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quinta-feira, 20 de maio de 2010

No meu copo 274 - Douro Sogrape Reserva 2002; Casa de Santar Reserva 2005

(continuação)

Já com o almoço, composto por uns bifinhos de carne Angus à moda do Kroniketas passada no ponto, acompanhados por batatas fritas, tomaram assento à mesa os tintos em prova paralela com os quais fomos acompanhando a carne. O Douro Sogrape Reserva 2002, velho conhecido das nossas lides, cumpriu com brilhantismo a função, como aliás se esperava. É um daqueles jogadores que não sabe jogar mal e uma aposta segura para qualquer treinador. No copo mostrou uma cor granada límpida e no palato apresentou-se encorpado, pujante para a idade que tem e persistente na boca. Simultaneamente, os seus taninos, arredondados pela idade, conferem-lhe elegância e distinção. Bebeu-se agora mas poderia seguramente ficar mais uns anos que iria adquirir charme sem decair. Aliás, vai ficar, porque a garrafeira do Kroniketas tem lá mais de uma dúzia... São os restos desta excelente colecção de Reservas que a Sogrape detinha até há pouco tempo, com produções no Douro, Dão, Bairrada e Alentejo, e que tantas belas provas nos proporcionaram durante muitos anos.
Deixámos para o fim o Casa de Santar Reserva 2005, também um velho conhecido das nossas garrafeiras, que claramente nos convenceu. Apesar de ser um vinho de 2005, apresentou-se no copo com uma cor algo acobreada. Inicialmente fechado no nariz e algo concentrado na boca, foi evoluindo ao longo da refeição. Fomos conversando entre nós mas também com ele, como um velho amigo que se reencontra e com o qual vamos engrenando a conversa. Foi-nos evocando no nariz adegas velhas e vinhos antigos e na boca apresentou-se estruturado e elegante, sem, contudo, perder a personalidade típica do Dão. Um Dão clássico que, pela maior elegância, agradou mais ao Politikos do que um Cabriz Reserva 2006 bebido recentemente. A recuperar e confirmar as impressões de ambos em prova comparada num destes dias, à semelhança de experiências anteriores.
Um gelado de natas coberto com chocolate quente fechou a contenda com chave de ouro.

Politikos e Kroniketas, enófilos em libações intercalares por via da visita papal

Vinho: Douro Sogrape Reserva 2002 (T)
Região: Douro
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço: 10,98 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Casa de Santar Reserva 2005 (T)
Região: Dão
Produtor: Sociedade Agrícola de Santar - Dão Sul
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 8,97 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

No meu copo 264 - Cabriz Reserva 2004

Já se tornou um clássico nas nossas escolhas, a par do Casa de Santar Reserva. Este Reserva da Dão Sul é um dos bons exemplos do que pode ser um vinho de qualidade acima da média por um preço que não escalda.

Esta colheita de 2004 foi degustada precisamente em pendant com o exemplar restante do Casa de Santar Reserva 2003, já aqui anteriormente apreciado. É uma prova que vale a pena fazer para comparar o perfil de dois vinhos com algumas semelhanças mas com diferenças evidentes.

Nesta prova comparada o Cabriz mostrou-se um pouco mais robusto, como seria de esperar, mas sem deixar de ser elegante. Muito frutado com predominância de frutos vermelhos e flores silvestres, com final persistente e um toque a especiarias. O Casa de Santar mostrou-se ainda em grande forma mas com mais elegância e um bouquet mais profundo. Foram servidos a acompanhar umas deliciosas costeletas de borrego grelhadas e quer um quer outro saíram-se muito bem da contenda. Vale a pena comprar e recomprar, porque são daqueles vinhos para os quais uso uma frase que gosto de repetir: nunca nos deixam ficar mal.

Kroniketas, fã do Dão e da Dão Sul

Vinho: Cabriz Reserva 2004 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 6,95 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Perdizes por um, perdizes por mil

No meu copo 238 - Hexagon 2000; Cartuxa 2006; Porto Taylor’s Vargellas Vintage 2005

Os Comensais Dionisíacos, braço político gastro-etilista que integra os escribas das KV, além dos repastos “oficiais” entre membros celebra também refeições não menos bem regadas, mas mais alargadas em termos de mastigantes, sendo estes supranumerários geralmente os familiares mais próximos.
Sendo caçador um dos associados, é normal que por vezes nestas refeições intervenham como mastigados espécimes das nobres raças abatidas pelo dito cujo ou pelo grupo de caçadores a que se junta na função, geralmente perdizes, lebres ou javalis. Fomos portanto reunidos em casa do Kroniketas (que não é o membro caçador – é mais deglutidor) para degustar um grupo de perdizes incautas, cozinhadas pela consorte do caçador de formas simples mas saborosas: umas com um molho à base de natas e whisky com cogumelos, outras envolvidas em couve lombarda acolitada por tirinhas de bacon.
Outro objectivo que se mantém nestes repastos alargados é acompanhá-los de bons néctares – também conhecido no meio como “desbaste da garrafeira”! Para este em particular escolheram-se, além de alguns brancos sortidos e fresquinhos – provenientes da sempre bem recheada garrafeira do anfitrião (Alvor 2007, Quinta de Camarate branco seco 2007, Murganheira 2007) – para acompanharem as entradas, um Esporão Reserva de 2006, um Hexagon de 2000 em formato magnum (o tal vinho das 6 castas e 6 gerações) e um Cartuxa de 2006 que apareceu à última hora pela mão de um dos convivas. Para as sobremesas abriu-se um Porto Taylor’s Vargellas Vintage de 2005.
Coleccionando as reacções dos presentes, poderá dizer-se que o Esporão Reserva, após a recente experiência, re-deslumbrou, depois de uma travessia do deserto em algumas colheitas anteriores, com o Alicante Bouschet a dar-lhe um toque muito especial. Definitivamente um regressado aos mais altos lugares da nossa consideração vínica. O Hexagon, completamente diferente do anterior, mostrou-se um vinho de alto gabarito, com um perfil austero, ainda mais depois da festa que o Esporão tinha provocado no nariz e na boca dos beberrões, mas com uma estrutura extraordinária e a deixar-nos desconfiados de que ainda havia por ali muita coisa escondida. Comprem e bebam, porque é assim que um vinho excelente deve ser (uma das maneiras de o ser, como é óbvio). (Mete aqui a colherada o Kroniketas para ser mais generoso mas sucinto nos encómios. Só uma palavra: extraordinário!).
Ficou o Cartuxa para o final – uma ou outra ordem teria sempre justificação ou recusa – e não se deixou diminuir perante os outros dois. Sendo mais novo que o Hexagon e da mesma colheita que o Esporão, justificou-se plenamente a vivacidade exuberante, mostrando-se mais corpulento, mais fechado e mais robusto que o seu compadre alentejano, disse bem alto que estava ali para lutar: um vinho excelente que seria o centro das atenções se estivesse só. Teve um pouco de azar com os competidores.
Enfim, para não vos causar mais inveja, direi que, embora pessoalmente prefira os Vintage com um perfil como o utilizado pela Ramos Pinto, o Porto Vintage Vargellas cumpriu em pleno. Um festival de aromas a frutos vermelhos, de grande exuberância na boca e no nariz, pleno de vigor e juventude, a mostrar que está ali pronto para altos voos e longa vida na garrafa. O nosso único problema é comprá-lo e esperar uns 10 ou 20 anos até voltar a prová-lo. A verdade é que nem os morangos, nem a mousse de chocolate ou o bolo rançoso se queixaram.
Em resumo, um repasto que se pautou pela delícia gastronómica e pela excelência vínica. Para recordar.

