

É longe. Se formos daqui do sul não iremos lá de propósito, certamente, mas se por lá andarmos a cirandar vale a pena adentrar a sua porta.
O interior já não é o que era. Ainda bem. Apesar de algumas coisas boas se terem perdido, o que se ganhou em qualidade de vida supera as desvantagens. Houvesse por esses lados mais possibilidades de emprego e mais variadas e a população não se acotovelaria certamente no litoral.
Um dos sítios que tem evoluído bastante é Trancoso, não só administrativamente (passou de vila a cidade) como também ao nível do tecido da localidade. Em contraponto às vetustas pensões de outrora (algumas ainda por lá continuam), conta agora com um moderno hotel de 4 estrelas, o que permite pensar noutros voos ao nível do turismo.
Trancoso, apesar da evolução que tem sofrido, mantém o casco histórico quase intocado, protegido por um castelo cuja muralha externa está praticamente intacta, encerrando a parte histórica da cidade dentro das suas paredes. Apesar de ser cidade, Trancoso faz parte do roteiro das aldeias históricas. E faz muito bem, direi eu, apesar da aparente contradição.
Mas, quando falei em porta, não me referia às da cidade, mas sim às de um restaurante, causa desta crónica. Inaugurado há cerca de 5 anos, o Área Benta fica bem dentro da área histórica, escondido numa rua estreita no sopé da encosta do castelo. Para lá chegar o mais simples será entrar pela famosa Porta Del Rei e cruzar em toda a sua extensão a rua da Corredoura que se lhe segue. Desembocados no grande largo interior veremos o pelourinho à direita. Dando a nossa direita ao monumento embocaremos por uma curta rua entalada entre o antigo edifício do Grémio da Lavoura, de fachada recuada por trás de arcos e hoje residência para estudantes, e a igreja de São Pedro, onde jazem os restos do profeta e sapateiro Bandarra, filho dos mais conhecidos da terra.
Voltando à esquerda depararemos quase imediatamente com a placa do restaurante, alojado num bem antigo edifício em granito, completamente remodelado no interior.
Mas vamos ao que interessa. Dispensando o bar que fica no piso térreo, subindo as escadas encontrar-nos-emos na sala de refeições, dividida em duas metades desiguais pelas referidas escadas. A decoração é eficaz e simples, os talheres não dobram e os guardanapos são de pano. O tecto falso em madeira também nos concede um ar condicionado silencioso e funcional, porque no Verão estas paragens são bem quentes.
As entradas costumam incluir os enchidos tradicionais da região – morcela da Guarda, farinheira, chouriça -, bem como algumas saladinhas (polvo, orelha de porco) e afins (moelas guisadas, mexilhões), que habitualmente não desmerecem.
Para pratos principais escolheram-se o bacalhau à Avó Lurdinhas – filete do gadídeo sem espinhas, enterrado numa mistura espessa em que a cebola quase picada domina e acolitado por batata cozida – e a posta de vitela à Área Benta, frita no ponto e coberta por uma fatia de queijo da Serra derretido, acompanhada por batata cortada em pedaços pequenos (como para a salada russa), primeiro cozida e depois levemente salteada com salsa. Não provei o bacalhau, mas quem o deglutiu não torceu o nariz. Pela vitela posso eu ser o defensor, porque estava óptima, e as tais batatinhas a ela se ligaram bem, fazendo esquecer o duo habitual da batata frita e do arroz branco.
Para beber escolheu-se algo que não nos deixaria ficar mal: um João Portugal Ramos – Trincadeira, de 2003, que obviamente se portou à altura e saiu quase todo connosco do restaurante.
Para fim de refeição, além do melão da região experimentou-se o tradicional requeijão com doce de abóbora. O doce estava bom, mas esta não é a melhor altura para comer requeijão.
Ainda se cobriu o estômago com o bendito café e uma aguardente C.R.F., porque não se ia conduzir a seguir.
Este é um restaurante a que, ao longo da sua vida de meia década, já visitei umas quantas vezes. Teve uma fase mais fraca há cerca de 3 anos, mas pelo que me foi dado ver (mais comer, mas enfim) recuperou bem. O serviço é simpático, com os donos incluídos também no serviço de mesa, e não se espera demasiado.
É bom ter sítios destes na dita província, que não desmereceriam se se situassem em Lisboa ou no Porto. É assim que também se desenvolve o país.
tuguinho, enófilo esforçado
Restaurante: Área Benta
Rua dos Cavaleiros, 30A
6420-040 Trancoso
Telef: 271.817.180
Web: www.areabenta.pt
Preço médio por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4
sexta-feira, 18 de agosto de 2006
Na minha mesa 57 - Área Benta (Trancoso)
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quarta-feira, 9 de agosto de 2006
No meu copo, na minha mesa 56 - Convento da Tomina 2005; Lusitano (Praia da Rocha)

Já aqui falámos há alguns meses dum restaurante na Praia da Rocha (Portimão) a propósito do réveillon 2005-2006. Agora com a chegada do Verão, como frequentador indefectível do local, as oportunidades de passar por outros restaurantes da zona são imensas. Recentemente tive oportunidade de conhecer outro restaurante perto do anterior. Chama-se este Lusitano, abriu há alguns meses e por enquanto não tem grande frequência. Mas o aspecto, visto de fora, é bom e convida a uma visita.
À porta está um mapa de Portugal, onde são anunciados pratos regionais que cobrem praticamente todo o país, desde a posta mirandesa à carne de porco com amêijoas, passando pela açorda de marisco e pelos grelhados de porco preto, chegando até à espetada à madeirense. Talvez demasiado ambicioso, mas nada como experimentar. Por enquanto deparamo-nos com uma sala praticamente vazia, que só se compõe um pouco para lá das 21 horas, mas mesmo assim ainda fica menos de meia.
Entre os comensais presentes escolheram-se os rojões à minhota, duas espetadas madeirenses e, no meu caso, um bife à Marrare, obviamente mal passado.
O bife estava excelente de tempero, o molho espesso e no ponto certo de feitura, ainda meio ensanguentado. Veio acompanhado com batatas fritas e grelos cozidos, que ligaram na perfeição.
Quanto às espetadas, acompanhadas com uma maçaroca de milho, pecaram por estar, ao contrário do bife, demasiado passadas, para mais sendo carne de vaca. Os rojões, acompanhados com castanhas, pelo menos de aspecto, também estavam satisfatórios.
Para sobremesa, também abarcando todas as regiões, a preferência caiu numas encharcadas do Convento de Santa Clara e em dois D. Rodrigos. A encharcada estava apetitosa, polvilhada com canela, embora talvez demasiado sólida, pois é um doce que se come à colher e não deve necessitar de ser cortado.
O serviço primou pelo esmero e pela atenção. O encarregado do atendimento à mesa, ainda novo, não pareceu ser um novato nestas andanças, ou pelo menos amador. Pelo contrário, pela postura revelada pareceu ser alguém com formação na área e não um biscateiro para os meses de Verão. Sempre atento às necessidades e com a preocupação de saber se estava tudo em ordem ao longo da refeição, não hesitando em aconselhar nas escolhas, quer dos pratos quer dos vinhos. Foi precisamente seguindo uma sugestão sua que escolhemos o vinho, um Convento da Tomina 2005, regional alentejano, de Francisco Nunes Garcia (que apareceu com um vinho com o seu próprio nome a um preço exorbitante). Também neste aspecto o serviço mereceu boa nota, pois ao servir o vinho para prova, já vinha munido com uma manga de refrigeração, prevendo desde logo que a temperatura não seria a adequada. Que diferença para 95% dos restaurantes portugueses, que no Verão nos tentam impingir vinho quente dizendo que está bom porque é à temperatura ambiente!
Depois de arrefecido para a temperatura adequada, o Convento da Tomina pôde então ser apreciado nas melhores condições, a que não faltaram os copos de pé alto e boca larga (outra raridade). Nas primeiras impressões mostrou um aroma profundo e intenso, a que não serão alheios os 14,5% de álcool, uma cor rubi carregada, a que se seguiu uma prova de corpo cheio, com um toque ligeiramente frutado e alguma predominância de especiarias que prolongam o final de boca. Devidamente acompanhado por pratos com algum requinte mas também generosamente temperados, para aguentar o corpo e o álcool, é um vinho que pode fazer excelente figura numa grande refeição e que não é excessivamente caro para o que vale. Podemos colocá-lo sem dificuldade na gama média-alta, ao nível dos grandes vinhos que não custam fortunas.
Em resumo, o restaurante Lusitano merece ser novamente visitado, restando saber como se comportará o serviço no pico do Verão com a afluência maciça de veraneantes. Não me parece, contudo, que se dirija aos turistas estrangeiros, pois o menu virado para os produtos regionais será chamariz apenas para o cliente português que quer experimentar produtos diversos.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: Lusitano
Avenida Tomás Cabreira - Edifício Casa da Praia
Praia da Rocha - Portimão
Telef: 282.412.177
Preço médio por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4
Vinho: Convento da Tomina 2005 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Francisco Nunes Garcia
Grau alcoólico: 14,5%
Preço em feira de vinhos: cerca de 6 €
Nota (0 a 10): 8
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sexta-feira, 28 de julho de 2006
No meu copo 55 - Bons Ares 2002, Passadouro 2003

Um convívio interbloguista levou o núcleo duro do Grupo Gastrónomo-Etilista ao Vasku’s, um dos nossos restaurantes preferidos da capital. Fugindo ao habitual fondue, os quatro comensais optaram por um bife do lombo com molho pimenta, que estava delicioso como se esperava.
Claro que o grande tema do repasto não se fez à volta do prato mas à volta do copo. Para fugirmos também aos habituais alentejanos onde já não há muito por descobrir, e face à escassez de opções em regiões como a Bairrada, o Dão, o Ribatejo e a Estremadura (da Península de Setúbal não havia um único tinto), fomos para o Douro e começámos por escolher um Bons Ares tinto. Foi-nos apresentada uma sugestão pelo chefe de serviço que dava pelo nome de Passadouro como valendo a pena experimentar. Como se tratava de uma marca desconhecida de todos, resolvemos seguir a sugestão e começar por este.
É um vinho da zona do Pinhão, de cor muito escura, compacta, a tender para o violeta. Foi um pouco decepcionante. É um daqueles vinhos que, como já tenho aqui referido, me fazem questionar porque é que o Douro tem assim tanta fama nos vinhos de mesa. Pareceu-me (e não foi só a mim) perfeitamente vulgar e, tratando-se dum vinho de 2003, os aromas apresentaram-se ainda muito crus, pouco definidos e pouco exuberantes. O final de boca também é curto e não deixa grandes memórias, apesar dos 14% de álcool que não me pareceu que o beneficiem grande coisa. Pode ser que ainda melhore muito na garrafa mas daí até ser um excelente vinho vai uma grande distância. O meu comentário foi simples: não é vinho que me vá apetecer ter na garrafeira.
