 €. Será que este é 5 vezes melhor que aquele? Dificilmente o será. Não que não seja melhor, mas nesta como noutras coisas, há que conhecer a relação qualidade-preço e escolher ponderadamente. Não limite o seu prazer, mas não o faça depender demasiado do recheio da sua carteira.

Kroniketas, enófilo esclarecido

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

No meu copo 23 - Casa Cadaval, Cabernet Sauvignon 1999

A Herdade de Muge, situada na margem esquerda do rio Tejo e não muito distante de Lisboa, é uma propriedade muito antiga, estando na posse da família Álvares Pereira de Mello (Cadaval) há quase 400 anos.
Com uma longa tradição na produção vinícola, este Cabernet Sauvignon da Casa Cadaval depois de vinificado estagiou em meias pipas de carvalho americano e francês. O vinho apreciado era da colheita de 1999 e foi com algum receio que se abriu a botelha, comprada nos idos de Setembro de 2001, na Feira de Vinhos do Continente desse ano. Os receios revelaram-se infundados pois o vinho estava ali para durar, com uma estrutura impressionante. Sendo um vinho estreme de cabernet, após estes anos as notas vegetais já tinham desaparecido, como é óbvio, mas o que as substituiu foi uma profundidade de sabor que não se encontra nos vinhos novos desta casta.
De cor profunda e opaca, pouco exuberante de aroma mas espesso na boca, de sabores mais ligados ao couro que à fruta, revelou um surpreendente fim de boca e uma ligeira adstringência quando circulado na boca, o que indica que a sua vida ainda estava longe do fim. Apesar disso, esta é uma óptima altura para o beber, se por sorte ainda tiver umas garrafitas desta colheita.
Foi consumido com umas singelas bifanas de porco preto grelhado, que em nada obstaram à fruição do fermentado, bem pelo contrário.
Aconselha-se o arejamento atempado deste vinho antes do seu consumo – esta garrafa foi consumida em duas etapas, recorrendo a uma rolha de vácuo, e mostrou-se muito mais aberto na segunda ronda.
Em conclusão, este Regional Ribatejano recomenda-se, sendo um dos vinhos que convém manter sempre na nossa garrafeira – com rodagem frequente, claro!

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Casa Cadaval Cabernet Sauvignon 1999 (T)
Região: Ribatejo (Regional)

Produtor: Casa Cadaval - Muge
Grau alcoólico: 13%

Casta: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 8,47 €
Nota (0 a 10): 7,5

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

No meu copo 22 - Casa de Santar tinto 2003; Casa de Santar branco 2004

Uma prova interessante: quase coincidentes no tempo, um Dão Casa de Santar tinto e um branco. Nem um nem outro são vinhos de topo, mas são ambos muito fáceis de beber.
O branco é aberto, macio, de cor citrina, com um toque floral no aroma, adequado para pratos delicados de peixe (óptimo com peixe no forno, pouco adequado para bacalhau). É um vinho que apetece beber e que se vai consumindo quase sem dar por isso. Os seus 12,5% de álcool não se sentem. Penso que pode fazer boa figura numa tarde verão a acompanhar umas entradas não muito condimentadas. O tinto tem um perfil semelhante. Sente-se macio na boca, com um final médio, aromático e encorpado quanto baste, sem ser agressivo. 13% de álcool bem diluídos. Nos tempos que correm, esta graduação não é nada de extraordinário, pois a tendência é para termos vinhos cada vez mais alcoólicos. Também vai bem com pratos delicados de carne, sem serem muito condimentados, pois corre-se o risco de os aromas do vinho ficarem abafados pelos temperos. Moderação, é o que se recomenda.
Dado o nível de preços, são vinhos perfeitamente acessíveis para um consumo corrente oferecendo uma qualidade bastante aceitável. Por isso justificam claramente a sua presença nas nossas sugestões. Dentro destes preços verá que não é fácil encontrar muito melhor.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola - Soc. Agrícola de Santar

Vinho: Casa de Santar 2003 (T)
Grau alcoólico: 13%

Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 3,86 €
Nota (0 a 10): 6,5

Vinho: Casa de Santar 2004 (B)
Grau alcoólico: 12,5%

Castas: Encruzado, Cerceal, Bical
Preço em feira de vinhos: 3,29 €
Nota (0 a 10): 6,5

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

No meu copo, na minha mesa 21 - Nero d’Avola 2002; La Campania
















Hoje vamos falar duma experiência um pouco diferente. Uma refeição italiana e um vinho italiano.
Não se trata duma dessas pizzarias que há por aí aos pontapés, muito menos a Pizza Hut. Trata-se dum restaurante digno desse nome, bem no coração de Lisboa (na Rua da Artilharia 1, junto ao famigerado túnel do Marquês), com um ambiente acolhedor e uma ementa a preceito. A sala não é muito grande mas está bem aproveitada, conseguindo albergar cerca de 60 pessoas. A iluminação é discreta e suave.
Passando à ementa, as escolhas são vastas, a começar pelas sugestões do chefe logo na primeira página. Depois vêm as inevitáveis massas, pastas e antipastas, numa variedade que passa pelas pizzas, lasanhas, spaghetti, canelloni, fetuccine, tagliatelle e “tutti quanti”. Além destes mais tradicionais ainda há várias alternativas em que se incluem uns “scalopini alla crema”, “osso buco” (uma especialidade), bifes do lombo e chateaubriand e, imaginem, até um bacalhau!
Vieram para a mesa umas lasanhas normais e verdes, um fetucine verde bolognese, um “scalopini alla crema” e um das sugestões do chefe, “scalopini alla marsala”. Depois de se provar estas variedades, ninguém mais tem vontade de encomendar lasanhas na Pizza Hut! As massas estavam excelentes, assim como os dois pratos de “scalopini”.
Na sobremesa comi bolo de chocolate recheado com camadas de chantilly, o que o torna extremamente fofo e apetecível, misturado com gelado de chocolate e baunilha. Experimentei misturar os dois e o resultado foi óptimo. Da próxima vez que lá for tenho que me lembrar desta! As escolhas também são variadas, não faltando o inevitável tiramisu, além de algumas tartes e bavaroises.
Para acompanhar a refeição optámos por vinho italiano. A oferta era enorme em termos de vinhos alentejanos, mais do que todos os outros vinhos portugueses, enquanto dos italianos havia apenas 6 ou 7 marcas, de que só reconheci o Chianti, o Barolo e o Valpolicella, que já tinha provado naquele mesmo local. Na dúvida pedimos ao mestre de serviço à mesa que nos aconselhasse um vinho italiano, ao que ele, curiosamente, torceu o nariz, “com tantos vinhos bons que temos cá”. Mas a refeição era para ser italiana em tudo, e depois de perguntar se tínhamos a certeza que era mesmo isso que queríamos aconselho-nos um vinho da Sicília, de seu nome Nero d’Avola, do ano 2002, por cerca de 10 euros.
Como é habitual nos vinhos italianos que tenho bebido, revelou-se um vinho aberto, de cor rubi clara, pouco encorpado e com pouca acidez, apesar dos 13% de álcool. Bebeu-se bem com os pratos italianos, ligando melhor com as massas que com os pratos de carne. Tal como também tenho notado, parece que falta a estes vinhos alguma estrutura que os torne mais cheios. Não se pode dizer que são vinhos maus, mas até hoje ainda não provei um vinho italiano que me encantasse, nem sequer que batesse claramente os vinhos portugueses. Pode ser que nos topos de gama isso aconteça, mas em termos de qualidade média, até prova em contrário, estou convencido que os vinhos portugueses são melhores.
Em resumo, um restaurante com um serviço rápido, atencioso e eficiente, onde vale a pena voltar para comer pratos italianos bem confeccionados, e uma carta de vinhos extensa onde os vinhos portugueses estão bem representados. O preço também não é nada de assustar, se não se exagerar nas entradas e nos digestivos come-se por cerca de 15 a 20 € por pessoa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Zonin, Nero d’Avola 2002 (T)
Região: Sicília (Itália)
Produtor: Casa Vinícola Zonin - Gambellara
Casta: Nero d'Avola

