
As coisas por aqui têm estado tendencialmente paradas. No passado dia 11 de Dezembro fizemos 5 anos de existência neste blog e 7 no seu irmão mais velho, o Krónikas Tugas, sem que, contrariamente a todos os outros anos, a efeméride tivesse sido assinalada. Outros interesses, outras solicitações, mudanças na rotina, o entusiasmo e o apelo para a escrita que já não são os mesmos do início, são tudo factores que têm contribuído para o decréscimo de publicações nestes blogues. É a vida. Mas a intenção, muitas vezes, ainda existe. A vontade é que nem tanto.
Desta vez, contudo, não quisemos deixar de partilhar com quem ainda nos vai visitando uma experiência que tivemos recentemente com um vinho de eleição e um dos nossos preferidos desde há alguns anos: o Quinta da Leda 2007, o terceiro vinho no topo da hierarquia dos vinhos da Casa Ferreirinha, a seguir ao Barca Velha e ao Reserva Especial.
A última vez que aqui escrevemos sobre este vinho, relativamente à colheita de 2001, as nossas expectativas saíram um pouco defraudadas. Daí para cá tivemos oportunidade de conhecer outras colheitas deste vinho e do Callabriga (que está no patamar imediatamente abaixo), sobre as quais nada escrevemos. Esta, contudo, é incontornável.
Aproveitando uma promoção da Garrafeira Nacional, que baixou o preço em 5 euros em relação ao actual, adquirimos duas garrafas a partilhar por cinco comparsas, e um destes fins-de-semana bebemo-las com umas costeletas de novilho.
Começámos por provar um branco que o Politikos adquiriu no Egipto, cujo rótulo é indecifrável. Não fazemos, por isso, a menor ideia das castas que o compõem, mas não foi mau. Alguma mineralidade, frescura e acidez quanto baste, não brilhou mas não desagradou de todo.
Enquanto petiscávamos uns acepipes como entrada bebericando o branco, tratámos do Quinta da Leda de duas formas diferentes: decantámos uma garrafa e deixámos a outra apenas aberta para comparar os dois. Quando passámos às costeletas atacámos então a primeira garrafa, a que estava decantada.
O resultado foi encantador; sentimo-nos esmagados por este vinho. Primeiro que tudo, a extrema elegância e um aroma profundo, com um ligeiro toque a caramelo e fruta adocicada. No prolongamento da prova de boca aparece a madeira muito ligeira e discreta, taninos de seda a envolverem um conjunto de grande harmonia. Finalmente surge a estrutura e persistência a dar um final longo e firme. No confronto com as costeletas de novilho mal passadas, a elegância marcou pontos com o suculento da carne enquanto a estrutura aguentou o tempero com um molho algo condimentado. Apesar de ainda jovem mostrou-se um vinho maduro e plenamente capaz para ser bebido. Poderia degustar-se por várias horas. Um dos comparsas chamou-lhe um Rolls Royce.
Ao passar à segunda garrafa, percebeu-se como foi avisado decantar a primeira. Esta estava com os aromas muito mais fechados que a primeira, sem a mesma exuberância. À medida que se foi esvaziando e arejando foi-se aproximando da anterior, sem nunca atingir o mesmo esplendor. A conclusão é que para usufruir deste vinho em toda a sua plenitude convém dar-lhe tempo para se libertar.
Finalmente, abrimos um Herdade das Servas 2008 que o mais recente comparsa quis partilhar com os restantes comensais. Depois dum Rolls Royce era difícil brilhar, mas ainda deu para perceber uma boa estrutura e um vinho potente e poderoso, capaz de se bater com pratos fortes. Um vinho a rever a solo e uma aposta interessante por um preço aceitável.