tuguinho, enófilo impenitente e bloguista intermitente

Vinho: Hexagon 2000 (T) (garrafa magnum)
Região: Terras do Sado
Produtor: José Maria da Fonseca
Grau alcoólico: 14%
Castas: Trincadeira, Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinto Cão, Syrah e Tannat
Preço em supermercado: 53,89 €
Nota (0 a 10): 9,5

Vinho: Cartuxa 2006 (T)
Região: Alentejo (Évora)
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida - Adega da Cartuxa
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alfrocheiro, Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 13,95 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Porto Taylor’s Vargellas Vintage 2005
Região: Douro/Porto
Produtor: Taylor’s
Grau alcoólico: 20%
Preço em hipermercado: 33,48 €
Nota (0 a 10): 9

domingo, 22 de fevereiro de 2009

No meu copo 235 - Três grandes vinhos, ou três vinhos caros?

Caladessa 2003; Herdade das Servas, Touriga Nacional 2003; Mouchão 2003



Falemos então um pouco dos vinhos que motivaram os dois posts anteriores. Estes três vinhos foram servidos com todos os cuidados, para que nada pudesse influenciar negativamente a prova. Tinham em comum vários factores: eram todos do Alentejo, todos de 2003, todos com 14,5% de álcool. Feito o balanço não se pode dizer, de forma alguma, que não são bons vinhos, mas voltamos ao mesmo: esperávamos efectivamente um pouco mais de cada um deles.
O primeiro a ser provado foi o Mouchão, o tal que o tuguinho achou que talvez não valesse a pena comprar pelo preço que custava. Apresentou-se de cor muito concentrada, encorpado e robusto mas ao mesmo tempo elegante. Inicialmente os aromas apresentaram-se fechados, evoluindo para algumas notas de compotas. Ficámos sem perceber se ainda evoluirá positivamente em garrafa ou se já chegou até onde é possível chegar. Pelo que custou, esperávamos algo mais, nomeadamente uma maior persistência na boca. Resumindo, caro para o que mostrou.
O Caladessa e o Herdade das Servas Touriga Nacional foram provados em conjunto. Arrefecidos até à temperatura adequada, abertos e vertidos para os copos com alguma antecipação, fomo-los deixando evoluir para ver como se comportavam.
O Herdade das Servas Touriga Nacional passou por várias fases ao longo da prova. Começou por apresentar um ligeiro gasoso e alguma aspereza. Só depois começou a libertar aromas e a amaciar, mas apresentou-se sempre algo linear. Ficámos com a impressão de faltar ali qualquer coisa adicional para lhe dar outro brilho. Até pode ter sido daquela garrafa específica, mas esteve longe de encantar.
O Caladessa mostrou uma estrutura mais firme (íamos chamar-lhe sólida, mas era capaz de soar mal chamar isso a um líquido...), boa persistência e uma complexidade que se foi desenvolvendo ao longo da refeição, depois duma primeira impressão discreta no nariz. Mostrou que estava ali para durar. Foi talvez o mais equilibrado dos três e aquele que melhor justificou o preço. Mas no conjunto, foi muito dinheiro para o prazer obtido.

tuguinho e Kroniketas, enófilos descapitalizados

Vinho: Caladessa 2003 (T)
Região: Alentejo (Évora)
Produtor: Herdade da Calada
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Trincadeira, Alfrocheiro, Touriga Nacional
Preço em garrafeira: 22,55 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Herdade das Servas, Touriga Nacional 2003 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Herdade das Servas
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 16,85 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Mouchão 2003 (T)
Região: Alentejo (Sousel)
Produtor: Vinhos da Cavaca Dourada - Herdade do Mouchão
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Alicante Bouschet, Trincadeira
Preço em hipermercado: 28,99 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Na minha mesa 226 - O Chico (São Manços)