Esgotado o líquido da primeira garrafa, insistimos no Bons Ares, da Ramos Pinto. Esta é sempre daquelas casas que nos oferecem apostas seguras e tal como o seu primo Duas Quintas, aqui amplamente divulgado, este não nos deixou ficar mal na escolha. A Quinta dos Bons Ares é uma das duas donde saem as uvas para o Duas Quintas (a outra é a da Ervamoira, já por nós visitada). Neste caso a Ramos Pinto fez outro vinho apenas com uvas desta quinta, mais a jusante no rio Douro e situada em maior altitude, o que confere mais frescura e vivacidade aos vinhos ali produzidos. Curiosamente, por uma dessas particularidades em que é fértil a nossa legislação, este vinho não tem denominação de origem Douro mas sim Regional Trás-os-Montes, porque uma das castas usadas é o Cabernet Sauvignon. Mesmo sendo usada de norte a sul do país, vinho onde entre passa a ser vinho regional, porque não faz parte das castas recomendadas. Em nenhuma região. Vá-se lá saber porquê! Há uns 15 anos que bebo vinhos de Cabernet e esta casta tem-me proporcionado alguns dos melhores que tive oportunidade de provar...
Misturada em 40% com a famosa Touriga Nacional (60%), daí resultou um vinho, este sim, excelente. Cheio de estrutura e corpo, com um final prolongado e aromas muito mais exuberantes, extremamente equilibrado em todas as componentes, depois de se beber ainda se fica a saborear. Este é daqueles que não enganam e obviamente faz parte da minha garrafeira e das nossas escolhas. E é vinho para se bater bem com pratos mais pesados e condimentados. Um dos convivas comentou que “daria um excelente vinho do Porto”. Pois, dali também saem desses...
Considero que este vinho não é inferior ao Duas Quintas, pelo contrário, é até ligeiramente superior, pelo que o classifico uns pozinhos acima. O que até faz sentido, pois é mais caro.
No final do repasto foram apresentadas aos comparsas as duas garrafas de Reserva Ferreirinha recentemente compradas. Puderam admirá-las e manipulá-las, mas não apreciar o conteúdo, porque agora vão repousar na garrafeira do tuguinho, que fica como fiel depositário (é mesmo o que se pode chamar o fiel de armazém). Quando já não fizer calor, então vamos abri-las. Agora foi só para abrir o apetite…
E não digo mais nada porque vou de férias. O tuguinho que trate do estaminé durante o mês de Agosto. Boas provas.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Passadouro 2003 (T)
Região: Douro (Pinhão)
Produtor: Quinta do Passadouro - Sociedade Agrícola
Grau alcoólico: 14%
Preço no restaurante: 21 €
Nota (0 a 10): 6,5
Vinho: Bons Ares 2002 (T)
Região: Trás-os-Montes (regional)
Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 11,99 €
Nota (0 a 10): 8
PS: Este post foi escrito acompanhado do som e da imagem do DVD do ano: Pink Floyd - Pulse. Para falar de grandes vinhos, nada como encontrar inspiração em grandes músicas.
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quinta-feira, 27 de julho de 2006
No meu copo, na minha mesa 54 - William Fevre, Sauvignon Blanc 2004; Chafariz do Vinho - Enoteca



Uma saída de fim-de-semana antes de férias levou-me a um local que não visitava há algum tempo e que tem sido alvo de conversas intra e interbloguistas. À falta de quórum bloguista, vai-se com a família. Senhoras e senhores, apresento-vos o Chafariz do Vinho, na Mãe d’Água, entre a Praça da Alegria e o Príncipe Real. Construído nas rochas da antiga mãe d’água de Lisboa, foi erguido dentro do edifício um espaço com 3 pisos onde se vê a água a correr por dentro da gruta. Em dias bons, chegando cedo, ainda se pode optar pela esplanada cá fora.
O Chafariz do Vinho - Enoteca, como o próprio nome indica, é antes de mais nada um local de degustação de vinho, onde se pode comer uns petiscos para acompanhar o líquido, mas é este o centro de todas as atenções na casa. A lista é imensa, com centenas de vinhos, portugueses e estrangeiros, certamente maior que mais de 90% dos restaurantes portugueses. Leva-se mais tempo a escolher o vinho que as comidas. Um dos proprietários é o nosso bem conhecido João Paulo Martins, crítico de vinhos, cronista da Revista de Vinhos e autor dum dos mais conceituados anuários de vinhos, e naturalmente a selecção de vinhos é feita por ele. Claro que os vinhos ali presentes são todos de qualidade acima da média, com preços a condizer, pelo que não se pode esperar ir lá para beber Monte Velho, Frei João ou Porca de Murça (estou a citar alguns vinhos baratos de que gosto, para que se não pense que estou a denegri-los). Tem ainda a particularidade de servir vinho e champanhe a copo. Para quem quer beber pouco mas provar bom, pode ser uma boa opção.
Das vezes que lá fui aproveitei para beber vinhos que não conhecia, com predominância para os estrangeiros. Alemães e franceses (brancos) têm sido escolhas recorrentes, porque é mais fácil encontrá-los bons do que bons brancos portugueses. Desta vez optei por um branco francês (até porque o tempo assim convida), da casta Sauvignon Blanc.
Não há dúvida que os franceses sabem fazer vinho, e este prova-o claramente. Com uma cor citrina desmaiada, quase incolor, um aroma frutado profundo, elegante e suave na boca mas ao mesmo tempo encorpado, com um fim de boca que nos deixa à espera do próximo trago. Bebe-se um e apetece logo outro. Mais convivas houvera e mais garrafas se despejara... Perante este vinho, fica-se com a certeza de que há mesmo vinhos brancos bons, apesar de haver quem pense o contrário e de em Portugal serem poucos.
Claro que os copos usados, do tipo flute, também ajudaram, assim como a temperatura a que o vinho foi mantido, desde logo colocado num frappé. O serviço de vinhos é esmerado ao máximo, como não podia deixar de ser.
Claro que se comeu qualquer coisa a imitar um jantar. Algumas entradas com patés e pães diversos enquanto se espera pelos mini-pratos. Um rolo de massa fresca com requeijão e espinafres, bastante suave; uma trouxa de couve com alheira de caça, bastante temperada e ligeiramente picante, a puxar mais para a bebida; e uma opção do dia, perdiz desfiada em molho de escabeche, saborosíssima. Vai-se petiscando devagar para fazer render enquanto se aprecia o vinho.
Por fim, uma surpresa: um bolo de chocolate que não estava no programa. Só vos digo que deve ter sido o melhor bolo de chocolate que já comi. Cremoso como se fosse mousse, de comer e chorar por mais. Parece que é feito em Lisboa, numa pastelaria de Campo de Ourique. Tenho que descobrir onde é.
No fim, paga-se bem mas com a sensação de que valeu a pena. Pelas comidas e pelas bebidas. Para dois adultos e duas crianças pagou-se 64,50 €. Definitivamente, é um local a colocar no roteiro de qualquer apreciador de vinhos e de quem goste de petiscos fora do comum.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: William Fevre, Sauvignon Blanc 2004 (B)
Região: Saint-Bris (França)
Produtor: William Fevre - Chablis
Casta: Sauvignon Blanc
Preço na Enoteca: 25,00 €
Nota (0 a 10): 8,5
Local visitado: Chafariz do Vinho - Enoteca
Chafariz da Mãe d’Água
Rua da Mãe d’Água à Praça da Alegria
1250-154 Lisboa
Telef: 21.342.20.79
Preço médio por refeição: 20 a 30 €
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segunda-feira, 24 de julho de 2006
Na minha garrafeira 53 - Reserva Ferreirinha 1996
Um dia destes as Krónikas Vinícolas perderam o amor a uns cobres e abriram os cordões à bolsa. Já aqui falámos dos diversos vinhos da Casa Ferreirinha, dos melhores do país, e falta-nos um no currículo.
O Reserva Ferreirinha, anteriormente chamado Reserva Especial e que parece que vai passar a chamar-se apenas Colheita, é o filho mais pobre do Barca Velha, custando 4 vezes menos. É aquele que esteve guardado durante anos a evoluir e que, na prova final, não foi considerado merecedor do rótulo Barca Velha, pelo que leva o outro rótulo. Como também já referimos, parece que por vezes há enganos, pelo que se pode ter a sorte de apanhar um verdadeiro Barca Velha com outro rótulo e muito mais barato.
Passando pelo Jumbo, andámos durante umas semanas a mirar umas de 1996 que lá estavam a 39,99 €, depois desapareciam e depois voltava a haver. 10 anos para este vinho parece ser uma óptima idade para bebê-lo. Contactados os comparsas do costume, decidiu-se adquirir duas para degustar por quatro. Como havia mais duas, fiquei com elas para mim, para compor a garrafeira...
Agora ficam a repousar o resto do Verão nas melhores condições possíveis e lá mais para o Outono, quando já não está calor e não é necessário arrefecer o vinho, deverá ser a melhor altura para saboreá-las. Prometemos contar depois como foi.
Kroniketas, enófilo esclarecido
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sexta-feira, 21 de julho de 2006
No meu copo 52 - Conventual 2005
Eis um vinho que não me encanta nem desencanta. Apesar de todos os encómios que são feitos aos vinhos de Portalegre, ainda não encontrei um que me enchesse verdadeiramente as medidas.
Este Conventual de 2005, da Adega Cooperativa de Portalegre, apresenta-se com uma cor granada, bastante fechada, aroma pouco exuberante para as castas que utiliza (Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet), final de prova pouco vincado. Pode ser da tenra idade, pois é um vinho ainda muito jovem, e precisar de repousar mais algum tempo em garrafa, mas é daqueles que não me deixam grandes recordações, apesar do esforço.
É um vinho da gama média-baixa e não vale realmente mais do que aquilo que custa. Certamente que a Adega Cooperativa de Portalegre fará vinhos muito melhores que este, e eu fico à espera de descobri-los.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Conventual 2005 (T)
Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: Adega Cooperativa de Portalegre
Grau alcoólico: 13%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 2,19 €
Nota (0 a 10): 5,5
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terça-feira, 18 de julho de 2006
No meu copo 51 - Conde de Vimioso 2002
Este é um vinho regional ribatejano da empresa de João Portugal Ramos em Almeirim, a Falua, que se posiciona na gama abaixo dos 5 euros, portanto na zona média-baixa. João Portugal Ramos é um nome bem conhecido a cujos vinhos já aqui fizemos referência em diversas ocasiões, nomeadamente aqueles que produz em Estremoz.