Kroniketas, enófilo preguiçoso
Vinho: Quinta da Leda 2007 (T)
Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz
Preço: 24,90 €
Nota (0 a 10): 9,5
Vinho: Herdade das Servas 2008 (T)
Região: Alentejo (Borba - Estremoz)
Produtor: Herdade das Servas
Grau alcoólico: 15%
Castas: Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Aragonês, Syrah
Preço: cerca de 8 €
Nota (0 a 10): 8
quinta-feira, 10 de março de 2011
No meu copo 277 - Quinta da Leda 2007; Herdade das Servas 2008
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Krónikas Vinícolas
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sábado, 24 de novembro de 2007
No meu copo 148 - 3 Douros de 2001: Sogrape Reserva, Duas Quintas, Vinha Grande
A propósito do Portugal-Arménia, juntámos alguns Comensais Dionisíacos à mesa (faltaram à chamada o Caçador, que foi para a caça, e o Pirata, retido em casa por constipações familiares) para fazer uma prova de 3 vinhos do Douro de 2001: o Sogrape Reserva, o Duas Quintas e o Vinha Grande. São três dos vinhos da nossa preferência que já apreciámos aqui noutras ocasiões, mas desta vez a intenção era prová-los em simultâneo por terem alguns pontos em comum e serem produzidos no mesmo ano. Vinhos abertos com a antecedência necessária, serviço à temperatura ideal e copos adequados, e passámos à função à volta duns bifes à café antes de a Selecção Nacional entrar em campo.
Começámos com o Sogrape Reserva e o começo não podia ser melhor. Como habitualmente, esteve à altura das expectativas. Mostrou uma fantástica cor rubi, brilhante e transparente, no nariz um bouquet profundo e intenso, marcado por fruto maduro, e na boca um corpo cheio com estrutura complexa, grande persistência, taninos firmes mas bem domados e uma boa acidez a envolver um grau alcoólico correcto, num todo equilibrado e harmonioso. Apetece dizer que este vinho não tem nada fora do sítio, está tudo no ponto certo. Alcandorou-se com destaque a melhor vinho da noite.
Comparativamente às anteriores provas da colheita de 2000, este apareceu muito mais saudável e pujante. Como já dissemos anteriormente, nunca nos desiludiu e sendo esta colheita a que está à venda no mercado, já com 6 anos de idade, está em plena forma e no ponto ideal para ser bebido. Para nós, continua a ser um vinho incontornável e que merece amplamente o preço que custa. Enquanto estiver no mercado, não deixaremos que desapareça das nossas garrafeiras.
Seguiu-se o Duas Quintas, para entrecortar os vinhos da Sogrape com um Ramos Pinto, e acabou por ser o mais penalizado, talvez prejudicado por se ter seguido ao Sogrape Reserva. Este foi comprado já em 2003, e pareceu ter ultrapassado o ponto ideal (actualmente já está à venda a colheita de 2005). Esperávamos um vinho mais pujante e mais robusto, como aliás é seu timbre, sendo normalmente mais adequado para pratos fortes de carne, mas este apareceu um pouco mais delgado do que é habitual, perdendo um pouco de complexidade e de corpo, embora a cor mais fechada estivesse lá. Requer-se, portanto, um consumo mais precoce, embora haja ainda outra garrafa desta colheita que nos irá permitir tirar as dúvidas.
Finalmente seguimos para o Vinha Grande, que dos três foi o mais elegante. Menos exuberante e menos complexo que o Sogrape Reserva, mais frutado e macio, também com uma cor rubi muito atractiva e uma boa persistência. Esteve acima do Duas Quintas mas sem fazer concorrência ao Sogrape Reserva. Dos três é o mais adequado para pratos requintados e delicados.
Em suma, três apostas sempre seguras a preços não excessivos, que não desiludem ninguém e nunca nos deixam ficar mal.
Kroniketas, enófilo esclarecido
PS: Também houve uns Portos mas essa já é outra conversa.
Região: Douro
Vinho: Sogrape Reserva 2001 (T)
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 10,74 €
Nota (0 a 10): 8,5
Vinho: Duas Quintas 2001 (T)
Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 13%
Castas: Tinta Roriz, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 8,69 €
Nota (0 a 10): 7/7,5
Vinho: Vinha Grande 2001 (T)
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 8,98 €
Nota (0 a 10): 8
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Krónikas Vinícolas
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domingo, 1 de julho de 2007
No meu copo 125 - Casa Ferreirinha Reserva 96, Quinta da Leda 2001, Callabriga 2000

Estes estavam à espera duma oportunidade. Desde há cerca três anos, quando descobrimos o Callabriga e o Quinta da Leda, começámos a apostar na gama de vinhos da Casa Ferreirinha, mais propriamente naqueles que se situam nos patamares do meio para cima (acima do Esteva e do Vinha Grande e abaixo do Barca Velha).