Uma saída em família até ao interior alentejano levou-me a revisitar um restaurante que descobri há uns anos, quase por acaso, ao consultar o guia de restaurantes da Visão, que coleccionei há uns anos. Em trânsito pelas proximidades de Évora, olhando para os restaurantes da zona vimos um em São Manços, localidade situada junto ao IP2 em direcção ao sul. Lá fomos à procura do Chico.
Em São Manços quase que se entra por uma rua a sai-se por outra. E o Chico parece um simples café de aldeia sem nada de especial que nos faça pensar em ir lá procurar algo especial. A verdade é que, para além de um pequeno balcão à entrada e de uma pequena sala com capacidade para não mais de 30 lugares, não se descobre o que nos espera antes de nos sentarmos à mesa.
Primeiro deparamo-nos com várias prateleiras onde estão expostas dezenas de vinhos alentejanos de todos os tipos. Pode-se percorrer as garrafas à procura de qualquer marca e quase que é difícil lembrarmo-nos de uma que não esteja lá. Enquanto esperamos pela refeição podemo-nos ir entretendo com umas excelentes empadas de carne, ainda quentinhas, que saem a grande ritmo para as mesas de todos os clientes. Mas a melhor parte vem quando se pega na ementa para passar aos pratos de resistência. Os pratos típicos alentejanos dominam, com destaque para a caça na época apropriada. Nas vezes que lá fui tive a felicidade de ser essa época e desta vez assim voltou a acontecer. À minha espera estava um delicioso arroz de lebre malandrinho, servido com uma concha em terrina de sopa, muito bem temperado e com um toque de hortelã a completar o panorama. É de comer até à última peça e até ao último bago de arroz. Para os apreciadores de caça, um verdadeiro maná.
Depois de já termos o estômago e o palato regalados com uma tal refeição, ainda arranjamos um espaço para provar as deliciosas sobremesas. A escolha recaiu numa encharcada e numa sericaia com ameixa de Elvas. A encharcada estava esplêndida, com a consistência certa e com calda na quantidade adequada, enquanto a sericaia estava um pouco maçuda.
Como só eu é que ia beber álcool tive que me socorrer de meia garrafa. Escolhi um vinho da zona, o EA tinto, da Fundação Eugénio de Almeida, que já não provava há alguns anos. E francamente decepcionou-me. Achei-o desequilibrado, delgado e pouco aromático, demasiado ácido na boca, muito longe do padrão que esperava. Posso ter tido azar mas se é este o perfil actual deste vinho, mais vale esquecê-lo. De tal forma que achei que nem valia a pena mencioná-lo no título do post.
Em suma, este Chico é um local a revisitar sempre que a oportunidade se proporcione, principalmente em tempo de caça. Quem passar pelos lados de Évora ou pelo IP2, vale a pena marcar mesa e fazer um pequeno desvio por São Manços para se deliciar com uma bela refeição. O preço é moderado (pagámos 45 € por uma refeição para dois adultos, um adolescente e uma criança), o serviço simpático e acolhedor, quase familiar, num ambiente descontraído e informal à boa maneira alentejana, onde nos sentimos como em casa.

Kroniketas, gastrónomo viajante

Restaurante: O Chico
Rua do Sol, 44-C
7005-739 São Manços
Telef: 266.722.208
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4,5

Vinho: EA (T)
Região: Alentejo (Évora)
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida - Adega da Cartuxa
Grau alcoólico: 13%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Castelão, Alfrocheiro, Moreto
Preço em feira de vinhos: 4,87 €
Nota (0 a 10): 4

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

No meu copo 225 - Herdade do Meio 2004

Eis um vinho proveniente dum produtor que tem tido algum destaque recentemente. Na última feira de vinhos do Continente vários vinhos estavam em promoção, o que aliás mereceu um post no Saca-a-rolha.

Um dia resolvi comprar este para experimentar. Tendo em conta o preço pareceu-me que estaria num nível superior da gama da casa (ainda não conheço mais nenhum, portanto não posso fazer comparações). No entanto deparei-me, mais uma vez, com um vinho em que o excesso de álcool abafava tudo, tornando-o cansativo.
No último meio ano tenho tentado fugir dos vinhos alentejanos com 14 graus ou mais, porque tem sido um fartote que já não se aguenta. Neste caso arrisquei... e perdi. Perante este panorama praticamente tudo o resto perde interesse. Ao segundo copo já quase não se percebe mais nada. Pode ser que em futuras colheitas voltemos a encontrar vinhos com mais aromas e mais sabores, porque este, definitivamente, não me convenceu.

Apesar de tudo não se pode dizer que seja mau. Bebe-se com algum agrado, para aquilo que custa deveria deixar muito mais recordações.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Herdade do Meio 2004 (T)
Região: Alentejo (Portel)
Produtor: Casa Agricola João & António Pombo - Herdade do Meio
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alfrocheiro, Alicante Bouschet
Preço em hipermercado: 12,99 €
Nota (0 a 10): 6,5

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

No meu copo 223 - Quinta dos Carvalhais 2002

Devo estar com azar. Ainda não acertei com um destes novos vinhos da Quinta dos Carvalhais que me enchesse as medidas. Com esta colheita de 2002 voltou a acontecer. Achei alguma falta de intensidade aromática, de estrutura, de persistência, em suma desiludiu-me.
De um vinho da Sogrape espera-se sempre mais e melhor e tratando-se do Dão espera-se principalmente um aroma profundo e elegância. Mas aqui não encontrei nada de especial. Achei-o demasiado simples e linear. Vamos aguardar por outros produtos. Decididamente, este não faz esquecer o desaparecido Dão Sogrape Reserva.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta dos Carvalhais 2002 (T)
Região: Dão
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro
Preço com a Revista de Vinhos: 5,95 €
Nota (0 a 10): 7

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

No meu copo 220 - Reservas Sogrape: o adeus


Foram cerca de 15 anos e quase 30 colheitas diferentes provadas entre 4 regiões: Douro, Dão, Bairrada e Alentejo (talvez não por acaso, um dos vinhos da Sogrape que nos encantou e que referimos mais de uma vez chamava-se precisamente Quatro Regiões). Foi um caso de amor à primeira vista e de paixão duradoura e correspondida, daquelas “até que a morte nos separe”. Neste caso, a separação foi decidida pelo produtor ao decretar a morte destes vinhos.

Ao longo dos 3 anos que este blog hoje completa (e por isso agendámos a publicação deste post para esta data, por uma questão de simbolismo), os vinhos da Sogrape, e estes Reservas em particular, foram os que tiveram direito a mais posts publicados. A nossa paixão pelos vinhos da Sogrape começou precisamente pela descoberta destes Reservas, já referida nos posts 99 e 100.

Desde o Dão 85 e o Douro 87, procurámos sempre ir acompanhando com regularidade as colheitas lançadas, e daí partimos para o alargamento dos nossos conhecimentos dos vinhos da empresa. Quando comecei a constituir uma garrafeira em casa, o Douro Reserva e o Dão Reserva sempre estiveram presentes. Pelo meio foram aparecendo, de forma mais esparsa, alguns Reservas da Bairrada e já no dealbar do século XXI apareceram os Reservas do Alentejo, após o começo da produção de vinho na Herdade do Peso.