Da Falua já provámos o Conde de Vimioso Rosé e para uma próxima ocasião ficará o Conde de Vimioso Reserva.
O Conde de Vimioso tinto de 2002, comprado em 2004, é um vinho com alguma robustez, como é característico dos vinhos do Ribatejo, sem contudo ser agressivo. Bom corpo e aroma algo discreto, adequa-se a pratos de carne bem temperados, mas não excessivamente. Um borrego no forno é uma boa combinação.
Não sendo um vinho de encantar, também não desagrada e pode ser uma boa aposta para vinho do dia-a-dia, que se bebe com agrado, especialmente para os apreciadores de vinhos bastante encorpados. Beba-se desde já.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Conde de Vimioso 2002 (T)
Região: Ribatejo (Almeirim)
Produtor: Falua - Sociedade de Vinhos
Grau alcoólico: 13%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 3,20 €
Nota (0 a 10): 6
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sábado, 15 de julho de 2006
No meu copo 50 - Deu La Deu, Alvarinho 2004
Verão, calor, tempo de vinho verde. Com a canícula que se faz sentir nesta altura, qualquer refeição sabe bem com um vinho fresco, e neste particular os verdes, porque são os que se bebem mais frescos a par dos espumantes, são os vinhos ideais (não, não estou doido, mesmo com carne, porque não?).
A oferta de vinhos verdes é grande e variada, dada a enorme extensão da Região Demarcada dos Vinhos Verdes (ocupa todo o Minho e grande parte do distrito do Porto). São também usadas várias castas na produção de vinhos verdes, sendo que a casta Alvarinho é habitualmente considerada de qualidade superior às restantes.
A casta Alvarinho é frequentemente associada a vinhos caros, mas não é necessariamente assim, e este Deu La Deu é um bom exemplo. Tem um preço perfeitamente aceitável e não desmerece em nada a fama da casta. De cor citrina clara, límpido e brilhante como deve ser, apresenta grande frescura na boca, com um corpo mais cheio e maior grau alcoólico que a maioria dos vinhos verdes, e é um vinho que estando bem fresco é agradável de beber quase em qualquer situação, mesmo fora das refeições.
Para quem quer conhecer um vinho Alvarinho mas não quer pagar o preço dum Palácio da Brejoeira, o Deu La Deu é uma excelente aposta. Por isso faz parte das nossas escolhas.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Deu La Deu, Alvarinho 2004 (B)
Região: Vinhos Verdes (Monção)
Produtor: Adega Cooperativa Regional de Monção
Grau alcoólico: 13%
Casta: Alvarinho
Preço em hipermercado: 5,89 €
Nota (0 a 10): 7
quarta-feira, 12 de julho de 2006
Estamos na Revista de Vinhos!


A ausência foi longa, devido a afazeres tele-futebolísticos e outros, mas agora regressámos, e logo com aquilo que se pode considerar uma menção honrosa.
Imaginem que no número de Junho da Revista de Vinhos, de que sou assinante, a páginas 76 há um artigo intitulado “Os vinhos na blogosfera”, de que aqui apresentamos o “fac-simile” nas imagens acima. Então não é que este vosso escriba deparou lá com a menção às Krónikas Vinícolas em termos que se podem considerar elogiosos? Não só é feita uma apreciação positiva a este blog como ainda, no meio do texto, é citado o nosso lema.
Não há dúvida, estamos a ficar famosos. Em 10 referências a blogs acerca de vinhos, logo havia de nos calhar também o brinde! O João Paulo Martins que se cuide...
Claro que isto só nos responsabiliza no sentido de continuarmos a não entornar os néctares de Baco. Até porque um tipo entornado não escreve nada em condições...
Kroniketas, enófilo esclarecido
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Etiquetas: Revista Vinhos
domingo, 9 de julho de 2006
No meu copo 49 - Luís Pato Vinha Pan 1999
Por ocasião do benfazejo Portugal-Inglaterra, os dois basbaques que produzem este blog resolveram digerir uma bifalhada. Após consulta à lista da garrafeira, optámos por ver como estava de saúde um Luís Pato – Vinha Pan 1999, um regional das Beiras (foi feito numa altura em que Luís Pato andava de candeias às avessas com a comissão vitivinícola da Bairrada) adquirido nos idos de 2000 por 2500$00, preço especial.
A vinha da Panasqueira, dizia no contra-rótulo, fica numa encosta virada a Sul, tem solo argilo-calcário e 6900 videiras de casta Baga que agora terão a idade de 22 anos.
Confesso que tinha alguns receios, visto que a vetusta idade já poderia ter feito tropelias com o néctar. Por isso foi aberta e cheirada logo a seguir – por aí nada se detectou, o que era bom sinal. Decantámo-la, que é uma coisa que se pode fazer mesmo que não se tenha voz, e a cor não revelou sinais de velhice senil, como receávamos. Provámo-lo logo aí, para aquilatar da qualidade, e revelou-se em condições de ser servido – foi apenas um gole diminuto, para saber se teríamos de abrir outra garrafa e deitar o Luís pelo cano abaixo (salvo seja!).
Abrímo-lo e decantámo-lo com antecedência para que pudesse respirar e soltar-se e bem o fizemos: um certo pico gasoso que se notou na prova precoce já tinha desaparecido quando o bebemos mesmo, cerca de uma hora depois. Devido à temperatura ambiente, optámos por colocar sob o decantador de fundo largo uma manga refrigeradora (daquelas que abrem, com fecho de velcro), cerca de 20 minutos antes de o beber, o que se veio a revelar uma decisão sábia. Estas mangas revelam-se bem mais eficazes do que o próprio estágio no frigorífico (não, não é sacrilégio fazer isso com tintos…)!
Vamos lá a aspectos mais palpáveis: apesar dos 7 anos de idade a cor continuava profunda, de tons granada (não, caro iniciado nestas coisas, não era verde-camuflado – a granada de que falo é a pedra preciosa, de um vermelho profundo), com um aroma discreto e um corpo excelente. Continuava a revelar ligeira adstringência, como que a mostrar que ainda estava ali para se aguentar por mais algum tempo, o que até bate certo com a informação no site do produtor. A casta Baga tem destas coisas, e ainda bem. Revelou-se seco na boca, com sabor a frutos secos e talvez lembranças de couro, e o fim de boca era agradável, sem ser longo por aí além.
Em conclusão, além de bom, pode e deve guardar-se umas quantas garrafas para se irem degustando ao longo dos anos, porque este é daqueles vinhos que não se vai abaixo com facilidade.
tuguinho, enófilo esforçado
Vinho: Luís Pato Vinha Pan 99 (T)
Região: Regional Beiras
Produtor: Luís Pato
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Baga
Preço: cerca de 20€
Nota (0 a 10): 7,5
domingo, 2 de julho de 2006
Aguenta e não chora...
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Na minha mesa 48 - Adega da Tia Matilde

Um clássico de Lisboa, situado ali nas proximidades do antigo apeadeiro do Rego. Espaço amplo, com várias zonas separadas, bar com sala de espera, vários balcões com sobremesas nos locais de circulação e, mais recentemente, garagem subterrânea que facilita bastante num local onde o espaço para estacionamento não abunda. Mais importante ainda, um local de tradição benfiquista, a começar pelo dono.
A oferta é variada, com peixes, mariscos, bacalhau, caça, cabrito, etc. A dificuldade está na escolha. Os preços é que não são nada meigos.
Num grupo de 7 pessoas, escolheu-se para começar uma caldeirada e depois um cabrito no forno com arroz de miúdos. Ambos em doses q. b. e com bom paladar. Antes, para entreter, umas pataniscas de bacalhau muito tenras e ainda quentinhas. O presunto à disposição é que não convenceu: muito seco e com ar de velho.
Para regar a refeição, deparámo-nos com o tradicional problema dos restaurantes portugueses: preços exorbitantes para a maioria dos vinhos. Difícil é encontrar um vinho a preço aceitável. Sugestionado por uma recente apreciação do Tuguinho, sugeri um Quinta dos Aciprestes de 2003, a 14 €, que colheu o agrado dos presentes. Corroborando a apreciação já anteriormente apresentada, quero acrescentar que se apresentou ainda fechado, com os aromas um pouco escondidos e uma ligeira adstringência que mostram estarmos perante um vinho com todos os sinais de juventude bem presentes e que, seguramente, irá melhorar com mais uns anos na garrafa. Tem todas as condições para desenvolver aromas mais exuberantes, tornando-se também mais macio. É sem dúvida um vinho a rever... depois de termos umas garrafas guardadas na garrafeira durante uns 3 ou 4 anos.
De notar ainda que foi necessário pedir para refrescar o vinho, pois estava com temperatura excessiva, outra pecha habitual em Portugal quando se aproxima o tempo quente.
Nas sobremesas as opções também são variadas embora dentro da normalidade, sendo o mais original uma tranche de maçã que tinha forma de pudim.
O serviço é eficaz e atencioso, com muita gente sempre com atenção às mesas. Só na conta é que fomos surpreendidos, ao deparar com um montante de 38 € por cabeça. Já se sabe como é: sem restrição nas entradas a conta dispara. Os próprios pratos escolhidos também foram mais caros do que se esperava. Ou seja, é um restaurante onde se come bem e onde vale a pena ir, mas olhe bem para a coluna dos preços quando escolher, para não ser apanhado de surpresa no fim.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: Adega da Tia Matilde
Rua da Beneficência, 77
1600-017 Lisboa
Telef: 21.797.21.72
Preço médio por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 4
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segunda-feira, 29 de maio de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 7
Na minha mesa 47 - Ramalhão
De regresso a casa, última paragem para um repasto em local recomendado pelo guia de restaurantes. Descendo de Viseu, dirigimo-nos ao Ramalhão, em Montemor-o-Velho, no caminho entre Coimbra e a Figueira da Foz.
Montemor-o-Velho é uma localidade não muito grande, onde vamos entrando pela rua principal e rapidamente, sem procurar, encontramos um portão com uma placa que tem escrito “Ramalhão”. A entrada é fora do comum: entra-se por um quintal com ar meio desarrumado, subimos umas escadas para o interior duma casa onde encontramos uma casa de banho, continuamos a subir e chegamos a uma porta que dá para outra rua. Temos então que entrar pela esquerda, junto à cozinha, para chegar à sala do restaurante.