Para estas provas reservámos duas garrafas de cada e fizemo-las separadamente ao longo dos últimos meses, reunindo os “Comensais Dionisíacos”, já com o Politikos, a aquisição mais recente, na equipa titular.
Comecemos por cima, pelo filho bastardo do Barca Velha, ou aquele que não chegou a sê-lo mas que poderia lá ter chegado: o Reserva 96, que já se chamou Reserva Especial, mais tarde só Reserva, e agora apenas Colheita. Tudo no ponto certo: os decanters limpos e arejados (um para cada garrafa), os copos de pé alto e boca larga, em forma de tulipa, a temperatura de serviço, os sedimentos deixados no fundo da garrafa. Para que nada falhasse. Afinal, o momento era solene e era a estreia absoluta nos nossos copos. À espera, um cabritinho do Alto Alentejo assado no forno com todos os requisitos e acompanhado com um belíssimo arroz de miúdos confeccionado especialmente pela senhora-mãe do Mancha Negra.
Começou por mostrar uma cor rubi ligeiramente atijolada e aromas discretos a fruta madura. Macio na boca, final de duração média, corpo na mesma. A primeira garrafa ainda teve alguma evolução no decanter, pelo que a segunda foi decantada com maior antecedência. Surpreendentemente, esta revelou-se menos exuberante e, longe de ganhar com o tempo de abertura, pareceu esvair-se. Dos três, este é o vinho mais suave (até pela idade), mas quando se esperava que desse o salto para cima… pareceu morrer nos copos. Declínio ou necessidade de esperar mais tempo? Também há mais duas garrafas, teremos que deixá-las esperar mais um ano, dois, cinco ou dez?
No final, o sentimento foi unânime: esperava-se mais deste vinho, que acabou por ficar aquém das expectativas. Sem dúvida que eram altas, mas não correspondeu de todo. Será que houve ali... preconceito?
Segue-se na escala o Quinta da Leda 2001. Foi a grande descoberta de há uns 3 anos no Encontro com o Vinho e logo ali o achámos excepcional. O preço também o é, mas é daqueles vinhos que nos enchem as medidas até mais não poder. Ou era...
O processo seguido foi o mesmo: decantado previamente, com antecedência suficiente para libertar os aromas mais profundos. Copos e temperatura adequados e a outra metade do cabrito assado no forno acompanhado com batatinhas e grelos, desta vez confeccionado pela senhora-mãe do tuguinho. A primeira garrafa foi decantada com duas horas de antecedência em relação à hora de consumo e foi uma completa decepção. Logo no aroma se verificou alguma falha, com o bouquet muito discreto e a prova a confirmá-lo, com um corpo surpreendentemente delgado e um final curto.
Não lhe tendo feito bem a decantação, optámos por não decantar a segunda garrafa, abrindo imediatamente antes de beber, para ver como se comportava. Igual. Ainda pareceu apresentar inicialmente algum vigor, mas rapidamente se esvaiu. A grande complexidade que lhe conhecíamos não estava lá de todo. Foi a grande decepção desta tripla prova. Perante isto, só nos resta esperar para provar a colheita seguinte de que dispomos, a de 2004. Pode ser que tenha sido apenas azar com o ano. Senão, os quase 20 € gastos em cada garrafa foram mal empregues.
Finalmente, o Callabriga 2000, que é o produto que está acima do Vinha Grande, sendo apontado como a aposta da casa para a exportação. Abrimos as duas garrafas com os já célebres (entre nós) bifes de novilho de raça Angus com ervas de Provence, que o mestre cozinheiro Kroniketas tem vindo a apurar. Mais uma vez, seguindo o conselho do contra-rótulo, foram previamente decantados para libertar os aromas e para nos livrarmos dos sedimentos da garrafa. Como já aconteceu algumas vezes, quando o líquido estava a acabar estava o vinho a atingir o seu máximo esplendor.