Grau alcoolico: 13%
Preço no restaurante: cerca de 10 €
Nota (0 a 10): 6

Restaurante: La Campania (italiano)
Rua da Artilharia 1, 30 - Lisboa
Telef: 21.385.03.45
Nota (0 a 5): 4

domingo, 19 de fevereiro de 2006

No meu copo 20 - Quatro Regiões 1997

O tempo é lixado! Coisas que pareciam perfeitas há algum tempo manifestam agora debilidades nunca achadas. Vem isto a propósito da contra-prova que este sábado fizemos ao Quatro Regiões, vinho de mesa da Sogrape devido à sua peculiar forma de produção.
Este vinho é constituído por 4 lotes de uvas vinificadas em separado, provenientes de quatro emblemáticas regiões vinícolas do país: do Douro, a casta Touriga Francesa; do Dão, a casta Touriga Nacional; da Bairrada, a casta Baga; e do Alentejo, a casta Trincadeira. Depois de fermentados a temperatura controlada e sujeitos a maceração prolongada, os mostos estagiaram 8 meses em barricas de carvalho. Após o estágio, os quatro vinhos foram loteados para formarem este Quatro Regiões, vinho de mesa apenas, porque a lei portuguesa não prevê estes casos de vinhos de qualidade “trans-fronteiriços”, aproveitando o melhor de cada região.
Da colheita de 1997, este era um vinho de 9 quando o provámos pela primeira vez, há cerca de três anos. Mas como disse, o tempo não perdoa: há algumas semanas tínhamo-lo provado e decidimos não atribuir nota sem uma contra-prova, que fizemos este sábado, suportada por um singelo entrecote com alho.
O vinho, embora continue com um nível excelente como se depreende pela nota atribuída, já não é o vinho de topo que foi. Perdeu uma boa parte dos aromas e o sabor simplificou-se, detectando-se por vezes um certo fundo de decadência que pode indiciar o declínio total dentro de pouco tempo.
Portanto, em conclusão, se possui garrafas destas na sua garrafeira, beba-as agora todas, porque o vinho ainda é um bom vinho. E não há necessidade de o deixar estragar.

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Quatro Regiões, 1997 (T)
Região: Vinho de Mesa
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 12,5%

Castas: Baga, Touriga Nacional, Touriga Francesa, Trincadeira
Preço em hipermercado: 12,77 €
Nota (0 a 10): 7,5

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Rectificação de valores

Depois dum aturado debate interno acerca das classificações aqui atribuídas e dos critérios usados, e tendo em conta a comparação entre os diversos vinhos provados, foi decidido rectificar a nota do Duas Quintas 2003 de 7,5 para 8 e do Vinha da Defesa 2003 de 7 para 7,5.

Kroniketas, enófilo esclarecido

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Aviso às leitoras

Em boa verdade vos digo que poderão sempre classificar os vinhos como o Kroniketas afirma, mas em termos práticos a única diferença será na saturação da cor, porque o método de produção é quase sempre semelhante e os produtores usam os dois termos indiferenciadamente. Não estou nada preocupado em que o vinho referido fosse clarete ou rosé - morreu na mesma!
Vejam o exemplo do Conde de Vimioso Rosé, analisado anteriormente, e que tem cor mais escura do que o Quinta do Monte D'Oiro Clarete.
Um conselho: marimbem-se para o nome e bebam-nos a todos!

tuguinho, enófilo esforçado

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Aviso aos leitores

O post anterior gerou uma discordância interna nas Krónikas Vinícolas. Na minha opinião o Tuguinho misturou dois termos que designam produtos diferentes, e como neste blog ninguém muda o texto escrito por outro sem a sua prévia concordância (senão já tinha alterado o que ele escreveu), quero avisar que considero que clarete e rosé não são uma e a mesma coisa. O vinho em apreciação foi chamado clarete pelo seu produtor, certamente por boas razões. Logo, não se deve chamar-lhe rosé.
Rosé é um vinho de cor marcadamente rosada, enquanto o clarete é um vinho tinto mais leve e de cor muito mais aberta que um tinto normal. Mas em todo o caso, ainda próximo do tinto. Daí a ser rosé ainda vai alguma diferença.
Após algumas trocas de galhardetes via Messenger, acabámos ambos por chegar à conclusão que pode haver alguma confusão na nomenclatura usada, pois parece que existem vinhos designados como clarete e como rosé cujas características não permitem distingui-los, o que no meu entender é errado. Eu já bebi alguns claretes anteriormente (lembro-me dum das Caves Velhas) e não tinham qualquer característica que permitisse confundi-los com um vinho rosé. Para mim rosé é o Mateus Rosé, que é mesmo cor-de-rosa. Sendo assim, foi decidido superiormente (por ambos) entrar em contacto com a Quinta do Monte d’Oiro via e-mail para tentar esclarecer este quiproquó.
Bem hajam.

Kroniketas, enófilo esclarecido

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Reincidências - No meu copo 19 - Quinta do Monte D'Oiro Clarete 2003

Nem todos se recordarão do que vou referir a seguir: em tempos que já lá vão, as tabernas (espécie de antecessor do Café como ponto de encontro do povo, em que o mais servido era o copo três de vinho e não a bica) vendiam também carvão e petróleo. Este último alimentava máquinas manuais a vácuo, que serviam para cozinhar quando os fogões a gás não eram tão prosaicos como nos dias de hoje.
Perguntar-se-ão: e porquê este arrazoado aqui, nas Krónikas Vinícolas, que deviam tratar apenas de gargantas e estômagos e sua estimulação? Ora bem, tudo isto se deve ao facto de vos querer ilustrar correctamente a cor do vinho que foi vítima ao almoço deste dia nobre: o dito cujo era da cor do referido petróleo para consumo doméstico, uma cor vermelha aguada, mas de grande impacto visual.
O vinho em causa era nem mais nem menos do que o magnífico clarete da Quinta do Monte D’Oiro, situada na Estremadura, e produtora de alguns dos melhores vinhos de Portugal, incluindo o Homenagem a António Carqueijeiro 1999, a quem já teceram loas que cheguem do outro lado do Atlântico.
Este clarete, da colheita de 2003, referia no contra-rótulo que devia ser consumido de preferência nos 2 primeiros anos, o que significaria que eu já estaria atrasado um ano! Mas não. O vinho mostrou-se em plena pujança, com a magnífica cor já referida, uma ligeira sugestão gasosa e um sabor fresco, livre de taninos, mais do que adequado para o prato com que o consumi: a quase célebre cataplana de robalo e gambas!
Este vinho é proveniente da casta francesa Cinsaut, e foi sujeito a uma curta maceração de forma a manter a tal cor adequada a um rosé. Mas não se iludam! O néctar possui 13,5º e uma estrutura de fazer inveja a muitos tintos!
Em conclusão, “caiu que nem ginjas” com a tal cataplana, não abafando os sabores do prato e jogando muito bem com a sua leveza condimentada.
Fechou-se o repasto com uns morangos ao natural acompanhados por um LBV filtrado da Graham’s, de 1998, servido nos estupendos cálices desenhados por Siza Vieira (vá lá, deixem-me ser “gabarolas” só por um momento!).
O final verdadeiro tinha de ser executado por um café expresso, com açúcar, obviamente – aos puristas que só bebem café sem qualquer adoçante só digo uma coisa: não sabem o que perdem! –, secundado por um magnífico chocolate puro Solitaire da Guylian. Depois disto aquela história do paraíso e até as suas variações que incluem virgens e assim deixam de fazer muito sentido…
Tenham uma boa vida.