A sala é relativamente grande, com um ar meio rústico. A primeira expectativa é prometedora. Começa a desvanecer-se quando um casal já com uma idade respeitável (mais ele do que ela) vem à mesa. Ao contrário dos outros locais por onde passámos, aqui o atendimento é frio e distante. Somos olhados com um ar de desconfiança e parece que nos estão a fazer algum favor. Não há um sorriso, não há um aceno de simpatia, as respostas são secas e ríspidas. Rapidamente começamos a sentir algum incómodo por estar ali.
A ementa é variada e apetitosa, à base de pratos regionais. Pedimos uma dose de cabrito e uma de arroz de galinha vadia, porque os mais jovens comem pouco, o que nos faz ser olhados de soslaio pela reduzida quantidade do pedido. O cabrito mais uma vez cumpriu as expectativas e o arroz de galinha, num género de cabidela em tacho de barro, estava delicioso e malandrinho.
Quanto a bebidas, um singelo Frei João que também fez o papel que dele se espera. Os mais novos querem Ice Tea mas o dono responde rispidamente que “aqui não temos disso, bebem água”.
Começamos a ter vontade de devorar rapidamente a comida para desandar dali para fora. Quando chega a fase das sobremesas, estamos à espera da ementa mas uma necessidade fisiológica obriga a uma deslocação à casa de banho. Ao contrário do normal em locais públicos, esta casa de banho tem toalha de pano onde toda a gente limpa as mãos e tem sabonete de glicerina ao invés de sabonete líquido.
O dono chega entretanto e atira de chofre “eu ia dizer as sobremesas mas como a sua mulher não está cá eu volto depois”. Fico a olhar para ele sem sequer ter tempo de reagir. Quando a família está de novo completa à mesa, não escolhemos nada: ele decide que traz um prato com os vários doces existentes para provarmos um pouco de cada. Assim se fará.
Entre pudins, bolos e tartes despachámos as sobremesas e pagámos a conta. Saímos sem grande vontade de voltar. O almoço foi bom, mas não soube tão bem naquele ambiente tão pouco acolhedor.
Em síntese, na última etapa da viagem podemos criar aquilo que nos tinham pedido na primeira, quando parámos no Almourol: um slogan para o restaurante. E para este é fácil: “se quer ser recebido com simpatia e atenção, não vá ao Ramalhão”.
No final desta visita, ficamos a pensar o que leva os guias de restaurantes a tecer tantos encómios a um local com este tipo de atendimento. Será porque quando lá vão são recebidos nas palminhas, comem do bom e do melhor e se calhar no fim ainda têm a refeição de borla? E nem uma palavra acerca das casas de banho, com utensílios que já não se usam em locais públicos? Não basta que a comida seja boa, é preciso que o cliente se sinta bem onde está e este não foi, definitivamente, o caso.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: Ramalhão
Rua Tenente Valadim, 24
3140-255 Montemor-o-Velho
Telef: 239.689.435
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 2
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Krónikas Vinícolas
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Etiquetas: Beira Litoral, Restaurantes, Viagens
quinta-feira, 25 de maio de 2006
No meu copo 46 - Porto Ramos Pinto LBV 98
Como já devem ter reparado (ou não...), ainda não escrevi uma única vez sobre vinho do Porto neste blog. Por uma simples razão: não sou grande conhecedor do género, nem sequer me considero um grande apreciador, porque são raras as vezes em que o bebo. A minha experiência ao longo dos anos com o vinho do Porto, na maior parte dos casos, resumia-se a provar uns cálices do mais vulgar Tawny que não me cativava por aí além, deixando-me aliás intrigado acerca dos motivos que levavam a que fosse tão apreciado e elogiado. Só quando tive oportunidade de provar alguns Vintage e LBV (Late Bottled Vintage, um vinho de engarrafamento tardio, ao contrário do Vintage que é engarrafado no ano da colheita), me apercebi de que há ali qualquer coisa de diferente e de qualidade superior.
Recentemente, um repasto caseiro pôs-nos em contacto com um Vintage da Real Companhia Velha. Há pouco mais de um mês, a visita à Quinta da Ervamoira despertou-me a atenção para o que se faz de Porto, porque é uma das produções daquela quinta, donde também saem uvas para um vinho de mesa, o Duas Quintas.
Daí para cá tenho vindo a espreitar para as prateleiras de vinhos do Porto nos supermercados, coisa que antes era raro. Há dias, um jantar em casa de amigos serviu como oportunidade para levar um LBV precisamente da Ramos Pinto. A escolha não foi casual, teve justamente como objectivo poder apreciar um néctar de Porto daquela casa. O Vintage ficará para outra altura.
Tanto o LBV como o Vintage têm um carácter completamente diferente do Tawny mais comum. Para melhor, claro. Este tinha um ligeiro toque adocicado, sem ser em excesso, e apesar de já ter oito anos de idade (sendo um LBV foi engarrafado em 2002) denotou alguma frescura e ainda juventude, o que me leva a pensar que poderá melhorar na garrafa durante mais alguns anos.
Como não tenho grandes pontos de referência acerca deste tipo de vinho nem nenhuma memória recente que sirva como comparação, apenas posso dizer que é um vinho que se bebe com agrado e melhora algum tempo depois de se ter aberto a garrafa. Custou em hipermercado 15,99 €, o que me parece um preço razoável para o género.
Mais apreciações acerca de vinhos do Porto deixo-as para o Tuguinho, e creio que o Pólis, bebedor frequente do género, poderá dar algumas achegas a este respeito.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Porto Ramos Pinto 98 (LBV)
Região: Douro/Porto
Produtor: Ramos Pinto
Preço em hipermercado: 15,99 €
Nota: não atribuída
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Etiquetas: LBV, Ramos Pinto, Vinho do Porto
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 6
No meu copo, na minha mesa 45 - Paço dos Cunhas de Santar 2004; O Cortiço 
Na parte final da viagem, um local que desde o início foi definido como paragem obrigatória. Referenciado por pessoas amigas e por todos os guias de restaurantes, rumámos a Viseu para visitar o Cortiço. Fica situado no centro histórico da cidade, numa rua estreita que sai da praça onde está a estátua de D. Duarte.
Telefonou-se a reservar mesa, e ainda bem, porque à hora marcada para o jantar (20 h) a sala não está cheia mas começa rapidamente a ficar lotada, porque o espaço não é muito amplo, e facilmente nos apercebemos de que a procura é grande. Nas paredes, decoradas de forma a puxar para o rústico, algumas fotografias de visitantes conhecidos e, sobretudo, recortes e escritos de gente que por lá passou. Percorrendo algumas encontramos assinaturas do grupo Vozes da Rádio, dos UHF, do Rio Grande, para citar apenas alguns. Há até uns versos de Jorge Palma com muita graça.
Sob a supervisão sisuda do que parece ser o gerente da casa, uma equipa de empregados de mesa jovens atende de forma solícita e eficiente. Comenta-se que aqueles rapazes parecem ter feito uma formação em hotelaria, porque cumprem todos os preceitos de quem está devidamente instruído, longe do amadorismo que se vê por aí.
A oferta é vasta, o que dificulta a escolha. Pedimos conselho ao jovem que vem à mesa, acabando por optar por meia-dose de coelho bêbado estufado e meia-dose de vitela assada, porque as doses são generosas. Vieram acompanhadas pelas tradicionais batatinhas assadas além de legumes salteados. O coelho estava delicioso, com um molho espesso que fazia lembrar o do javali do Vallecula, enquanto a vitela, em fatias, era extremamente tenra e também com um molho apetitoso.
Para sobremesa um doce também referenciado na casa: o doce das formigas, que actualmente tem réplicas conhecidas em todo o país. É o doce em camadas com leite-creme, bolacha e natas, com granulado de chocolate por cima. Mas este estava mais cremoso do que é habitual.
Para regar tão requintada refeição, um vinho do Dão como se impunha na região. Provou-se primeiro um pequeno jarro de vinho da casa, que não agradou por ser muito agreste. Pediu-se então meia garrafa de Paço dos Cunhas de Santar, de 2004, que revelou a elegância e suavidade tão características dos bons vinhos do Dão. Não é o melhor que já bebemos, mas faz jus a uma qualidade média que não envergonha ninguém. O preço também não foi exorbitante para a bitola habitual em restaurantes: 6 €.
Ponderados todos os parâmetros de avaliação, ficamos indecisos acerca da nota que havemos de dar. Não há defeitos a apontar em nenhum item, mas ainda temos na memória o jantar memorável do Vallecula, pelo que parece inevitável tirar uns pozinhos a este. Foi excelente, mas não tão exuberante, pelo que vamos dar-lhe meio ponto a menos. Mas é, sem dúvida, um local a voltar quando se passar por Viseu.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: O Cortiço
Rua Augusto Hilário, 45
3500-089 Viseu
Telef: 232.423.211
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4,5
Vinho: Paço dos Cunhas de Santar 2004 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola
Grau alcoólico: 13%
Preço em restaurante: 6 €
Nota (0 a 10): 7
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Etiquetas: Alfrocheiro, Beira Alta, Dao, Dao Sul, Restaurantes, Tinta Roriz, Tintos, Touriga Nacional, Viagens
sexta-feira, 19 de maio de 2006
O feliz regresso do Barca Velha


Artigo publicado na “Revista de vinhos” nº 197 de Abril de 2006, assinado por João Afonso, que aqui reproduzimos com a devida vénia
«Depois de alguns anos de interregno, aí está mais um Barca Velha. Se é que se pode utilizar a expressão “mais um” a respeito desde tinto de 1999, um vinho portentoso que certamente ficará na história como um dos melhores Barca Velha de sempre.
Escrever sobre o Barca Velha, ou sobre qualquer outro ícone, tem sempre algo de redundante. Todos sabemos que é o vinho português mais conhecido, ou pelo menos aquele que é conhecido há mais anos como um dos exemplos da qualidade máxima portuguesa em vinhos. Mas neste caso a redundância é apenas uma questão de justiça...
VINHO DE PACIÊNCIA
“Eu levo tempo a ter certezas!” São palavras de José Maria Soares Franco, líder da equipa de enologia da Casa Ferreirinha que por vezes também usa a pergunta ao contrário, “ou será o próprio vinho que leva tempo a ter certezas?!”
Esperar e voltar a esperar. Procurar sentir se o vinho que está há anos dentro da garrafa merece ou não ser abençoado com a distinta graça de “Barca Velha”. Em média a espera ronda os 7 anos mas há casos em que leva mais tempo.