Revelou uma boa concentração de cor, com um aroma profundo algo frutado. Redondo na boca mas com boa estrutura, taninos discretos e acidez suave, madeira muito disfarçada, tudo muito equilibrado. Fim de boca suave mas prolongado. Com o passar da refeição foram-se libertando os aromas terciários, alguma especiaria a vir lá do fundo tornando o final mais persistente, mostrando que temos ali um vinho para altos voos e capaz de estar algumas horas a fazer-nos companhia. Foi pena ter acabado no melhor da festa, mas para a próxima decantamo-lo mais cedo (sim, porque ainda há umas garrafitas de reserva). Pena é que tenham mudado o formato da garrafa nas últimas colheitas (tal como ao Quinta da Leda, aliás), pois esta borgonhesa era a imagem de marca da casa e ficava-lhe muito bem.
Em suma, desta trilogia de Ferreirinhas, o balanço que se pode fazer é que as altas expectativas saíram globalmente defraudadas, sendo que foi o vinho no patamar mais baixo que melhor se comportou. Não encontramos explicação para o sucedido com o Reserva e o Quinta da Leda, pois ambos estavam em perfeitas condições de consumo, mas não apresentaram nem a estrutura, nem a persistência, nem a complexidade aromática que esperávamos de vinhos desta gama. Se as garrafas de que ainda dispomos confirmarem estas impressões, terão de ser apostas a esquecer... Infelizmente. Não estávamos habituados a estas decepções nos vinhos da Sogrape...
tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos
Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Vinho: Reserva Ferreirinha 96 (T)
Grau alcoólico: 12,5%
Preço em hipermercado: 39,99 €
Nota (0 a 10): 8
Vinho: Quinta da Leda 2001 (T)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 17,86 €
Nota (0 a 10): 7
Vinho: Callabriga 2000 (T)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 13,75 €
Nota (0 a 10): 9
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Krónikas Vinícolas
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
No meu copo 83 - Vinha Grande branco 2005
O Vinha Grande 2005 é o primeiro branco da Casa Ferreirinha, actualmente propriedade do grupo Sogrape. Segundo informações apresentadas no guia de João Paulo Martins para 2007 (que naturalmente carecem de confirmação prática), este branco vem substituir o Douro Reserva Sogrape, à semelhança do que vai acontecer com os outros vinhos de reserva da marca, que serão substituídos por outras marcas já existentes na empresa.
Pela parte que me toca, para já acho que não ficamos a ganhar. O Douro Sogrape Reserva branco era um dos nossos brancos preferidos (aliás faz parte das nossas sugestões) e este Vinha Grande não me convenceu. Enquanto aquele apresentava uma boa estrutura e robustez na boca mas era equilibrado no seu conjunto, este Vinha Grande pareceu-me ainda pouco moldado e algo rústico.
Tem uma cor citrina carregada e algum frutado, mas como às vezes acontece nos brancos com madeira, esta pareceu-me um pouco sobreposta aos sabores do vinho. Tem alguma complexidade e poderá bater-se com peixes gordos ou mesmo com algumas carnes brancas, mas achei-o algo áspero.
Definitivamente, não sou grande fã dos brancos com madeira, mas curiosamente, por contraste, depois deste provei um outro branco de que falarei no próximo post e, embora com mais álcool e também com madeira, me pareceu mais bem conseguido.
Quanto a esta substituição dos Reservas Sogrape por outras marcas, a confirmar-se, vamos ver se a maior empresa de vinhos do país conseguirá apostas tão certeiras como foram ao longo de mais de uma década os Reservas Douro, Dão, Bairrada e Alentejo. Vou sentir falta deles. Tenho de fazer um reforço do stock antes que desapareçam.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Vinha Grande 2005 (B)
Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Grau alcoólico: 13%
Castas: Malvasia Fina, Viosinho, Gouveio
Preço em feira de vinhos: 8,57 €
Nota (0 a 10): 6
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segunda-feira, 24 de julho de 2006
Na minha garrafeira 53 - Reserva Ferreirinha 1996
Um dia destes as Krónikas Vinícolas perderam o amor a uns cobres e abriram os cordões à bolsa. Já aqui falámos dos diversos vinhos da Casa Ferreirinha, dos melhores do país, e falta-nos um no currículo.