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Quinta do Monte D'Oiro - Clarete 2003 (Rosé)
Região: Estremadura (Alenquer)
Produtor: José Bento dos Santos - Quinta do Monte D'Oiro
Grau alcoólico: 13,5%

Castas: Cinsault
Preço em feira de vinhos: cerca de 6 €
Nota (0 a 10): 8

sábado, 11 de fevereiro de 2006

No meu copo 18 - Dão Caves Velhas branco 2003

Após uma longa digressão pelos tintos alentejanos, finalmente “something completely different”. Um vinho do Dão e logo um branco, que é coisa que por estas bandas não nos passa muito pelo estreito.

Este Dão Caves Velhas 2003 foi uma garrafa de branco que veio como oferta na compra de duas de tinto. Experimentei-o ao longo de vários dias com diversos pratos: massa com carne (tipo massa italiana), com pescada com molho e com bacalhau no forno. Foi com este que casou melhor. É um vinho de cor citrina, com alguma estrutura, encorpado e que por isso fica melhor com pratos de peixe com algum peso, mas não demasiado. Por exemplo, com a massa italiana o vinho abafou o sabor do prato.

Não é um vinho com grandes pretensões. Não encanta, mas também não envergonha. Mas é preciso escolher bem o prato com que é servido. Em todo o caso, pelo preço que custa não se pode exigir muito mais.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Vinho: Caves Velhas 2003 (B)
Região: Dão
Produtor: Caves Velhas
Grau alcoólico: 12%

Preço em feira de vinhos: cerca de 2 €
Nota (0 a 10): 5,5

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

No meu copo 17 - Esporão, Aragonês e Trincadeira 98

Isto é como a lei do eterno retorno: acabamos sempre por voltar ao ponto de partida. Voltar aos vinhos da Sogrape e do Esporão é, para nós, uma inevitabilidade tão natural como o nascimento do sol todos os dias. Depois do regresso à Sogrape na Herdade do Peso, regressamos mais uma vez à Herdade do Esporão, agora para revisitar dois monocastas guardados na garrafeira há uns anos: duas garrafas de meio-litro de Aragonês e Trincadeira de 1998 (os últimos exemplares desse ano), um formato que foi utilizado durante alguns anos para os varietais do Esporão e que entretanto já foi abandonado.
Desta vez houve o tempo e o cuidado para decantar as duas garrafitas, pois um vinho com esta idade já tem os aromas fechados há muito tempo, o que se revelou plenamente avisado pois assim evitou-se o despejar para dentro dos copos do depósito entretanto formado.
Como era de esperar, nenhum deles nos desiludiu, até porque também no Esporão só se sabe fazer vinho bom.
São ambos muitos encorpados, de grau alcoólico elevado mas com uma acidez correctíssima que disfarça completamente a eventual agressividade do álcool. Aromas exuberantes e uma estrutura que nos enche a boca e fica lá. O Trincadeira é mais suave, mais aveludado, um pouco mais delicado, enquanto o Aragonês, como é típico no Esporão, é mais robusto, mais vivo, com os taninos mais presentes.
Estamos a falar duma colheita que já foi ultrapassada pelo tempo, pois agora estão no mercado as colheitas de 2002 e 2003, mas o perfil destes vinhos mantém-se. O passar dos anos apenas os amacia mas não os deturpa. São vinhos acima dos 10 euros, mas são dos tais em que vale a pena não olhar para o preço. Naturalmente, têm lugar cativo nas nossas sugestões e presença obrigatória na nossa garrafeira. Para quem quer brilhar com o vinho que leva à mesa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Herdade do Esporão

Vinho: Aragonês 98 (T) (garrafa de ½ litro)
Castas: Aragonês

Preço em feira de vinhos: 11,95 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Trincadeira 98 (T) (garrafa de ½ litro)
Castas: Trincadeira

Preço em feira de vinhos: 10,95 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

No meu copo 16 - Herdade do Peso, Alfrocheiro e Aragonês 2000

Voltamos ao Baixo Alentejo e paramos na Vidigueira para voltar a visitar a Sogrape, a maior empresa produtora de vinhos em Portugal e uma referência permanente deste blog.
Da Herdade do Peso sai o Sogrape Alentejo Reserva, de que já demos conta noutro post. Mais recentemente começaram a sair também vinhos com o próprio nome da herdade. Aqueles de que agora vos damos conta são os monocasta Alfrocheiro e Aragonês de 2000.
Começamos pelo Alfrocheiro, uma casta com pouca divulgação quando comparada com o Aragonês e a Trincadeira. A primeira prova deste vinho deixou-nos... esmagados! Um aroma extraordinário, um corpo que se mastiga, uma estrutura, um paladar e um fim de boca que nunca mais tem fim... É difícil encontrar palavras para descrever as sensações que este vinho nos provocou... E só bebemos uma garrafa! Fiquei na expectativa sobre o que seria este vinho se decantado com tempo suficiente para libertar todos os aromas que lá estão guardados! Um espanto, merecedor de nota máxima! A Sogrape ao seu melhor nível, como estamos sempre à espera (aqui para nós que ninguém nos ouve, acho que a Sogrape nos devia dar uma comissão pela publicidade que lhe fazemos...).
Claro que entrou directamente para a nossa lista de sugestões, na secção dos sublimes, porque o é de facto. Apesar do preço elevado, é daqueles vinhos que merece uma pequena extravagância e comprá-lo tapando a etiqueta com o preço.
Naturalmente que, ao pé dum vinho de excepção, o Aragonês fica prejudicado. Comparado com um vinho que nos encantou, este parece vulgar. Sendo um bom vinho (até porque a Sogrape, como sabemos, só sabe fazer vinhos bons), não tem a exuberância aromática e de corpo do seu irmão Alfrocheiro, daqueles grandes, grandes vinhos que se revelam ao primeiro trago na boca. Este Aragonês tem tudo no sítio certo, mas já não é sublime, e deste modo é difícil considerá-lo merecedor do gasto de mais de 13 €. É um vinho bem feito e correcto mas que, ao mesmo preço do Alfrocheiro, se torna caro para o que nos proporciona.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape

Vinho: Herdade do Peso, Alfrocheiro 2000 (T)
Grau alcoólico: 14%

Castas: Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 13,89 €
Nota (0 a 10): 10

Vinho: Herdade do Peso, Aragonês 2000 (T)
Grau alcoólico: 14%

Castas: Aragonês
Preço em feira de vinhos: 13,95 €
Nota (0 a 10): 7

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

No meu copo 15 - Roquevale, Aragonês 99




















Neste périplo por terras alentejanas que temos apresentado nas últimas semanas, continuamos no distrito de Évora, onde já tínhamos passado por Borba, Estremoz e (várias vezes) Reguengos, e fechamos o circuito chegando agora ao Redondo, a vila natal de Vitorino, para experimentar um produto da empresa Roquevale. Conhecida também por alguns vinhos da gama média-baixa, como o Tinto da Talha e o Terras de Xisto, a Roquevale tem alguns produtos de excelente qualidade sob o nome da própria casa. É uma empresa familiar gerida pelo pai e pela filha Roque do Vale.
Este varietal de 1999 feito com a casta Aragonês não me convenceu. Já o tinha bebido há alguns anos e não tinha memória dele, por isso a repetição. Esta acabou por confirmar o porquê da falta de memória: é que o vinho não nos deixa nenhuma memória! Não faz jus ao nome da casta na região, revelando um aroma discreto e sabor pouco entusiasmante.
Posto isto, acho que não vale a pena voltar a insistir. Não vale o preço que custa. Havemos de visitar outras apostas mais bem conseguidas pela Roquevale.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Roquevale, Aragonês 99 (T)
Região: Alentejo (Redondo)
Produtor: Roquevale
Casta: Aragonês