E esperar é coisa que já não se faz nesta sociedade. Simplesmente porque não há tempo para esperar. O tempo fugiu-nos, deixámos de o ter. A todos nós mas não ao Barca Velha. Este ainda tem todo o tempo de que precisa. De tal modo que o de 1999 foi aprovado e lançado mas há uma colheita anterior (1998) que, segundo a equipa de enologia, pode ainda “vir a palco”. É tudo uma questão de prova, de entendimento (vinho / enólogos)... e de tempo.
Por oposição a este conceito temos a grande maioria dos outros vinhos que parecem autênticos adolescentes - sempre com a perninha a tremer, desejosos de sair à rua e de se mostrar.
À pressa deste mundo moderno junta-se a banalização e estandardização de tudo. Chamam-lhe globalização. Todos diferentes e todos iguais lutando com as mesmas armas de capitalização de recursos sem termos tempo de olhar para trás ou para pensar se de facto é este o caminho que nos interessa. São as necessidades de um mercado voraz cada vez mais castrador de vontades e sonhos próprios. Produtos novos, de preferência todos os dias, se possível com a imagem melhorada e peço rebaixado e, claro está, sempre fáceis - porque andar ou mesmo pensar é coisa que se usa cada vez menos. Na questão da bebida, que é o nosso tema de sempre, prefere-se o doce, pouco ácido, nada rugoso e, de preferência, NOVO. É isto que se vende. Entre duas colheitas do mesmo vinho a maioria dos consumidores levará o mais jovem. Novidade é sempre a novidade.
Mas o Barca Velha mantém-se vivo e bem vivo apesar de alheio a este rodopio de conceitos e conteúdos mais ou menos vazios. A ele, conceito e conteúdo não lhe faltam.
VINHO DE CONCEITO
As melhores uvas das castas Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinto Cão vindas principalmente da Quinta da Leda foram totalmente desengaçadas, suavemente esmagadas e vinificadas em cubas de inox. Durante a fermentação fizeram-se remontagens intensas, e depois desta terminar, uma maceração a quente durante mais três semanas cuidou de que “tudo” o que de bom as uvas transportavam consigo fosse deixado no vinho. Depois de terminada a fase de “embrião” o vinho foi transportado para V.N. de Gaia e acondicionado em barricas de carvalho francês novo durante 12 a 18 meses. Durante este período foi acompanhado de muito perto e no final, depois de inúmeras provas e análises de lotes e das barricas existentes, decidiu-se engarrafar o potencial Barca Velha que assim entrou no período de "gestação". Mas foram os 5 anos seguintes que determinaram se o Barca Velha 1999 chegaria ou não a nascer.
É aqui que reside a nobreza deste vinho e deste conceito criado por Fernando Nicolau de Almeida e escrupulosamente honrado e seguido pelos enólogos da Casa Ferreirinha - esperar para ter certezas de que o consumidor é servido apenas com o melhor!
VINHO DE EXCELÊNCIA
Não é suficiente ter excelentes uvas e excelentes barricas, como normalmente acontece com a maioria dos vinhos Premium que hoje se comercializam, também é preciso que o tempo não arraste consigo o pequeno quinhão de eternidade que lhe é próprio. Durante as primeiras 4 décadas de história houve quatro Barca Velha nos anos 50s, três nos 60s, apenas um nos 70s, quatro nos 80s e três nos 90s. Em cerca de 50 oportunidades este vinho só viu a luz do dia em 15 colheitas.
Os vinhos das décadas de 80 e princípios de 90 foram muitas vezes desconsiderados injustamente. Saíam a mercado na fase em que os aromas primários tinham dado o lugar aos secundários e a concentração de prova tinha dado lugar à elegância. E o público irreverente e cada vez mais entusiasta dos vinhos novos, gordos e cheios de fruto argumentava – “o Barca Velha já não é o que era”.
Mas o enorme prestígio construído e cimentado neste conceito de exclusividade resistiu a modas menos favoráveis e o lançamento de cada novo Barca Velha nunca deixou de ser um acontecimento. Este último é-o duplamente.
O novo Barca Velha 1999 além de ser um grande vinho é uma “bofetada” de luva branca em todos aqueles que nos últimos anos se entretiveram a menosprezar este “velho senhor”. Com sete anos de idade tem tudo para se lhe chamar um vinho jovem. Exuberante no seu porte, atlético, requintado e clássico representa tudo o que a nobre tradição tem para oferecer a este Mundo desenfreado - uma lição de saber e de tempo.
Nota: Não se esqueça de colocar em pé a sua garrafa de Barca Velha (deste ou qualquer outro) no dia anterior ao seu consumo e de decantar cuidadosamente o vinho uns momentos antes de o servir. Seja exigente e rigoroso com a temperatura de serviço - nunca fora dos 17°-18°. Faça Verão ou Inverno.»
Kroniketas, enófilo esclarecido
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domingo, 14 de maio de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 5
No meu copo, na minha mesa 44 - Planalto; Cacho D’Oiro (Régua)
De passagem por Peso da Régua, uma sugestão dum guia de restaurantes encaminha-nos para o centro da cidade à procura do restaurante Cacho D’Oiro. A procura não é grande, porque aparece uma placa a indicar o restaurante num beco sem saída. Há uns quantos lugares para estacionar, mas é preciso fazer umas quantas manobras para virar o carro no pouco espaço disponível sem bater nos que lá estão.
Franqueada a porta, encontramos um espaço amplo, com escada para um andar superior e mesas em quantidade. É sábado ao almoço, pelo que é fácil sentar, mas a pouco e pouco começam a chegar grupos de pessoas que acabam por lotar o espaço.
A ementa é variada dentro dos pratos normais na região. Escolheu-se uns filetes de polvo e um cabrito assado. Os filetes são tenros e saborosos, mas trazem um acompanhamento pouco adequado, batatas fritas, o que torna necessário pedir arroz branco. Não há mais nenhum, nem de tomate nem de feijão, o que se lamenta. O cabrito cumpre aquilo que sempre se espera deste prato, com acompanhamento de batatas e legumes.
Para acompanhar pediu-se vinho branco Planalto, da Sogrape. É um vinho de cor citrina seco e aromático, frutado quanto baste, com boa acidez que vai muito bem com os filetes e bebe-se de forma gulosa. Não sendo muito leve, acompanha pratos de peixe com algum tempero, mas não convém exagerar. Convém mantê-lo num frappé ou numa manga de refrigeração para que não aqueça durante a refeição.
O atendimento é simpático e eficiente, com pessoal jovem e solícito que responde rapidamente às chamadas. A refeição é satisfatória, mas nada de extraordinário nem de nos deixar de boca aberta. Ou seja, estando na Régua vale a pena ir lá, mas não valerá ir lá de propósito como a Valhelhas para ir ao Vallecula.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: Cacho D’Oiro
Rua Branca Martinho
5050-292 Peso da Régua
Telef: 254.321.455
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 3
Vinho: Planalto (B)
Região: Douro
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Malvasia Fina, Viosinho, Gouveio
Preço em feira de vinhos: 3,95 €
Nota (0 a 10): 7
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quarta-feira, 10 de maio de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 4
Nas margens do Douro


Depois do momento sublime que foi a visita à Quinta da Ervamoira, chegou a etapa que nos levaria ao principal objectivo da viagem: em direcção ao rio Douro. Na zona de Vila Nova de Foz Côa o rio parece perto, mas ainda está muito longe da vista. É preciso andar quilómetros para o encontrarmos. Seguindo para norte pode-se chegar ao Douro no Pocinho, outro ponto de referência na região, mas optamos por procurar o rio mais a jusante e deixamos o Douro Superior rumando em direcção à Régua, mergulhando profundamente no coração da Região Demarcada.
Por estradas sinuosas e montanhas a perder de vista, é-nos dado contemplar a profusão de vinhas que forram aquelas encostas: é a paisagem omnipresente ao longo de intermináveis quilómetros. O aspecto mais curioso que o viajante encontra, enquanto avança lenta e cuidadosamente pelas serras, é o facto de aparecerem grandes placas no meio das vinhas a indicar o nome das empresas proprietárias. E assim nos vamos cruzando com alguns nomes que costumamos ver nos rótulos das garrafas: Ferreira, Real Companhia Velha, Quinta de Ventozelo, Quinta de La Rosa, Quinta do Vallado, Quinta Seara D’Ordens, etc. O que também chama a atenção é a diferença do estado evolutivo das uvas nestas vinhas em relação àquelas que vemos no centro e sul do país. Aqui estão muito mais atrasadas, com as folhas ainda a rebentar timidamente, enquanto no Ribatejo e na Estremadura já existe uma folhagem bem mais exuberante. Mesmo no microclima da Ervamoira, o calor ainda não chegou para amadurecer a vinha.
Há muito caminho para andar até passar por São João da Pesqueira e continuar a lenta aproximação ao rio. A todo o momento esperamos ver uma nesga de água no fundo do vale. Quando finalmente vemos o leito espreitar por trás duma curva já estamos a descer a encosta. Quando o relevo se aplana um pouco, ele aí está diante dos nossos olhos, o Douro, ladeado por margens imponentes. Estamos numa encruzilhada onde o Pinhão está ali mesmo ao pé. Hoje ficamos ali, junto à famosa estação dos comboios, com o Vintage House Hotel logo a seguir e o rio frente à nossa janela. Ali se junta o rio Pinhão ao Douro, permitindo-nos passear nas margens de ambos.
No dia seguinte é o momento há tanto ansiado: o passeio ao longo da margem esquerda em direcção à Régua. Como se esperava, o espectáculo é deslumbrante e motiva diversas paragens para fotografias, ao mesmo ritmo dum casal num BMW que pára nos mesmos locais. Mesmo junto à estrada deparamo-nos com uma quinta da Porto Ferreira, com o nome na porta e lá em cima, na encosta. Nesta região o nome Ferreira repete-se várias vezes na margem direita juntamente com outros nomes conhecidos de empresas de vinhos do Porto, como Taylor’s, Offley, ou Cálem.
A meio caminho ainda vale pena parar na barragem da Régua para espreitar as comportas por onde os barcos de cruzeiro sobem e descem, já próximo da Régua passamos por Folgosa e paramos quase com os pés dentro de água.
Em Peso da Régua aparece uma figura mítica no cimo dum monte: o boneco da Sandeman, o homem da capa negra. Ali estaciona um barco rabelo das Caves do Castelinho. Depois do almoço ainda vale a pena apanhar a estrada para Vila Real e subir ao miradouro a meia-dúzia de quilómetros onde, passeando pelo meio de mais uma vinha, vemos toda a região em redor, com umas curvas do Douro lá em baixo e a serra do Marão ao longe. Aqui termina a melhor etapa da viagem, iniciada com a visita à Quinta da Ervamoira. O caminho agora é para sul e o Douro vai ficar definitivamente para trás.