Com a diversificação da gama de vinhos nas várias regiões, a empresa decidiu acabar com estes Reservas, um fim que vi anunciado pela primeira vez num dos guias de João Paulo Martins. A princípio custou-me a acreditar mas depois confirmou-se numa das provas de vinhos Sogrape na Wine o’clock. Os Reservas do Douro vão ficar sob a alçada da Casa Ferreirinha, sendo o Vinha Grande o seu sucessor natural (embora, insisto, o ache inferior), os Reservas do Dão são substituídos pela gama da Quinta dos Carvalhais e os Reservas do Alentejo ficam naturalmente integrados na nova linha da Herdade do Peso. Os Reservas da Bairrada sempre foram mais escassos e actualmente a empresa apenas investe na marca Terra Franca e ainda há um garrafeira por aí.

É claro que esta nova gama, bastante alargada, teoricamente substitui com vantagem cada um dos vinhos referidos. No entanto, daqueles que já tive oportunidade de provar, nenhum tem o mesmo perfil dos Reservas. São novos e são mais, mas são diferentes, por isso vou sentir a falta daqueles.

Estando o nosso stock a chegar ao fim, os Comensais Dionisíacos reuniram-se à mesa a pretexto de um Benfica-Sporting para degustar os últimos exemplares do Douro 2001, Dão 2000 e Alentejo 2001.

Já aqui falámos do Douro 2001 e do Dão 2000 noutros posts. Mantiveram aquilo que se esperava e, na minha opinião (que não foi unânime), o Douro continuou a mostrar-se o melhor, com um bouquet profundo e exuberante a fruto maduro, grande elegância e boa estrutura na prova de boca.

O Dão continua com um perfil um pouco menos polido mas mesmo assim bastante redondo e adequado para pratos de carne requintados mas com alguma pujança.

Finalmente o Alentejo, com duas colheitas algo diferentes. O 2001 com bom corpo mas com o aroma algo discreto, talvez a colheita menos conseguida das que provámos. Esquecida estava a última garrafa de 2000, já consumida noutra ocasião, que confirmou a prova anterior: uma grande estrutura e aromas exuberantes, um vinho com tudo no sítio. A primeira vez que provei um destes Reservas, no fim-de-ano de 2003, foram duas garrafas de 1999 e a primeira sensação foi precisamente essa: um vinho com tudo no sítio certo. Pena que tenha tido uma vida tão curta.
Em comum entre estes vinhos está o facto de todos terem um estágio de um ano em madeira seguido de mais algum tempo em garrafa, no mínimo 6 meses. Daí resulta saírem para o mercado já com alguns anos de existência e com os aromas bem casados. Não nos vamos repetir nas apreciações feitas anteriormente, pelo que quem quiser ler mais considerandos pode encontrá-los nos posts indicados:

- Douro Sogrape Reserva 2001
- Douro Sogrape Reserva 2000
- Dão Sogrape Reserva 2000
- Dão Sogrape Reserva 99
- Bairrada Sogrape Garrafeira 99
- Alentejo Sogrape Reserva 2000
- Quatro Regiões 97 (1) e (2)

Para perpetuar a memória, guardei uma garrafa do último Dão e do último Alentejo como recordação do rótulo algo “sui generis”. E para contrariar o destino, ainda me deparei com umas garrafas do Douro Reserva 2002 no Jumbo e na Makro (deve ser mesmo a última colheita à venda), e tratei de abastecer a garrafeira antes que acabem. Assim ainda posso prolongar o prazer por mais algum tempo, bebendo-as com parcimónia e com a companhia adequada. E entretanto encontrei um restaurante com uns restos de colecção, mas não vou dizer qual é. Pode ser que ainda consiga ir lá gastá-las...

Kroniketas, enófilo saudoso

Produtor: Sogrape

Vinho: Douro Sogrape Reserva 2001 (T)
Região: Douro
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Último preço: 10,74 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Dão Sogrape Reserva 2000 (T)
Região: Dão
Grau alcoólico: 12,5%
Último preço: 9,89 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Alentejo Sogrape Reserva 2001 (T)
Região: Alentejo
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Alfrocheiro
Último preço: 11,16 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Alentejo Sogrape Reserva 2000 (T)
Região: Alentejo
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alfrocheiro
Último preço: 8,19 €
Nota (0 a 10): 8,5

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

No meu copo 206 - Cabriz rosé 2007; Periquita rosé 2007; Quinta da Alorna, Touriga Nacional rosé 2007

As férias de Verão também foram aproveitadas para provar alguns rosés dentre os muitos que têm aparecido. Neste caso foram duas repetições e uma estreia. Já temos falado do crescendo dos rosés entre nós e, tal como os brancos, a sua qualidade tem vindo a crescer o que tem ajudado (e de que maneira) ao aumento da procura por estes dois tipos de vinho ainda há poucos anos tão mal amados, principalmente este de que agora falamos, que alguns nem consideravam vinho. Aliás, parece que para alguns produtores isso ainda é verdade pois ainda fazem os seus rosés a partir de sangrias de cuba. Mas o panorama é, actualmente, francamente animador e dá aos enófilos um bom leque de escolhas variadas.
Começamos pelo Periquita rosé 2007, uma das recentes apostas da José Maria da Fonseca na renovação desta marca secular. É o típico vinho de Verão, de esplanada, com um toque adocicado, bom para entradas ou simplesmente para beber como aperitivo num dia quente.
O Cabriz rosé 2007, uma repetição depois de já ter provado o de 2006, mantém a mesma linha leve e suave, com aroma floral e de frutos vermelhos. Mais personalizado que o Periquita e também um pouco mais versátil porque é mais seco. Igualmente bom para entrada, aperitivo ou para beber a solo mas também com pendor gastronómico.
Finalmente, o Quinta da Alorna rosé, Touriga Nacional 2007, para mim um dos melhores rosés do momento. No Verão do ano passado já me tinha encantado com o de 2006, e agora tive oportunidade de provar o de 2007, que me pareceu ainda melhor. Muito aromático e elegante, com aroma pronunciado a morangos e framboesas, seco e elegante na boca mas bem estruturado, ou seja, tudo no sítio neste belo rosé ribatejano, onde se conjugam nas doses certas o fruto, o álcool, o corpo, a acidez e a frescura. Um rosé para ter sempre na garrafeira.