Preço em feira de vinhos: 8,98 €
Nota (0 a 10): 5

domingo, 29 de janeiro de 2006

No meu copo 14 - Borba Reserva (Rótulo de cortiça) 2001

No panorama vinícola alentejano, quando se fala dos grandes vinhos alguns nomes saltam logo para o primeiro plano. Em Reguengos há a Herdade do Esporão, na Vidigueira há a Sogrape, em Évora a Herdade da Cartuxa, em Estremoz há João Portugal Ramos, isto para citar alguns dos exemplos mais conhecidos. Os especialistas dão habitualmente grande destaque aos vinhos de Portalegre.
Perante estes nomes dominadores, muitos outros ficam esquecidos. Em Borba, por exemplo, também há um excelente vinho da Adega Cooperativa. Embora os vinhos de Borba apareçam quase sempre posicionados na gama média-baixa, a Adega Cooperativa de Borba também tem o seu topo de gama, para além de alguns monovarietais e bivarietais: o Reserva com Rótulo de Cortiça.
Este também faz parte das nossas escolhas e já há algum tempo que não tinha oportunidade de bebê-lo. Experimentei-o com uma picanha e uma maminha na pedra e acompanhou na perfeição. Tem um aroma profundo, é encorpado quanto baste e tem aquele aveludado que torna os vinhos alentejanos “gulosos” e fáceis de beber. É feito a partir de duas castas tradicionais da região, Aragonês e Trincadeira, mais duas estrangeiras, a conhecidíssima Cabernet Sauvignon e a Alicante Bouschet, que tem vindo a ganhar espaço nos vinhos alentejanos. O resultado é excelente e traz-nos um vinho que, não sendo demasiado dispendioso, faz uma excelente figura se quisermos apresentar um produto de qualidade acima da média. Em suma, uma aposta segura e claramente ganha.
Pela estrutura que apresenta e pelo grau alcoólico (13%) pode ser um vinho para, segundo a informação do produtor, aguentar alguns anos na garrafa (falam em 10), mas no que respeita aos vinhos alentejanos é sempre melhor desconfiar e não os guardar por muito tempo, pois às vezes tem-se umas surpresas desagradáveis. Este 2001 estava perfeitamente pronto para beber.
Por último refiro que esta informação relativa às castas utilizadas, que aparece frequentemente nos vinhos alentejanos, devia ser obrigatória no contra-rótulo, pois escrever que foram utilizadas “as castas tradicionais da região”, como acontece com a maioria dos vinhos do Douro, não quer dizer rigorosamente nada. As castas tradicionais são variadíssimas e podem ter sido usadas duas, três, quatro, e essa informação não fica completa só pelo facto de se pôr lá que foram usadas as castas tradicionais.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Borba Reserva (Rótulo de cortiça) 2001 (T)
Região: Alentejo (Borba)
Produtor: Adega Cooperativa de Borba
Grau alcoólico: 13%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 7,69 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Na minha cozinha 13 - Cataplana de Robalo e Gambas

Ora aqui estamos para, qual Maria de Lurdes Modesto, vos deixar a babar com uma receita simples que qualquer pessoa pode fazer e é deliciosa!
Vamos fazer uma simples cataplana de robalo com gambas, para ser apreciada com um branquinho de truz ou um singelo rosé (tá bem, também pode ser um tinto jovem e frutado, mas aqui concordo com o Kroniketas – o branco está nas suas sete quintas!).
São necessários um ou dois robalos médios, de acordo com a quantidade de mandíbulas presentes, e cerca de quilo e meio de gamba graúda (20/40). O resto não é acessório – os acompanhantes vegetais é que moldam o carácter do prato. Anotem lá: batatas às rodelas grossas (tipo caldeirada), pimento verde e vermelho às tiras, cebola às rodelas, tomate aos pedaços, alho cortadinho (não picado).
Se não têm, vão comprar uma cataplana de cobre, vertam azeite no fundo e façam-no circular pelo hemisfério todo. Arrumem os vegetais em alegre balbúrdia e vão cobrindo as camadas com um pouco de colorau para dar cor e sabor. Disponham as postas do peixe no topo e distribuam também aí as gambas cozidas previamente e descascadas. É bom reservar umas 6 ou 7 para serem incluídas cruas e darem ainda mais sabor à cataplana. Convém despejar sobre esta amálgama um copo da água de cozedura das gambas, depois de coada. Junte mais um pouco de azeite e um raminho de salsa fresca e não se esqueça do sal e de um pouco de pimenta ou piri-piri!
Não seja bruto nas quantidades senão não vai conseguir fechar a cataplana! Se tem muita gente a babar-se na sala de jantar use duas cataplanas, não tente meter o Rossio na Rua da Betesga!
As duas hemisferas devem cozinhar o conteúdo (em lume não muito forte) em cerca de 30 a 40 minutos. Depois é só levar para a mesa, abrir a cataplana e tentar não se alambazar com o conteúdo! Acompanhe com um branco ou rose sem estarem demasiado frescos.

tuguinho, gastrónomo da corda

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

No meu copo 12 - Carmim, Bastardo e Cabernet Sauvignon 2000

Na região de Reguengos são produzidos alguns dos melhores vinhos não só do Alentejo mas de Portugal (na opinião das Krónikas Vinícolas, obviamente). À semelhança da vizinha Herdade do Esporão (sempre uma referência incontornável nas nossas escolhas), a Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz também produz alguns vinhos de grande nível, quer para a região quer para o país, abrangendo também uma gama alargada de produtos que vão desde a gama baixa até ao topo (e já agora, sem os preços obscenos praticados noutras zonas), começando no Terras d’El-Rei e no Reguengos para os produtos de combate, seguindo-se o Monsaraz já no ponto intermédio, depois o Reserva, os varietais e o Garrafeira dos Sócios lá em cima.
Seguindo uma prática muito em voga desde há alguns anos, também a CARMIM (sigla adoptada pela cooperativa porque, estranhamente, deixou que alguém registasse antes a sigla CARM) enveredou pela produção de vinhos varietais. No passado fim-de-semana tive oportunidade de degustar e saborear (e poucas vezes o termo será tão adequado) dois destes tintos: o Bastardo 2000 e o Cabernet Sauvignon 2000. Foram convidados para acompanhar uma feijoada de lebre e, posso garantir-vos, bateram-se galhardamente.
Começámos pelo Cabernet Sauvignon, casta francesa com berço na região de Bordéus que encontrou em Portugal (e no Alentejo em particular) um meio excelente para a sua implantação, devido ao elevado amadurecimento conseguido, que permite amaciá-la. Devo confessar que sou fã dos vinhos desta casta, seja em que região for. Tem um aroma frutado que muito me agrada (deve ser aquilo a que os especialistas chamam “frutos maduros” ou “frutos vermelhos”) combinado com um toque a especiarias e uma força de taninos que lhe conferem grande pujança e longevidade. Daqui resulta que tenho bebido vinhos de Cabernet com características muito diferenciadas, que vão desde os muito macios aos extremamente adstringentes.
Este Cabernet de 2000 mostrou bem a sua faceta mais exuberante, com corpo cheio, aroma intenso, uma combinação equilibrada entre a fruta e as especiarias, final de boca prolongado e taninos ainda bem presentes, alguma complexidade dada pela madeira no ponto certo. Merecia ter sido decantado meia-hora antes de se beber, até para libertar os seus 14% de álcool, mas infelizmente não houve tempo. Mas mostrou que estava ali para durar mais uns anos na garrafa.
Já o Bastardo de 2000, também conhecido como Tinta Caiada e igualmente com 14% de álcool, mostrou um carácter mais suave embora também tenha revelado um corpo e uma estrutura assinaláveis e aguentou valorosamente o ligeiro picante do prato. Tanto um como outro justificaram amplamente a sua presença entre os nossos eleitos.
Por último, importa destacar que os varietais da CARMIM já estiveram no mercado a preços exorbitantes (em 2001 cheguei a comprá-los a 2200$), mas passada a euforia especulativa, e quando os produtores começaram a pôr os pés na terra, estes vinhos desceram para um patamar normal e actualmente já se conseguem comprar abaixo dos 5 euros (ver As nossas escolhas). Infelizmente nos últimos anos não tenho visto estas duas variedades à venda, mas tem havido umas caixas com uma garrafa de Aragonês e uma de Trincadeira (as outras duas castas produzidas) que costumam estar à venda pelo Natal por pouco mais de 6 €. Mas estes dois monocastas ficam reservados para uma próxima ocasião.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Carmim (Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz)