Kroniketas, enófilo esclarecido
PS: Neste como nos posts anteriores, sugere-se que clique nas fotos para vê-las ampliadas.
domingo, 7 de maio de 2006
No meu copo 43 - Planura Reserva 2002
A Unicer é conhecida sobretudo pela produção de cervejas, sendo uma das grandes distribuidoras em Portugal (Super Bock, Carlsberg e Tuborg são as suas marcas mais famosas). Também distribui algumas marcas de água e há poucos anos resolveu lançar-se na produção de vinhos. Já me cruzei algumas vezes, quase por acaso, com vinhos desta empresa. E o que posso dizer sobre isso?
Na região de Setúbal a Unicer produz o Vinha das Garças, que uma vez recebi como oferta. A prova realizada em família mereceu a opinião unânime de que o vinho não tinha categoria (uma opinião foi mesmo mais crua: “não presta para nada”). Como não era muito conhecido, passei adiante e esqueci.
No passado Outono as Krónikas Tugas deslocaram-se ao “Encontro com o vinho e sabores”, e do evento demos conta em devido tempo. Entre as muitas provas efectuadas calhou começarmos pelo stand da Unicer. Foi-nos dado a provar um Vinha do Mazouco, do Douro, que não encantou nem mereceu grandes encómios da parte dos presentes, pecando pela falta de corpo e estrutura na boca. Também provámos um Planura Reserva e um Syrah, que não acrescentaram nada ao que já conhecemos no Alentejo, e também se perderam na memória das coisas pouco importantes.
Agora sentado à mesa do restaurante, resolvi voltar a insistir no Planura Reserva para ver o que dava. O vinho foi decantado e servido em copos de pé alto e boca larga, portanto teve todas as condições de serviço para mostrar o que vale. E vale pouco.
Apesar de todos os requisitos cumpridos no serviço, o vinho voltou a não convencer. Desde logo apresenta 14% de álcool, o que parece estar a tornar-se uma moda sem sentido, agora que quase todos os vinhos do Alentejo têm para cima de 13 graus, o que é um exagero. O problema é que nem todos sabem fazer vinhos como a Herdade do Esporão, que nos apresenta 14 e até 15 graus de álcool mas tão bem envolvidos no corpo do vinho que nós o bebemos e não damos por nada. No caso deste Planura Reserva 2002, é dito no contra-rótulo que foi feito com as castas Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Aragonês e Trincadeira, estagiando 9 meses em madeira. Aparentemente, tem tudo para ser um excelente vinho. A verdade é que o pomos na boca e é agreste, o álcool arranha, o corpo não envolve o álcool, o aroma é pouco exuberante e o sabor é vulgar. Mais uma vez os vinhos Unicer não provaram.
Resta dizer que não é mencionado no contra-rótulo de que zona do Alentejo são provenientes as uvas que deram origem ao vinho, pelo que ficamos na completa ignorância a esse respeito.
Depois de várias experiências sempre com o mesmo resultado, apetecia-me dar um conselho à Unicer: dediquem-se apenas às cervejas e deixem-se de aventuras vinícolas, porque não têm vida para isto.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Planura Reserva 2002 (T)
Região: Alentejo
Produtor: Unicer
Grau alcoólico: 14%
Castas: Alicante Bouschet, Aragonês, Cabernet Sauvingon, Trincadeira
Preço no restaurante: 10 €
Nota (0 a 10): 4
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Etiquetas: Alentejo, Alicante Bouschet, Aragonez, Cabernet Sauvignon, Tintos, Trincadeira, Unicer
quarta-feira, 3 de maio de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 3
Quinta da Ervamoira



Ponto alto da viagem foi a visita à Quinta da Ervamoira, propriedade da casa Ramos Pinto no Douro Superior, situada na zona de Vila Nova de Foz Côa, perto da aldeia de Muxagata, em pleno parque arqueológico. Adquirida em 1974 por José António Ramos Pinto Rosas (descendente do fundador Adriano Ramos Pinto), que sonhou fazer ali um local de eleição para a produção de vinho, esta quinta possui condições de solo e de clima (edafoclimáticas, como dizem os entendidos) quase únicas e é um local privilegiado para o cultivo da vinha. Localizada numa zona montanhosa mas a baixa altitude (cerca de 150 metros), está rodeada de montanhas que criam um microclima propício a um bom amadurecimento das uvas (no pico do Verão as temperaturas na quinta podem atingir os 50º C), o que permite fazer a vindima muito mais cedo do que na maioria das outras quintas da Região Demarcada do Douro. É um dos locais que teriam ficado submersos pela Barragem de Foz Côa, se esta tivesse sido construída. Depois de visitá-la, só podemos dizer: ainda bem que não fizeram a barragem!
A Casa Ramos Pinto foi fundada em 1880 por Adriano Ramos Pinto e é conhecida sobretudo como produtora de vinho do Porto, de que podemos encontrar variadíssimas marcas no mercado, tendo mesmo uma garrafa de Porto Ramos Pinto sido enviada no avião de Gago Coutinho e Sacadura Cabral quando estes realizaram a travessia do Atlântico Sul. Foi já na Quinta da Ervamoira, uma das quatro que a Ramos Pinto possui na Região Demarcada do Douro (as outras são a Quinta dos Bons Ares, a Quinta do Bom Retiro e a Quinta da Urtiga), que a Ramos Pinto começou a produção de vinho de mesa, precisamente com a colheita de 1990 do Duas Quintas (que tive o privilégio de conhecer), a que já fizemos referência no início da existência deste blog.
Sob a direcção de João Nicolau de Almeida, sobrinho de José Rosas e filho de Fernando Nicolau de Almeida (o criador do famoso Barca Velha, produzido pela Casa Ferreirinha a partir da Quinta da Leda, situada ali perto, na freguesia de Almendra), que é simultaneamente administrador e enólogo na Ramos Pinto, nos 200 hectares da Quinta da Ervamoira foram plantados de raiz 180 hectares de vinha, com grande predominância de uvas tintas de que foram seleccionadas as 5 melhores castas recomendadas para a região: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Fancesa, Tinta Barroca e Tinto Cão. Esta vinha é considerada um modelo na região do Douro pois foi, segundo os seus responsáveis, a primeira a ser plantada com as vinhas ao alto (em vez dos habituais socalcos na horizontal das encostas mais íngremes) e com as castas separadas por talhões.
Na Quinta da Ervamoira o visitante sente-se num local paradisíaco, em perfeita comunhão com a natureza, onde apetece ficar sentado a contemplar aquela imensidão de vinha tão bem organizada e a perder de vista, numa perfeita harmonia com a paisagem envolvente. Ouvidas as explicações da guia, quase nos sentimos tentados a ir para lá ajudar no que deve ser um trabalho fascinante. João Nicolau de Almeida manda proceder a análises das uvas diariamente durante o período da vindima, o que determina os talhões onde as uvas vão sendo colhidas em função da sua maturação e grau alcoólico. As uvas seleccionadas durante a vindima são transportadas para a Quinta dos Bons Ares, situada mais a Oeste, onde a Ramos Pinto possui um dos seus centros de vinificação. Para produzir o Duas Quintas são vinificadas também as uvas desta quinta, dando então origem ao Duas Quintas (branco e tinto). Da Ervamoira também saem uvas para vinhos do Porto, havendo até um Tawny de 10 anos com o nome da própria quinta.
Para além da contemplação da paisagem, a visita inicia-se numa casa-museu onde nos é contada a história da Ramos Pinto e da própria quinta, que antes de pertencer à Ramos Pinto tinha o nome de Quinta de Santa Maria. Nela estão presentes variados achados arqueológicos para além de diversas ilustrações sobre o ciclo de cultivo da vinha, da história da quinta e dos vinhos da casa. No final é feita uma prova de vinho do Porto acompanhada de castanhas com amêndoa. Para grupos numerosos a prova pode contemplar um Porto Vintage com explicações detalhadas sobre a produção do vinho e há também a opção de fazer um almoço regional na quinta, desde que haja número suficiente de interessados.
Depois de sair da Quinta da Ervamoira sentimo-nos mais ricos e sabedores. Embora longe, fica uma certa nostalgia de nos virmos embora e uma secreta vontade de um dia lá voltar. Talvez numa fase mais adiantada de maturação das uvas ou até após a época da vindima, quando as cores das folhas que vão morrendo a pouco e pouco enchem as encostas duma multiplicidade de tonalidades admiráveis.
Até um dia!
Kroniketas, enófilo esclarecido
PS: Sugre-se a utilização dos links assinalados para consulta de mais informações acerca da Casa Ramos Pinto, da Quinta da Ervamoira e das outras quintas (com fotografias e mapas de localização) e dos vinhos da casa.
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segunda-feira, 1 de maio de 2006
Na minha mesa, no meu copo 42 - Adega e Presuntaria Transmontana; Quinta dos Aciprestes 2003
Já de alguns anos a esta parte que as margens do Douro na zona do Porto deixaram de ser de faina fluvial e começaram a abrigar outras espécies. A velha Ribeira rejuvenesceu e apareceram restaurantes e bares que trouxeram outras gentes às suas ruas. Um pouco mais tarde, do outro lado do rio assistiu-se a outra pequena revolução: quase toda a zona de cais perto das caves de vinho do Porto foi reconstruída e aí, da ponte de Dom Luís até bem mais à frente, na direcção da foz do rio, surgiu o que podemos apelidar de émulo das docas de Lisboa.
A zona é absolutamente privilegiada e dos restaurantes, cafés, bares e outras lojas que ocupam os pavilhões construídos à beira-rio pode desfrutar-se da melhor vista sobre o Porto, tanto à luz do dia como de noite.
Além dos pavilhões construídos de origem, também as antigas fachadas que dão para o cais se foram reconvertendo e os restaurantes são mais que muitos, incluindo até uma das sortidas do famigerado Tromba Rija fora de Marrazes.