Kroniketas, enófilo rosado

Vinho: Cabriz 2007 (R)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivinícola - Quinta de Cabriz
Grau alcoólico: 12%
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 3,98 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Periquita 2007 (R)
Região: Terras do Sado
Produtor: José Maria da Fonseca
Grau alcoólico: 11,5%
Castas: Castelão, Trincadeira, Aragonês
Preço em feira de vinhos: 4,25 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Quinta da Alorna, Touriga Nacional 2007 (R)
Região: Ribatejo (Almeirim)
Produtor: Quinta da Alorna Vinhos
Grau alcoólico: 13%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 4,49 €
Nota (0 a 10): 8

domingo, 29 de junho de 2008

No meu copo, na minha mesa 186 - Tinto da Ânfora 2006; A Taverna (Lisboa)




Há alguns meses fui levado por um amigo a descobrir um restaurantezinho meio escondido na Rua das Amoreiras, em Lisboa. Chama-se A Taverna, restaurante típico e passa praticamente despercebido na sua porta negra de metal, ali mesmo em frente ao jardim das Amoreiras.
O ambiente é acolhedor e recatado, bom para refeições sossegadas. A ementa está escrita à mão numa espécie de lampião, a decoração é sóbria, com algumas referências à Lisboa antiga, a puxar para o rústico e, talvez, para o ambiente das casas de fado.
Começámos por ir debicando nas entradas um queijo fresco que estava demasiado salgado, pelo que não agradou muito. Para os pratos as escolhas recaíram em petinga frita com açorda e no meu caso em entrecosto no forno. Vinha bem apaladado e acompanhado com batatas assadas e castanhas com uma cebolada por cima.
Para sobremesa optámos pela sericá/sericaia, que merece honras de destaque na casa, pois até existe um folheto explicativo da sua origem. Há algum tempo tivemos aqui um bate-boca com o Copo de 3 por causa disto, e afinal agora surge um folheto que nos diz que a sericaia foi trazida de Malaca pelos nossos marinheiros em 1511... A verdade é que fez jus ao que se espera, e ficámos satisfeitos.
O serviço é simpático e atento, sem grandes salamaleques mas eficaz. Pelo preço e pela qualidade vale a pena lá voltar.
Para acompanhar a refeição a escolha recaiu num Tinto da Ânfora, vinho alentejano produzido pela Bacalhôa na Herdade das Ânforas, perto de Arraiolos. Mostrou-se bem encorpado e predominantemente frutado, com um final persistente mas pecando (mais uma vez) pelo excesso de álcool que o tornava um bocado cansativo. Bebe-se sem sacrifício mas corre o risco de fartar.

Restaurante: A Taverna
Rua das Amoreiras, 47
1250-022 Lisboa
Telef: 21.387.49.00
Preço por refeição: 24 €
Nota (0 a 5): 4

Vinho: Tinto da Ânfora 2006 (T)
Região: Alentejo (Arraiolos)
Produtor: Bacalhôa Vinhos
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alfrocheiro, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Trincadeira
Preço em hipermercado: cerca de 6 €
Nota (0 a 10): 6,5

sábado, 14 de junho de 2008

No meu copo 182 - Bairrada Sogrape Garrafeira 99



Este prometia ser outro clássico, mas acabou por decepcionar. No início revelou aquele aroma profundo tão típico da casta Baga, mas na prova mostrou-se delgado em demasia, sem a pujança e o corpo que normalmente os Bairrada clássicos apresentam. Talvez a mistura com as mais típicas do Dão, Alfrocheiro e Jaen, lhe tenha retirado alguma tipicidade e descaracterizado o vinho.

A evolução no copo foi favorável, mas não tanto como seria de esperar. O final foi curto e os aromas terciários que esperávamos dum Bairrada com esta idade... não estavam lá. Em tempos mais recuados este Bairrada da Sogrape fazia jus ao nome da empresa. Esperemos que esta tenha sido apenas uma colheita menos feliz. Ou então já passou o tempo de beber, mas tendo em conta as provas anteriores deveria ter outra duração.

Kroniketas, enófilo esclarecido



Vinho: Sogrape Garrafeira 99 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Baga, Alfrocheiro, Jaen

Preço em feira de vinhos: 5,19 €
Nota (0 a 10): 6,5

quinta-feira, 8 de maio de 2008

No meu copo 177 - Herdade do Peso Reserva 2002; Herdade do Peso Trincadeira 2000

Aproveitando uma folga de ambos, os bandalhos que fazem este blog resolveram fazer uns bifes a acompanhar umas garrafas. A escolha dos líquidos recaiu em dois vinhos da Herdade do Peso, a propriedade da Sogrape no Alentejo, na zona da Vidigueira, perto das Cortes de Cima e do novo projecto de Paulo Laureano.
Em provas anteriores já tínhamos apreciado o Alfrocheiro e o Aragonês e há algumas semanas estive numa prova de alguns destes vinhos na Wine O’Clock, na qual se destacou naturalmente o Reserva, que é feito precisamente com uma combinação daquelas duas castas e nesta prova mais demorada não nos decepcionou. Mostrou um aroma profundo com destaque a frutos vermelhos, alguma especiaria mas bastante discreta, bem estruturado na boca com a madeira muito bem casada e taninos muito firmes mas bem domados, terminando suave, longo e persistente.
De realçar que tratando-se dum vinho com 12 meses de estágio em madeira e 14% de grau alcoólico, nenhuma dessas características sobressaiu na prova, tendo-se apresentado muito equilibrado e prometendo alguma longevidade. No entanto, a pujança apresentada agora a par com o polimento de todas as arestas parece-nos indicar que está no ponto óptimo para ser bebido... e apreciado.
Passámos depois ao Trincadeira, já mais envelhecido e muito menos apelativo. Apresentou-se mais redondo mas também discreto, parecendo um pouco monocórdico quando comparado com o Reserva. Mostrou algum fundo vegetal típico da casta mas faltou-lhe algum corpo e aquela estrutura que muitas vezes suporta as outras castas mais exuberantes. Talvez demasiado linear e sem a complexidade que se esperava.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape

Vinho: Herdade do Peso Reserva 2002 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 19,49 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Herdade do Peso, Trincadeira 2000 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 16,78 €
Nota (0 a 10): 7

segunda-feira, 21 de abril de 2008

No meu copo, na minha mesa 174 - Ensaios Filipa Pato 2006; Soberana 2004; Casa da Dízima (Paço d'Arcos)




O centro histórico de Paço de Arcos organiza-se em torno de dois pólos: os antigos Fornos da Cal e a Rua Costa Pinto, que praticamente liga os citados fornos à zona do antigo porto fluvial, no término da qual também se encontra o Palácio dos Arcos e a antiga casa da alfândega que ao tempo cobrava impostos sobre as mercadorias que por ali passavam.
A Rua Costa Pinto actual, bem como a zona histórica envolvente, foi toda recuperada, ganhou novo empedrado e deixou de ter edifícios degradados. Mas já antes era conhecida por ter muitos restaurantes, tradição que mantém e que até foi reforçada com a abertura há alguns (poucos) anos da Casa da Dízima, restaurante que se acoita entre as paredes do antigo edifício da alfândega, e que manteve tudo o que podia da antiga edificação, o que concedeu um ambiente sui-generis à casa.
Foi nele que fomos cair num sábado à noite, as Krónikas Vinícolas completas e um compincha semi-ocasional. Dispensadas as entradas, porque dois terços dos amesendados vinham directos de uma prova de vinhos em Sintra, passou-se à escolha dos pratos principais e dos vinhos.
Eu, que não vinha de prova nenhuma e já conhecia o restaurante, tentei orientar um pouco os companheiros de mesa, mas nem precisava porque o serviço, além de eficiente, é conhecedor.
Os pratos vêm apresentados com esmero, mas não tão armados que nos impeçam de os comer, e tanto a carne de novilho de um, como a caça de outro e o bacalhau do terceiro se mostraram saborosos e bem confeccionados. O lombo de novilho foi servido acolitado por esparregado, legumes salteados e ligeiramente glaceados, queijo da serra derretido num chapeuzinho folhado e batata frita em palha (sempre incómoda de comer sem usar as mãozinhas…).
A codorniz recheada com alheira e acompanhada com um puré também com um ligeiro aroma a alheira e grelos atados num molho estava excelente, tenra e saborosa, ainda por cima já desossada. O bacalhau apresentou-se inserido num folhado, guarnecido com camarões e acompanhado por cenouras. Excelente aroma e uma combinação de sabores menos habitual tornam o prato invulgar e apetecível.
Para a sobremesa só as Krónikas se apresentaram à chamada, tendo deglutido em uníssono um “petit gâteau” de chocolate (sólido por fora, líquido por dentro) morninho, confrontado com uma bola de gelado de menta.
Passemos aos líquidos. Já se sabe que em antros de restauração a moderação tem de imperar, não tanto por motivos mais nobres, mas mais por motivos financeiros. Resolveu começar-se por um Bairrada dos modernos, para ver o que a filha de Luís Pato andaria a congeminar por aquelas bandas (sim, nós sabemos que o vinho é Regional Beiras; também os do pai o foram durante vários anos por causa das restrições da região, supomos que os da filha ainda o sejam por causa desse passado recente). O Ensaios Filipa Pato 2006 mostrou-se aberto, frutado, de taninos quase ausentes e cor violácea, corpo mediano para o delgado e gritava “bebei-me que fui feito para beber já e agradar a palatos cosmopolitas” – de Bairrada não vimos lá nada, de Baga quase também não porque além dessa casta o grosso do vinho era Touriga Nacional e Alfrocheiro. Não se pense que o vinho era mau! Até se mostrou bastante agradável e decididamente está bem feito mas pronto, nós esperávamos que fosse Bairrada…
Sinceramente, não sei se será por este caminho que os vinhos desta zona devem seguir, agora que se pode fazer quase tudo, desde que ainda seja vinho. Desde a ditadura da casta Baga até à quase total arbitrariedade na utilização de qualquer casta, passou-se do 8 para o 80 e hoje em dia ser um vinho da Bairrada pode não querer dizer absolutamente nada. Dizem por aí que os da casta Baga passaram a ter a denominação “Bairrada clássico”, mas a verdade é que até agora não os tenho visto. Quem gosta dos verdadeiros Bairradas não é com estes que se vai encantar, e quem não gostava dos outros também não vai ficar a saber o que é a Bairrada com os novos.
Para segundo vinho deslocámo-nos para sul, ainda nas Terras do Sado mas já a tresandar Alentejo por todo o lado. Estamos a falar do Torrão, ainda em pleno Alentejo e do Soberana 2004, marca intermédia do produtor, que já tínhamos tido a hipótese de provar há poucas semanas. Mais uma vez as questões burocráticas em que o nosso país é fértil obrigam-no a surgir com a denominação de Regional Terras do Sado, à semelhança do que já tinha acontecido com o Pinheiro da Cruz. Qualquer semelhança com os vinhos das Terras do Sado é mera coincidência.
Não há dúvida que é um grande vinho e merece bem os encómios que as revistas da especialidade lhe têm dedicado. Como referimos há algumas semanas, foi um dos destaques da Blue Wine no seu top 100 relativo a 2007. Confirmou o que já nos mostrara antes, um belo corpo e aromas complexos, um fundo leve de couro tanto no aroma como no sabor, cor profunda, final de boca longo e taninos ainda pungentes, apesar de dobrados. Um excelente trabalho de Paulo Laureano, num vinho que não será fácil para o iniciado mas que indicia uma provável boa evolução nos próximos tempos, apesar de já estar mais que bebível. É sempre a velha questão de qual será a melhor altura para os beber…
Também nesta área o serviço é atencioso, sem ser aborrecido, e sabedor do que sugerir e daquilo que tem na garrafeira. Tomáramos nós que fosse assim nos outros restaurantes!
Concluindo, boa comida, bons vinhos e bom serviço. Pois, não é barato mas também não é nenhum roubo, tendo em conta tudo o que mencionámos antes.

tuguinho, enófilo esforçado

Restaurante: Casa da Dízima
Rua Costa Pinto, 17
2770-046 Paço de Arcos
Telef: 21.446.29.65
Preço por refeição: 40 €
Nota (0 a 5): 4,5

Vinho: Ensaios Filipa Pato 2006 (T)
Região: Regional Beiras
Produtor: Filipa Pato
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Baga, Alfrocheiro, Touriga Nacional
Preço em hipermercado: 7,50 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Soberana 2004 (T)
Região: Terras do Sado (Torrão)
Produtor: Soc. Agro-Pecuária das Soberanas
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet, Alfrocheiro
Preço em hipermercado: 15 €
Nota (0 a 10): 8,5

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Os vinhos da festa 2007-2008 (4)

No meu copo 166 - Tintos do Alentejo



Ainda continuamos com os vinhos provados durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo. Tintos foram vários. Começamos pelos do Alentejo.