Vinho: Bastardo 2000 (T)
Grau alcoólico: 14%

Castas: Bastardo
Preço em feira de vinhos: 6,79 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Cabernet Sauvignon 2000 (T)
Grau alcoólico: 14%

Castas: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 6,79 €
Nota (0 a 10): 8,5

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

No meu copo 11 - Conde de Vimioso Rosé 2004

Experimentei este vinho com um prato massa com carne picada, do tipo italiano, e com bacalhau à Zé do Pipo. Gostei mais com o bacalhau. Trata-se dum vinho rosé com algum corpo e um grau alcoólico acentuado (13,5%), o que o torna apropriado para pratos um pouco mais pesados do que é habitual nos vinhos rosé, como por exemplo o famoso Mateus.

Este Conde de Vimioso é um vinho regional ribatejano, produzido por Falua, a empresa de João Portugal Ramos (de cujos vinhos já falámos noutro post) em Almeirim. Feito a partir de três castas tintas famosas: Tinta Roriz, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. São excelentes castas para fazer tintos, mas neste caso parece-me que usá-las para fazer um rosé é um pouco de desperdício. Pessoalmente gosto (talvez por hábito) de vinhos rosé mais leves e suaves. Não sou daqueles que acham que rosé não é vinho, mas dada a sua especificidade acho que é um tipo de vinho mais adequado a entradas, massas ou comida chinesa.

Para quem gostar deste tipo de rosé pode ser uma compra interessante, mas prefiro outros dentro do género.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Conde de Vimioso 2004 (R)
Região: Ribatejo (Almeirim)
Produtor: Falua - Sociedade de Vinhos
Grau alcoólico: 13,5%

Castas: Tinta Roriz, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço com a Revista de Vinhos: 4,50 €
Nota (0 a 10): 5

domingo, 15 de janeiro de 2006

Vinhos de Portugal 2006
















Hoje à hora de almoço passou na RTP N o programa “Livro aberto”, de Francisco José Viegas, com o convidado João Paulo Martins, autor do livro “Vinhos de Portugal 2006”.
João Paulo Martins, redactor da Revista de Vinhos, é um licenciado em História que se dedicou ao vinho e à gastronomia, possuindo um espaço de degustação de vinhos (com petiscos para acompanhar) chamado “Chafariz do vinho - Enoteca”, construído no antigo chafariz da Mãe d’Água, perto do Príncipe Real, em Lisboa.
Ouvir João Paulo Martins falar de vinhos é um prazer, porque ele fala com prazer. O seu guia de vinhos, já com mais de 10 anos de edições, é um ponto de referência fundamental para quem pretende ter uma orientação nas suas compras de vinhos, porque é feito a pensar no consumidor (mais do que nos gostos do próprio autor), levando em conta a relação entre preço e qualidade.
Esta presença no programa de Francisco José Viegas já é tradicional (começou ainda na RTP 2), e é sempre complementada com uma garrafa aberta em estúdio para aguçar os apetites, tendo no apresentador um interlocutor interessado e participativo. Desta vez apanhei o programa por acaso, mas consultando a programação verifiquei que o programa vai passar novamente na RTP N à 1:30 da manhã deste domingo. Se tiver sorte, o programa será o mesmo e poderei então vê-lo do princípio ao fim. Para quem estiver interessado no assunto, é um programa a não perder, ou a gravar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Livro: Vinhos de Portugal 2006
Autor: João Paulo Martins
Editora: Dom Quixote
Preço Fnac: 14,94 €

Espaço:
Chafariz do Vinho - Enoteca
Chafariz da Mãe d'Água
Rua da Mãe d'Água à Praça da Alegria - Lisboa
Telefone: 21 342 20 79

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

No meu copo, na minha mesa: Quinta da Terrugem 97; Herdade Grande 02; Aragonês Esporão 02; Sogrape Alentejo Reserva 00; Murganheira Bruto Reserva 02




Fomos atraídos por duas lebres, quais cães de caça em serviço. A diferença foi que neste caso as lebres já tinham entregue a alma ao criador e esperavam por nós dentro da panela, na casa do anfitrião, o famigerado Kroniketas.
Isto que vos vou contar foi no passado sábado, ao jantar, e tratou-se de uma reunião plenária do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os Comensais Dionisíacos”, acrescentados das consortes e respectiva filiação. Ao todo onze crescidos, que são os que nos interessam para o caso, porque as criancinhas não degustaram os vinhos que acompanharam as lebres ao seu local de descanso final, os estômagos dos convivas.
Os lagomorfos (a terminação “morfos” não tem nada a ver com comida) estavam devidamente separados em pedaços em jeito de ensopado, com batata cozida e molho espesso, de que não guardo o segredo – só comi, não cozinhei! Também compareceram, para abrilhantar a festa, três perdizes perdidas escondidas no meio de lombarda e assaz (não assadas) apetitosas.
Os vinhos provieram dessa afamada adega que é a vasta garrafeira do Kroniketas (se bem que a do tuguinho não lhe fique atrás), reforçada com umas ofertas de peso.
Depois das cervejolas da praxe e das entradas, iniciou-se o repasto propriamente dito com um Quatro Regiões 97 da Sogrape. A apreciação do néctar foi díspar, e portanto resolvemos não atribuir nota. Iremos abrir outra botelha proximamente e então diremos de nossa justiça. Os pormenores sobre este vinho peculiar serão escalpelizados nessa próxima nota de prova.
Continuámos com um Quinta da Terrugem 97 das Caves Aliança, que se mostrou um tanto delgado para o que se esperava dele. Boa cor, aroma razoável. Talvez seja já da idade, demasiado avançada para um vinho alentejano.
A saga prolongou-se num Herdade Grande 2002, um Vidigueira produzido por António Manuel Lança, que nos surpreendeu pela positiva: excelente corpo, bom aroma e uma estrutura sólida com um fim de boca razoável provaram-nos mais uma vez que não é apenas o preço que distingue os vinhos.
Antes que nos chamem bêbedos, lembrem-se que eram onze pessoas, das quais sete beberam vinho tinto. É incrível como uma garrafa se esvazia depressa nestas circunstâncias!
O percurso etílico atravessou um Aragonês 2002 do Esporão, que cumpriu, como aliás é hábito. Um ligeiro aroma a mofo desvaneceu-se rapidamente no copo e deixou apreciar na sua plenitude este monocasta que é um valor seguro, com bom aroma característico da variedade, com evolução, e uma cor espessa que teve tradução na boa estrutura e nos taninos.
Finalmente, fizemos uma paragem numa garrafa de Sogrape Alentejo Reserva 2000. E em boa hora o deixámos para o fim! Ao contrário do esperado, suplantou o Aragonês do Esporão e guindou-se ao posto de melhor vinho da noite. Uma estrutura espantosa para um Alentejo com cinco anos, uma cor retinta, aromas secundários e terciários para dar e vender. Acima das expectativas portanto, se bem que as iniciais já fossem boas.
Houve também um D.O.A. (Death On Arrival), um Vale Barqueiros de 1998 que, pelo odor e pela cor quase de tijolo, serviria apenas para temperar qualquer coisa, não para beber.
Para aquela zona dos brindes e da sobremesa, começámos com um espumante Murganheira Bruto Reserva 2002, de bolha fina e sabor elegante, que não causou estragos nos estômagos já quase repletos.
A sobremesa propriamente dita constou de bolo rançoso e de charlote de chocolate – tudo coisas sem calorias e que não engordam de forma nenhuma. Para as acompanhar, além do dito espumante, um Porto Vintage 2001 da Real Companhia Velha – um vintage moderno, sem arestas, de cor carmim carregado e ainda com laivos de doce, que se portou muito bem –, e um whisky de malte Famous Grouse Single Malt de 12 anos, para os comensais que apreciam. Ainda vi por lá passar uma garrafa de aguardente bagaceira do I.V.V., com cerca de 13 anos de idade e bastante para contar sobre os cascos que a tornaram amarela.
E pronto. Depois de muita conversa animada que prolongou o plenário quase até às duas, cada um foi para sua casa com a sensação do dever cumprido.
Sim, porque nós somos uns escravos do dever!