O Reserva Ferreirinha, anteriormente chamado Reserva Especial e que parece que vai passar a chamar-se apenas Colheita, é o filho mais pobre do Barca Velha, custando 4 vezes menos. É aquele que esteve guardado durante anos a evoluir e que, na prova final, não foi considerado merecedor do rótulo Barca Velha, pelo que leva o outro rótulo. Como também já referimos, parece que por vezes há enganos, pelo que se pode ter a sorte de apanhar um verdadeiro Barca Velha com outro rótulo e muito mais barato.
Passando pelo Jumbo, andámos durante umas semanas a mirar umas de 1996 que lá estavam a 39,99 €, depois desapareciam e depois voltava a haver. 10 anos para este vinho parece ser uma óptima idade para bebê-lo. Contactados os comparsas do costume, decidiu-se adquirir duas para degustar por quatro. Como havia mais duas, fiquei com elas para mim, para compor a garrafeira...
Agora ficam a repousar o resto do Verão nas melhores condições possíveis e lá mais para o Outono, quando já não está calor e não é necessário arrefecer o vinho, deverá ser a melhor altura para saboreá-las. Prometemos contar depois como foi.
Kroniketas, enófilo esclarecido
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Krónikas Vinícolas
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sexta-feira, 19 de maio de 2006
O feliz regresso do Barca Velha


Artigo publicado na “Revista de vinhos” nº 197 de Abril de 2006, assinado por João Afonso, que aqui reproduzimos com a devida vénia
«Depois de alguns anos de interregno, aí está mais um Barca Velha. Se é que se pode utilizar a expressão “mais um” a respeito desde tinto de 1999, um vinho portentoso que certamente ficará na história como um dos melhores Barca Velha de sempre.
Escrever sobre o Barca Velha, ou sobre qualquer outro ícone, tem sempre algo de redundante. Todos sabemos que é o vinho português mais conhecido, ou pelo menos aquele que é conhecido há mais anos como um dos exemplos da qualidade máxima portuguesa em vinhos. Mas neste caso a redundância é apenas uma questão de justiça...
VINHO DE PACIÊNCIA
“Eu levo tempo a ter certezas!” São palavras de José Maria Soares Franco, líder da equipa de enologia da Casa Ferreirinha que por vezes também usa a pergunta ao contrário, “ou será o próprio vinho que leva tempo a ter certezas?!”
Esperar e voltar a esperar. Procurar sentir se o vinho que está há anos dentro da garrafa merece ou não ser abençoado com a distinta graça de “Barca Velha”. Em média a espera ronda os 7 anos mas há casos em que leva mais tempo.
E esperar é coisa que já não se faz nesta sociedade. Simplesmente porque não há tempo para esperar. O tempo fugiu-nos, deixámos de o ter. A todos nós mas não ao Barca Velha. Este ainda tem todo o tempo de que precisa. De tal modo que o de 1999 foi aprovado e lançado mas há uma colheita anterior (1998) que, segundo a equipa de enologia, pode ainda “vir a palco”. É tudo uma questão de prova, de entendimento (vinho / enólogos)... e de tempo.
Por oposição a este conceito temos a grande maioria dos outros vinhos que parecem autênticos adolescentes - sempre com a perninha a tremer, desejosos de sair à rua e de se mostrar.
À pressa deste mundo moderno junta-se a banalização e estandardização de tudo. Chamam-lhe globalização. Todos diferentes e todos iguais lutando com as mesmas armas de capitalização de recursos sem termos tempo de olhar para trás ou para pensar se de facto é este o caminho que nos interessa. São as necessidades de um mercado voraz cada vez mais castrador de vontades e sonhos próprios. Produtos novos, de preferência todos os dias, se possível com a imagem melhorada e peço rebaixado e, claro está, sempre fáceis - porque andar ou mesmo pensar é coisa que se usa cada vez menos. Na questão da bebida, que é o nosso tema de sempre, prefere-se o doce, pouco ácido, nada rugoso e, de preferência, NOVO. É isto que se vende. Entre duas colheitas do mesmo vinho a maioria dos consumidores levará o mais jovem. Novidade é sempre a novidade.