Dona Maria 2004 - Outro vinho que é “mais do mesmo”: muita concentração, muita fruta e álcool a mais. Começam a faltar-me palavras para caracterizar este tipo de vinhos, sobre os quais também já me falta paciência para escrever. Depois da saída dos vinhos da Quinta do Carmo das mãos de Júlio Bastos e do lançamento destes vinhos Dona Maria, não sei se com este perfil os novos vinhos irão fazer concorrência aos antigos... Nota: 6

Granja-Amareleja 2004 - Aconselhado no contra-rótulo a beber acompanhando pratos de caça. No entanto revelou um perfil pouco pujante para se bater de igual para igual com este tipo de comida. Talvez precise de uma segunda apreciação, mas apresentou-se com um corpo algo delgado para as pretensões anunciadas. Não deixando de se beber com agrado, ficou um pouco aquém das expectativas, com aroma algo discreto e sem grande persistência. Nota: 7

Herdade do Peso, Alfrocheiro 2000 - Já apreciado aqui, há algum tempo. Perdeu em exuberância aromática o que ganhou em elegância, mas continua a ser um belíssimo vinho. Alguém à mesa disse que seria um bom vinho para alguém que não aprecia vinho começar a provar. Juntamente com o Garrafeira dos Sócios e o Quatro Castas faz o triângulo dos vinhos de que ninguém fala e que fazem as nossas delícias sem custarem uma fortuna. E alguém disse que tem 14 graus? Nota: 9

José de Sousa 2003 - Um clássico do Alentejo, que há muitos anos se chamava “Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes - Tinto Velho”. Modernizou-se, perdeu algum excesso de madeira que por vezes se notava, está mais elegante e frutado. Mas talvez precisasse de um pouco mais de estrutura para se guindar de novo a outro patamar. Nota: 7,5

Singularis 2004 - Uma estreia deste vinho personalizado de Paulo Laureano, numa nova linha de produtos só com castas portuguesas, neste caso Aragonês e Trincadeira. Bom corpo e bastante fruto, alguma especiaria e boa persistência, com um toque de madeira a marcar o fim de boca. Um vinho equilibrado com potencial para acompanhar pratos condimentados. Nota: 7,5

Kroniketas, enófilo retinto

Vinho: Dona Maria 2004 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Júlio Tassara Bastos
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Syrah, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 6,75 €
Nota (0 a 10): 6

Vinho: Granja-Amareleja 2004 (T)
Região: Alentejo (Granja-Amareleja)
Produtor: Coop. Agrícola da Granja
Grau alcoólico: 14%
Castas: Moreto, Alfrocheiro, Aragonês
Preço em hipermercado: 9,98 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Herdade do Peso, Alfrocheiro 2000 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape
Grau alcoólico: 14%
Casta: Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 13,50 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: José de Sousa 2003 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: José Maria da Fonseca
Grau alcoólico: 13%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Grand Noir
Preço em feira de vinhos: 6,09 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Singularis, Aragonês e Trincadeira 2004 (T)
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Paulo Laureano
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira
Preço em hipermercado: 5,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XI)

No meu copo, na minha mesa 163 - Muachos Reserva 2003; Casa de Alegrete 2005; O Escondidinho (Portalegre)

Este foi um dos restaurantes a merecer repetição. Fica perto duma das praças principais da cidade, o Rossio, mas à entrada duma rua estreitinha onde quase passa despercebido ao olhar dos transeuntes. Ao entrar deparamos com uma pequena sala com 4 mesas, prolongando-se o espaço para a direita, onde se encontra um bar, a cozinha e as casas de banho e uma sala mais espaçosa, e para a esquerda onde fica a sala mais recatada e acolhedora.
A primeira visita foi antes do Natal e fi-la sozinho. Seguindo a sugestão da casa, escolhi uma das especialidades da casa, um bife vira-vira de coentrada, frito em azeite e temperado com coentros. Extremamente tenro e saboroso. Para sobremesa escolhi um doce tradicional, o fidalgo, uma fatia de doce de ovos, verdadeiramente irresistível. Estando sozinho, não houve grande originalidade na escolha do vinho, tendo optado por um jarro de meio-litro de vinho da casa, da Fundação Abreu Callado. Nada de extraordinário mas perfeitamente aceitável por apenas 2,50 €.
Enquanto jantava na sala mais recatada, fui reparando num armário perto da minha mesa onde algumas garrafas se encontravam em exposição. Foi ali que vi pela primeira vez o Casa de Alegrete, já referido mais atrás, e que mais tarde se tornaria escolha recorrente.
A segunda visita já foi mais preparada, merecendo reserva e encomenda antecipada. Lebre com feijão foi o prato de resistência, não sem que antes aparecessem na mesa alguns acepipes para entrada, entre os quais pernas de rã (sinceramente, não fiquei fã). Como mandam os cânones, a lebre vinha em tacho de barro e deu para ir comendo, comendo, comendo... até fartar. Para sobremesa repetiu-se o inevitável fidalgo, certamente um dos melhores doces à base de ovo que existem, complementado por um bolo de chocolate regado com creme de chocolate que mais parecia mousse... É de lamber os beiços!
O serviço é esmerado e cuidado, sem nada a apontar. Escolhidos os petiscos certos, pode-se ter ali uma excelente refeição com um óptimo atendimento.
Para o vinho, não resisti a repetir o Casa de Alegrete 2005. Confirmou a excelente impressão da primeira prova, e voltou-se a beber quase com sofreguidão. Para complementar com algo diferente escolheu-se um Herdade dos Muachos Reserva 2003. De cor rubi bastante intensa, mostrou bom corpo e estrutura, suave e aromático, com taninos bem domados mas a suportarem um todo persistente sem deixar de ter alguma elegância. Um vinho equilibrado que se bateu bem com o prato de lebre mas que também pode mostrar-se com outros pratos um pouco mais delicados. A rever noutra ocasião.
Em resumo, duas boas refeições, bem acompanhadas por dois bons representantes dos vinhos de Portalegre. Um local que vale a pena (re)visitar.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: O Escondidinho
Travessa das Cruzes, 1 e 3
7300 Portalegre
Preço por refeição: 20-25 €
Nota (0 a 5): 4