tuguinho, enófilo sóbrio e escravo do dever
Kroniketas, anfitrião famigerado

Nota: Para ver as imagens das garrafas mais nítidas clique na foto

Vinho: Quinta da Terrugem 97 (T)
Região: Alentejo (Borba)
Produtor: Caves Aliança
Preço em feira de vinhos: 17,5 €
Nota (0 a 10): 6,5


Vinho: Herdade Grande 2002 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: António Manuel Lança
Preço em feira de vinhos: 9,79 € (preço da colheita de 2000)
Nota (0 a 10): 7,5


Vinho: Aragonês (Esporão) 2002 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Herdade do Esporão
Preço em feira de vinhos: 11,95 €
Nota (0 a 10): 8


Vinho: Sogrape Alentejo Reserva 2000 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape
Preço em feira de vinhos: 9,89 €
Nota (0 a 10): 8,5


Vinho: Murganheira Espumante Bruto Reserva 2002 (T)
Região: Távora-Varosa
Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial do Varosa
Preço em feira de vinhos: 8,75 €
Nota (0 a 10): 7


Vinho: Porto Vintage Real Companhia Velha 2001 (T)
Região: Douro/Porto
Produtor: Real Companhia Velha
Preço em feira de vinhos: 17,5 €
Nota (0 a 10): 7,5

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

No meu copo 10 - Cimarosa (Chile)

Uma oferta trouxe ao meu copo este vinho branco chileno, para mim desconhecido. Feito a partir da casta Chardonnay e fermentado em madeira, segundo a indicação do contra-rótulo, juntamente com os 13,5º de álcool, revelou-se apropriado para carnes brancas ou peixes no forno, pois revelou uma estrutura robusta (para o que é habitual nos vinhos brancos), com corpo cheio e um paladar intenso.

Os vinhos brancos fermentados em madeira ganham uma intensidade e uma adstringência na boca que os torna apropriados para pratos bem apaladados, batendo-se perfeitamente com alguns pratos de carne. Por outro lado, a casta Chardonnay dá aos vinhos um corpo e um aroma (às vezes enjoativo) que se sobrepõe a pratos muito delicados.

Experimentei-o, por exemplo, com um prato de massa com carne do tipo italiano, e o sabor do vinho sobrepôs-se ao do prato.

Pessoalmente gosto mais dos brancos leves e abertos, mas para quem gosta deste género só é preciso acertar com o prato: peixe no forno, bacalhau, carnes grelhadas, poderão ser boas apostas para acompanhar este branco chileno.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Cimarosa, Chardonnay, Reserva Privada 2003 (B)
Região: Central Valley (Chile)
Produtor: Chaval, S. A. - Santiago - Chile
Grau alcoólico: 13,5%

Casta: Chardonnay
Preço: desconhecido
Nota (0 a 10): 6

No meu copo 9 - Espumante Codorníu (Cava)

Para finalizar a época festiva de 2005 falta apenas referir mais um espumante usado num repasto. Perante a vasta oferta que nesta época sempre aparece nos supermercados, há muito por onde escolher e neste caso, deixando de lado o champanhe francês (não pode ser todos os dias) optou-se pelo preço, uma caixa de 2 garrafas a 5,99 €. Tratava-se do espumante Codorníu, de origem espanhola, que ali recebe o nome de Cava.

É um espumante (bruto, naturalmente) que tem bastantes semelhanças com os melhores espumantes que se fazem por cá. Tomando sempre como referência o Murganheira, posso dizer que este Codorníu não envergonha. É leve, suave, com bolha fina, agradável para uma ocasião festiva como se pede a um espumante.

Para quem quiser fazer saltar a rolha mas saborear uma bebida agradável por bom preço entre os festejos, pode deixar de lado a rivalidade ibérica e comprar este espumante espanhol.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Cava Codorníu - espumante bruto
Região: Penedès (Espanha)
Produtor: Codorníu S. A. - Barcelona – Espanha
Grau alcoólico: 11,5%

Preço em hipermercado: 5,99 € (caixa de 2 garrafas)
Nota (0 a 10): 7

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

No meu copo 8 - Vinha da Defesa 2003

O vinho do jantar de fim de ano, cujo restaurante analisámos no post anterior, foi o Vinha da Defesa tinto de 2003, da Herdade do Esporão. Dentro da vasta gama de vinhos daquela herdade, o Vinha da Defesa situa-se num patamar intermédio de preço e qualidade, acima dos produtos de combate da gama média e média-baixa, como o Monte Velho (o campeão de vendas da empresa) e o Alandra, e abaixo dos de qualidade superior como os diversos varietais, o Esporão Reserva e aquele que, não sendo o topo de gama da casa, para mim é o melhor vinho da empresa e um dos melhores do país, merecedor de nota máxima: o Quatro Castas (consultar as nossas escolhas).
O Vinha da Defesa tinto, com 14 graus de álcool, revelou-se inicialmente algo agressivo, logo após a abertura. No entanto, à medida que a garrafa foi esvaziando e o vinho arejando, na garrafa e nos copos, a adstringência inicial foi-se esbatendo, os aromas foram-se libertando, revelando um ligeiro toque a especiarias em harmonia com um carácter frutado, tornando o conjunto bastante mais agradável. Aliás, é uma característica comum nos vinhos da Herdade do Esporão que não me canso de realçar: são tão bem feitos que, mesmo tendo um grau alcoólico normalmente acima dos 13º, não se nota quando se bebe, porque está bem envolvido pelo corpo, pelos aromas e pela acidez do vinho.
Para mim este Vinha da Defesa, não sendo extraordinário, não deslustra o nome da casa e pode ser um compromisso interessante para quem não quer gastar muito dinheiro mas pretende algo mais que um vinho para o dia-a-dia, como o inevitável Monte Velho, também ele uma referência nos vinhos da gama média. Como não é muito robusto é aconselhado para acompanhar pratos de carne requintados, não excessivamente temperados (de que o tornedó é um bom exemplo). O seu preço situa-se no mesmo patamar do Duas Quintas, já referido noutro post, embora o consideremos um pouco inferior a este vinho do Douro.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Vinha da Defesa 2003 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Herdade do Esporão
Grau alcoólico: 14%

Castas: Aragonês, Castelão
Preço em feira de vinhos: 6,37 €
Nota (0 a 10): 7,5


PS: Este post foi escrito ao som do Danúbio Azul e da Marcha Radetzsky, de Johann Strauss, transmitidas pela RTP no concerto de ano novo da orquestra filarmónica de Viena. O que pode haver de mais sublime, para além do próprio vinho?