Praticamente ao lado deste existe outro, denominado Adega e Presuntaria Transmontana II, e que foi a evolução natural da adega original, situada numa rua perpendicular, um pouco mais acima na encosta de Gaia. Este número II já era meu conhecido e sempre fora servido a contento mas, na última tentativa para lá nos amesendarmos, lugares era coisa que não havia… Foi então que o patrão Lopes, proprietário do local, nos sugeriu uma visita ao número I, acabadinho de remodelar e por isso ainda pouco conhecido dos frequentadores da zona e portanto com lugares livres que chegavam para o nosso jantar. E assim seguimos o sr. Lopes e cinco minutos depois (a pé) estávamos num simpático espaço que ainda cheirava a novo. Da antiga “tasca” nem rasto, talvez só a configuração do espaço no rés-do-chão. Este piso alberga algumas poucas mesas, um balcão à entrada e a cozinha, e era o espaço original da adega, mas a remodelação também foi ampliação e agora uma escada leva-nos a um 1º piso que acaba por ser a verdadeira sala de jantar do restaurante.
Para começo da contenda é logo servido um Porto branco, doce e fresquinho, que acaba por preparar o estômago para o que vem a seguir. Não sendo um gémeo do tromba rija, também aqui as entradas são importantes no repasto total, e assim que nos sentamos temos logo várias tábuas com diversos enchidos, presunto, diferentes queijos e bom pão. Ficam por lá também uma travessinha com alcaparras (azeitonas britadas) e uns lombos de biqueirão em vinagrete que são uma delícia! Trazem-nos ainda um agradável folhado de farinheira, quentinho, e outras coisinhas boas que se me apagaram da memória, em virtude talvez de algum acontecimento mais etílico.
Escolheu-se para prato principal uma posta de carne à transmontana, que apareceu tenríssima e no ponto, bem temperada com abundância de alho e já trinchada em tiras manuseáveis, acolitada por batatinhas a murro e legumes salteados servidos a sair do lume na própria frigideira.
Depois disto tudo ainda tivemos de arranjar espaço (porque vontade havia) para nos dirigirmos ao estendal de doces e frutas que se anicha numa das pontas da sala. Desde trouxas de ovos a pudim do Abade de Priscos, de leite-creme queimado a sopa dourada, de mousse de chocolate a arroz-doce e a aletria, há de tudo e bem feito. Sim, também há muita fruta para quem quiser.
E que beberagem nos acompanhou nesta prova de fogo, perguntarão? Apesar da qualidade, também a Adega sofre do mal da maioria dos restaurantes portugueses: tentamos “promover” o consumo de bom vinho com preços exorbitantes! A lista está composta, embora não seja muito extensa, e lá consegui encontrar um vinho que não me pareceu demasiado dispendioso e que nos podia garantir qualidade. Escolhi um Quinta dos Aciprestes, Douro DOC, obviamente tinto. Conheci este vinho quando do seu lançamento, talvez há uns cinco anos, quando o promoviam no Jumbo e que, se bem me recordo, me custou 700 dos velhos escudos por botelha. Na altura gostei, embora não me tenha parecido excepcional. E foi baseado nessa recordação que o escolhi, ciente de que mau vinho não era. Pois bem, o bicharoco excedeu as minhas expectativas e revelou-se opaco, quase rubi na cor, e com uma primeira impressão que nos trouxe à memória um vintage ou LBV novos. A boca andava ali à roda dos frutos vermelhos, com um final complexo que levava ao próximo golo com facilidade. Passou a fazer parte da minha lista de compras para as próximas feiras, nos ainda longínquos Setembro e Outubro.
Concluindo, já tinha a Adega e Presuntaria Transmontana como um bom poiso para refeiçoar nas minhas idas ao Porto, mas esta ocasião revelou-se mais saborosa do que as últimas, sabe-se lá porquê.
Os convivas são geralmente presenteados com miniaturas de Vinho do Porto, de produção do proprietário, e agora também com azeite.
Já para lá tínhamos ido de táxi e de táxi voltámos para o hotel. O que é que vocês estavam a pensar?
tuguinho, enófilo esforçado
Restaurante: Adega e Presuntaria Transmontana II
(daqui podem partir para a I, que é mais difícil de encontrar)
Avenida Diogo Leite, N.º 80
4400 - 111, Vila Nova de Gaia
Telef: 223.758.380
Preço médio por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4
Vinho: Quinta dos Aciprestes 2003 (T)
Região: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço no restaurante: cerca de 14 €
Nota (0 a 10): 7,5
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sexta-feira, 28 de abril de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 2
Na minha mesa, no meu copo 41 - Vallecula; Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada 2003, Quinta de Saes 2003


Algures no sopé da Serra da Estrela, entre a Covilhã, Guarda e Manteigas, existe um local paradisíaco onde corre o Zêzere e onde o tempo parece não passar. Chama-se Valhelhas e é daqueles locais onde se consegue ouvir o silêncio, os pássaros, o rio... E existe ali, naquele local recôndito, um restaurante de nome Vallecula, numa casa feita em pedra.
Só de propósito é que alguém lá vai parar, mas vale bem a viagem. Uma sala que alberga umas 30 pessoas, um único funcionário (que por sinal é o dono) a atender os clientes e a dar conselhos. Ele mostra a lista mas explica o que há. Para comilões e em especial amantes de carne, é um maná.
Javali de montaria na carqueja, filete de vitela, borrego grelhado, peixinhos do rio para entrada, queijo fresco de cabra, alheira de caça, arroz doce com leite de cabra, cocktail de frutos secos, as iguarias são de fazer crescer água na boca, do princípio ao fim da refeição. Os comensais renderam-se a um magnífico prato de borrego, grelhado no ponto ainda rosado, tenro de quase se desfazer na boca, e um não menos magnífico javali estufado com molho espesso que parecia sempre pouco no prato. Tudo acompanhado por arroz e umas excelentes migas e não menos excelente esparregado. Nas sobremesas o arroz doce fez sucesso, assim como o cocktail de frutos secos.
Os vinhos listados são exclusivamente da região da Serra da Estrela, fazendo jus à característica de restaurante regional. Dão e Cova da Beira estão bem representados numa lista com cerca de 60 nomes. Infelizmente um dos vinhos pedidos não existia, pelo que optou-se primeiro por um Dão Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada, que cumpriu o seu papel dentro daquilo que se esperava: é um vinho fácil de beber, aberto e macio, com uma bela cor rubi característica dos tintos do Dão, e que acompanha bem praticamente todos os pratos de carne. Em seguida pediu-se um Quinta de Saes, que mostrou um sabor algo estranho, resultante de qualquer componente desconhecido que os presentes não conseguiram identificar. Um defeito do vinho, ou uma característica a que não estamos habituados? Fica a dúvida para uma próxima oportunidade, mas a verdade é que, apesar do aroma mais pronunciado e profundo e dum corpo mais cheio, parecendo que era “mais vinho” que o anterior, acabámos por não ficar a ganhar com a troca. A culminar a opípara refeição ainda foi oferecido (só um dos presentes aceitou) um cálice de aguardente, mais um produto da região. Até a água gaseificada era da região.
O dono é de uma simpatia extrema, desdobrando-se em atenções pelas várias mesas da sala, tentando sempre que nada falte a ninguém. Enquanto vai atendendo os nossos pedidos vai conversando com os clientes, criando um ambiente que, embora sossegado, é descontraído e acolhedor e faz-nos esquecer o passar das horas. Neste caso, o grupo entrou às 8 da noite e abandonou quase às 10 e meia, sem grande pressa para sair. Mas ficou a vontade de voltar. A não perder na próxima passagem pela Serra da Estrela.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: Vallecula
Praça Dr. José de Castro
6300-235 Valhelhas
Telef: 275.487.123
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 5
Vinho: Quinta de Cabriz, Colheita Seleccionada 2003 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola - Quinta de Cabriz
Grau alcoólico: 13%
Preço em feira de vinhos: 2,72 €
Nota (0 a 10): 6,5
Vinho: Quinta de Saes 2003 (T)
Região: Dão
Produtor: Álvaro Castro
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Alfrocheiro, Tinta Roriz, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 3,35 €
Nota (0 a 10): 5
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domingo, 23 de abril de 2006
Krónikas duma viagem ao Douro - 1
Na minha mesa 40 - Almourol

A pausa da quadra pascal foi aproveitada para uma viagem exploratória ao Douro Superior, com algumas incursões gastronómicas de que iremos dando conta nos próximos dias.
A primeira paragem foi em Tancos, localidade situada à beira-Tejo mais conhecida pelas vastas instalações para instrução militar. Ninguém ali iria de propósito a não ser por indicação expressa para visitar um restaurante. Tem o nome de Almourol, tem janela para o rio e para o castelo de Almourol, algumas centenas de metros para montante.
Visto de fora é uma vivenda com esplanada interior, que funciona como uma espécie de antecâmara do restaurante, onde o visitante é confrontado com algumas referências à gastronomia ribatejana. Franqueada a porta do restaurante propriamente dito, encontramos uma sala não muito grande, onde para além das referências gastronómicas são ainda apresentadas em destaque as referências vinícolas da região. Não deixa de ser curioso, no entanto, que estejam expostos alguns exemplares significativos de vinhos do Alentejo.
Dadas as limitações de espaço, quem for sem marcação deve chegar cedo. Para almoçar é conveniente estar lá até às 13 h, sob pena de não ter mesa. De qualquer ponto da sala vê-se o Tejo a deslizar quase por baixo dos nossos pés, e na margem oposta a localidade de Arrepiado. A recepção é simpática, o ambiente luminoso e arejado.
Ao sentarmo-nos encontramos um pequeno desdobrável na mesa onde é pedido ao cliente que faça a sua apreciação do restaurante sob vários parâmetros: a recepção, o tempo de espera, o asseio e a decoração do espaço, a qualidade e confecção dos produtos consumidos, a relação qualidade/preço, etc. Uma iniciativa interessante que outros deviam seguir.
Escolhidas cuidadosamente as iguarias, vieram uns lombinhos de porco em vinha d’alhos e uma espetada de vitela. Os lombinhos estavam excelentes de sabor e magnificamente tenros, como é raro. Já a espetada estava um pouco seca, embora saborosa. De destacar o facto de, nos acompanhamentos, termos uma travessa de barro com umas excelentes migas com grelos, que ainda sobraram.
No serviço dos vinhos é que aconteceu uma surpresa: pretendia-se beber meia garrafa de um vinho ribatejano, para fazer jus à região onde estávamos. A surpresa é que nos foram anunciados vinhos alentejanos, enquanto do Ribatejo só havia o Capítulo, de Tomar, e o Casal da Coelheira, do Tramagal. Optou-se por este último, que não sendo nada de extraordinário saiu-se satisfatoriamente da função.
Nas sobremesas ficámos extasiados com um doce regional de Tancos, à base de ovos e canela (ilustrado na foto). O preço também não pesa em excesso, ficando-se por cerca de 15 € numa refeição média sem exageros de entradas e digestivos.