Vinho: Casa de Alegrete 2005 (T)
Preço no restaurante: 15 €

Vinho: Muachos Reserva 2003 (T)
Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: José Carvalho - Sociedade Agrícola (Herdade dos Muachos)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Trincadeira, Alfrocheiro, Cabernet Sauvignon (15%)
Preço em hipermercado: cerca de 9 €
Nota (0 a 10): 7,5

sábado, 10 de novembro de 2007

No meu copo 144 - Casa de Santar Reserva 2003; Quinta de Cabriz Reserva 2003


Já este ano tínhamos provado estes dois vinhos do Dão, referenciados entre os melhores no painel de tintos até 10 € da Revista de Vinhos. Mas um jantar entre amigos proporcionou a oportunidade de prová-los em conjunto, com a curiosidade acrescida de agora serem ambos propriedade da Dão Sul e poder compará-los.
O vinho é um mundo de surpresas, já todos o sabemos, e muitas vezes o que damos por adquirido transforma-se completamente perante uma prova surpreendente que vem abalar de alto a baixo as nossas convicções. Não foi bem o caso, mas foi quase.
De facto, as provas anteriores mostravam-nos claramente um Casa de Santar Reserva uns furos acima do Quinta de Cabriz Reserva. Enquanto aquele tinha mais estrutura, mais corpo, aromas mais complexos e maior persistência, este apresentava-se mais frutado, mais aberto, em suma um vinho um pouco mais fácil. Mas eis senão quando... nesta prova os papéis inverteram-se, para grande surpresa minha. Dentro da garrafa há sempre alterações inesperadas, e desta vez o Cabriz levou a melhor sobre o Santar. Convém referir que as colheitas provadas foram as mesmas da prova anterior, daí a surpresa ser maior. Não sei se foi aquele que melhorou em relação à garrafa provada anteriormente ou se foi este que decresceu, mas a verdade é que o Cabriz mostrou, desta vez, maior complexidade na prova gustativa, um toque levemente especiado e foi desenvolvendo aromas terciários ao longo da refeição. Por sua vez o Santar apareceu mais linear, mais “liso”, digamos assim, sem perder a macieza que o caracteriza mas parecendo que alguma acidez se tinha ido embora.
Nas provas anteriores tinha classificado o Santar com 8 pontos e o Cabriz com 7,5. Se tivesse que fazê-lo de novo, por esta prova, talvez os classificasse ao contrário. Mas vou acreditar que o Santar não perdeu qualidades (até porque ainda há uma garrafa da mesma colheita cá em casa) e, a fazer fé no painel de prova da Revista de Vinhos, é um dos melhores tintos até 10 €. Eu também acho, pelo que espero que as próximas provas e as próximas colheitas confirmem as expectativas que este vinho sempre levanta. E já agora, que confirmem também a melhoria do Cabriz.

Notas de prova da Revista de Vinhos:

Casa de Santar Reserva 2004: Muito bem de aromas, fruta concentrada e densa, com notas anisadas. A boca mostra-se com muito boa estrutura e classe, taninos afinados, fruta final a marcar presença. Nota: 17

Cabriz Reserva 2004: Denso na cor, fruto preto, tudo algo fechado e sem se mostrar muito, ligeiro rebuçado e licorados; muito bem na boca, cheio e com estrutura, ligeiramente doce mas bem proporcionado, é um belo tinto de final prolongado. Nota: 16

Comentário: uma descrição que confirma exactamente o que se espera destes dois vinhos, e que no caso do Cabriz se aproxima da sensação colhida nesta segunda prova. Definitivamente, dois vinhos para nunca faltarem na garrafeira.


Kroniketas, enófilo esclarecido

segunda-feira, 30 de julho de 2007

No meu copo 132 - Cabriz Rosé 2006

Neste tempo de calor calha sempre bem aproveitar a versatilidade de um vinho rosé para refrescar o corpo e a alma. Os rosés estão na moda e cada vez há mais marcas no mercado e mais empresas de norte a sul do país a produzir vinho rosé, mesmo aquelas com décadas de história e que até há 2 ou 3 anos só faziam brancos e tintos.
Um dia destes fui à procura de um rosé para acompanhar um lanche ajantarado na casa de um amigo. Actualmente já começa a haver a dificuldade da escolha, dada a proliferação de vinhos rosé nas prateleiras, pelo que resolvi apostar num daqueles produtores que são sempre apostas seguras, e fui para a Quinta de Cabriz.
Agora com o nome vinhos reduzido apenas para Cabriz por questões de marketing (desde que a Dão Sul ficou com a gestão da Casa de Santar, esta passou a ser a grande aposta da empresa em termos de vinhos de quinta), os vinhos da Quinta de Cabriz têm-se tornado uma referência importante na região do Dão, com uma qualidade média bastante aceitável e sem grandes oscilações, pelo que dão sempre alguma garantia de não defraudar o consumidor. E foi o que aconteceu com este rosé, uma aposta recente da casa. É um daqueles rosés como eu gosto, com um perfil leve e suave, sem o excesso de álcool que também já começava a ameaçar estes vinhos, com aroma predominante a frutos vermelhos e algum floral, ligeiramente seco e com um final de grande frescura na boca e com alguma persistência.
Sem dúvida que vou voltar a apostar nele. É uma bela companhia para estes dias quentes, quer à refeição quer como aperitivo ou apenas para entreter na esplanada.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Cabriz 2006 (R)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul, Sociedade Vitivnícola - Quinta de Cabriz
Grau alcoólico: 12%
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro
Preço em hipermercado: 3,90 €
Nota (0 a 10): 7,5