Na minha mesa 7 - Vinhos & Comidas (Praia da Rocha)

A pretexto do rally Lisboa-Dakar, o réveillon fez-se na Praia da Rocha, Portimão. Deu para ver alguns veículos estacionados e ainda ir fora de horas fotografar os que estavam no parque de viaturas.
Para um grupo de 22 pessoas marcou-se um restaurante sobranceiro à Praia da Rocha, onde se passa diariamente no verão ao sair da praia. Visto de fora, o aspecto é bom.
Os problemas começam logo quando se está limitado no horário. Numa noite de fim de ano, foi-nos dito que o jantar podia ser das 20 às 22 horas, ou das 22 à meia-noite. Ficámos com o turno das 20 h, porque assim não tínhamos de estar à espera que outros saíssem. Mas logo com os pedidos as coisas começaram a complicar-se. Houve pedidos enganados, outros trocados, outros que não chegaram, o que quer dizer que às 21 ainda havia pessoas sem o prato na mesa.
Dado o nível de preços, com pratos entre 10 e 15 euros, esperava-se uma qualidade acima da média. Pedi um tornedó mal passado mas, como acontece sempre nestas ocasiões, tive azar com o que me veio parar à mesa, que de mal passado não tinha nada, perdendo toda a graça. Houve vários pedidos de lombinhos de porco que foram entregues com a indicação “lombinhos de porco com não-sei-quê”. Ou seja, os empregados nem sabiam o que estavam a trazer para a mesa.
Quando chegou às sobremesas, mais complicações: não havia quase nada do que foi pedido, o que quer dizer que, para um jantar de fim de ano, o restaurante não providenciou o número de sobremesas suficientes para o número de pessoas que lá queria meter.
Finalmente, para alguns beberem café, tiveram que pegar no pedido e ir para junto do balcão buscar os cafés. Enquanto isto, um grupo enorme esperava na rua. Quando saímos do restaurante já passava das 11 e um quarto. Mais interessante ainda, o grupo que esperava tinha sido enviado para ali de outro restaurante do mesmo dono!
Não sei como será o restaurante num dia normal, mas a lição que se tira daqui é sempre a mesma no que ao turismo diz respeito : o turismo à portuguesa é feito por amadores, que não percebem nada do que andam a fazer. No Algarve, no Verão, é trágico: não se consegue comer bem, a horas decentes e com bom serviço quase em lado nenhum. Já cheguei a esperar mais de 2 horas por um jantar no mês de Agosto.
Estes “profissionais” da restauração querem ter muito lucro com pouco investimento. No restaurante onde jantámos estariam cerca de 80 clientes para... 3 empregados a servir à mesa. Como é que se pode prestar um serviço de qualidade nestas condições? E depois ainda querem servir dois turnos de jantares? Baralhando os pedidos, deixando acabar as sobremesas? No Verão a desculpa é a mesma: “temos a casa cheia e temos pouco pessoal”. Se querem ter uma casa cheia contratem pessoas; se não podem ter mais pessoas a trabalhar também não podem ter clientes. Nesse caso fechem o estaminé, porque quem não tem competência não se estabelece. Para mim a desculpa do turismo sazonal não pega, porque ao abrirem um restaurante no Algarve já sabem o que vão encontrar, portanto têm de criar condições para servir esse turismo que lhes enche os bolsos nos meses de Verão. Do resto não tem o cliente culpa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: Vinhos & Comidas
Avenida Tomás Cabreira - Edifício Varandas do Sol
Praia da Rocha - Portimão
Nota (0 a 5): 2,5

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

No meu copo 6 - Os varietais de João Portugal Ramos



João Portugal Ramos é um nome que nos últimos anos se tornou uma referência no panorama vinícola nacional, e no Alentejo em particular. Começando por ser enólogo de várias empresas, acabou por criar em Estremoz a sua própria produção donde saem actualmente alguns dos melhores vinhos alentejanos e mesmo do país. À semelhança do que acontece com alguns dos grandes nomes que nas Krónikas Vinícolas consideramos garantias de qualidade (como a Sogrape e a Herdade do Esporão), alguns vinhos de João Portugal Ramos também já entram nesse lote, como é o caso do Marquês de Borba.
Na época festiva que agora terminou, houve aniversário comemorado com um jantar de fondue e bife na pedra. Para acompanhar as carnes foram escolhidos os 4 vinhos varietais (ou monocasta, como preferirem) de João Portugal Ramos: Aragonês, Trincadeira, Tinta Caiada e Syrah. Sendo alentejanos, o seu carácter encorpado e elevado grau alcoólico (entre 14 e 14,5º) garantiam, à partida, pujança suficiente para suportar os fritos e grelhados bem como os molhos de acompanhamento.
E o que se pode dizer de quatro vinhos provados de seguida? Não defraudaram as expectativas dos comensais, embora se possam estabelecer algumas diferenças significativas entre eles. Todas as garrafas foram abertas com alguma antecedência de forma a permitir aos vinhos arejar um pouco antes de serem bebidos.
No meu caso, o que mais me agradou foi o Trincadeira (de 2002), o mais bem estruturado e mais pujante na prova, com um toque de especiarias que lhe confere uma vivacidade muito interessante e presença de madeira quanto baste para não se tornar excessiva. Parece estar ainda apto a durar algum tempo na garrafa, embora com os vinhos alentejanos não se deva exagerar no tempo de guarda (2 ou 3 anos depois da compra já é bom).
Logo a seguir o Aragonês (de 2001), que segue a linha do seu parceiro, embora estivesse um pouco mais macio, talvez por já estar aberto há mais tempo.
O Tinta Caiada (de 2001) foi o primeiro a ser bebido, tendo-se mostrado bastante suave e já pronto para ser bebido, não me parecendo estar vocacionado para guardar muito mais tempo.
Finalmente o Syrah (de 2001), o último a ser bebido, que me causou uma sensação que já anteriormente tinha sentido com uma garrafa da mesma casta proveniente da Herdade do Esporão, curiosamente também numa prova antecedida por outros vinhos (no caso eram o Callabriga e o Quinta da Leda, do Douro): achei-o muito delgado de corpo, com final curto e parco de aroma. Não sei se o Syrah se dá mal com outras provas e tem que ser apreciado isoladamente, ou se é a casta que perde força no Alentejo, porque na Estremadura, por exemplo, encontram-se vinhos bastante adstringentes e até difíceis de beber, num contraste absoluto com o que agora encontramos nestas variedades alentejanas. Por tudo isto, o Syrah foi o que menos agradou e embora não se possa considerar um mau vinho, para a mesma gama de preços fica a perder para os seus irmãos das outras variedades.
Em resumo, fazendo jus à tradição alentejana, as castas habituais Aragonês e Trincadeira parecem continuar a dar cartas e marcar a sua importância na feitura dos vinhos da região. Tanto se portam bem sozinhas como acompanhadas, não sendo por acaso que quase todos os vinhos alentejanos denotam a presença de pelo menos uma delas. Estes monocasta são ideais para acompanhar pratos de carne bem temperados.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: João Portugal Ramos