Mas o Barca Velha mantém-se vivo e bem vivo apesar de alheio a este rodopio de conceitos e conteúdos mais ou menos vazios. A ele, conceito e conteúdo não lhe faltam.
VINHO DE CONCEITO
As melhores uvas das castas Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinto Cão vindas principalmente da Quinta da Leda foram totalmente desengaçadas, suavemente esmagadas e vinificadas em cubas de inox. Durante a fermentação fizeram-se remontagens intensas, e depois desta terminar, uma maceração a quente durante mais três semanas cuidou de que “tudo” o que de bom as uvas transportavam consigo fosse deixado no vinho. Depois de terminada a fase de “embrião” o vinho foi transportado para V.N. de Gaia e acondicionado em barricas de carvalho francês novo durante 12 a 18 meses. Durante este período foi acompanhado de muito perto e no final, depois de inúmeras provas e análises de lotes e das barricas existentes, decidiu-se engarrafar o potencial Barca Velha que assim entrou no período de "gestação". Mas foram os 5 anos seguintes que determinaram se o Barca Velha 1999 chegaria ou não a nascer.
É aqui que reside a nobreza deste vinho e deste conceito criado por Fernando Nicolau de Almeida e escrupulosamente honrado e seguido pelos enólogos da Casa Ferreirinha - esperar para ter certezas de que o consumidor é servido apenas com o melhor!
VINHO DE EXCELÊNCIA
Não é suficiente ter excelentes uvas e excelentes barricas, como normalmente acontece com a maioria dos vinhos Premium que hoje se comercializam, também é preciso que o tempo não arraste consigo o pequeno quinhão de eternidade que lhe é próprio. Durante as primeiras 4 décadas de história houve quatro Barca Velha nos anos 50s, três nos 60s, apenas um nos 70s, quatro nos 80s e três nos 90s. Em cerca de 50 oportunidades este vinho só viu a luz do dia em 15 colheitas.
Os vinhos das décadas de 80 e princípios de 90 foram muitas vezes desconsiderados injustamente. Saíam a mercado na fase em que os aromas primários tinham dado o lugar aos secundários e a concentração de prova tinha dado lugar à elegância. E o público irreverente e cada vez mais entusiasta dos vinhos novos, gordos e cheios de fruto argumentava – “o Barca Velha já não é o que era”.
Mas o enorme prestígio construído e cimentado neste conceito de exclusividade resistiu a modas menos favoráveis e o lançamento de cada novo Barca Velha nunca deixou de ser um acontecimento. Este último é-o duplamente.
O novo Barca Velha 1999 além de ser um grande vinho é uma “bofetada” de luva branca em todos aqueles que nos últimos anos se entretiveram a menosprezar este “velho senhor”. Com sete anos de idade tem tudo para se lhe chamar um vinho jovem. Exuberante no seu porte, atlético, requintado e clássico representa tudo o que a nobre tradição tem para oferecer a este Mundo desenfreado - uma lição de saber e de tempo.
Nota: Não se esqueça de colocar em pé a sua garrafa de Barca Velha (deste ou qualquer outro) no dia anterior ao seu consumo e de decantar cuidadosamente o vinho uns momentos antes de o servir. Seja exigente e rigoroso com a temperatura de serviço - nunca fora dos 17°-18°. Faça Verão ou Inverno.»
Kroniketas, enófilo esclarecido
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terça-feira, 28 de março de 2006
Sogrape anuncia Barca Velha de 1999
No site da Sogrape pode-se ler a notícia do lançamento da 15ª edição do famoso vinho. Desta vez esperaram menos de 10 anos.
Kroniketas, enófilo esclarecido
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sexta-feira, 24 de março de 2006
Na minha garrafeira 33 - Os vinhos da Casa Ferreirinha

A Casa Ferreirinha é habitualmente mais conhecida pela produção de vinhos do Porto, associados à marca Porto Ferreira. Recentemente o nome tornou-se mais familiar pela produção duma série televisiva acerca da vida de D. Antónia Ferreira, a Ferreirinha. No século XIX a Ferreirinha teve um papel importante na luta contra a filoxera, uma doença que dizimou as vinhas da Europa, ao enxertar cepas americanas, resistentes à doença, com as cepas portuguesas existentes.