No final ainda nos vieram pedir o código postal, para estatísticas internas do restaurante. Curioso foi o facto de o gerente, vendo o guia de restaurantes da Visão em cima da mesa, ter perguntado se lá constava e pedir para fotocopiar a respectiva página...
Para digerir o almoço, nada como um passeio até ao castelo de Almourol, ali a 5 minutos. Pode-se fazer um passeio de barco à volta da ilha e subir até ao castelo. Em suma, são uns momentos bem passados, onde se pode comer bem e depois respirar ar puro enquanto se vê patinhos a nadar.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Restaurante: Almourol
Rua Cais de Tancos, 6
Tancos - Vila Nova da Barquinha
Telef: 249.720.100
Preço médio por refeição: 15 €
Nota (0 a 5): 4
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quarta-feira, 19 de abril de 2006
quarta-feira, 12 de abril de 2006
No meu copo 39 - Conde d’Ervideira Reserva 2003
Eu já tenho esta impressão há alguns anos: há demasiadas marcas de vinho no Alentejo. Não é só no Alentejo que isso acontece, no Douro também há uma enorme proliferação de marcas e produtores, mas neste caso é do Alentejo que se trata porque fiz uma prova de mais um vinho alentejano que não conhecia.
Há uns 10 anos, os vinhos do Alentejo estavam distribuídos por um conjunto de produtores conhecidos e com nome firmado no mercado, que eram pontos de referência em cada região. Havia a Adega de Alvito, Cuba e Vidigueira na Vidigueira, a que se juntou depois a Sogrape começando a produzir o Vinha do Monte, antes de encetar a aposta recente na Herdade do Peso; havia a Adega Cooperativa de Borba e a Sociedade de Vinhos de Borba, que repartiam entre si os vinhos daquela região; havia a Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz (CARMIM), a Herdade do Esporão e a Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, entretanto adquirida pela José Maria da Fonseca, em Reguengos; havia a Adega Cooperativa e a empresa Roquevale no Redondo; havia a Fundação Eugénio de Almeida na Herdade da Cartuxa em Évora; a Adega Cooperativa de Portalegre e também a José Maria da Fonseca em Portalegre. Depois havia ainda a Cooperativa de Granja-Amareleja, com uma produção menos significativa, assim como uns produtores mais pequenos que compunham o panorama, mas o consumidor orientava-se mais ou menos por estes nomes.
Quando o Alentejo passou à categoria de Denominação de Origem Controlada nas regiões citadas, o número de produtores começou a crescer. A área plantada de vinha cresceu significativamente, começaram a aparecer vinhos integrados naquelas sub-regiões mas com proveniências diferentes (como os de João Portugal Ramos que se começou a afirmar a partir das suas vinhas em Estremoz, pertencente à sub-região de Borba), sendo que chegou a constar que no Alentejo não havia vinha para tanto vinho. Até se dizia que muitas das uvas eram provenientes da região de Setúbal/Palmela.
A verdade é que nos anos mais recentes a área de vinha no Alentejo aumentou para mais do dobro, os novos produtores nasceram quase como cogumelos e as prateleiras dos supermercados foram inundadas de novas marcas de vinhos alentejanos, numa proliferação impossível de acompanhar mesmo pelo consumidor mais atento. Praticamente todos os meses arriscamo-nos a olhar para uma garrafeira e encontrar lá mais uma marca desconhecida. Toda a gente quer produzir o seu vinho no Alentejo e toda a gente se acha capaz de fazer o melhor vinho do Alentejo. Enólogos conhecidos e outros nem tanto, lá vão aparecendo a fazer consultoria numa ou mais empresas alentejanas. Pode-se dizer que quase já não há um canto no Alentejo onde não se faça vinho, e olhem que todo o Alentejo ocupa cerca de 1/3 do território nacional. Ferreira do Alentejo, Serpa, Mértola, Arraiolos, em todo o lado se faz vinho. No site Vinhos do Alentejo, só em tintos, entre vinhos de colheita, reserva, garrafeira e varietais, encontram-se mais de 250 produtos diferentes, contando com as diferentes variedades produzidas na mesma empresa. Só a Herdade do Esporão e a Carmim, para citar dois dos meus produtores preferidos, têm mais de 20 produtos cada. E há muitos outros nomes que até há pouco tempo eu nunca tinha visto, só que nem todos podem ser Esporão, Carmim ou Sogrape...
É um exagero. A questão que eu me colocava muitas vezes era esta, muito simples: será que tanto vinho pode vir trazer algo de realmente novo ao mercado? Aqueles que tenho provado nos últimos anos dizem-me que não. Nas feiras de vinhos vou aproveitando para comprar alguns que não conheço e à medida que os vou provando chego à conclusão que o que vale a pena é continuar a apostar naqueles que já conheço e de que gosto. Os exemplos são inúmeros, até em casos de produtores que se dão ao desplante de lançar um vinho novo no mercado, sem terem nome feito, a 25 euros, como aconteceu com o primeiro vinho de Francisco Nunes Garcia! Estive a ver os meus registos de provas e encontrei cerca de 90 vinhos tintos alentejanos diferentes (com repetições do mesmo vinho para anos diferentes, naturalmente, mas contando apenas os produtos diferentes). Nas nossas sugestões temos 36 tintos alentejanos, e na lista dos indispensáveis na minha garrafeira tenho 21. No meio disto pergunto: se já conheço cerca de 90 e tenho 20 referenciados como obrigatórios para mim próprio, será que me serve de alguma coisa conhecer mais outros 90? Quantos é que eu iria aproveitar daí? E como é possível, em tantas marcas, criar vinhos diferentes dos que já existem?
Já provei um Monte da Ravasqueira, do empresário Manuel Mello, que tinha a pretensão de criar “O” vinho do Alentejo, e não me agradou aquilo que provei; já provei alguns de Cortes de Cima, e nenhum deles me pareceu nada de especial (e se eles os vendem caros!); provei agora um Conde d’Ervideira Reserva de 2003, de que há uns 2 anos já tinha provado uma outra variedade, e não me trouxe nada de novo em relação às dezenas que já conheço. Se é verdade que muitas vezes da quantidade nasce a qualidade, também é um facto que com quantidade excessiva acaba por se cair na vulgaridade. E pelo que tenho visto, a maioria destes novos vinhos acabam por cair nisso mesmo: a vulgaridade, sem acrescentarem nada de verdadeiramente relevante e interessante àqueles que já existem. Muitos deles acabam por ser apenas “mais um”. Foi o que me pareceu este Conde d’Ervideira, uma garrafa de cerca de 10 euros comprada em promoção com a Revista de Vinhos por 5,95 €. Já a experiência anterior não me tinha deixado saudades e este voltou a dar a mesma impressão. É um vinho que, apesar de ostentar no rótulo a menção a uma medalha, me pareceu demasiado vulgar para que se fale dele. Não o achei bom nem mau, não me provocou nenhuma sensação especial. Por isso acho que vou esquecê-lo rapidamente, e lembrar-me apenas de que não vale a pena comprá-lo. Por este preço há muito melhor.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Conde d’Ervideira Reserva 2003 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Ribeira da Ervideira
Grau alcoólico: 13,5%
Preço: cerca de 10 €
Nota (0 a 10): 5
sexta-feira, 7 de abril de 2006
No meu copo 38 - Mateus Rosé
Eis-nos finalmente chegados à prova do famoso Mateus Rosé, o vinho português mais vendido no estrangeiro e principal receita da Sogrape, a empresa produtora.
Consta que até Saddam Hussein bebia Mateus Rosé, que é um vinho pouco apreciado em Portugal. Talvez por estar a meio caminho entre o branco e o tinto, o rosé é muitas vezes desconsiderado entre nós.
Pessoalmente gosto de beber rosé da mesma forma que branco ou tinto, desde que a ocasião seja adequada. No caso do Mateus, sendo um vinho leve e com pouca graduação alcoólica (apenas 11%), serve tanto como aperitivo, como acompanhante de entradas ou para refeições leves, ficando igualmente muito bem a acompanhar comida italiana ou chinesa. Pode mesmo dizer-se que é um vinho mais versátil que o branco e o tinto, pois não choca com quase nada. E como se bebe fresco ainda pode servir para beber calmamente como refresco numa esplanada.
A última prova foi com um prato de bacalhau no forno com azeite e cebola acompanhado de batatas às rodelas. Como já tive ocasião de referir, não sou grande apreciador de vinho tinto com bacalhau e pensei que me ia arrepender da escolha dum rosé, pois estava mais inclinado para um verde. Mas a verdade é que o Mateus se saiu muito bem da prova, tão bem que ainda foi pedida uma segunda garrafa para apenas duas pessoas. A sua leveza e frescura tornam-no adequado praticamente para qualquer circunstância.
Nós próprios nos esquecemos dos rosés nas nossas sugestões, mas este merece lá estar.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Mateus (R) - Vinho de mesa sem data de colheita
Região: Trás-os-Montes (sem denominação de origem)
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 11%
Castas: Baga, Rufete, Tinta Barroca, Touriga Franca
Preço em feira de vinhos: 2,40 €
Nota (0 a 10): 6,5
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sábado, 1 de abril de 2006
No meu copo 37 - Montado 2002
Uma boa surpresa. Sabendo que os vinhos alentejanos por princípio não devem ser guardados por muito tempo, e tratando-se dum vinho da gama média-baixa, foi com alguma curiosidade que abri esta garrafa duma colheita quase com 4 anos.
O Montado é produzido pela José Maria da Fonseca a partir de vinhas situadas em duas regiões distintas do Alentejo, Reguengos e Portalegre, com predominância das castas Castelão, Aragonês e Trincadeira.
Pensando que já poderia ter deixado passar tempo de mais, foi com algum espanto que verifiquei estar o vinho em excelente forma. Um bom aroma, ainda jovem, e uma prova extremamente macia, coisa que começa a rarear em muitos vinhos devido a graus alcoólicos exageradamente elevados, num conjunto bastante agradável. Dentro destes preços, diria mesmo que é difícil encontrar melhor, uma vez que se consegue comprar por menos de 3 euros. Uma marca talvez menos conhecida que outras congéneres, como o Monte Velho e o Monsaraz, mas que não lhes fica atrás. Óptima aposta para um consumo frequente a baixo preço.
Já constava das nossas escolhas e justificou a permanência.
Nota: esta garrafa foi aberta para acompanhar o famoso Bife à café, e saiu-se muito bem.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Montado 2002 (T)
Região: Alentejo (Reguengos e Portalegre)
Produtor: José Maria da Fonseca
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Castelão, Aragonês, Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 2,79 €
Nota (0 a 10): 6,5
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