Vinho: João Portugal Ramos, Aragonês 2001 (T)
Casta: Aragonês

Preço em feira de vinhos: 8,95 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: João Portugal Ramos, Trincadeira 2002 (T)
Casta: Trincadeira

Preço em feira de vinhos: 9,35 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: João Portugal Ramos, Tinta Caiada 2001 (T)
Casta: Tinta Caiada

Preço em feira de vinhos: 9,22 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Vinho: João Portugal Ramos, Syrah 2001 (T)
Casta: Syrah

Preço em feira de vinhos: 11,22 €
Nota (0 a 10): 6

Na minha mesa 5 - Vasku’s Grill

Este restaurante, sito na Rua Passos Manuel, ali ao Jardim Constantino, é um nosso velho conhecido, sendo dos nossos poisos preferidos de há alguns anos a esta parte.
Apesar de ter perdido uma das coisas que o tornava atraente – uns magníficos profiteroles que já não fazem parte da ementa – continua a ser um porto seguro para quem quiser comer (quais “degustar”, é “comer” mesmo, “degustar” cheira-me a passarinho a debicar!) boa carne.
As ofertas centram-se no fondue (de lombo e de vazia – dos melhores em Lisboa) e nos grelhados, com boa variedade – quem quiser apreciar peixe não é aqui que deve vir.
Ora bem, mas vamos lá ao que interessa. Esta não foi uma sortida do nosso grupinho, mas também não foi um acto solitário. E mais não é preciso dizer…
Optámos por lombinhos grelhados, o meu só com alho, o outro com molho de queijo. Carne de excelente qualidade, quantidade acertada (se o leitor não for um alarve, está claro), no ponto certo, acompanhada das tradicionais batatas fritas. Foi deglutida com um Duas Quintas, que me dispenso de apreciar porque isso já foi feito num post anterior.
O prato principal foi precedido por uma caipirinha competente, sustentada por ovos verdes e croquetes de carne de boa qualidade.
Terminou-se o repasto com uma mousse de maracujá que não fez má figura no conjunto da refeição.
O espaço para os devotos da mastigação comporta umas 30 e tal pessoas, é confortável (um tudo nada quente demais, o que nos levaria a outra história passada no mesmo restaurante e relacionada com uma garrafa de vinho, mas fica para outra vez) e o ambiente é in (para quem se importar com essas coisas), com música ambiente que não chega a ser intrusiva. Convém mesmo marcar, porque senão é provável que fique a salivar à porta.
Concluindo, sempre que aqui vim nunca fui mal servido. A carne continua a ser de excelente qualidade e o preço, não sendo barato, não é exorbitante.
A outra pessoa também não se queixou.

tuguinho, enófilo esforçado

Restaurante: Vasku’s Grill
Rua Passos Manuel, 30
(que parte do Jardim Constantino e acaba no Largo de Santa Bárbara)
Telef.: 21.352.22.93
Nota (0 a 5): 4

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Alteração de escala

Avisamos todos os 3 leitores deste blog de que alterámos a nossa escala de pontuação de vinhos, para tornar mais fácil a distinção entre os vinhos apreciados. Assim, passaremos a usar uma escala de 0 a 10, em vez de 0 a 5, sendo que a partir deste momento todos os posts anteriores já têm a pontuação actualizada de acordo com o novo critério.
Esclarecemos também que as pontuações são dadas de comum acordo entre os provadores (mesmo que a prova não tenha sido efectuada em conjunto), o que significa que podem não ser exactamente o que cada um de nós pensa individualmente de cada vinho, mas uma solução de compromisso entre as opiniões. Exceptuam-se alguns casos em que apenas um dos bebedores conhece o vinho.
A apreciação de restaurantes continuará (enquanto nos apetecer) a ser feita numa escala de 0 a 5.

tuguinho e Kroniketas, enófilos não alcoolizados

No meu copo 4 - Champanhe: Veuve Clicquot e Moët & Chandon



Para o jantar de Natal usou-se champanhe. Estou a falar do francês, o verdadeiro, e não do espumante a que muitos erradamente chamam também champanhe, que na realidade não o é. O nome champanhe só pode ser usado para os vinhos produzidos na região francesa com esse nome, Champagne, situada próximo de Reims, a nordeste de Paris. Em Portugal produzem-se alguns bons espumantes, que não envergonham, mas... champanhe é champanhe. E é desse que vos quero falar agora.
Devo dizer que quando provei espumante pela primeira vez (e nas vezes seguintes) não gostei nada e não percebia como é que as pessoas podiam gostar tanto daquilo. Mais tarde, quando provei champanhe francês, percebi a diferença. E ainda mais tarde, quando me tornei apreciador de vinhos, percebi uma outra diferença: é que o espumante que toda a gente bebia, um tal Raposeira, é um dos piores que se produz em Portugal. Quando provamos o Murganheira, o Vértice, o Danúbio, ou o Aliança Particular Bruto Zero, só para citar estes exemplos, percebemos porque é que o Raposeira não serve de exemplo para nada.
Pior exemplo ainda é o dos espumantes italianos que há por aí em festas, que são normalmente doces e até usam rolhas de plástico. O seu carácter doce só lhes permite servir (e mal) para acompanhar sobremesas, e qualquer semelhança com o produto verdadeiro será mera coincidência. Os Asti, Moscato e “tutti quanti” não passam, para mim, duma espécie de Seven-Up com álcool. Champanhe ou espumante a sério deve ser bruto, que é o que não tem adição de açúcar.
Voltando ao motivo deste post, os dois champanhes saboreados no Natal familiar são dois néctares de eleição. Para além de não serem excessivamente gasosos (não estamos a beber uma gasosa), têm bolha muito fina, paladar elegante e aromático, frescura e elegância. São, por isso, expoentes máximos da categoria e, para quem gosta do género, podem perfeitamente ser bebidos com qualquer refeição. Aliás, o seu uso é tão vasto que podem acompanhar uma refeição do princípio ao fim, do aperitivo à sobremesa.
O Veuve Clicquot é talvez um pouco mais aromático e encorpado, enquanto o Moët & Chandon (este é da mesma casa que produz o Don Pérignon, porventura o melhor champanhe do mundo que deve o seu nome ao frade criador desta bebida) é mais leve e mais aberto, embora seja difícil dar preferência a um deles. Curiosamente, são produzidos a partir das mesmas castas: Chardonnay, Pinot Noir (duas castas também cultivadas em Portugal, sendo esta última de uvas tintas) e Pinot Meunier.
Dado o seu elevado preço, são bebidas para serem consumidas em ocasiões festivas (a não ser que se tenha muito dinheiro para gastar) e, principalmente, por quem realmente aprecie aquilo que está a beber. Não se gasta dinheiro numa bebida destas só por exibicionismo!

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Veuve Clicquot - Champagne Brut (B)
Região: Champagne (França)
Produtor: Veuve Clicquot Ponsardin - Reims - França
Grau alcoólico: 12%

Preço em hipermercado: cerca de 35 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Moët & Chandon - Champagne Brut (B)
Região: Champagne (França)
Produtor: Champagne Moët & Chandon - Épernay - França
Grau alcoólico: 12%

Preço em hipermercado: cerca de 35 €
Nota (0 a 10): 9