Actualmente a Casa Ferreirinha, à semelhança de outras grandes casas do Douro, é propriedade da Sogrape mas continua a produzir os seus vinhos com a marca da casa. Na Casa Ferreirinha é produzido aquele que os críticos consideram habitualmente o rei dos vinhos portugueses, o mítico Barca Velha, criado por Fernando Nicolau de Almeida em 1952. Trata-se dum vinho que é raro encontrar à venda e, quando aparece, é sempre por preços exorbitantes (digamos, para cima dos 100 ou mesmo 200 euros), pelo que não está ao alcance do consumidor comum ter acesso a este vinho.
O Barca Velha estagia normalmente durante quase 10 anos em garrafa, e só ao fim desse tempo os enólogos da Casa Ferreirinha decidem se o vinho vai ser colocado à venda como Barca Velha. Quando não é considerado como de qualidade excepcional de modo a justificar esse rótulo, é-lhe colocado outro rótulo e vendido como Reserva Especial Ferreirinha, que recentemente passou a chamar-se Colheita em vez de Reserva. Daqui resulta que por vezes acontece que o vinho acaba por evoluir na garrafa de tal modo que justificava ser um Barca Velha e é vendido como Reserva/Colheita. Segundo João Paulo Martins, isso já aconteceu e os enólogos da casa equivocaram-se nalgumas avaliações, vendendo verdadeiros Barca Velha com outro rótulo. Pelo que quem puder ter acesso a um Reserva ou Colheita pode aproveitar para tentar comprar um Barca Velha em segunda versão. Curiosamente, foi há dias anunciado que vai sair o novo Barca Velha, acerca do qual se pode ler um artigo no Diário de Notícias.
Em termos de hierarquia, segue-se um vinho que as Krónikas Tugas descobriram há cerca de 2 anos no “Encontro com o vinho e sabores”, o Quinta da Leda, e outro que provámos quase por acaso numa feira de vinhos da Makro em 2004, o Callabriga. São dois vinhos excepcionais dos quais, a seu tempo, quando voltarmos a bebê-los (neste momento algumas garrafas repousam tranquilamente nas nossas garrafeiras), vos daremos conta.
Descendo mais um pouco na escala, encontramos dois vinhos mais populares, já na gama de preços mais acessíveis. O Vinha Grande, na gama média-alta, e o Esteva, na gama média-baixa, abaixo dos 5 euros.
Um destes dias as Krónikas Vinícolas reuniram e abriram uma garrafa de Vinha Grande de 2001, adquirido por 5,95 € numa promoção da Revista de Vinhos em Fevereiro de 2005. Prudentemente decantou-se o líquido para o arejar e evitar algum depósito que existisse no fundo da garrafa, e em boa hora o fizemos porque de facto havia depósito.
Este vinho é feito com aquilo que habitualmente se chamam as castas tradicionais do Douro, mas desta vez mencionadas no contra-rótulo: a omnipresente Touriga Nacional, a Touriga Franca, a Tinta Barroca e a Tinta Roriz (chamada Aragonês no Alentejo). As uvas são obtidas em várias quintas da empresa, situadas em diversos locais do Douro, na região do Cima-Corgo, perto do Pinhão, e mais acima, no Douro Superior, entre as quais a já famosa Quinta da Leda, junto a Barca d’Alva.
Depois de algumas decepções que de vez em quando vou tendo com vinhos do Douro, apeteceu-me dizer: “este sim”. Uma bela cor rubi brilhante, que encantou desde logo a vista dos provadores, um aroma intenso e frutado, na boca um corpo bem estruturado e equilibrado, sem se notar em demasia os 13,5% de álcool, formando um conjunto de grande elegância. Por isso aconselha-se para acompanhar pratos delicados de carne, não excessivamente pesados nem condimentados.
Não se tratando de um vinho excepcional, é uma marca a ter em conta, que seguramente não deixará ninguém ficar mal. Por esse motivo, a partir deste momento passa a fazer parte das nossas escolhas.
Kroniketas, enófilo esclarecido
Vinho: Vinha Grande 2001 (T)
Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 8,98 €
Nota (0 a 10): 8
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